scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros

Souza-Neto, Valério Rodrigues de,Lacerda, Paulo Henrique Ferreira,Oliveira, Josefa Laize Soares,Santos, Flavio Andrew do Nascimento

Abstract

Este estudo teve como objetivo explorar a percepção e utilidade da teoria do turismo no Brasil. Adotando uma abordagem quantitativa baseada no modelo de Stergiou e Airey (2018), uma pesquisa anteriormente conduzida no Reino Unido foi adaptada. Para tanto, questionários foram distribuídos entre membros de associações da área, obtendo 135 respostas. Os resultados destacam a relevância da teoria do turismo, na prática, ressaltando a necessidade de integração entre as duas facetas para lidar com desafios na gestão dos destinos. No cenário brasileiro, a importância dessa relação mostrou-se mais sólida em comparação com o contexto do Reino Unido. Esse achado enfatiza que os cursos da área devem considerar a práxis sobre os direcionamentos sociais das pesquisas. Além disso, destaca-se a importância de abordar questões práticas para fortalecer a autoridade epistêmica dos pesquisadores, sublinhando que a teoria deve se adaptar a prática e não a prática a teoria.

Full text

www.pasosonline.org Vol. 23 N. o 1. Págs. 149‑166. enero‑marzo 2025 https://doi.org/10.25145/j.pasos.2025.23.010 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros Valério Rodrigues de Souza-Neto* Griffith University (Australia) Paulo Henrique Ferreira Lacerda** Josefa Laize Soares Oliveira*** Universidade de São Paulo (Brasil) Flavio Andrew do Nascimento Santos**** Berlin School of Business and Innovation (Alemania) Resumo: Este estudo teve como objetivo explorar a percepção e utilidade da teoria do turismo no Brasil. Adotando uma abordagem quantitativa baseada no modelo de Stergiou e Airey (2018), uma pesquisa anteriormente conduzida no Reino Unido foi adaptada. Para tanto, questionários foram distribuídos entre membros de associações da área, obtendo 135 respostas. Os resultados destacam a relevância da teoria do turismo, na prática, ressaltando a necessidade de integração entre as duas facetas para lidar com desafios na gestão dos destinos. No cenário brasileiro, a importância dessa relação mostrou-se mais sólida em comparação com o contexto do Reino Unido. Esse achado enfatiza que os cursos da área devem considerar a práxis sobre os direcionamentos sociais das pesquisas. Além disso, destaca-se a importância de abordar questões práticas para fortalecer a autoridade epistêmica dos pesquisadores, sublinhando que a teoria deve se adaptar a prática e não a prática a teoria. Palavras-chave: Gestão do turismo; Perspectivas epistemológicas; Relação entre teoria e prática; Teoria do Turismo; Turismo aplicado. Tourism theory: perceptions and usefulness for Brazilian academics and professionals Abstract: This study aimed to explore the perception and usefulness of tourism theory in Brazil. Adopting a quantitative approach based on Stergiou and Airey's model (2018), a survey previously conducted in the UK was adapted. To this end, questionnaires were distributed among members of associations in the field, obtaining 135 responses. The results highlight the relevance of tourism theory in practice, emphasising the need for integration between the two facets to deal with challenges in destination management. In the Brazilian scenario, the importance of this relationship was more solid as compared to the UK context. This finding emphasises that courses in the area should consider the praxis of the social direction of research. Furthermore, it highlights the importance of addressing practical issues to strengthen the epistemic authority of researchers, emphasising that theory should adapt to practice and not practice to theory. Keywords: Tourism management; Epistemological perspectives; Relationship between theory and practice; Tourism theory; Applied tourism. * E-mail: [email protected]; https://orcid.org/0000-0003-4680-7697 ** E-mail: [email protected]; https://orcid.org/0000-0002-2918-0514 *** E-mail: laizeoliveir[email protected]; https://orcid.org/0000-0003-4186-9389 **** E-mail: [email protected]; https://orcid.org/0000-0003-3771-4579 Cite: Souza-Neto, V. R.; Lacerda, P.H.F.; Oliveira, J.L.S. & Santos, F. A. N. (2025). Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros. PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural , 23(1), 149-166. https://doi.org/10.25145/j.pasos.2025.23.010 © PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 150 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros 1. Introdução O campo de pesquisa do turismo é caracterizado por uma série de questões epistemológicas que têm sido exploradas por estudiosos como Echtner e Jamal (1997), Panosso Netto e Nechar (2014), Tribe (1997) e Sampaio (2022). Como objeto de estudos e de pesquisa em diversas áreas do conhecimento e em estágio inicial de desenvolvimento científico (Velasco González, 2014; Benckendorff & Zehrer, 2013), a incorporação de paradigmas e objetivos conflitantes sobre “o que é turismo” tem gerado divergências sobre sua compreensão como um fenômeno (Ren, Pritchard, & Morgan, 2009). Assim, investigações que se centram em tais perspectivas tornam-se fundamentais para o avanço do conhecimento neste campo em seus estágios elementares, tal como sugere Bacherlad (1947). Nesta linha investigativa, diversos temas têm despertado o interesse de pesquisadores brasileiros e internacionais, tais como: caráter disciplinar e científico (Tribe, 2004; Beni & Moesch, 2016; Jafari, 1994; Jovicic, 1998) e teorias correlatas (Aramberri, 2001; Fuentes Moreno, 2016). As respostas a esses temas são influenciadas pelo framework teórico utilizado por esses pesquisadores (Sampaio, 2022; Oliveira, Santos & Panosso Netto, 2022; Oliveira & Panosso Netto, 2023), considerando o turismo não apenas como um conceito teórico, mas como um fenômeno material que impacta na mobilidade (Coelho & Mayer, 2020; Sheller, 2021), no meio ambiente (Lenzen, Faturay, Ting, Geschke & Malik, 2018; SouzaNeto, Marques, Mayer & Lohmann, 2022), nas sociedades receptoras e na qualidade de vida dos trabalhadores do setor (Mihalic, 2020), entre diversos outros aspectos. Com isso, é importante compreender o significado e a utilidade da teoria do turismo e sua aplicabilidade prática (Scott & Campos, 2022; Oliveira, Santos & Panosso Netto, 2022; Oliveira & Panosso Netto, 2023). Refletimos que o turismo é abrangente, englobando 18 áreas do conhecimento (Jafari, 2005), e sua abordagem teórica estabelece uma linguagem comum que facilita a comunicação entre pesquisadores e profissionais. Isso, por sua vez, tem um impacto direto em diversas esferas, incluindo políticas públicas, estratégias de negócios e desenvolvimento tecnológico, apenas para mencionar como exemplo, oferecendo explicações e previsões para os fenômenos que permeiam a área. Apesar de sua complexidade, o turismo ainda não é amplamente reconhecido como um campo teórico (Fuster, 1971; Arrillaga, 1976; Noguero, 2010). No Reino Unido, Stergiou e Airey (2018) abordaram essa problemática com base na perspectiva de pesquisadores e profissionais da área, mas indicaram a preocupação em relação à generalização para outras culturas. O Brasil, sendo um país em desenvolvimento com particularidades sócio-históricas e problemáticas relacionadas ao turismo (Lohmann et al., 2021, 2022), oferece um campo instigante para análises comparativas. Nesse sentido, este estudo tem o objetivo de explorar a percepção e a utilidade da teoria do turismo por meio de uma pesquisa survey adaptada de Stergiou e Airey (2018), aplicada a turismólogos e acadêmicos. 2. Seção teórica 2.1 Teoria e prática: a importância da inter-relação no campo do turismo A teoria, entendida como um conjunto inter-relacionado de conceitos, definições e proposições, que permeiam diversas áreas do conhecimento, incluindo o turismo, visa elucidar fenômenos (Ary, Jacobs, Sorensen & Razavieh, 2010; Smith & Lee, 2010; Stergiou & Airey, 2018). As discussões e perspectivas reflexivas que emergem desse contexto moldam a relevância dos fundamentos teóricos na prática, destacando tal importância no léxico contemporâneo (Abend, 2008). Nesta linha, Pearce (2012) alerta para as polissemias e diferenças epistemológicas e ontológicas geradas por uma variedade de temas e discussões no campo do turismo. Por sua vez, Chinn e Jacobs (1978) salientam que algumas teorias possuem uma função descritiva, enquanto outras buscam objetivos explicativos, preditivos e/ou controladores mais amplos. A construção de uma teoria bem definida envolve a compreensão de seus fundamentos, como também a aplicação de métodos variados, como modelos estatísticos, teste empírico de hipóteses e a identificação de relações causais, como observado por Smith e Lee (2010). Analogias entre teorias de diferentes campos, podem contribuir para uma definição mais abrangente e coerente desta visão (Smith, Xiao, Nunkoo & Tukamushaba, 2013). Ao considerar as teorias como princípios gerais, conforme argumentado por Kant (1793 apud Abbagnano, 2007), se percebe que elas oferecem uma compreensão abstrata de determinados contextos, abrigando regras práticas que orientam a experimentação, uma categoria essencial para o desenvolvimento teórico na Ciência Moderna (Pereira, 1990). Essas ações teóricas de pensar, contemplar e inferir fundamentam, orientam e explicam realidades empíricas, Valério Rodrigues de Souza-Neto, Paulo Henrique Ferreira Lacerda, Josefa Laize Soares Oliveira, Flavio Andrew do Nascimento Santos 151 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 gerando práxis e evidenciando que a construção do conhecimento científico está alinhada à realidade empírica (Schweinsberg, 2022). A interconexão entre teoria e prática se torna ainda mais evidente quando consideramos a perspectiva de Panosso Netto (2011) e Oliveira e Panosso Netto (2023), que destacam a teoria como um conjunto de conhecimentos, doutrinas e sistemas de ideias inseparáveis da prática em um determinado campo do conhecimento. Essa visão ressalta que é na fenomenologia, a partir da interação com a realidade empírica, que a teoria emerge e se consolida. Além disso, Abbagnano (2007) enfatiza que as teorias contêm uma ou mais hipóteses, condicionando a observação dos fenômenos empíricos e fornecendo instrumentos para a representação simbólica ou conceitual. Essa interdependência sublinha a natureza dinâmica e evolutiva do conhecimento científico. 2.2 Perspectivas epistemológicas entre a prática e a teoria no turismo Fuster (1971) reflete que, a relação entre teoria e prática é a base para a construção de um conhecimento científico alinhado à realidade empírica do turismo. Entretanto, parte dos pesquisadores da área tendem a dissociar essas duas perspectivas, enfraquecendo a autoridade epistêmica das pesquisas (Fuster, 1971; Schweinsberg, 2022). Para enfrentar esse desafio, é crucial estabelecer uma inter-relação profunda entre teoria e prática, uma vez que essas duas categorias atuam de forma complementar na formulação e orientação de resultados aplicáveis às diversas realidades que permeiam o turismo. A literatura nacional e internacional sobre turismo é composta por perspectivas epistemológicas guiadas por diferentes abordagens teóricas, resultando em posições variadas (Fuster, 1971; Sessa, 1988; Yázigi, 2012; Moesch; Beni, 2015; Sampaio, 2022). Apesar disso, existem pontos em comum compartilhados por parte dos pesquisadores. Reconhece-se, por exemplo, a complexidade do fenômeno turístico (Beni & Moesch, 2016) e a necessidade de considerar diversas abordagens teóricas (Panosso Netto & Nechar, 2014). Contudo, críticas são frequentemente direcionadas à falta de historicidade teórica na produção acadêmica da área (Panosso Netto, Noguero & Jager, 2011), bem como à fragmentação do conhecimento produzido em relação às ciências consolidadas (Jafari, 2005; Benckendorff & Zehrer, 2013). Analisando as reflexões de Panosso Netto (2011), podemos identificar três posições predominantes entre os pesquisadores no campo do turismo: I) Alguns reconhecem o turismo como uma ciência, embasados na vasta produção acumulada ao longo dos anos; II) Outros compreendem essa produção sobre turismo, mas salientam que o campo continua em evolução para se tornar uma ciência, necessitando de um objeto bem delimitado e um método próprio; III) Por fim, há um terceiro grupo que nega a possibilidade de o turismo se tornar uma ciência, afirmando ser apenas um campo de estudo pertencente a verdadeiras ciências. Essas perspectivas refletem as diferentes visões e abordagens dos pesquisadores em relação ao status do turismo como uma disciplina científica. Adicionalmente, a produção científica no turismo é orientada por cinco escolas epistemológicas: sistêmica, positivista, marxista, fenomenológica e crítica (Panosso Netto & Nechar, 2014). No contexto atual das pesquisas da área, nota-se uma predominância das abordagens sistêmica, positivista e fenomenológica nos periódicos brasileiros, com um crescente interesse pela abordagem complexa/ecossistêmica (Tadioto, Campos & Vianna, 2022). É relevante destacar que a perspectiva complexa, influenciada pelos princípios de Morin (1984), tem sido aplicada em diferentes enfoques de estudos sobre turismo (Fratucci, 2008; Telles & Valduga, 2015; Andrade-Matos, Richards & Azevedo Barbosa, 2022). Também consideramos que a perspectiva sistêmica possui uma forte tradição nos estudos do turismo, com modelos sistêmicos amplamente difundidos e utilizados para compreender, pesquisar e ensinar na área (Cuervo, 1967; Leiper, 1979; Sessa, 1985; Molina, 1991; Beni, 1998; Boullón, 2002). No contexto brasileiro, a obra “Análise Estrutural do Turismo” de Mário Beni (1998) representa um marco teórico e prático na aplicação da perspectiva sistêmica ao turismo. Essa tradição é considerada por Panosso Netto (2009) como uma fase paradigmática nos estudos do turismo. 2.3 A relevância das abordagens teóricas no estudo do turismo Ao desafiar a comunidade acadêmica a refletir sobre o turismo como um campo de estudos científico, Fuster (1971) contribuiu para o desenvolvimento de uma visão mais abrangente sobre a área. Como resultado, o turismo passou a ser compreendido como um fenômeno multidimensional, englobando aspectos econômicos, políticos, culturais e ambientais, ao invés de ser tratado isoladamente. Essa mudança de perspectiva permitiu que os pesquisadores entendessem a relevância das diversas facetas teóricas que o constituem, considerando os contextos práticos das atividades que o compõem. PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 152 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros A perspectiva de Fuster (1971) de que o turismo deve ser considerado uma ciência tem sido compartilhada por outros teóricos, como Urry (1992), que enfatiza a relevância da teoria para entender as transformações sociais e culturais decorrentes deste campo de estudos. Assim, a teoria do turismo permite uma compreensão crítica de seus impactos, o que é fundamental tanto para o seu desenvolvimento quanto para seu planejamento da área. Além disso, Jafari (1980) defende que o estudo teórico é essencial para compreender as motivações dos turistas e a dinâmica do turismo. Em outra perspectiva, Sharpley (2005) argumenta que a teoria é importante para entender como o turismo afeta as comunidades locais e como os residentes dessas comunidades respondem a ele. Quanto à complexidade, McKercher e Prideaux (2020) enfatizam que estudar teorias no campo do turismo é fundamental para compreender as pluralidades e desafios enfrentados pela área. Dessa forma, é possível compreender a complexidade das relações entre turistas, comunidades locais, empresas e governos, bem como os impactos sociais, econômicos e ambientais do turismo. Nessa linha, a importância de se estudar teorias no campo do turismo é evidente, ao permitir uma compreensão mais profunda e crítica sobre este campo do conhecimento, bem como a análise aprofundada sobre seus desafios e potencialidades. Em uma iniciativa destinada a enriquecer o diálogo acerca das teorias do turismo, Oliveira (2018) introduz uma distinção entre duas categorias conceituais: “teoria sobre o turismo” e “teoria do turismo”. Conforme a proposta, “teoria sobre o turismo” refere-se a uma abordagem teórica que fundamenta e analisa o próprio conceito de turismo, buscando compreender suas implicações. Em contrapartida, a “teoria do turismo” é descrita como uma explicação mais geral e simplificada sobre o que constitui o turismo, tratando-o como um objeto já definido. Essa distinção salienta a necessidade de adotar abordagens teóricas interdisciplinares no estudo do turismo, reconhecendo que a complexidade desse fenômeno demanda uma compreensão multifacetada para capturar sua essência e dinâmica em toda a sua extensão, transcendendo visões unilaterais sobre o turismo como um campo teórico. Mais recentemente, Weaver (2023), de forma integrativa, trabalha o turismo sob a ótica pandisciplinar. O mesmo propõe uma tourisation theory . Para essa teoria geral do turismo, a “ação observável fundamental [...] é o aumento da inserção direta e indireta do setor de turismo em lugares ao redor do mundo e o domínio crescente resultante, por meio da atração e apoio de turistas, bem como fluxos turísticos de saída” (p. 2). Para o autor, as estruturas e processos nucleares do turismo estão capturadas em seu modelo. Sendo eles: [...] seis proposições universais e efeitos aliados que constituem uma teoria provisória ao envolver um conjunto integrado de declarações empiricamente testáveis que descrevem de forma variável (ou seja, ubiquidade., ascendência, concentração e efeitos de endosso) ou tentam explicar (ou seja, efeitos de impulso e amplificação) essa imersão, e daí o fenômeno do turismo (p. 2). Desde a década de 1990, o cenário acadêmico brasileiro testemunha a adoção de abordagens teóricas nos estudos do turismo, refletida em obras influentes como “Manual de Iniciação ao Estudo do Turismo” (Barretto, 1995), “Turismo: Teoria e Prática” (Lage & Milone, 2001), “Fundamentos do Turismo” (Ignara, 2013) e “Teoria do Turismo” (Lohmann & Panosso Netto, 2016). Estas obras, ao explorarem o turismo por diferentes perspectivas, evidenciam a relevância do tema, apontando para a necessidade de uma discussão mais aprofundada. Apesar das divergentes visões sobre a consolidação teórica do turismo, este artigo pressupõe que a extensa produção no campo constitui um esforço científico passível. A justificativa para tal abordagem reside na natureza interativa do turismo, sendo um produto da colaboração de diversos atores, demandando uma abordagem para entender os problemas relacionados ao seu estudo. Ainda, Souza-Neto, Lacerda, Matschuck, Cavalcante e Trigo (2023) realizaram um estudo exploratório utilizando-se de técnica de elicitação livre com profissionais e acadêmicos do turismo. Como resultado, encontraram discrepâncias preliminares sobre a visão dos mesmos em relação a teorias do turismo. Tais perspectivas, até aqui expostas, implicam em compreender a construção das teorias de turismo, bem como examinar como elas se aplicam, conforme sugerem Stergiou e Airey (2018). 3. Método O estudo adota uma abordagem quantitativa, possibilitando uma visão geral da frequência das opiniões dos entrevistados (Tashakkori & Teddlie, 2010; Bernard, 2017). Para garantir a Valério Rodrigues de Souza-Neto, Paulo Henrique Ferreira Lacerda, Josefa Laize Soares Oliveira, Flavio Andrew do Nascimento Santos 153 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 comparabilidade entre as reflexões que embasaram a pesquisa, a amostra e o plano de perguntas seguiram o estudo de Stergiou e Airey (2018), com adaptações para o contexto brasileiro, considerando as limitações dos pesquisadores britânicos. A tradução do questionário original foi realizada por dois pesquisadores nativos de língua portuguesa, e a técnica de tradução reversa, proposta por Kim, Lee e Jung (2020), foi utilizada para corrigir diferenças idiomáticas iniciais (Brislin, 1970). Assim, foi realizado um pré-teste (Hulland, Baumgarner, & Smith, 2018) com 11 respondentes para aperfeiçoar o instrumento de coleta de dados (Villacé-Molinero, Fernández-Muñoz & Fuentes-Moraleda, 2021), incorporando pequenas modificações que não comprometeram a análise na amostra final. O questionário foi replicado na plataforma Google Forms , amplamente utilizada em pesquisas de turismo no Ocidente (e.g., Gavilan, Avello & Martinez-Navarro, 2018; Villacé-Molinero et al., 2021), o que permitiu a criação de seções condicionais. Antes de começar a responder, o participante foi convidado a ler a descrição do estudo e aceitar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), além de ser informado do tempo médio de resposta do questionário. A descrição também informava que, se elegível, o respondente concorre a um “ gift card ” no valor de R$35,00 da Netflix. Consideramos que o uso de incentivos, como o gift card , é uma prática comum em pesquisas, ajudando a aumentar a participação dos potenciais respondentes (Brosnan, Kemperman & Dolnicar, 2019). Tabela 1: Questões do questionário apresentado aos respondentes Secções e perguntas Respostas 1. Perfil do entrevistado 1.1 Qual o seu perfil? Acadêmico de turismo (Docência - graduação, técnicos e/ou tecnólogo); Acadêmico de turismo (Docência - pós-graduação lato sensu); Acadêmico de turismo (Docência - pós-graduação stricto sensu); Acadêmico de turismo (Discente); Acadêmico de turismo e profissional da área; Profissional da área de turismo e afins 1.2 Qual o seu gênero? Feminino; Masculino; Prefiro não identificar; Outros (aberta) 1.3 Qual a sua idade? Abaixo de 30; 30-39; 40-49; 50-59; Mais de 60 1.4 Estado de atuação (Múltipla escolha) 1.5a Departamento de atuação. Turismo/Hospitalidade; Negócios/Administração; Outros (aberta) 1.6a Qual a sua posição na Instituição de Ensino? Discente; Professor adjunto; Professor associado; Outros (aberta) 1.7a Qual sua carga horária de trabalho? Período integral (Carga horária mínima de 40 horas semanais ou 160 horas mensais); Período parcial (Carga horária menor que 40 horas semanais ou 160 horas mensais) 1.8a Área de estudo/pesquisa Turismo; Hotelaria; Eventos; Geografia; Cultura/Patrimônio; Administração; Outros (aberta) 1.9a Área de formação (graduação) (aberta) 1.5b Qual a sua formação? Ensino Fundamental; Ensino médio/Segundo grau; Graduação; Pós-Graduação lato sensu; Pós-Graduação stricto sensu (mestrado/doutorado) 1.6b Qual o seu cargo? Diretor Administrativo/Presidente; Gerente de Divisão/Área; Gerente de departamento; Líder de equipe/projeto; Outros (aberta) 1.7b Tempo de emprego. Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 1.8b Tempo no turismo Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 1.9b Possui educação/ profissionalização em Turismo? Sim; Não 1.10b Possui qualificação em Turismo? Sim; Não 1.11b Em qual setor você atua? Público; Privado; Voluntário; Outros (aberta) 1.12b Qual a área do seu atual emprego? Gerenciamento de destino; Meios de hospedagem; Consultoria; Transportes; Atrativo/atração; Alimentos e bebidas; Outros (aberta) 1.13b A empresa que você atua tem quantos funcionários? Sou MEI; Menos do que 10; 10-49; 50-250; Mais de 250 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 154 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros 1.14b Qual o principal nível de atuação da empresa? Internacional; Nacional; Regional; Estadual; Local 3. Compreensão dos respondentes sobre “teoria”. 3.1 Selecione a definição que mais condiz com o seu entendimento sobre teoria. (Selecione uma) Uma teoria é um conjunto de conceitos, definições e proposições inter-relacionadas que especificam uma visão sistemática dos fenômenos, especificando relações entre variáveis, visando explicar e prever fenômenos (Ary et al., 2009, p. 15). Uma teoria é um modelo da realidade que nos ajuda a entender, explicar e predizer essa realidade (Stergiou & Airey, 2018, p. 163). Uma teoria refere-se a modelos estatísticos que testam relações causais especulativas entre variáveis, mas sem um modelo a priori (Smith & Lee, 2010, p. 33). Uma teoria é um modelo verbal ou gráfico não testado/não testável (Smith & Lee, 2010, p. 31). Uma teoria é um filtro através do qual um pesquisador seleciona e interpreta dados em vez de sugerir hipóteses que podem ser testadas empiricamente (Smith & Lee, 2010, p. 34). Uma teoria representa a derivação de conclusões na forma de temas ou padrões baseados em uma codificação estruturada, iterativa e subjetiva de uma fonte de dados (Stergiou & Airey, 2018, p. 163 Adaptado de Smith & Lee, 2010). Uma teoria representa a extração de conclusões do empréstimo de teorias existentes de um campo para ser uma analogia em outro campo (Stergiou & Airey, 2018, p. 163 Adaptado de Smith et al., 2013). Uma teoria é uma construção simbólica que visa dar sentido aos múltiplos fatos com os quais somos confrontados 4. A importância, natureza e uso da teoria em relação ao turismo. A teoria é importante para entender o turismo; A teoria é importante no ensino do turismo; A teoria é importante na pesquisa do turismo; O turismo tem seu próprio corpo teórico distinto; O turismo é uma área madura de estudo; As teorias de outros domínios de estudo são suficientes para entender o turismo; As teorias de outros domínios de estudo são mais importantes do que as teorias do turismo na compreensão do turismo; Os proponentes da importância da teoria do turismo superestimam sua importância; A teoria do turismo que não está intimamente ligada à prática do turismo não ajudará a avançar o conhecimento da prática de gestão do turismo. 5. Utilidade da teoria do turismo. A teoria do turismo é irrelevante para aqueles que trabalham na gestão do turismo; A teoria do turismo é dissociada da prática de gestão do turismo; Uma compreensão da teoria do turismo é essencial para que os gestores contribuam para o desenvolvimento sustentável do turismo; Uma compreensão da teoria do turismo é essencial para os gestores alcançarem o sucesso comercial no turismo; Uma compreensão da teoria do turismo é essencial para que os gestores contribuam para o desenvolvimento ético do turismo; Uma compreensão da teoria do turismo é essencial para os gestores tomarem decisões estratégicas de longo prazo no turismo; Os gestores de turismo devem desenvolver uma melhor compreensão das teorias de turismo subjacentes à sua prática Toda a prática de gestão do turismo é inevitavelmente fundamentada na teoria do turismo.; A teoria geral da administração é mais importante que a teoria do turismo para os gerentes de turismo; O papel da teoria na prática da gestão do turismo precisa ser mais bem compreendido; Gestores com pouca ou nenhuma experiência no ensino superior tem dificuldade em seguir os preceitos da teoria de turismo; Para gestores de turismo com pouca ou nenhuma experiência no ensino superior, é mais fácil treiná-los para implementar um conjunto de técnicas padrão do que apresentá-los à teoria do turismo. Fonte: Adaptado de Stergiou e Airey (2018) O questionário utilizado neste estudo é composto por quatro seções (tabela 1). A primeira seção corresponde ao perfil do respondente, com questões condicionais para acadêmicos, profissionais e Valério Rodrigues de Souza-Neto, Paulo Henrique Ferreira Lacerda, Josefa Laize Soares Oliveira, Flavio Andrew do Nascimento Santos 155 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 acadêmicos/profissionais. Caso o respondente não pertencesse a algum desses grupos, era direcionado automaticamente para o fim do questionário. Na segunda e terceira seção, abordamos a compreensão sobre teoria, com foco em sua “importância, natureza e uso relacionado ao turismo” (Stergiou & Airey, 2018, p. 158, tradução livre). Adicionalmente, foi incluída uma verificação de manipulação instrucional (Instructional Manipulation Check - IMC; Paas, Dolnicar & Karlsson, 2018) solicitando que o respondente marcasse 'discordo totalmente (1)' caso não estivesse prestando atenção. O IMC foi introduzido como uma medida de atenção do participante e filtro de atenção (Hauser & Schwarz, 2016, p. 401, tradução livre) para assegurar que os dados coletados fossem confiáveis, minimizando o viés causado por respostas desatentas ou incoerentes que poderiam comprometer a validade de nossos resultados de pesquisa. O questionário final foi ao ar entre os dias 13 de maio de 2022 e 1 de julho de 2022. E foi enviado no Google Groups da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), para o grupo do WhatsApp e e-mails dos membros da Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT) e nos e-mails estaduais da Associação Brasileira de Turismólogos e Profissionais do Turismo (ABBTUR) disponíveis no site da entidade. Obtivemos um total de 164 (cento e sessenta e quatro) questionários, que após excluídas as respostas invalidadas pelo IMC, ficaram 135 (centro e trinta e cinco) questionários válidos para análise. Ou seja, 17,7% dos questionários respondidos foram descartados da análise após a verificação de manipulação instrucional. Tal índice chama a atenção a importância do uso de verificações de manipulação instrucional (Paas, Dolnicar, & Karlsson, 2018) para reduzir ruídos e aumentar a validade dos dados (Oppenheimer, Meyvis, & Davidenko, 2008). Os dados dos questionários foram analisados seguindo estatísticas descritivas e análise de frequência (Leedy & Ormrod, 2015). As estatísticas descritivas foram usadas para resumir e descrever as características numéricas das respostas, enquanto a análise de frequência ajudou a identificar a distribuição destas em relação a cada categoria. 4. Resultados e Discussões 4.1 Caracterização demográfica, acadêmica e profissional dos respondentes Os 135 questionários válidos foram respondidos por indivíduos de diferentes idades, formações, gêneros e profissões. Entre as pessoas que responderam, 60% se identificaram como do gênero feminino, 40% como do gênero masculino e 1,5% optaram por não se identificar. Quanto ao perfil profissional, 53% (72) dos respondentes eram acadêmicos, 25% (33) eram acadêmicos e profissionais, e 21% (30) eram profissionais do mercado turístico. A maioria dos respondentes acadêmicos (77,8%) possui formação em Turismo como área base da graduação, seguido de Hotelaria (6,9%), Geografia e Administração (2,8% cada). Quanto ao gênero, houve predominância do feminino (59,7%) seguido pelo masculino (40,3%), e a faixa etária mais representativa foi entre 30 e 49 anos. Além disso, a maioria (81,9%) está vinculada a departamentos de Turismo/Hospitalidade e trabalha em período integral (65,3%). Quanto às posições de ocupação nesses departamentos, a maioria é composta por discentes (51,4%), seguido de professores adjuntos (23,6%) e professores associados (13,9%) (Apêndice A). Em relação à formação, 40% possuem graduação, 36,7% possuem pós-graduação lato sensu e 20% possuem pós-graduação stricto sensu . A grande maioria dos respondentes, ou seja, 86,7%, afirmaram ter profissionalização em turismo, enquanto 83,3% afirmaram possuir qualificação na área. Quanto à trajetória profissional, foi observado que 40% dos respondentes possuem entre 11 e 20 anos de atuação no setor, 26,7% possuem mais de 20 anos de atuação, 20% possuem entre 5 e 10 anos de atuação, enquanto apenas 13,3% da amostra possui menos de 5 anos de experiência no turismo. A maioria dos profissionais da amostra deste estudo está no setor privado (63,3%), seguido pelo setor público (30%) e terceiro setor (6,7%). Em relação à área de emprego atual, a distribuição é a seguinte: 13,3% em meios de hospedagem, 10% no gerenciamento de destinos, 10% com atrativos turísticos e 6,7% com consultoria. Quanto ao tempo de atuação, 53,3% dos profissionais estão atuando há menos de 5 anos, 23,3% atuam no cargo entre 5 e 10 anos, 13,3% entre 11 e 20 anos, e apenas 10% com mais de 20 anos. Os cargos atuais dos respondentes incluem pequenas presenças de agentes de viagens, guias, produtores culturais, analistas e assessores, mas a maioria é de Diretores Administrativos/Presidentes, representando 26,7% da amostra. Ainda, os profissionais deste estudo estão vinculados a empresas de diferentes tamanhos e abrangências. Cerca de 20% atuam em empresas entre 50 e 250 funcionários. Em relação à abrangência, 36,7% atuam no âmbito nacional, 30% no regional, 20% no local e 13,3% no internacional (Apêndice B). PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 156 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros Também foram identificados profissionais que são simultaneamente acadêmicos e atuam no mercado turístico. Nesse grupo, 63,6% são mulheres, 30,3% são homens e 6,1% preferem não se identificar. A maioria (66,7%) têm menos de 30 anos e a formação predominante é a Graduação (51,5%). Os respondentes, que são tanto acadêmicos quanto profissionais do mercado turístico, representam uma parcela importante da amostra deste estudo. Na academia, a maioria atua como discente de pósgraduação (69,7%), embora uma nova categoria tenha sido identificada: professores substitutos, que representaram 6,1% da amostra. Quanto à área de atuação dos acadêmicos, a maioria (75,8%) está vinculada a departamentos de Turismo/Hospitalidade. Já na esfera profissional, a maioria dos indivíduos (67,7%) atua no setor privado, enquanto 33,3% trabalham no setor público. A Consultoria é a área de atuação mais destacada (21,2%). No que se refere ao tempo de atuação no turismo, a maioria dos acadêmicos e profissionais (60,6%) atua há menos de 5 anos. Quanto ao emprego atual, líderes de equipe/projeto representam 15,2% da amostra, com a nova categoria de Analista. Além das possibilidades de respostas apresentadas, a maioria dos profissionais (60,6%) se enquadra em funções de agenciamento, recepção, pesquisa e prestação de serviços autônomos. Os profissionais que atuam tanto no mercado quanto na academia estão predominantemente vinculados a departamentos de turismo como discentes de pós-graduação (69,7%) e pesquisando sobre turismo. Quanto às organizações em que estão inseridos, 45,5% atuam em organizações de abrangência nacional, enquanto 27,3% fazem parte de organizações que possuem entre 50 e 250 funcionários e 15,2% são Microempreendedores Individuais. A maioria desses profissionais está vinculada ao setor privado (67,7%), com destaque para a área de Consultoria (21,2%), e possui menos de 5 anos de atuação profissional na área (60,6%). Além disso, os líderes de equipe/projeto representam 15,2% da amostra, com a nova categoria de Analista. No que se refere à qualificação, a grande maioria (97%) possui formação em Turismo e 93,9% possuem educação/profissionalização na área. Em resumo, esses profissionais são jovens, qualificados, atuam principalmente no setor privado em organizações de abrangência nacional, e se concentram em funções relacionadas à consultoria, liderança de equipe/projeto, agenciamento, recepção, pesquisa e prestação de serviços autônomos. 4.2 Percepção sobre Teoria Os entrevistados foram divididos em três grupos, e todos concordaram que a definição de teoria mais registrada foi a de Ary, Jacobs e Sorensen (2009). Essa definição conceitua a teoria como “um conjunto de conceitos, definições e proposições inter-relacionadas que especificam uma visão sistemática dos fenômenos, especificando relações entre variáveis, visando explicar e prever fenômenos” (Ary et al., 2009, p. 15). Entre as definições menos utilizadas pelos entrevistados, a definição de Smith e Lee (2010) foi a segunda mais considerada pelos acadêmicos, mas não foi considerada por nenhum dos profissionais. Por outro lado, a definição de que “uma teoria é uma construção vivida que visa dar sentido aos múltiplos fatos com os quais somos confrontados” foi assinalada por apenas 1,4% dos acadêmicos e foi a segunda mais considerada pelos profissionais que também são acadêmicos. Para uma visualização mais completa dos resultados do estudo britânico sobre a percepção brasileira da teoria, verifique a tabela 2. Em contraste com os resultados desta pesquisa, o estudo de Stergiou e Airey (2018) revelou que a teoria é vista como uma ferramenta útil para compreender e agir nos fenômenos reais. As definições mais comuns destacadas pelos entrevistados relacionam a teoria com o entendimento e a explicação da realidade. É importante ressaltar que houve maior concordância entre os profissionais e acadêmicos/profissionais em relação à definição de teoria como um mecanismo para explicar os fatos confrontados na realidade, reforçando a ideia de que a teoria é relevante para compreender a realidade. Tabela 2: Definição de teoria por parte dos respondentes Definição de teoria ACAD PROF ACAD / PROF ACAD (S&A, 2018) PROF (S&A, 2018) Uma teoria é um conjunto de conceitos, definições e proposições inter-relacionadas que especificam uma visão sistemática dos fenômenos, especificando relações entre variáveis, visando explicar e prever fenômenos (Ary et al., 2009, p. 15). 62,5% 50,0% 60,6% 55% 32% Uma teoria é um modelo da realidade que nos ajuda a entender, explicar e predizer essa realidade (Stergiou & Airey, 2018, p. 163). 4,2% 6,7% 9,1% 26% 46% Valério Rodrigues de Souza-Neto, Paulo Henrique Ferreira Lacerda, Josefa Laize Soares Oliveira, Flavio Andrew do Nascimento Santos 157 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 Uma teoria refere-se a modelos estatísticos que testam relações causais especulativas entre variáveis, mas sem um modelo a priori (Smith & Lee, 2010, p. 33). 13,9% 0,0% 3,0% 1% 1% Uma teoria é um modelo verbal ou gráfico não testado/não testável (Smith & Lee, 2010, p. 31). 1,4% 0,0% 0,0% 1% 5% Uma teoria é um filtro através do qual um pesquisador seleciona e interpreta dados em vez de sugerir hipóteses que podem ser testadas empiricamente (Smith & Lee, 2010, p. 34). 9,7% 0,0% 3,0% 10% 8% Uma teoria representa a derivação de conclusões na forma de temas ou padrões baseados em uma codificação estruturada, iterativa e subjetiva de uma fonte de dados (Stergiou & Airey, 2018, p. 163 Adaptado de Smith & Lee, 2010). 1,4% 10,0% 3,0% 5% 6% Uma teoria representa a extração de conclusões do empréstimo de teorias existentes de um campo para ser uma analogia em outro campo (Stergiou & Airey, 2018, p. 163 Adaptado de Smith et al., 2013). 5,6% 6,7% 6,1% 2% 2% Uma teoria é uma construção simbólica que visa dar sentido aos múltiplos fatos com os quais somos confrontados. 1,4% 26,7% 15,2% --- --- Legenda: ACAD: acadêmicos; PROF: profissionais; ACAD/PROF: acadêmico e profissionais; ACAD (S&A, 2018): acadêmicos do estudo de Stergiou e Airey (2018); PROF (S&A, 2018): profissionais do estudo de Stergiou e Airey (2018). Fonte: Autores. 4.3 Importância e utilidade da teoria do turismo por parte dos acadêmicos e profissionais brasileiros Após constatar a associação da teoria com o entendimento do mundo pelos grupos respondentes, torna-se relevante abordar a importância e utilidade da teoria do turismo para estes mesmos grupos. A partir da análise dos resultados, é possível observar que os três grupos consideram a teoria do turismo relevante para compreender, ensinar e pesquisar na área (tabela 3). Além disso, concordam que o turismo tem seu próprio corpo teórico e é uma área de estudo madura. Esta concordância pode estar relacionada ao fato de que a teoria do turismo não é útil apenas no ambiente acadêmico, mas também no mercado turístico, corroborando os achados de Stergiou e Airey (2018). Nota-se que, tanto no Reino Unido como no Brasil, há uma visão positiva da importância e uso da teoria do turismo pelos grupos respondentes. Tabela 3: Média de respostas acerca da importância da teoria do turismo Afirmação ACAD PROF ACAD / PROF ACAD (S&A, 2018) PROF (S&A, 2018) A teoria é importante para entender o turismo; 4,49 4,4 4,3 4,47 3,73 A teoria é importante no ensino do turismo; 4,67 4,8 4,55 4,52 3,91 A teoria é importante na pesquisa do turismo; 4,78 4,63 4,76 4,6 4,1 O turismo tem seu próprio corpo teórico distinto; 3,54 3,53 3,55 3,31 3,22 O turismo é uma área madura de estudo; 3,15 2,87 2,79 3,09 2,91 As teorias de outros domínios de estudo são suficientes para entender o turismo; 2,53 2,37 2,3 2,74 3,09 As teorias de outros domínios de estudo são mais importantes do que as teorias do turismo na compreensão do turismo; 2,18 2,17 1,79 2,61 3,05 Os proponentes da importância da teoria do turismo superestimam sua importância; 2,93 2,9 2,94 3,1 3,32 A teoria do turismo que não está intimamente ligada à prática do turismo não ajudará a avançar o conhecimento da prática de gestão do turismo. 2,92 3,33 3,36 3,19 4,12 Legenda: ACAD: acadêmicos; PROF: profissionais; ACAD/PROF: acadêmico e profissionais; ACAD (S&A, 2018): acadêmicos do estudo de Stergiou e Airey (2018); PROF (S&A, 2018): profissionais do estudo de Stergiou e Airey (2018). Fonte: Autores. PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 164 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros Apêndice B – Resultados descritivos dos respondentes profissionais PERGUNTAS RESPOSTAS % GÊNERO Feminino; Masculino; Prefiro não identificar; Outros (aberta) 60 36,7 3,3 0 IDADE Abaixo de 30; 30-39; 40-49; 50-59; Mais de 60 20 26,7 20 23,3 6,7 CARGA HORÁRIA Período integral Período parcial 90 10 FORMAÇÃO Ensino Fundamental; Ensino médio/Segundo grau; Graduação; Pós-Graduação lato sensu; Pós-Graduação stricto sensu (mestrado/doutorado) 0 3,3 40 36,7 20 CARGO Diretor Administrativo/Presidente; Gerente de Divisão/Área; Gerente de departamento; Líder de equipe/projeto; Outros (aberta) 26,7 6,7 3,3 13,3 50 TEMPO NO EMPREGO ATUAL Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 53,3 23,3 13,3 10 TEMPO DE ATUAÇÃO NO TURISMO Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 13,3 20,0 40,0 26,7 EDUCAÇÃO/PROFISSIONALIZAÇ ÃO NO TURISMO Sim; Não 86,7 13,3 QUALIFICAÇÃO EM TURISMO Sim; Não 83,3 16,7 SETOR DE ATUAÇÃO Público; Privado; Voluntário; Outros (aberta) 30,0 63,3 6,7 0,0 ÁREA DO EMPREGO ATUAL Gerenciamento de destino; Meios de hospedagem; Consultoria; Transportes; Atrativo/atração; Alimentos e bebidas; Outros (aberta) 10,0 13,3 6,7 0,0 10,0 3,3 56,7 NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS NA ORGANIZAÇÃO QUE ATUA Sou MEI; Menos do que 10; 10-49; 50-250; Mais de 250 37 13 17 20 13 NÍVEL DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO Internacional; Nacional; Regional; Estadual; Local 13,3 36,7 30,0 0,0 20,0 Valério Rodrigues de Souza-Neto, Paulo Henrique Ferreira Lacerda, Josefa Laize Soares Oliveira, Flavio Andrew do Nascimento Santos 165 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 Apêndice C – Resultados descritivos dos respondentes acadêmicos e profissionais SEÇÃO CARACTERÍSTICA % GÊNERO Feminino; Masculino; Prefiro não identificar; 63,6 30,3 6,1 IDADE Abaixo de 30; 30-39; 40-49; 50-59; Mais de 60 66,7 21,2 9,1 3,0 0 DEPARTAMENTO Turismo/Hospitalidade; Negócios/Administração; Educação Políticas Públicas Outros (aberta) 75,8 15,2 0 0 9,1 FUNÇÃO Discente; Professor adjunto; Professor associado; Professor substituto; Outros (aberta) 69,7 0 6,1 6,1 18,2 CARGA HORÁRIA Período integral Período parcial 63,6 36,4 ÁREA DE PESQUISA Turismo; Hotelaria; Eventos; Geografia; Cultura/Patrimônio; Administração; Outros (aberta) 75,8 3,0 3,0 0 9,1 3,0 6,1 FORMAÇÃO Ensino Fundamental; Ensino médio/Segundo grau; Graduação; Pós-Graduação lato sensu; Pós-Graduação stricto sensu (mestrado/doutorado) 0 3,0 51,5 6,1 39,4 CARGO ATUAL Diretor Administrativo/Presidente; Gerente de Divisão/Área; Gerente de departamento; Líder de equipe/projeto; Analista Outros (aberta) 9,1 9,1 3,0 15,2 15,2 60,6 TEM NO CARGO ATUAL Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 84,8 6,1 6,1 3,0 TEMPO NO TURISMO Até 5 anos; Entre 5 e 10 anos; Entre 11 e 20 anos; Mais de 20 anos 60,6 18,2 15,2 6,1 EDUCAÇÃO/PROFISS IONALIZAÇÃO NO TURISMO Sim; Não 93,9 6,1 QUALIFICAÇÃO EM TURISMO Sim; Não 97 3 SETOR DE ATUAÇÃO Público; Privado; Voluntário; Outros (aberta) 33,3 66,7 0 0 ÁREA DO EMPREGO ATUAL Gerenciamento de destino; Meios de hospedagem; Consultoria; Transportes; Atrativo/atração; Alimentos e bebidas; Agências de turismo Outros (aberta) 12,1 12,1 21,2 3,0 6,1 3,0 12,1 30,3 PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. 23(1). Enero-marzo 2025 ISSN 1695-7121 166 Teoria do turismo: percepções e utilidade para acadêmicos e profissionais brasileiros SEÇÃO CARACTERÍSTICA % NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS NA ORGANIZAÇÃO QUE ATUA Sou MEI; Menos do que 10; 10-49; 50-250; Mais de 250 15,2 21,2 18,2 27,3 18,2 NÍVEL DE ATUAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO Internacional; Nacional; Regional; Estadual; Local 15,2 45,5 12,1 18,2 9,1 Recibido: 28/11/2023 Reenviado: 11/01/2024 Aceptado: 12/01/2024 Sometido a evaluación por pares anónimos