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Perante o túmulo do rei D.Dinis: as visitas de Guilherme de Almeida e Miguel Torga

Morán Cabanas, Maria Isabel

Abstract

For the first time and from a comparative and interdisciplinary perspective, we study the texts resulting from the visits of Guilherme de Almeida and Miguel Torga to the tomb of the troubadour king D. Dinis in Odivelas, now of special relevance in the ongoing heritage and artistic recovery project. Both writers (self-proclaimed pilgrim and bard, respectively) express their impressions in the light of literary tradition and the socio-political context from which they contemplate the past, demanding respect for memory as an identity marker and an essential basis for building the future.

Full text

435 Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 ISSN: 0210-4911 eISSN: 1989-614X DOI: h ps://doi.o g/10.6018/ER.585191 PERANTE O TÚMULO DO REI D. DINIS: AS VISITAS DE GUILHERME DE ALMEIDA E MIGUEL TORGA (In on o King Dinis´s Tomb: he Visi s o Guilhe me de Almeida and Miguel To ga) Ma ia Isabel Mo án Cabanas* Uni e sidade de San iago de Compos ela Abs ac : Fo he i s ime and om a compa a i e and in e disciplina y pe spec i e, we s udy he ex s esul ing om he isi s o Guilhe me de Almeida and Miguel To ga o he omb o he oubadou king D. Dinis in Odi elas, now o special ele ance in he ongoing he i age and a is ic eco e y p ojec . Bo h w i e s (sel -p oclaimed pilg im and ba d, espec i ely) exp ess hei imp essions in he ligh o li e a y adi ion and he socio- poli ical con ex om which hey con empla e he pas , demanding espec o memo y as an iden i y ma ke and an essen ial basis o building he u u e. Keywo ds: Odi elas, D. Dinis´s omb, Guilhe me de Almeida, Miguel To ga, neo oubado ism. Resumo: Pela p imei a ez e sob uma pe spec i a compa a is a e in e disciplina , es udamos os ex os esul an es das isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga ao úmulo do ei- o ado D. Dinis em Odi elas, hoje de especial ele ância pe an e o p oje o de ecupe ação pa imonial e a ís ica em cu so. Ambos os esc i o es (au onomeados pe eg ino e ba do, espe i amen e) exp imem as suas imp essões à luz da adição li e á ia e do con ex o sociopolí ico desde o qual con emplam o passado, eclamando espei o à memo ia como sinal iden i á io e alice ce undamen al pa a a cons ução do u u o. Pala as cla e: Odi elas, úmulo de D. Dinis, Guilhe me de Almeida, Miguel To ga, neo o ado ismo. 1 * Di eção pa a co espondência: M. Isabel Mo án Cabanas. Depa amen o de Filologia Galega. Faculdade de Filologia. Uni e sidade de San iago de Compos ela. 15705 San iago de Compos ela ([email p o ec ed]) 436 Ma ia Isabel Mo án Cabanas / Uni e sidade de San iago de Compos ela Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 Nem é p eciso insis i em que a igu a e ob a de D. Dinis o am amiúde obje o de ap o ei amen o li e á io na oz dos poe as de odos os empos, desde a p óp ia Idade Média a é aos dias de hoje, em que con inua a ge a nume osas adesões. Lemb e-se, de ac o, o p an o compos o po João, jog al e mo ado de León, aquando do alecimen o do mona ca em San a ém no dia 7 de janei o de 1325 com 64 anos de idade e 46 de go e no. Nos seus e sos sublinham-se as suas excelências como c iado li e á io e mecenas, apelando-se a odos os o ado es e jog ais dos einos de Po ugal, Leão, Cas ela e A agão a mani es a em amos as de do e lu o pela pe da do seu g ande p o e o : “Os namo ados que oban d´amo / odos de iam g an doo aze , / e non oma en si nen un p aze , / po que pe de on an boo senho , / com´el- ei Don Denis de Po ugal (Cancionei o da Biblio eca Nacional, 1117 e Cancionei o da Va icana, 708). No ocan e ao segundo mo i o, enha-se em con a que, du an e o go e no dionisíaco, ie am a desapa ece as es ições impos as ace ca do núme o ixo de p o issionais in é p e es de can igas que inham sido ap o adas pelo seu pai, D. A onso III, no que oi o p imei o egimen o o icial da casa eal po uguesa: “ElRey aja ez jog a es en sa casa e nom mais” (Po ugalia Monumen a His o ica 1856: I, 199). 1. B e e e isi ação de e e ências na adição li e á ia As can igas do ei- o ado êm sido obje o cons an e de inspi ação sob e udo a pa i das p imei as décadas do século XX, momen o em que se assis e a uma maio di ulgação do co pus o ado esco galego-po uguês que se inha conse ado. Galegos, lusos e b asilei os eco e am a esse pa imónio e p oje a am-no nas suas ob as a a és de di e sas ias: o a me gulhando no i ual da in´amo s e adap ando-se aos seus aços o a explo ando os e ei os da imagís ica e dos ilogismos de ca iz apa en emen e popula que dis inguem a can iga de amigo o a, ainda, desen anhando e eno ando o humo sa cás ico que se e ela a im à can iga de escá nio e maldize . Apesa de não e uma a iculação ão de inida nem a impo ância quan i a i a que a ingiu na Galiza an o pelo núme o de poe as que o p a ica am quan o pela elação p opo cional com o conjun o da ob a de cada um deles, ambém os c iado es de Po ugal e do B asil se sen i am animados a e si ica ace ca de ce os emas e/ ou “ao es ilo” dessas p imei as mani es ações poé icas eiculadas na língua comum (López 1997). Fo am mui os, com e ei o, os que cul i a am a eesc i a dos Cancionei os com maio ou meno g au de mime ismo: “que po ce a on ade de expe imen alismo, que pela demanda das o igens e do exó ico, ia de eg a mo idos po uma au oconscien e in e ex ualidade que az ecoa o Passado sob e as ci cuns âncias i ais do P esen e” (Male al 1999: 84). Po ém, não só oi a pa i da eelabo ação dos seus e sos que D. Dinis se o nou al o de homenagem pelos poe as ao longo do empo, mas ambém, como e emos, median e di e sas ei indicações desc i i as da sua impo ância nes e e nou os campos de a uação. Re isi a e epensa as aízes su ge, em qualque caso, como necessidade e caminho, como a o que supõe o e o ço da iden idade nacional e p ocu a a sal agua da dos elos his ó icos, apelando amiúde à cons ução de uma comunidade cul u al que in eg a a luso onia plu icon inen al. Du an e á ios séculos a sua ace de o ado oi, po desconhecimen o, apenas aludida em a as ocasiões, des acando-se as ap eciações ei as a meados do século XV pelo Ma quês 437 Pe an e o úmulo do ei D. Dinis: as isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 de San ilhana no seu céleb e P ohemio e Ca a, no qual eme e pa a um cancionei o de au o ia maio i á ia de D. Dinis que ele p óp io e ia is o na sua in ância com “in ençiones so iles e de g aciosas e dulçes palab as” (Gómez Mo eno e Ke kho 2003: 654). Já no pe íodo de ansição pa a a Renascença, o poe a Ped o Homem, numa composição ecolhida no Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende, az uma “uma cu iosa súplica cul u al, ou melho , uma licença poé ica, não aos modelos li e á ios e inspi ado es do século XV, mas ao p óp io ei D. Denis” (Ramos 1999: 151). E, en e os p incipais expoen es do Classicismo em Po ugal que aludem ao mona ca, apenas An ónio Fe ei a sublinha a sua ocação li e á ia. Es e au o , que, nadando con a a ma é quan o à p á ica do bilinguismo, não em compos o um único ex o em cas elhano, dedica-lhe um epi á io “A El-Rei D. Dinis” que bem pode ia igu a no úmulo do Mos ei o de Odi elas e que se ia publicado, jun o com ou os des e géne o, no olume pós umo a que se deu o signi ica i o í ulo de Poemas lusi anos: Quem é es e de insígnias di e en es, ce o, e picão, e li o, e espada, e a ado? Es e oi paz de eis, e amo das gen es, g ande Dinis, ei nunca assaz lou ado! Ou os o am nüa só cousa excelen es, es e com odas nob eceu seu es ado: egeu, edi icou, la ou, enceu, hon ou as Musas, poe ou e leu. (Ea le 2008: 371) O úl imo e so, que cons i ui a cha e de ou o de uma isão imada e ab angen e da pe sonalidade e dos la o es égios, de e-se dece o à amilia idade do au o com on es ex uais. Vá ias são, com e ei o, as insígnias ci adas que nos eme em pa a a imagem ansmi ida na his o iog a ia: o ce o da mona quia; o picão de an os cas elos que mandou con ui ou epa a ; o li o, que ep esen a a undação da Uni e sidade; a espada, que lemb a a gue a emp eendida com Cas ela en e 1295 e 1297; ou o a ado, que simboliza os bene ícios que concedeu aos la ado es, aos quais chamou “ne os da e a” (Pina 1945: 162-323). No en an o, o aço mais singula da oi a a é o conhecimen o exp esso de o ei e poe ado, no ícia ausen e a é en ão na esc i a c onís ica. Fo mulamo-nos, assim, a mesma pe gun a que José Luís Rod íguez (1995: 188): se nos ci cui os cul os do século XVI oi sobejamen e conhecida a exis ência de can igas elabo adas po D. Dinis, po que al a al in o mação nos poe as coe âneos a An ónio Fe ei a? Po um lado, não é possí el aduzi que a p á ica e si icado a seja algo desdenhado pelos humanis as, pois o seu pensamen o é p ecisamen e o con á io. Po ou o, se se a asse do ípico menosp ezo dos enascen is as pela poesia medie al, o que não pa ece, o au o i ia a des ia -se aqui da sua ap eciação ge al, pois ele oi mesmo dos poucos que não compôs em medida elha e a é mani es ou uma explíci a in ansigência com os que não se en ega am po comple o aos no os me os do Classicismo. E, já en e os c iado es seiscen is as, a conside ação do ei como o ado só oco e, e apenas como b e e apon amen o, na dedica ó ia que D. F ancisco Manuel de Melo esc e e pa a as suas Ob as Mé icas (1665), 438 Ma ia Isabel Mo án Cabanas / Uni e sidade de San iago de Compos ela Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 na qual a i ma que “Del seño D. Dinis se lee que ue poe a celeb e em sus iempos” (Vasconcelos 1904: II, 116). Em con apa ida, al eição li e á ia apa ece aludida em ex os in o ma i os de um no á el núme o de in elec uais dos séculos XVII e XVIII1. Quan o à on e comum, não cabe dú idas sob e a sua iden i icação: o políg a o Dua e Nunes de Leão, que, po exemplo, na O igem e O og a ia da Língua Po uguesa (1606) chega a decla á-lo pionei o na elabo ação de “mui as cousas em me o à imi ação dos Poe as P oençais” (Buescu, 1983: 220). Po sua ez, de e lemb a -se que os omân icos, po de inição medie alis as, p a icamen e não chega am a p es a a enção a D. Dinis ou ao seu einado como ma é ia poé ica ace a ou os mo i os que sim p i ilegia am, como as o igens da nacionalidade, os amo es p oibidos de Ped o e Inês ou a ba alha de Aljuba o a (Rod íguez 1995: 193). Po ém, al si uação muda nos inais de Oi ocen os e p imei as décadas do século XX, sob e udo a pa i dos seguido es do Saudosismo, des acando-se sob e udo o encan o pela componen e passadis a e as can igas galego-po uguesas de A onso Lopes Viei a (Ei ín Ga cía 2010: 109-132), cuja ob a se p oje a á em expe iências neo o ado escas pos e io es. Na e dade, embo a apenas p e endamos limi a -nos aqui às iagens do b asilei o Guilhe me de Almeida e do po uguês Miguel To ga, a eco ência ao co pus do ei- o ado como in e ex o ampliou-se ex ao dina iamen e na con empo aneidade, a ingindo uma posição de cen alidade nos poemas de e e en e medie al de odas as li e a u as lusó onas. 2. Camões e Pessoa como modelos ma can es Pelo luga p i ilegiado que ambos ocupam no cânone, uma menção especial me ecem os e a os de D. Dinis que Camões o nece nos Lusíadas (1572) e Fe nando Pessoa na sua Mensagem (1934). Pa ece que sem cons ância da lí ica medie al na época em que os códices apóg a os i alianos com a p odução poé ica dionisíaca pe manece am esquecidos e igno ados nas biblio ecas, o p imei o dos au o es épicos põe de ele o os emp eendimen os do mona ca nos âmbi os da cul u a, da sociedade e da polí ica. Assim, é conc e amen e a a és da in e enção do capi ão Vasco da Gama (e sob a in ocação de Calíope, a musa da epopeia, do sabe cien í ico e da eloquência) que se sublinha a p ospe idade do seu go e no, iden i icando-o com um pe íodo pací ico e dou ado. Lou a- se a sagacidade das medidas que en ão o am omadas: o es abelecimen o de no as leis em p ol do p og esso; o apoio aos es udos ma e ializado na undação da Uni e sidade; ou a undação de ilas e cons ução de o alezas e cas elos mui o segu os. A i ma-se com o undidade, en im, que com D. Dinis o eino lo esceu e se i e am “na e a já anquila cla os lumes” (Pimpão 2000: 123). Embo a sob p ismas e a i udes di e en es que já o am amplamen e abo dadas pelos his o iado es da li e a u a, como Jacin o do P ado Coelho (1979: 311) ou Edua do Lou enço (1980: 59), an o na mencionada ob a enascen is a, quan o na Mensagem (1934) que Fe nando Pessoa compo á ês séculos e meio mais a de e que em sendo 1 Na ampla lis agem de es emunhos depa amo-nos com Ped o de Ma iz, F ei Be na do de B i o, Manuel de Fa ia e Sousa, Cae ano de Sousa, Ba bosa Machado e bas an es ou os (Vasconcelos 1904: II, 115-120). 439 Pe an e o úmulo do ei D. Dinis: as isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 conside ada como a epopeia po uguesa da mode nidade, o lei o depa a-se com “poemas de ausência”. Com al exp essão p e ende-se sublinha que nessas duas ememo ações li e á ias não só se e oca o que D. Dinis ep esen ou como o he ói di igen e de um po o, mas apon a-se pa a o que ele pode á i a se como símbolo de iden idade nacional e guia espi i ual. Na p imei a, icando ainda ela i amen e p óxima a excelsa a i idade égia, can a-se o mona ca eal den o de um segmen o c onológico e men al em que se conexionam os a o es da memó ia e da espe ança. Na segunda, dado o dis anciamen o em elação aos ei os, a e ocação passa já pelo azio his ó ico e D. Dinis ap esen a-se sob os il os do mi o, do sonho e da u opia. Os empos muda am, o impé io des ez-se e a eco dação ainda igen e em Luís de Camões oi-se de ini i amen e es aecendo a é acaba po des alece , daí o ca ác e mais abs a o e mís ico dos e sos pessoanos. Nes es obse a-se o p edomínio de elemen os imaginá ios emblemá icos em de imen o da ealidade, ago a agmen ada a a és de uma dição subje i a com ocação messiânica: No con ex o an opocên ico do Renascimen o, o homem eal, sujei o da sua his ó ia, ob iamen e passa a se o he ói his ó ico a caminho da di inização, Essa é a o mulação do modelo épico enascen is a que, esga ando o clássico, supe a-o e ans o ma-o [...]. Na mode nidade, con udo, pe dida a imagem do mundo e ambém a in eg alidade do indi íduo que a possa sus en a , es a a concepção agmen á ia do sujei o e a consciência do azio do eal. Vem daí que a mani es ação épica, mesmo sendo po sua p óp ia índole discu si a o p odu o de um esga e da his ó ia dos deuses ou dos homens e, ainda, do p óp io discu so que a p ecede, em de pa i do azio, ou seja, da descon inuidade e da agmen ação (Quesado 2016: 67). D. Dinis a inge aí o alo de símbolo iniciá ico numa dupla e en e que se acaba á po p oje a em e ocações pos e io es: a da lí ica o ado esca e a das aspi ações oceânicas. O seu au o ez eme gi an o a imagem do ei-poe a, imaginando-o a compo uma can iga de amigo, quan o a do ei-la ado e p o e a, pa indo da ideia de que o sobe ano manda ia plan a o pinhal de Lei ia, cuja madei a i ia a se u ilizada como ma é ia-p ima pa a a cons ução das naus des inadas ao ala gamen o do impé io2. O umo dos pinhei os que ondulam liga-se a uma linguagem mis e iosa e p emoni ó ia de um po i p omissó io, eme endo pa a a igu a de um ei capaz de isiona o u u o de um país o ien ado pa a as iagens oceânicas e si uando o lei o pe an e uma cena especialmen e imp essionis a, isualis a e audi i a3. 2 Es endeu-se a ideia de que o pinhal em ques ão supôs o início da plan ação in ensi a de monocul u a do pinhei o b a o no país, emp eendida já du an e o einado de D. A onso III e in ensi icada no go e no do seu ilho, D. Dinis. Chega am-se a aze ali, de ac o, g andes semen ei as e le a am-se a cabo cons an es eplan ações, pelo que se man e e quase in a o ao longo dos séculos, sendo a pa i do poema de Fe nando Pessoa que se o na ia associado, no imaginá io nacional, à u ilização da sua madei a pa a a cons ução das ca a elas (Lopes 2010). 3 Com o p óp io animismo das á o es pa ece en onca , aliás, uma céleb e can iga de amigo do ei- o ado , único ex o da lí ica galego-po uguesa em que os elemen os da lo a adqui em oz. A p o agonis a pe gun a-lhes às lo es do pinhei o sob e o pa adei o do seu amigo, ao que es as espondem que ele es á são e i o e ol a á “an e o p azo saído”. Pa a as possí eis in e p e ações da imagís ica des e ex o com conside ações de ca iz his ó ico-li e á io, linguís ico e a ís ico, de e consul a -se o es udo de Vicenç Bel án (2013: 213-232). 440 Ma ia Isabel Mo án Cabanas / Uni e sidade de San iago de Compos ela Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 3. Dois esc i o es isi an es do úmulo plani icado pelo mona ca medie al 3.1. Obse ações p é ias pa a um diálogo a ís ico-li e á io Pa a além dos í ulos que lhe são a ibuídos a D. Dinis nos ex os camoniano e pessoano, nas ob as do b asilei o Guilhe me de Almeida e o po uguês Miguel To ga depa amo- nos com ou os que in e agem com esses e con ibuem pa a eng andece a sua au éola de mi i icação. Ambos os au o es pa em de um posicionamen o de admi ação do ei medie al como e e en e de um passado glo ioso e, simul aneamen e, mani es am a sua deceção pe an e a ausência do espí i o dionisíaco na época que lhes ocou i e . Ambos denunciam o inadmissí el esquecimen o do mona ca na e a que com an a e iciência go e nou e p es igiou a a és da a e o ado esca. Ambos se lamen am de al c ise de alo es si uando- se isicamen e pe an e o úmulo que o p óp io sobe ano mandou cons ui pa a si no Mos ei o de São Dinis e São Be na do de Odi elas, ecolhendo as imp essões mais imedia as que lhes p oduziu a sua isi a. E ambos, subme endo o país a exame a pa i de uma iagem ealizada aqui e ago a numa sucessão de deslocações a luga es emblemá icos da his ó ia de Po ugal, adequam os seus ex os a espaços li e á ios p óximos: enquan o Guilhe me de Almeida compõe una c ónica b e e numa p osa des inada à imp ensa e en ol ida em ele adas doses de li ismo, Miguel To ga inse e o seu poema na esc i a dia ís ica, coincidindo assim na p eocupação pela localização e da ação da edação. Vá ios e jus i icados são, po an o, os mo i os que o nam especialmen e opo una a análise desses dois ex os sob uma pe spec i a mul idisciplina e compa a is a. O p e ex o inspi ado eme e-nos já, de ac o, pa a o âmbi o da a qui e u a e da escul u a une á ias, si uando-nos na ig eja do mos ei o medie al que albe ga no seu in e io o úmulo de D. Dinis, cuja his ó ia, embo a mui o sucin amen e e endo em con a algumas alusões aos seus elemen os, cump e lemb a nes as páginas. O p oje o de cons ução do p édio oi concebido pelo sobe ano, de aco do com a sua esposa D. Isabel, os quais mos a am uma pa icula inclinação pelos ecolhimen os emininos e a O dem cis e ciense. Quan o ao luga escolhido, chamado Vale das Flo es e si uado a no e de Lisboa, eunia, com e ei o, odas as condições p opícias pa a se es abelecida ali uma comunidade eligiosa. T a a a-se de uma zona é il em que o ei possuía an es uma câma a de mo ada, do ada de capela e edi ícios anexos que cede ia ao con en o, assim como ce os e enos e ou os bens adqui idos po comp a ou pe mu a - alguns anos depois, al conjun o ans o ma -se-ia mesmo numa esidência égia, ainda que não exa amen e com a unção de Paço Real, como acon eceu, po exemplo, em F ielas, pe o de Odi elas (Pacheco, 2022). Aquando da sua cons ução, a ob a ap esen a a um es ilo gó ico p imi i o segundo o modelo ixado pelo e o mado e men o espi i ual da O dem, São Be na do de Cla a al. Po ém, são mui o signi ica i as as al e ações que em so ido, sob e udo a pa i da sua econs ução após o e amo o de Lisboa de 1755, que eio a ans o ma comple amen e a sua aça o iginal - des a apenas ica am, de ac o, a cabecei a da ig eja, cons i uída pela abside e duas capelas la e ais, assim como dois úmulos: o de D. Dinis e ou o azio, mas a ibuída a um memb o da amília. Ali mandou o ei- o ado deposi a os seus es os, con o me se ecolhe no seu es amen o, assinado a 20 de junho de 1322, co igindo as disposições ap o adas qua o 441 Pe an e o úmulo do ei D. Dinis: as isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 anos an es, em que se assinala a pa a ais e ei os o Mos ei o de Alcobaça. Ele e a he dei o da co oa po di ei o e a sucessão da dinas ia não co ia ago a pe igo algum, pelo que pôde escolhe li e e consis en emen e a casa eligiosa da O dem do Cis e que inha undado, que lhe e a in imamen e ligada e que se encon a a mui o mais p óxima da capi al po uguesa: De ac o, o que es e ges o e lec e, an es de mais, é a p ocu a de a i mação indi idual da pessoa do mona ca, ao p e e i uma sepul u a que apa ecesse aos olhos de odos, não apenas como um elo de ligação aos an epassados, mas como uma a i mação do seu pode e das suas i udes, is o é, uma imagem de si, como indi íduo, como Dionisius Deig a ia ex (Fe nandes 2011: 74). Aliás, ambém à di e ença dos mona cas que lhe an ecede am, D. Dinis não ecebeu sepul u a num espaço ex e io à ig eja, ou mesmo no claus o, mas sim no in e io : en e o co o e a capela-mo do mos ei o. Tal disposição implicou a sua maio isibilidade, o nando-o p esen e du an e os o ícios li ú gicos e azendo necessá ia a deco ação das qua o aces da a ca une á ia, que de e iam pô de mani es o a exempla idade do de un o e do desempenho do seu ca go. Po ém, as disposições o denadas pelo ei sob e a colocação do seu úmulo só o am po en u a espei adas a é pelo menos meados de Quinhen os, al u a em que, sob di e en es p e ex os, começou a se obje o de á ios aslados, o que epe cu iu num g adual e se e o ag a o da sua elação dialógica com o espaço eclesiás ico a que se des ina a (Rossi Vai o 2018: 300). O pon o em que se localiza aquando da edação do ex o do b asilei o Guilhe me de Almeida em 1933, não coincide, de ac o, com o que ocupa á em 1981, quando ealiza a sua isi a o po uguês Miguel To ga. A monumen alidade do mausoléu de Odi elas, com a sua es á ua jacen e e as insígnias do pode , sob essai en e odas as amos as de a e une á ia po uguesa da época. A sua o namen ação ap esen a, com e ei o, emas iconog á icos especialmen e ino ado es com os quais o mona ca p e endeu eng andece e pe pe ua a sua celeb idade como i ula da Co oa, uma ez que oi plani icado du an e a sua ida e subme ido à sua p óp ia ap o ação. Tan o é assim que es a encomenda a ís ica eio a ence a uma sé ie de sa có agos mais pe sonalizados, mais imposi i os e de maio elação com a ida quo idiana das comunidades eligiosas que os albe ga am. A sepul u a dionisíaca e ela a in encionalidade de p oje a impac an es o mas de eligio egis, e elando-se como uma no a p opos a de p opaganda do pode mais e icaz, e iden emen e, do que as a cas lisas, sem es á uas jacen es e dispos as de encon o aos mu os nos á ios das ig ejas (Núñez Rod íguez 2001: 95). Cons i ui, de ac o, a p imei a ilus ação da endência pa a o gigan ismo das a cas e dos co pos que i á a dis ingui a umulá ia nacional na e a de T ezen os – o monumen o dionisíaco dis ancia-se, po exemplo, das dimensões que possuem os da amília eal ancesa, concebidos em p opo ções mais humanas e p óximas do eal (Fe nandes 2011: 76-77). Em elação à iconog a ia da a ca, sem en a em po meno izações que ul apassam o obje i o de con ibui pa a a in e p e ação das alusões p esen es nos ex os de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga, con ém a en a nalguns aspec os ela i os às qua o aces, ao p óp io co po jacen e e aos supo es. Nos dois lados maio es e num dos meno es ep esen am- 442 Ma ia Isabel Mo án Cabanas / Uni e sidade de San iago de Compos ela Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 se monjas e monges cis e cienses, a maio ia dos quais segu am li os e apa ecem em posição on al, obse ando-se uma le e o ção nas cabeças que ainda se conse am pa a suge i a ideia de um diálogo en e odos eles. Os eligiosos des a O dem e elam-se, assim, como os se es em que mais con ia o ei pa a a gua da dos seus es os e pa a a in e cessão no Céu em p ol da sal ação da alma. Po sua ez, na cabecei a, assis e-se a duas cenas ela i as ao cump imen o dos sac amen os e à conseguin e p epa ação da boa mo e: peni ência / con issão e comunhão, lemb ando-se de al modo a esponsabilidade inal ace ao Além e a exempla idade mo al do sobe ano. P ecisamen e na p imei a, que deco e no in e io de uma ig eja, pode e -se uma igu a ajoelhada que es e uma longa única e man o e po a uma co oa na cabeça. T a a-se, com e ei o, da ep esen ação de D. Dinis, cujo os o apa ece colocado de en e pa a pe mi i uma melho iden i icação e cujas mãos se mos am es endidas na di eção de uma segunda igu a com hábi o cis e ciense, pois “mo e bem e a ão necessá io aos eis como go e na bem” (Fe nandes, 2011: 81). Po ém, é sob e udo o mau es ado de conse ação do co po jacen e que chama á a a enção do b asilei o Guilhe me de Almeida quando isi ou o úmulo em 1933, apesa de e sido decla ado Monumen o Nacional duas décadas an es. A insa is a ó ia si uação de al pa imónio é deco en e não apenas do e amo o de Lisboa em 1755, mas de um malsucedido es au o de gesso em con a o com e o que se le ou a cabo no século XIX, o qual p o ocou a oxidação do ma e ial e supôs uma g ande adul e ação imagís ica, icando apenas pequenos agmen os do colo, dos pés e do os o na sua e são o iginal. Aliás, uma ci cuns ância análoga se e idencia nos a ibu os da escul u a, pois al am elemen os como a espada, que oi subs i uída po um esquisi o ges o de segu a a pon a de um man o não elabo ado pelos a is as medie ais – e, jun o com es e, ou os exe cícios de in enção com aços ca a e ís icos de Oi ocen os ie am a des i ua a on ade do ei sob e a sua ep esen ação. Como e emos, Guilhe me de Almeida u iliza á a sua pena n´O Meu Po ugal pa a denuncia al abandono com uma a i ude con es a ia e ei indica i a que nos dias de hoje ganha oda a a ualidade, pois o úmulo es á nes e momen o a se obje o de um no o p ocesso de es au ação que se iniciou em 2016 e se in eg a num p oje o de in e enção ge al do mos ei o. Foi p ecisamen e nessa ci cuns ância que se ab iu a a ca e se ez a p imei a exumação de um mona ca luso com is as a um es udo o ense que p omo eu a Di eção-Ge al do Pa imónio Cul u al e a Câma a Municipal de Odi elas, descob indo-se a espada o iginal e iniciando-se um in enso deba e a ní el mediá ico no ocan e a medidas e esponsabilidades polí icas e ins ucionais (Rossi Vai o 2018: 299-300). No que diz espei o aos supo es, enha-se em con a que es es cons i uíam espaços p i ilegiadamen e abe os à imaginação e c ia i idade na a e medie al, sendo amiúde deco ados com leões, u sos ou c ia u as an ás icas que eme em pa a a unção de de esa do co po ali deposi ado. No caso que nos ocupa, des aca-se a cena em que um u so a aca um homem es ido de a madu a, a qual em sido associada à lenda sob e a mo i ação da edi icação do mos ei o. Segundo a adição, D. Dinis manda ia le an á-lo em cump imen o de uma p omessa ei a quando esul ou e ido po um co pulen o u so já conhecido na egião du an e uma caçada na eguesia de São Ped o de Belmon e. Pe an e a a lição, eco e ia a São Luís, Bispo de Tolosa, que lhe apa ece ia e lhe di ia que i asse o punhal e o c a asse na 443 Pe an e o úmulo do ei D. Dinis: as isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 e a. Ou as in e p e ações em cha e alegó ica êm sido, ainda, o muladas pelos es udiosos, mas, em quaisque dos casos, assis imos ao iun o do elemen o ma a ilhoso sob e a e dade ac ual. Aliás, ainda an es de analisa as imp essões dos dois au o es em oco nes e es udo, de emos lemb a , necessa iamen e, as exp essas po Almeida Ga e , p es igioso p ecu so da ei indicação e sal agua da do pa imónio a ís ico nacional po ia li e á ia. No p eâmbulo da sua Ly ica de João Mínimo (1829), assis imos a um passeio em Odi elas, onde ai encon a o sepulc o égio desas osamen e abandonado e emplas ado, desaba ando nuns e mos c í icos e a é exace bados que ecoa ão com o ça nos ex os po uguês e b asilei o do século XX. 3.2. O c onis a exilado e pe eg ino Guilhe me de Almeida O esc i o paulis a isi ou o mausoléu du an e a sua es ada de á ios meses como exilado em Po ugal, onde oi ecebido como um dos maio es poe as da língua, de ido à sua de esa da causa cons i ucionalis a, que ez com que se alis asse como soldado na e olução de 1932 con a a p esidência de Ge úlio Va gas. E, ao longo desse empo, esc e eu uma sé ie de in e b e e c ónicas pa a a imp ensa b asilei a que pos e io men e se iam ecolhidas e publicadas no olume O meu Po ugal. C ónicas de um des e o, cujo í ulo se p eocupa em explica nas p imei as páginas. Nelas quali ica o país que o acolheu como “o amigo ce o do momen o ince o” e a é se de ém em ap eciações mo ológico-semân icas pa a jus i ica a an eposição do de e minan e possessi o meu, que “apenas se dá ao que se que an o quan o a si mesmo” (Mo án Cabanas, In an e 2016: 79). Quando o exilado desemba cou na capi al po uguesa, es a ab iu-se pe an e os seus olhos como uma janela abe a, simul aneamen e, ao p esen e, ao u u o e ao passado. E, a pa i daí, inicia uma iagem a luga es mais ou menos p óximos, sen indo-se, con o me as suas p óp ias decla ações, epos o nas suas o igens e ime so num p ocesso de ecupe ação, enascimen o, es i uição, ein eg ação... Eis, de ac o, como e le e sob e o p e ixo “ e-”, que se ê ob igado a u iliza uma e ou a ez: Começou a apa ece e eimosamen e coloca -se an es de cada pala a, que eu sen ia, pensa a ou dizia, es e p e ixo: ‘RE’. Semp e, insis en emen e, an epunha-se a odas as minhas exp essões, des i ginando odas as minhas imp essões, a pa ícula pequenina que az a gen e ol a a ás no empo e no espaço, a sílaba ascan e e b usca que dá ‘ma cha à é’ à ida que se ai i endo... Tudo e a epe ição, eincidência, ep odução, enascimen o, epe cussão. Um cola de ‘ ep ises’... Em ez de e , eu e ia; em ez de i e , eu e i ia. Pa ecia que, epos o na minha o igem, como que epa iado, quem sabe se ei indicado po quem oi meu dono, al ez es i uído a um emanescen e de mim mesmo (Mo án Cabanas, In an e 2016: 82). Nas páginas d´O Meu Po ugal e idencia-se logo o in e esse que despe a am em Guilhe me de Almeida as lei u as da lí ica medie al. Di e sos elemen os, pe sonagens e agen es do espe áculo o ado esco são ali e e idos sob uma au éola de mi i icação que se associa à p ocu a das aízes mais i ais do po o na sua his ó ia o icial ou o iciosa, p oje ando-as ín ima e c i icamen e. Assim, na c ônica edigida ao pé do umulo de D. 450 Ma ia Isabel Mo án Cabanas / Uni e sidade de San iago de Compos ela Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 PACHECO, Mil on Ped o Dias (2022): “Nos e i ó ios do Rei. A mo adia eal de D. Dinis no e mo de Lisboa”, João Luís Fon es e Luís Filipe Oli ei a (eds.). Os e i ó ios da Lisboa medie al. Lisboa: Ins i u o de Es udos Medie ais, 139-186 [h p://hdl. handle.ne /10362/146070; 13/09/2023] PESSOA, Fe nando (1985): Mensagem. Lisboa: Clássica. PIMPÃO, Júlio da Cos a, ed. (2000): Os Lusíadas [de] Luís de Camões. Lisboa: Ins i u o Camões. PINA, Rui de (1945): C ónica de D. Dinis. Po o: Li a ia Ci ilização. PORTELA YÁÑEZ, Cha o, DÍAZ PARDO, Isaac (1997): Epis olá io [de] Valen ín Paz- And ade. Sada: Edicións do Cas o. Po ugalia Monumen a His o ica (1856): Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa: I, 199- 200. 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Dinis: as isi as de Guilhe me de Almeida e Miguel To ga Es udios Románicos, Volumen 33, 2024, pp. 435-451 Ge al de Ga cia de Resende, sob e la que ealizó su Tesis Doc o al y publicó a ios lib os y a ículos. Asimismo, p es ó una pa icula a ención a las elaciones li e a ias de di e sas épocas en el ma co ibé ico y en la luso onía, pa icipando en p oyec os au onómicos, nacionales e in e nacionales. En es e sen ido, es coau o a de monog a ías sob e u as li e a ias del o ado ismo gallego-po ugués, la se monís ica del pad e An ónio Viei a, el diálogo eu opeo de Má io Ma ins o el exilio de Guilhe me de Almeida. En la ci ada uni e sidad di ige GRAALL, cód.1353 - G upo de Análise de Aspe os Linguís icos e Li e á ios na Luso onia [h p:// .usc.gal/mmobj/index/id/4043] Fecha de en ío: 03-10-2023 Fecha de acep ación: 15-11-2023