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Sou neta de D. Dinis: leitura e interpretação da voz feminina das cantigas medievais na obra de Natália Correia

Morán Cabanas, Maria Isabel

Abstract

Foi nos finais da década de 60 e inícios da seguinte que Natália Correia iniciou um empenhado e ousado programa de divulgação da lírica galego-portuguesa, cujas linhas e estratégias são identificadas e analisadas no presente estudo. Para além da elaboração de antologias de poesia medieval (com propostas de versões atualizadas e introduções que focam sobretudo as representações da mulher sob um prisma ginecocrático), destaca-se a inclusão de cantigas noutras compilações que dedicou a diferentes períodos, sempre com vistas a mostrar continuidades e rupturas com os primórdios da literatura em língua vernácula. Dessa campanha fizeram parte também as dedicatórias rimadas e epígrafes de versos dos Cancioneiros em diversas obras da sua autoria e, naturalmente, a prática neotrovadoresca, cujo ensaio culminou nas Cantigas de amigo (1990). Aliás, tal zelo projetou-se nas gravações das suas próprias declamações com célebres poetas e cantores (entre eles, Amália Rodrigues ou Vinicius de Moraes).

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Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 293 SOU NETA DE D. DINIS: LEITURA E INTERPRETAÇÃO DA VOZ FEMININA DAS CANTIGAS MEDIEVAIS NA OBRA DE NATÁLIA CORREIA SOU NETA DE D. DINIS: READING AND INTERPRETING OF THE FEMALE VOICE OF MEDIEVAL SONGS IN THE WORK OF NATÁLIA CORREIA Maria Isabel Morán Cabanas1 Universidade de Santiago de Compostela [email protected] Resumo: Foi nos finais da década de 60 e inícios da seguinte que Natália Correia iniciou um empenhado e ousado programa de divulgação da lírica galego-portuguesa, cujas linhas e estratégias são identificadas e analisadas no presente estudo. Para além da elaboração de antologias de poesia medieval (com propostas de versões atualizadas e introduções que focam sobretudo as representações da mulher sob um prisma ginecocrático), destaca-se a inclusão de cantigas noutras compilações que dedicou a diferentes períodos, sempre com vistas a mostrar continuidades e rupturas com os primórdios da literatura em língua vernácula. Dessa campanha fizeram parte também as dedicatórias rimadas e epígrafes de versos dos Cancioneiros em diversas obras da sua autoria e, naturalmente, a prática neotrovadoresca, cujo ensaio culminou nas Cantigas de amigo (1990). Aliás, tal zelo projetou-se nas gravações das suas próprias declamações com célebres poetas Abstract: It was in the late 1960s and early 1960s that Natália Correia undertook a committed and daring program to divulge Galician-Portuguese lyricism, whose lines and strategies are identified and analyzed in this study. In addition to the elaboration of anthologies of medieval poetry (with proposals for updated versions and critical introductions that mainly address the representations of women from a gynecocratic perspective), her inclusion of songs in other compilations that she dedicated to different periods stands out – in fact, its aim is to show continuities and breaks with the beginnings of literature in the vernacular language. Also part of this campaign were rhymed dedications or single quotes of verses from Cancioneiros in various works of her authorship and, naturally, the practice of néotroubadourisme, whose essay culminated in Cantigas de amigo (1990). By the way, such interest was projected in recordings of her own declamations with famous poets and 1 Professora Titular de Literatura Portuguesa no Departamento de Filologia Galega da Universidade de Santiago de Compostela. Dedica-se principalmente ao estudo dos períodos medieval, renascentista e barroco e à revisitação destes na contemporaneidade. Apenas para citar algumas publicações dos últimos cinco anos, cabe lembrar a edição, junto com U. Infante, de O Meu Portugal [de] Guilherme de Almeida (2016) ou artigos e capítulos de livros como “O retrato descortês das damas no Cancioneiro Geral”, “A gangorra d e Castela no Cancioneiro Geral”, “São Francisco domo figura exemplar no Cancioneiro Geral”, “Liturgia e cor amarela no Cancioneiro Geral: ainda para una interpretação em chave criptojudaica de Bernardim Ribeiro?, “O médico na berlinda: transmissão do "novo" diálogo castelhano-português do Doutor Miranda (Li sboa, 1 562)” e “A propósito de momo e corpo carnavalesco…”. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 294 e cantores (entre eles, Amália Rodrigues ou Vinicius de Moraes). Palabras clave: Natália Correia; cantigas; mátria. singers (for example, Amália Rodrigues or Vinicius de Moraes). Keywords: Natália Correia; medieval songs; mátria. 0. A revisitação da produção trovadoresca ocupa um lugar de especial destaque na extensa obra de Natália Correia, tornando-se objeto de um apurado programa de divulgação e revitalização sob várias perspetivas2. O interesse da açoriana perante tal património não só fica evidenciado no âmbito dos seus ensaios sobre história e crítica literárias, mas também no da sua própria criação rimada, para a qual procura e seleciona fontes de inspiração a partir de um entusiasmado olhar sobre as origens. Acreditando firmemente no papel transformador da tradição, empenhou-se em demonstrar a efervescência revolucionária que contém a cultura transmitida pelos poetas da Idade Média. Embora na sua trajetória autoral se destaque a vontade de marcar um posicionamento livre, longe de qualquer coesão grupal e refractário à submissão apass ivante de escolas (“Não sou ovelha de nenhuma igreja” , declara, de facto, em entrevista concedida ao jornal Expresso no dia 2 de fevereiro de 1991), facilmente se descobre uma consciência programática na sua aproximação das cantigas medievais. A leitura e interpretação que Natália Correia fez do passado não responde a posicionamento conservador perante uma linhagem literária, mas ao intuito extrair da tradição literária um material de prestígio e autoridade que possa ser utilizado ao serviço da legitimação de uma série de reivindicações que implicam atitudes de rebeldia, insurreição e heterodoxia. O seu diálogo com as composições trovadorescas fica longe de ser fortuito e efémero, tornando-se uma via privilegiada para desvendar valores marginalizados e silenciados ao longo do tempo pelos poderes estabelecidos3. Apela ainda ao direito de apropriação, aproveitamento e divulgação das vozes medievais femininas que se exprimem em galego-português 2 As pesquisas levadas a cabo para o presente estudo ligam-se ao projeto Voces, espacios y representaciones femeninas en la lírica gallego-portuguesa (PID2019-108910GB-C22) financiado pelo Ministerio de Ciencia e Innovación [I.P. Esther Corral Diaz, Universidade de Santiago de Compostela]. 3 MARTINHO, Fernando J. B. Tendencias dominantes da poesia portuguesa da década de 50. Lisboa, Colibri, 1996, p. 75. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 295 como herdeira direta dos s eus criadores. Filiação poética e “conterraneidade” são, com efeito, elementos referidos explicitamente como avais que lhe permitem levar a cabo um projeto de exploração e resgate da lírica galego-portuguesa, como proclama nos Poemas (1955): “Sou filha de marinheiros / pelo mar que tamb ém quis. / Pela linha da poesia / sou neta de D. Dinis4. Na verdade, o plano traçado por Natália Correia com vistas à divulgação da lírica medieval materializa-se através de cinco vias: 1. A organização de antologias de trovadores e jograis com edição, estudo introdutório e notas; 2. A inclusão do lirismo trovadoresco em florilégios dedicadas a outros períodos, pondo de relevo a transtemporalidade ou sobrevivência dos seus valores éticos e estéticos na história da literatura; 3. A citação de cantigas de forma avulsa em poemas redigidos em diversos moldes ao longo de toda a sua carreira poética; 4. A criação de versos de teor neotrovadoresco, prática que culmina na publicação da série Cantigas de Amigo, com a qual se encerra estrategicamente o volume da sua poesia completa; 5. A discografia que recolhe a colaboração da autora em gravações de cantigas com a sua própria voz. Repensar as origens surge como necessidade e caminho, como ato que não só supõe o reforço da identidade nacional, mas também a salvaguarda dos elos com as nações que falam a nossa língua, apelando à construção de uma comunidade cultural que integre a lusofonia pluricontinental, com vivências historicamente diferenciadas. Tais primórdios literários fazem parte, no corpus nataliano, de um conjunto de arquétipos recorrentes em que também se integram D. Sebastião, o Desejado (símbolo da resistência e esperança), ou Inês de Castro (paradigma da paixão e do amor post mortem). Aliás, o empenho em sublinhar o apego às suas raízes não se mostra desvinculado da apologia que faz da ibericidade e atlanticidade na linha de autores como Antero de Quental ou Miguel Torga5. A autora insiste, com 4 Para todas as transcrições dos versos de autoria da própria Natália Correia seguimos o volume da Poesia completa. O Sol na noite e o luar nos dias. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 61. 5 Natália Correia explica, de facto, que “ Logo no d es pontar do nosso lirismo nel e se reúnem os três constituintes da cultura portuguesa. Predominam naturalmente nessa fase pré-expansionista a interioridade que se manifesta no ruralismo da cantiga de amigo e o foro mediterrâneo trazido na mística amorosa do provençalismo que refinámos numa sentida efusão. E já o mar faz avançar os seus direitos no maldito sea el mar / que mi faz tanto male de Rui Fernandes, nas barcas que El-rei Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 296 efeito, na dilatação continental e no impulso oceânico como factores determinantes da cultura nacional, inserindo o património literário medieval no espaço da unidade luso-galaica e de toda a lusofonia e conferindo-lhe, como veremos nas considerações que expomos a seguir com base nalgumas das suas obras mais representativas, uma dimensão de liberdade e porvir. 1. Quanto à primeira das vias mencionadas, o florilégio Cantares dos trovadores galego-portugueses, publicado em 1970, reúne até trinta e seis autores e setenta e duas composições com indicação de género e localização no Cancioneiros. Note-se que, tratando-se de um livrinho de bolso, a seleção de textos aparece especialmente condicionada pelo factor da brevidade, daí a advertência dirigida ao leitor não especialista de que tal elenco não pretende esgotar, de modo algum, as preciosidades registadas nas fontes manuscritas. O mapa de leitura proposto, ao colocar lado a lado o texto original e a adaptação ou tradução diacrónica e endolinguística no sentido jakobsoniano, não procura tirar entidade representativa à elaboração medieval, mas criar um efeito de perspetiva por meio do confronto entre dois estádios da mesma língua poética6. Sob uma orientação pedagógica que visa chamar a atenção do grande público, Natália Correia pretende ensinar e explorar a fruição das cantigas galegoportuguesas, conforme o tópico horaciano do prodesse et delectare. A necessidade de tornar possível uma leitura que se opere em função da atmosfera específica da produção trovadoresca leva-a a manifestar o seu compromisso de fidelidade com o seu esquema formal, padrão estrutural, tom e estilo. E, de facto, justifica essa metodologia de divulgação através da conciliação entre legibilidade nos dias de hoje e manutenção da versão primitiva, explicando que, se podem ser consideradas de Portugal manda lavrar e nas frores que briosas van en o barco do trovador-almirante Pay Gomes Charinho” (Idem. Somos todos hispanos. Lisboa: O Jornal, 1988, p. 8). 6 Idem. Cantares dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 1970., p. 50. Quanto a esse modo de proceder com finalidade divulgativa, pode consultar-se, entre outros, ZENITH, Richard. A tradução das cantigas medievais ou a arte de saber perder. Colóquio-Letras, Lisboa, n. 123/133, p. 520, 1994. E, no que diz respeito ao caso concreto de Natália Correia, devemos remeter para FOURRIER, António. “Natália Corr eia e a tr adução da lírica trovadoresca galego-portuguesa”. In MENESSES, Paulo. (Org.). Sobre o Tempo. Colóquio da Secção Portuguesa da AHLM, 3, 2001, Ponta Delgada. Actas...Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 2001, p. 377-406. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 297 legítimas as transcrições em prosa que tornem explícito o conteúdo dos poemas, com mais razão caberá aceitar a transposição lírica para a contemporaneidade. Persegue-se, pois, a legitimação de um labor de mediação em prol da inteligibilidade e captação da essência poética. A açoriana, consciente de estar, em certo maneira, a infringir um dogma, até sente a necessidade de se defender das previsíveis criticas do círculo académico nos seguintes termos: “Para alguns será um alarme esta ini ciativa de dar acesso à nossa poesia medieval mediante uma actualização que transgride as regras da vigilância erudita que a monopoliza”7. Na verdade, o objetivo de salvaguardar os traços relativos a modos, cenários e emoções com que os versos da Idade Média foram criados guia sempre a responsável pela mencionada antologia. E, com efeito, nas linhas prologais sublinha-se a indispensabilidade dos estudos filológicos e da erudição histórica como apoio para a fixação do texto e o fornecimento de dados biobibliográficos. Insiste na sua auto-exigência e chega mesmo a reconhecer que teve de excluir da sua seleção certas cantigas cuja interpretação tem sido alvo de extraordinárias polémicas devido à insatisfação que sentiu perante os ensaios de adaptação que levou a cabo. A autora em questão procura uma difusão mais ampla da lírica medieval para uma compreensão transtemporal e integral das literaturas lusófonas também na organização das Trobas d´el Rey D. Denis, vindas a lume nesse mesmo ano de 1970 e em cujo estudo preliminar se põe especialmente de relevo o papel do monarca como agente cultural: poeta; mecenas do trovadorismo; estimulador da tradução de obras latinas, castelhanas e árabes; incentivador da redação de documentos judiciais em língua vernácula e fundador dos Estudos Gerais ou Universidade em 12908. E, ainda, a autora insiste aqui na sua consideração como referente ou paradigma do lirismo provençal entendido como um movimento de rebeldia contra uma sociedade teocrática que se deseja substituir por outra que venere e canta o amor humano (ora a partir de uma contemplação masculina alicerçada na vivência masoquista da dor ora através das emoções que a mulher se atreve a sentir e declarar abertamente). 7 CORREIA, Natália. Cantares dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 1970. p. 49. 8 Idem. Trobas d´el Rey D. Denis. Barcelos: Editora do Minho, 1970. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 298 2. Em relação à segunda via de divulgação, temos de lembrar que, já quatro anos antes da mencionada seleção dionisíaca, tinha saído do prelo a sua arrojada Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica pela Afrodite. Lembremos que o diretor de tal selo, Fernando Ribeiro de Mello, se tornou mesmo o “ editor maldito” por excelência no contexto sociopolítico da última década da ditadura portuguesa como responsável pela publicação desse e doutros livros tão polémicos como o Kâma-Sûtra-Manual do Erotismo Hindu ou A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade9. Natália Correia compila aí textos de autores de todos os tempos, da Idade Média até à atualidade, incluindo tanto nomes célebres da história da literatura como outros menos conhecidos que nos impressionam pela sua irreverência perante a moralidade oficial. A ousadia de tal obra acabou mesmo por levá-la a julgamento por ultraje aos “bons costumes”, sendo condenada em tribunal plenário. A edição princeps foi apreendida de imediato pelo aparelho censório, acabando por sair apenas uma segunda pirata no Rio de Janeiro e, por fim, uma terceira em Lisboa, preparada conjuntamente pelos selos Antígona e Frenesi no ano de 1999. Nas suas páginas introdutórias encontramos algumas breves reflexões sobre a história da literatura erótica com alusões concretas à cultura trovadoresca, à sua relação com a Igreja e ao seu espírito revolucionário. E ainda se remete ali o leitor para as observações de cariz antropológico formuladas por estudiosos quanto ao carácter maldizente e escarninho do homem português, evidenciado linguística e literariamente na impressionante riqueza terminológica, no pecúlio adjetival e dinamismo metafórico das cantigas satíricas. Em tal corpus o elemento obsceno torna-se focalizado a partir da chamada de atenção sobre um corpo que é representado na sua nudez e do qual se destacam, em tom licencioso, as partes baixas, os orifícios e as proeminências, assim como as atividades sexuais tanto em sentido heterocomo homossexual10. 9 Sobre a sua amizade e colaboração com Natália Correia e outros intelectuais lusos, contendo depoimentos e textos inéditos que nos ilustram sobre o seu combate à censura e perseguição policial, as quais lhe valeram sucessivas condenações e proibições, veja-se MARQUES, Pedro Piedade. Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite. S. l: Montag, 2015. 10 CORREIA, Natália. Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Lisboa: Antígona, 1999, em cujo prefácio se trazem à colação as palavras de Carolina Michaëlis de Vasconcelos relativas à sua abordagem das cantigas de escárnio e maldizer dos Cancioneiros medievais e ao seu compromisso Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 299 Marcada por uma personalidade polémica e vigorosa, lembremos igualmente que Natália Correia seria também processada pela sua responsabilidade como diretora literária nos Estúdios Cor em 1972, onde se publicaram as Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta (as “três Marias”), consideradas pela cens ura da época como pornográficas e atentatórias da moral pública por apresentar uma mulher fora dos moldes impostos e a abalar as convenções vigentes. Embora tivesse sido instada a amputar partes do livro, manteve-se na ideia de o editar na íntegra, o que provocou os interrogatórios da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e os inícios de um julgamento que, depois de vários incidentes e adiamentos, não se levaria a cabo devido à Revolução de Abril de 1974 ou Revolução dos Cravos. A obra apresentava-se como um libelo contra a ideologia dominante no chamado Estado Novo, denunciado a violência, o sistema judicial, a guerra colonial e a precariedade da situação social da mulher. E, precisamente com poemas alusivos à figura feminina e da autoria dos mais diversos autores e períodos, incluído o trovadorismo galego-português, saiu do prelo, em 1973, a Mulher: Antologia Poética11, por ela coordenada e acompanhada de um prefácio com indicação dos critérios e das linhas orientadoras do florilégio. 3. Por outro lado, até na reflexão teórico-crítica e antologia da produção do Barroco, Romantismo ou Surrealismo, Natália Correia empenha-se em demonstrar o valor da lírica medieval como prefiguração anunciadora das linhas de forças ideológicas e estéticas que se projetam nestes períodos. Assim, a propósito do primeiro, lembra o seu afastamento da tradição apolínea greco-latina e da execução do génio lógico que nele tem lugar. Nas suas palavras, “o Barroco liberta as forças do irracional, do nocturno, do mágico e do fantasmal, a fim de surpreender uma de sacrificar preconceitos sempre que estiver em causa apurar a verdade, não evitando as obscenidades que tão desafogadamente ocorrem em tal género – rende-se assim homenagem à investigadora germano-lusa e agradece-se-lhe a coragem de afrontar uma discrição exigida à “feminilidade” pelo idealismo patriarcal. 11 Idem. Mulher: Antologia Poética. Lisboa: Estúdios Cor, 1973. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 300 cosmicidade que a direcção racion alista não atin ge”12, apontando mesmo para a presença de uma força mágico-transformadora que vem condizer com certos elementos do espírito ritualístico das cantigas galego-portuguesas, sobretudo no que diz respeito ao âmbito dos géneros de amigo e de escárnio e maldizer. Quanto às suas aproximações da literatura romântica, a açoriana remete, entre outras questões, para a sublevação contra a potestade marital a que se assiste na expressão de um amor cortês que é tanto natural como convencionalmente adúltero. Sob uma perspetiva heterodoxa, põe o seu ênfase numa duplicidade erótico-tanatológica que implica a destruição da virilidade, ou melhor, das feições típicas que esta adota e que não encontram justificação no seio de um cultura matrista. Aliás, cabe sublinhar que é sobretudo no ensaísmo histórico-literário onde Natália Correia estabelece um diálogo entre trovadorismo galego-português e outras manifestações poéticas, trazendo à colação formulações conceituais como matrismo, patrismo ou bissexualidade psicossocial. Nesse sentido, torna-se pertinente lembrar aqui um texto pouco conhecido em que liga, de modo especialmente polémico, precursor e surpreendente, bissexualidade e ruptura romântica. Publicado no interior de um volume coletiva sobre sexologia do ponto de vista físico, médico, psicológico, social e cultural que veio preencher um vazio bibliográfico existente no país ainda nas décadas de setenta e oitenta do passado século, exprime a tese de que a ideia de mátria constrói-se sobre uma lógica diferente da de pátria: uma, por via materna, viria implicar uma relação em termos afectivos; a outra, por via paterna, remeteria sobretudo para uma construção social. A açoriana, com base na tese defendida por Rattray Taylor na obra O Sexo na História, distingue dois sistemas diferenciados de comportamento. O matrismo, que apresenta as seguintes características: religião da mãe, liberdade em questões sexuais, democracia, posição privilegiada da mulher que goza de liberdade, progressismo, pouca diferença entre os dois sexos, etc… e o patrismo, mar cado pela intolerância em matéria de sexualidade, pelo autoritarismo 12 Idem. Antologia da poesia do período barroco. Lisboa: Moraes, 1982, p. 30. Para uma aproximação particularmente esclarecedora dos assuntos em foco, consulte-se PEREIRA, Paulo Alexandre. Uma “arqueolo gia produtiva”: Natália Correia e tradição trovadoresca. In Presenças do Régio. 8º Encontro de Estudos Portugueses. Aveiro, 2000. Actas... Aveiro: Universidade de Aveiro, 2002, p. 113-126. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 301 político, pelo conservadorismo, pela inferioridade da mulher considerada fonte de pecado pelo ascetismo, pelo horror do prazer por toda uma gama de intolerâncias que se manifestam na religião do pai13. Aliás, na antologia O Surrealismo na poesia portuguesa, Natália Correia faz com que autores contemporâneos como Mário Cesariny, Alexandre O´Neill ou Pedro Oom partilhem espaço com agentes da lírica medieval, traçando também aí um continuum alicerçado tanto na imagística e os ilogismos que singularizam o universo quotidiano das cantigas de amigo e o refinado das cantigas de amor, quanto na sobrevivência da tendência para o humor negro das composições satíricas. E define essas, de facto, como uma “bom ba no mecanismo repressivo do t empo, demonstrando que pela alta magia da vontade o homem é capaz de transformar o não-prazer em prazer”14. Na verdade, no desempenho de todo o seu labor de divulgação poética e cultural, Natália Correia não deixou jamais de atentar na capacidade intrínseca de trovadores e jograis como campo predileto da sua inquirição, extravasando a cronologia balizada pela história literária orientada segundo parâmetros convencionais. 4. Por outro lado, na obra criativa da açoriana torna-se muito fácil comprovar como a pratica citacional se revela uma marca de dupla afirmação: literária e nacional, que ora se vincula à uma visão heróica ou panegírica ora possui uma intencionalidade crítica. Apenas para abonar algum caso particularmente 13 CORREIA, Natália. Bissexualidade e Ruptura Romântica na Poesia Portuguesa. In ALBUQUERQUE, Afonso. Sexologia em Portugal. Lisboa: Texto Editora, 1987, p. 41-46. Nessa mesma linha se manifesta a autora em bastantes outros casos de praxe ensaística relativas também à reivindicação da defesa do pensamento matrista como um novo modo de revisitar a literatura e a cultura portuguesas, passando em revista a vida das mulheres a través de diversos tempos e civilizações. Cabe destacar, entre outras, as reflexões recolhidas na Breve história da mulher e outros escritos. Ed. de Zheto Cunha Gonçalves. Lisboa: A. M. Pereira Livraria, 2003, uma coletânea que veio a lume acompanhada por um prefácio da já mencionada Maria Teresa Horta, cuja escrita em diferentes géneros literários supõe também um lúcido inconformismo e um exercício de subversão perante a apropriação do discurso do poder e da fruição durante séculos. Para uma aproximação da visão da mulher ligada a arquétipos sociais e universais e das suas representações na produção em prosa de Natália Correia que poderá servir para completar e enriquecer a sua interpretação no âmbito da poesia, consulte-se, por exemplo, DRIVER, Robin. Má(tria): mulher e monstruosidade na ficção em prosa de Natália Correia. Tese de Doutoramento defendida na Universidade de Lisboa em 2017. 14 CORREIA, Natália. O Surrealismo na poesia portuguesa. Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1973, p. 112. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 308 mulher e avessa, ale rgica a ideia de guerra e de conflito. A sua pro pria experie ncia maternal a predispo e contra a guerra. Da vida mas na o gosta de contribuir para a sua destruiça o24. Na segunda série das Cantigas de Amigo, a lamentação substitui-se pela alegria e os soldados respondem satisfatoriamente aos desejos. Focaliza-se o sentimento de gozo produzido pela paixão e a natureza mostra-se em pleno esplendor. Tudo convida euforicamente ao erotismo e as ações quotidianas assumem a categoria de rituais preparatórios e celebrativas do amor. A açoriana situa tal espírito de libertação no contexto histórico da mencionada Revolução dos Cravos que a ela própria lhe tocou viver, atribuindo-lhe aos versos uma função intervencionista do ponto de vista social e político. O amigo identifica-se agora com um agente e mensageiro de boas notícias num cenário primaveril em que as flores (cravos vermelhos) substituem as balas no cano das espingardas como símbolo de esperança, paz, democracia e abertura para uma nova vida: Pelos campos primaveris Radiosos de aves e ervas Os soldadinhos gentis Por quem acendamos velas Trazem flores em vez de balas Para libertas as belas. Ferocidade ou fuzil. Não nos farão mais querelas Que os soldadinhos de Abril Com cravos domando feras Trazem flores em vez de balas Para libertar as belas. Amigas, com estes junquilhos Façamos frescas capelas. É Abril. E os soldadinhos Tomando o viço das relvas Trazem flores em vez de balas Para libertar as belas. 24 Apud SOUSA. António de. Entrevistas a Natália Correia. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004, p. 45. Uma reflexão sobre a procura de marcas matriciais pela figura em questão nas cantigas medievais e noutras expressões de diversos períodos da história literária encontra-se particularmente tratada em DIAS, Cristina de Jesus Espiguinha. A alma universal sob a libertação da escrita. Demonstração teórico-prática da unidade de sentido da obra literária édita e inédita de Natália Correia. Tese defendida na Universidade de Évora em 2018. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 309 Por estes campos floridos Sob os ramos das camélias Bailemos para os soldadinhos Que no mês das pastorelas Trazem flores em vez de balas Para libertar as belas25. Os “soldadinhos de Abril” portam a form osura das flores nas mãos e conseguem domar o sentimento da ira com o da beleza: “E a vitória da liberdade acompanhada do e xtase proporcionado pelo encontro pacífico entre os cidadãos depois de exaurido o Estado No vo”26. Nos poemas que acompanham o acima transcrito assiste-se a uma sacralizaça o do corpo, que será abrigado em espaços equiparados com recintos sagrados e animados com ingredientes erógenos como os banhos nas fontes e as danças sob as árvores em flor (avelaneiras, milgranadas ou roma zeiras e outras). Destaca-se ent ão um “hierofantismo feminino” que se baseia no culto afrodisíaco da deusa mãe: “ Entre as nuvens douradas pulcra e santa, / Inebriando de amor nossos amigos / Surja a Divina que no ardor da dança / Acende as cham as que queimam os vestidos”27. Evocando diversos cerimoniais simbólicos presentes nas cantigas medievais, na poesia de Natália Correia descobrem-se polifonias em que ressoam os versos de D. Dinis, Pero Meogo, Estévão Coelho e outros célebres nomes do trovadorismo: Ledo o meu amigo foi caçar no monte, Disseram-me as aves que o esperasse na fonte. Jovial o vento levou-me o vestido, Soltou-me o cabelo. E o resto não digo... Que o esperasse na fonte disseram-me as aves, A brisa movia as águas suaves. Jovial o vento levou-me o vestido, Soltou-me o cabelo. E o resto não digo... A brisa movia as águas na fonte, Logo sossegaram vindo ele do monte. Jovial o vento levou-me o vestido, Soltou-me o cabelo. E o resto não digo... 25 CORREIA, Natália. Poesia completa. O Sol na noite e o luar nos dias (Op. Cit.), p. 629. 26 PICOSQUE, Tatiana Aparecida. Op. Cit., p. 189. 27 CORREIA, Natália. Poesia completa. O Sol na noite e o luar nos dias (Op. Cit.), p. 630. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 310 Logo sossegaram as águas suaves, Vindo ele do monte, cantaram as aves. Jovial o vento levou-me o vestido, Soltou-me o cabelo. E o resto não digo...28 Tendo em conta que o alvo principal da nossa análise é a interpretação das cantigas em voz de mulher, não nos deteremos agora sobre um conjunto de composições satíricas datadas entre 1979 e 1991 que Natália Correia intitulou Cantigas de Risadilha e incluiu também no volume da sua poesia completa, as quais se destacam pelo seu alcance imediato e enraizamento circunstancial, político e/ou pessoal. Três delas tinham vindo já a lume sob o pseudónimo de Eufrásio Cuco no semanário humorístico O Bisnau, assim como outra, cujo alvo de chufas foi o deputado João Morgado, tinha sido divulgada antes no Diário de Lisboa sem o conhecimento prévio nem a autorização da autora29. E, nessa mesma linha, a açoriana compôs o Cancioneiro Joco-Marcelino, que veio a lume pela primeira vez no jornal político O Corvo com oito textos jocosos organizados à maneira dos ciclos que caraterizam o corpus medieval (o da Maria Balteira, o das amas, o da garvaia, o do jogral Lourenço...) como um “parodístico registo das traquiní cies”30. 5. Aliás, a colaboração de Natália Correia em gravações discográficas de cantigas de amigo (e doutros géneros) com a sua própria voz faz parte desse programa de divulgação do património lírico. Os textos ali interpretados foram previamente recolhidos e adaptados na antologia Cantares dos trovadores galegoportugueses, publicada alguns anos antes e analisada em páginas anteriores. Assim, no álbum Cantigas d´amigos (1971), deparamo-nos com várias versões de composições medievais de Bernal de Bonaval, Fernando Esquio, Afonso X, 28 Ibidem, p. 630. 29 Ibidem, p. 477-491. Lembre-se que a deno minação “cantigas de risabelha” aparece registada no capítulo V da única poética (Arte Poética ou Arte de Trovar) que conservamos, de forma fragmentária, sobre a nossa produção trovadoresca. Utiliza-se ali para definir as cantigas destinadas ao riso que “non son cousas en que sabedoria nen outro ben haja". E autora em foco qualifica os seus versos galhofeiros, de facto, como simples “desenfados p arlamentares”, brincadeiras e marcas deixadas pelo duende do humor (ou humor-amor) perante os mais diversos acontecimentos da época, tais como o debate à volta da lei contra o alcoolismo. 30 Ibidem, p. 561-566. Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 311 Mendinho, D. Dinis, Pai Gomez Charinho, Pero Meogo e bastantes outros, quer ditos pela açoriana ou por José Carlos Ary dos Santos quer cantados por Amália Rodrigues, com música original de Fontes Rocha (salvo “Ermida de São Simeão”, da responsabilidade de Alain Oulman). Na contracapa, o segundo dos declamadores mencionados explica com humor como surgiu a ideia de tal empreendimento em casa da célebre cantora de fados. Foi numa noite amena de convívio e entendimento que os poemas saíram das páginas do livro e ganharam voz; e, a partir daí, as sessões de gravação decorreram sempre num clima cordial. A pintora Maria de Lurdes Ribeiro, mais conhecida como Maluda, criou, por fim, a vistosa e colorida imagem da capa: Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas. Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos [Carlos Gonçalves], o Pedro [Pedro Leal] e o Joel [Joel Pina], ajudavam muito. E a Amália deulhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos. O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra. Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média31. Na génese de tal disco encontra-se um outro lançado sob o título Amália / 31 SANTOS, José Carlos Ary dos. Cantigas d´amigos (LP). Lisboa: Valentim de Carvalho, 1971 [contracapa]. Tenha-se em conta que Ary dos Santos, para além de versos e declamações, deixou redigidas inúmeras letras de canções para diversos artistas: Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, José Afonso, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho ou Simone de Oliveira. Nesse sentido, vale a pena lembrar um volume com um notável elenco das mesmas que pôde preparar ainda em vida, mas que saiu do prelo apenas postumamente, numa edição anotada e com introdução de Natália Correia, reatando, em certa medida, com a tradição jogralesca no seu espírito e nos temas abordados. Veja-se, de facto, SANTOS, José Carlos Ary dos. As palavras das Cantigas. Lisboa: Avante, 1989). Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 312 Vinicius, resultado também dos frequentes serões organizados na morada de Amália Rodrigues com artistas contemporâneos. Num desses encontros coincidiram o cantor brasileiro Vinicius de Moraes, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos e a partilha de ideias deu lugar a um trabalho em que, ao lado da anfitriã, intervieram todos eles com as suas vozes. Lembre-se que a açoriana interpreta ali, entre outras, uma das duas cantigas conservadas de Vidal, trovador de origem judaica, natural da cidade portuguesa de Elvas, “Faz-m´agora por si morrer” (B 1606, V 1139), atualizada como “Formos inha de Elvas”. Ela contribuiu, sem dúvida, para despertar em Amália Rodrigues o interesse em recorrer aos primórdios da cultura lusa e alargar horizontes e possibilidades interpretativas para o fado. E, com efeito, de tal empenho de divulgação nasceu também o ensaio musical Amália Canta Poesia Medieval Portuguesa (1968), coincidente no tempo com o que José Mário Branco (exilado então na França) realizou em Seis Cantigas de Amigo, para o qual também contribuíram os compositores Sérgio Godinho e Raymond Guyot. Outras atividades de gravação, com um maior ou menor número de interpretações de cantigas de amigo e em parceria com outras figuras das letras e da música ou de modo individual, foram empreendidas por Natália Correia naquela altura. Assim, enquanto declamações suas fazem parte dos discos Alegre eu ando (1972) ou Improviso (1973), lançado junto com António Victorino d´Almeida, a sua fala protagoniza integralmente Cantigas de amôr e de amigo dos trovadores galegoportugueses (1974). Embora algumas tenham sido reeditadas em datas recentes, a execução de todas essas recriações modernas e livres situa-se em finais dos anos sessenta e inícios de setenta do século XX, integrando a campanha de promoção e resgate da lírica medieval posta em boca feminina, reivindicando o seu valor como elemento fundamental do património nacional e da memória histórica. 7. Em conclusão, Natália Correia quis aproximar o fenómeno trovadoresco do público em geral, fazendo com que o seu conhecimento não se restringisse meramente aos círculos académicos e lançou mão (ousada e até polemicamente) de todas as vias possíveis com vistas a cumprir o seu objetivo. Nas cantigas de amigo encontrou um campo particular de exploração a partir da releitura e observação dos Revista Signum, v. 22, n. 2, 2021. 313 elementos que o conformam sobretudo no âmbito dos estudos de género, dos quais foi uma precursora em Portugal. Insiste na raiz de caráter matriarcal ou ginecocrático que possuem tais textos, identificando a mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional. Com apoio bibliográfico de cariz teórico-metodológico sobre assuntos amiúde postos na berlinda, tenta atualizar e recuperar os seus significados e valores. Submete tal produção a um crivo hermenêutico e afasta-se da perceção da lírica trovadoresca como fenómeno essencialmente homossocial, mesmo quando (e sobretudo) se fala das mulheres, até com o travestimento da sua voz. Na verdade, é notável o crescimento do cabedal bibliográfico e de projetos de investigação dos últimos anos sobre a escrita de Natália Correia desse ponto de vista, incluindo com bastante frequência reflexões acerca das recriações de perfil neotrovadoresco. Sirvam as nossas páginas sobre o desenho de linhas e estratégicas programáticas de promoção cultural para render uma sentida homenagem à memória sempre viva da professora e amiga Maria do Amparo Tavares Maleval, também ela pertencente à prole de D. Dinis pela linha do amor à poesia galegoportuguesa e pelo seu trabalho acerca de criações e recriações trovadorescas num e noutro lado do Atlântico. Artigo recebido em 03/12/2021 Artigo aceito em 15/12/2021