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A visão do professorado especialista em Educação Musical que atua em escolas regulares galegas sobre o ensino do canto na infância

Casal de la Fuente, Lucía

Abstract

Tentando encontrar os fundamentos que refletem “boas práticas docentes na didática do canto” na Educação Infantil, foi escutada a voz do professorado especialista em Educação Musical que atua em escolas regulares galegas na Educação Infantil (n=10). O objetivo deste texto é expor a voz deste coletivo com respeito à qualidade do ensino do canto na Galícia. Realizaram-se entrevistas para conhecer, a partir das suas opiniões, como é a didática do canto nas escolas galegas (a realidade) e como deveria ser (o ideal). A realidade indica que o ensino do canto nesta etapa é fundamental e o professorado tenta despertar no alunado o gosto pelo canto. As canções são aprendidas por partes e costumam ser cantadas coletivamente, sendo também usados desenhos para ajudar a interiorizar o texto de uma música, ou bolas para aprimorar a execução do ritmo. As principais dificuldades encontradas neste ensino são a curta duração das aulas e o elevado número de crianças por sala de aula; e as canções favoritas para trabalhar são as que têm temáticas a respeito de animais. O ideal, segundo o professorado, indica que o canto deveria ser conduzido trabalhando bastante a discriminação auditiva, promovendo a escuta ativa e motivando o gosto por cantar. O professorado ainda assinala a importância de se trabalhar diariamente a voz, evitando o grito e realizando exercícios de relaxamento, assim como incentivando a criação e improvisação de canções e o uso de instrumentos para o acompanhamento. As professoras e professores apontam a importância de que o professorado use sua própria voz, apresentando bons exemplos em dinâmicas de respiração, impostação vocal e articulação

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X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 A visão do professorado especialista em Educação Musical que atua em escolas regulares galegas sobre o ensino do canto na infância Lucía Casal de la Fuente Universidade de Santiago de Compostela [email protected] Comunicação Resumo: Tentando encontrar os fundamentos que refletem “boas práticas docentes na didática do canto” na Educação Infantil, foi escutada a voz do professorado especialista em Educação Musical que atua em escolas regulares galegas na Educação Infantil (n=10). O objetivo deste texto é expor a voz deste coletivo com respeito à qualidade do ensino do canto na Galícia. Realizaram-se entrevistas para conhecer, a partir das suas opiniões, como é a didática do canto nas escolas galegas (a realidade) e como deveria ser (o ideal). A realidade indica que o ensino do canto nesta etapa é fundamental e o professorado tenta despertar no alunado o gosto pelo canto. As canções são aprendidas por partes e costumam ser cantadas coletivamente, sendo também usados desenhos para ajudar a interiorizar o texto de uma música, ou bolas para aprimorar a execução do ritmo. As principais dificuldades encontradas neste ensino são a curta duração das aulas e o elevado número de crianças por sala de aula; e as canções favoritas para trabalhar são as que têm temáticas a respeito de animais. O ideal, segundo o professorado, indica que o canto deveria ser conduzido trabalhando bastante a discriminação auditiva, promovendo a escuta ativa e motivando o gosto por cantar. O professorado ainda assinala a importância de se trabalhar diariamente a voz, evitando o grito e realizando exercícios de relaxamento, assim como incentivando a criação e improvisação de canções e o uso de instrumentos para o acompanhamento. As professoras e professores apontam a importância de que o professorado use sua própria voz, apresentando bons exemplos em dinâmicas de respiração, impostação vocal e articulação. Palavras chave: Educação Infantil, Canto, Didática. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 Introdução A importância de recolher as melhores práticas1 educativas, que sejam úteis para o desenvolvimento das políticas educativas, foi indicada em diversas publicações de reconhecido prestígio (BIDDH; OSCE; HCDH; UNESCO, 2011; MELHUISH, 2004; BALL, 1994). Alguns programas emergentes como Start Right, Sure Start, Starting with Quality, Effective Early Learning ou Head Start estão de acordo na necessidade de se recolher boas práticas no campo educativo, tornando-as visíveis e passíveis de serem compartilhadas. Só assim é possível que estejam a serviço de quem tenha interesse em conhecê-las. Os programas mencionados recomendam esta estratégia como referência básica para a modernização da sociedade e para a aposta no futuro (ZABALZA, 2012). Dentro deste marco, foi planejado um projeto de pesquisa na Universidade de Santiago de Compostela, intitulado “Diseño Curricular y Buenas Prácticas en Educación Infantil: una visión internacional, multicultural e interdisciplinar2”, no qual colaboram nove universidades espanholas e outros grupos de pesquisa estrangeiros. O objetivo final deste projeto, ainda em desenvolvimento, é reunir cerca de 100 práticas educativas que se destacam na Educação Infantil em diversos pontos do mundo e colocá-las à disposição de toda a sociedade. Reunidos os critérios que têm em comum essas boas práticas, pode ser estabelecido um protocolo de atividades na Educação Infantil que poderia servir para orientar o professorado em todo o mundo, possibilitando práticas mais efetivas. Neste contexto, é razoável se adentrar nas nossas escolas e ver o que ocorre nelas. Dentro deste projeto maior surgiu um projeto específico na área de Educação Musical. Já que o professorado especialista em Educação Musical na Galícia parece não estar preparado para realizar seu trabalho corretamente, devido a insuficiências formativas (GILLANDERS, 2011; VICENTE, 2010; LÓPEZ, 2007), especialmente no que diz respeito à voz e ao canto; propus-me analisar como se trabalha o canto nas escolas, em contraposição com como se deveria 1 O termo foi traduzido do inglês (best practices). 2 Em português: “Desenho Curricular e Boas Práticas em Educação Infantil: uma visão internacional, multicultural e interdisciplinar”. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 trabalhar, de acordo com a opinião de especialistas. Assim, a pesquisa “A formación vocal na Educación Infantil3” foi realizada. Este texto está centrado em um dos grupos informantes sobre este tema que formou parte da amostra geral deste estudo. Objetivos O objetivo principal da pesquisa é identificar e entrevistar profissionais da Educação Musical da Comunidade Autônoma de Galícia para saber como se ensina a cantar na Educação Infantil (a realidade) e como se deveria fazer (o ideal). E o secundário, centrou-se em recolher a opinião do professorado especialista em Educação Musical que atua na docência da Educação Infantil nas escolas regulares galegas. Metodologia A amostra foi de caráter não probabilístico, pois foi indicada pelo professorado especialista em Educação Musical do Sistema Universitário Galego, considerado o grupo especialista e central da pesquisa. Através do julgamento de tais especialistas, identificaram-se docentes de outros setores que, de acordo com seu julgamento, são “exemplo de boas práticas no ensino do canto”. As pessoas que emergiram deste processo atuavam em diversas instituições formativas. Então, foram divididas em dois grupos: o primeiro grupo abrangia docentes de Educação Secundária, conservatórios e escolas de música galegas; o segundo grupo, docentes com a especialidade em Educação Musical que atuam em Educação Infantil em escolas regulares galegas. Este texto está centrado no segundo dos grupos. As técnicas de coleta de dados utilizadas foram a entrevista semiestruturada e a elaboração de auto relato. Às pessoas deste grupo foram feitas estas perguntas: como o canto é ensinado às crianças nas escolas galegas? Como deveria ser feito? Com a análise temática das ideias proporcionadas por cada pessoa, foram classificados e agrupados os resultados. Resultados 3 Em português: “A formação vocal na Educação Infantil”. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 Para este estudo atraiu-me conhecer como este grupo trabalha o canto na etapa da Educação Infantil, por estar composto por especialistas em Educação Musical que atuam diretamente nesta etapa. As suas declarações brotam da experiência profissional vivida em primeira pessoa. Entrou-se em contato com 14 profissionais da Educação Musical de escolas, tanto do âmbito privado como do público, mas não foi possível obter resposta de quatro pessoas desta amostra. Sobre o ensino do canto atual em Galícia, as opiniões do professorado entrevistado foram categorizadas. Estas categorias são: canto, canções, preparação prévia, metodologia/recursos, finalidade, professorado e alunado. Logo, segundo este professorado, a realidade poderia ser resumida da seguinte forma: Ensinar o canto na Educação Infantil é fundamental. Cantar aprende-se cantando, e na Educação Infantil adota-se cantar em grupo para evitar a inibição individual. As canções são adaptadas à tessitura do alunado, assim como que sintonizam com a temática que estejam trabalhando com a professora ou professor regente da turma. As canções são aprendidas por partes, por exemplo: é apresentada uma estrofe cantada para que seja repetida pelo alunado. Sobre a preparação prévia, há uma parte do professorado que afirma que não se adotam explicações sobre as medidas de higiene vocal, nem se costuma fazer aquecimento ou técnica vocal. No entanto, este professorado insiste em que cantar não é “berrar”, bem como considera importante cuidar da postura corporal. Outra parte afirma que nas aulas de Educação Infantil são trabalhados o relaxamento, a respiração e os vocalizes, práticas consideradas fundamentais. Quanto à metodologia e recursos, o professorado utiliza a sua própria voz para cantar e ensinar a cantar, transmitindo emoção, e, em algumas ocasiões, atende o alunado individualmente com respeito ao processo de educação vocal. Costuma-se acompanhar o canto com instrumentos musicais, com o fim de desenvolver a consciência do tempo e facilitar a incorporação do texto. São também usados desenhos que ajudam a recordar a letra da canção. Se as crianças desafinarem, o professorado as ajuda através do trabalho de escuta; e para a X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 interiorização do pulso são utilizados jogos com bolas, guizos ou chocalhos. Em algumas salas de aula, as crianças inventam suas canções. A finalidade de cantar na escola é despertar no alunado o gosto pelo canto, que aprendam a serem musicais, a criar e expressarem-se através da música. O professorado, em algumas situações, parece considerar o alunado como ouvinte passivo, fomentando a escuta passiva. Apoia-se na reprodução de melodias tocadas em outros instrumentos, como a flauta. Também são usados contos musicados como incentivo à prática da leitura. O professorado não obriga as crianças a cantar, sendo que, em geral, apresenta afinação de baixa qualidade. As principais dificuldades que este professorado enfrenta são o grande número de crianças por sala e o pouco tempo de aula (1 hora ou 50 minutos por semana). Quanto ao alunado, as e os especialistas indicam que as crianças não precisam de explicações prévias sobre o conteúdo das canções, sendo as preferidas as de animais. Sobre como deveria ser ensinado o canto, as opiniões foram organizadas em oito categorias: canto, canções, preparação prévia, metodologia, finalidades, professorado, grupoclasse e família: O canto deveria ser ensinado juntamente com a discriminação auditiva de instrumentos, sons ou vozes. As canções deveriam ser selecionadas atendendo ao interesse das crianças, evitando textos longos. A preparação prévia deve partir da realização de exercícios de relaxamento para que o alunado experimente calma e elimine tensões. Resulta fundamental o trabalho diário da voz com o objetivo de não deixar a criança gritar. A metodologia deveria estar enfocada na criação de canções e materiais musicais para o acompanhamento e na improvisação, tentando evitar o trabalho com “fichas4”, mas incentivando a execução de jogos de ritmo e a utilização de desenhos e dramatizações como 4 Na Galícia “fichas” são folhas de exercícios nas quais as respostas são direcionadas. Por exemplo: colorir o violão; colocar o nome das notas, etc. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 apoio à memorização do texto das canções, que não deve conter palavras muito complicadas. Os instrumentos ou bases instrumentais deveriam ser usados para apoiar a afinação; e as apreciações musicais deveriam ser usadas para promover a escuta ativa, tão importante na aprendizagem de canções. O desenho de jogos (que sempre tenham um conteúdo), com diferentes níveis de dificuldade, serviria para estimular a atenção, enquanto a sequência de conteúdos (como começar pela terça menor, etc.), não precisa ser rígida, pois as crianças podem cantar livremente. Também é necessário que se insista na diferenciação entre refrão e estrofes. As finalidades do canto deveriam ser orientadas para estimular o alunado a gostar de cantar e a ter prazer na aula de música. A maioria insiste que quando se canta por prazer também se aprende outros conteúdos. O professorado deveria utilizar sua própria voz para atrair o envolvimento do alunado e deveria ser um bom exemplo de respiração, colocação e articulação. Opina também que o ideal seria evitar algumas gravações de sucesso disponíveis no mercado galego, que embora dirigidas à infância, apresentam melodias extremamente graves. Dentro do grupo-classe há que aproveitar as virtudes daquelas crianças que têm melhores qualidades vocais, para que sirvam como exemplo para as demais. E no item família, argumentam ser necessário que as e os responsáveis procurem se informar sobre as questões relativas à saúde vocal das crianças e da necessidade de proporcionar-lhes um ambiente tranquilo, sem gritos. Discussão e conclusões Inicio esta seção analisando e comentando os resultados sobre a realidade da didática do canto na Educação Infantil na Galícia. Fica claro que proporcionar o gosto pelo canto na Educação Infantil é fundamental, pois melhora a criatividade e permite o desenvolvimento da personalidade íntegra e autêntica (DE FONZO, 2012). X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 O professorado percebe que cantar aprende-se cantando, mas isso não deve ser feito sem cuidados específicos. Parte da amostra pesquisada afirma utilizar e dar importância à técnica vocal, enquanto outra parte não valoriza tal aspecto. Parecem desconhecer a opinião de profissionais da medicina (MOLINA et al., 2006; QUIÑONES, 1997), que consideram que a voz importa, e que há necessidade de se ensinar alguns tópicos de técnica e educação vocal, ajudando na prevenção de doenças pelo mau uso da voz, e adequados aos níveis de desenvolvimento infantil. Ainda que há quem opine que deve haver uma sequência no ensino das canções, explicando passo a passo o que se fará; também existe a postura que sustenta não ser necessário explicar às crianças tudo o que irá ser feito. Mas parece haver consenso no que diz respeito à aprendizagem por repetição como forma for mais efetiva de ensinar a melodia e a letra simultaneamente, aspecto também encontrado na literatura (ALSINA; DÍAZ; GIRÁLDEZ, 2008; ALCALDE, 2003; BERNAL; CALVO, 2000). O professorado apontou o problema da desafinação nas crianças, aspecto já comentado em outras publicações (BERNAL; CALVO, 2000). Embora conscientes desta falha, muitas vezes o professorado não parece insistir na resolução dela, deixando que as crianças cantem descuidadamente. Talvez isto esteja ligado à carência em domínio de sua própria voz e de afinação, característica comum em boa parte do professorado. Nestes casos, o domínio de outros instrumentos, como a flauta, poderia ser um bom aliado na preparação da melodia a ser executada. Além de estimular destrezas puramente musicais, o uso de contos musicados ajuda no incentivo à leitura e na curiosidade pelos livros. De acordo com os resultados obtidos, os contos e canções de animais são preferidos pelas crianças. Em contraposição, Bernal e Calvo (2000, p. 81) opinam que as canções favoritas das crianças são as que falam do corpo, aspecto não mencionado nas respostas das entrevistas. Ressalto, por último, alguns aspectos que chamaram especialmente a minha atenção. Em primeiro lugar, a concepção absolutista de que não se “force” a cantar. Longe de compelir e exigir até o ponto de intimidar, penso que é necessário animar e motivar as crianças a que X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 experimentem o canto, eliminando as dificuldades. Se o professorado tem competência, o canto surgirá como uma atividade que não precisa ser obrigatória. Existem mecanismos que ajudarão a criança a se desinibir com o passar do tempo, sem se sentir constringida; por exemplo: não culpando as crianças se não afinam ou se não cantam no tempo correto. As crianças devem ser estimuladas a experimentar o canto como médio de expressão. Do contrário, estaríamos privando-as de uma sensação magnífica de liberdade (DE FONZO, 2010) que o canto traz tanto no aspecto emocional, pessoal, cognitivo ou experiencial. Em segundo lugar, o número de crianças e o tempo do qual o professorado dispõe para trabalhar conteúdos musicais tem implicações para a qualidade das atividades. Trabalhar com 25 crianças por sala de aula nessa idade parece ser ineficaz. Entretanto, “atendê-las de maneira separada todo o tempo é uma fantasia5” (ZABALZA, 1996, p. 53). É sabido que a qualidade da atenção dada ao alunado encontra-se em estreita relação com a razão docentealuna/o (LEBERO; FERNÁNDEZ, 2009, p. 68): quanto mais alta, pior será. Em terceiro lugar, outro aspecto a ser ressaltado diz respeito ao tempo de duração da aula. As crianças exigem do professorado uma contínua mudança de atividades, não sendo capaz de manter a atenção durante um tempo prolongado em uma mesma atividade. Isso talvez seja indicativo de que uma sessão completa de uma hora de aula semanal deveria ser repartida em duas ou três sessões por semana. Aliás, uma professora entrevistada declarou que dividia os seus 50 minutos de aula semanais em duas sessões de 25 minutos. Contudo, parece que 1 hora ou 50 minutos de aula de música por semana ainda é insuficiente para o aprendizado. Prossigo analisando o discurso sobre como deveria trabalhar-se o canto na Educação Infantil, atendendo às respostas manifestadas recolhidas. O canto deveria partir do trabalho de discriminação auditiva de sons. Sabemos que uma pessoa terá mais facilidade para cantar quanto melhor seja o seu ouvido, mas o treinamento deste é possível. Fazendo com que o alunado perceba que com a voz podemos imitar sons e emitir os nossos próprios, com as suas características únicas, trabalhamos 5 Em castelhano: “atenderlos de manera separada todo el tiempo es una fantasía”. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 também a escuta ativa. Esta é importante na discriminação de sons cujo treino sustenta-se, sobretudo, no trabalho com instrumentos/bases instrumentais como apoio. A seleção de canções não só deveria atender ao interesse do alunado: “a música que escolhemos para o trabalho das crianças, deve também ser agradável para o professor, do contrário corremos o risco de não aportar à criança uma experiência de prazer6” (VAILLANCOURT, 2009, p. 17). O lógico seria elaborar/escolher canções de texto pequeno para as crianças menores, aumentando a dificuldade e tamanho em harmonia com a idade. Devido ao fato de que as crianças de 4 anos não têm consciência da forma da canção (PASCUAL, 2006, p. 83), é fundamental que aprendam a diferenciar entre refrão e estrofes. Os jogos podem ajudar nisto, pois trabalham a atenção, um processo psicológico básico; ajudando também na apreensão de novos conteúdos. Por exemplo, as canções permitem trabalhar “as vocais, as consoantes, o vocabulário, as rimas, etc.7” (VAILLANCOURT, 2009, p. 73). Concebe-se, neste sentido, o jogo como meio formativo (ZABALZA, 1987). Quanto à forma de cantar, o professorado entrevistado insistiu na necessidade de se ensinar às crianças a não gritar. Em antítese, Molina et al. (2006, p. 105) expõem que “o objetivo final não será que não se grite, senão diminuir a quantidade de gritos e ensinar a gritar8”. Este poderia ser um princípio para conduzir um trabalho vocal mais metódico, sem ser exaustivo. As crianças são agentes ativos e criativos da música (VAILLANCOURT, 2009, pp. 25-26), e, portanto, podem criar tanto canções como materiais. A criação afasta-se do procedimento tradicional de “fichas9” ou atividades delimitadas e rigidamente dirigidas que caracterizou a Educação Infantil durante muito tempo e que ainda hoje em algumas escolas se promove. Não obstante, contamos com experiências (ANTUNES, 2014; CASAL, 2014) que demonstram que para o desenvolvimento mais natural e efetivo das crianças, as atividades não estritamente 6 Em castelhano: “la música que escogemos para el trabajo de los niños, debe también ser agradable para el profesor, de lo contrario corremos el riesgo de no aportar al niño una experiencia de placer”. 7 Em castelhano: “las vocales, las consonantes, el vocabulario, las rimas, etc.”. 8 Em castelhano: “el objetivo final no será que no chille, sino disminuirle las cantidades de chillidos y enseñarle a chillar”. 9 Ver nota de rodapé 4. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 dirigidas e que motivam a exploração livre de materiais e espaços promovem o desenvolvimento da personalidade espontaneamente, movendo-se por centros de interesse e sendo protagonistas dos tempos e dos lugares. Diversos métodos de iniciação à música recomendam utilizar no começo melodias pentatônicas porque são fáceis de reconhecer e não contêm dissonâncias que as crianças possam rejeitar (VAILLANCOURT, 2009, p. 18). Possivelmente, esta é uma boa maneira de se iniciar no canto, pois se começarmos com intervalos mais difíceis poderemos desmotivar as crianças. Utilizar a própria voz para ensinar a cantar e introduzir as crianças no canto, à parte de servir como exemplo vital da própria voz, é útil para atrair o envolvimento do alunado. Mas para poder impressioná-lo e poder trabalhar a voz cantada de modo efetivo, o professorado tem que ser um bom exemplo, e saber propor os exercícios de respiração, articulação e colocação da voz de forma satisfatória. Daí a necessidade de que um/a docente deva ter conhecimentos suficientes de técnica vocal e de voz infantil. O professorado também deve estar consciente a respeito da qualidade musical das músicas disponíveis comercialmente. Este repertório, embora de muito sucesso na Galícia, apresenta incorreções linguísticas e conteúdo sexista e consumista, que muitas vezes se transmite com as letras. Além de tudo, as tonalidades nem sempre são adequadas para vozes infantis. Por último, apesar do elevado número de crianças nas salas de aula ser um obstáculo para a qualidade da Educação Musical, há quem estima que para o trabalho do canto isto é positivo, pois no grupo sempre haverá quem destaque e o faça bem, e que poderá ajudar a quem tenha mais dificuldades, fazendo a aprendizagem mais cooperativa e construtiva; e com isto, facilitando o trabalho do professorado. Este modelo alude à sequência interativa que Portela (2000) identifica como professorado e alunado trabalhando em colaboração. Concluo afirmando que não podem ser feitas generalizações com o pequeno número de pessoas entrevistadas para esta pesquisa, mas os dados coletados podem indicar caminhos para futuras pesquisas neste âmbito, ajudando a aprimorar o ensino do canto nas escolas. X Encontro Regional Sudeste da ABEM Diversidade humana, responsabilidade social e currículos: interações na educação musical Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 15 a 17 de setembro de 2016 Referências ALCALDE, Jesús. 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