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Elena Veiga Rilo Diretora: M. Carmen Villarino Pardo As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial Faculdade de Filologia Julho 2017 Trabalho de Fim de Grau apresentado na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela para a obtenção do Grau em línguas e literaturas modernas. Maior em língua portuguesa e literaturas lusófonas Trabalho de fim de grau 2016/2017
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As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 3 ÍNDICE 1. Introdução ......................................................................................................... 5 2. Procedimento metodológico e estado da questão .............................................. 6 2.1. Procedimento metodológico ........................................................................... 7 2.2. Análise das notícias de imprensa: Arquivo digital do Portal das Jornadas Literárias de Passo Fundo ............................................................................................. 8 2.3. As Jornadas como material repertorial da pesquisa acadêmica. Breve estado da questão ................................................................................................................... 17 3. As Jornadas Literárias de Passo Fundo ............................................................. 21 3.1. História das Jornadas: De 1981 até aos nossos dias ............................................ 26 3.1.1. O espaço das Jornadas Literárias de Passo Fundo ........................................ 26 3.1.2. As Jornadas Literárias passo a passo............................................................. 30 3.1.3. Festerê Literário, prêmios literários, o Mundo da Leitura e o Livro do Mês 39 3.1.4. Literatura e patrimônio em Passo Fundo....................................................... 45 3.1.5. Além do eixo Rio-São Paulo ........................................................................ 50 4. As Jornadas Literárias de Passo Fundo: algumas propostas de análise a partir das teorias de campo, sistêmicas e de receção .............................................................. 54 4.1. A novidade do espetáculo literário. Um olhar teórico: Bakhtin, Lévy, Itamar Even-Zohar e Pierre Bourdieu .................................................................................... 54 4.2. O sujeito em Bakhtin e os rumos da inteligência coletiva de Lévy ..................... 55 4.3. A Teoría dos polissistemas de Itamar Even-Zohar .............................................. 56 4.4. O conceito de habitus, campo e capital simbólico de Pierre Bourdieu ............... 58 4.5. A mudança do habitus em Passo Fundo .............................................................. 60 5. Organismos de difusão da leitura associados às Jornadas no contexto da multimidialidade .................................................................................................... 62 5.1. Leitura e novas tecnologias: O caminho para a literatura na multimidialidade ...............................................................................................................63 5.2. O Mundo da Leitura: Leitura na multimidialidade ...................................... 68 5.2.1. Práticas leitoras em ambiente multimidial: Novas atitudes de leitura ...... 73 5.2.1.1. Práticas Leitoras. Um estudo de caso............................................75 6. A modo de conclusões ..................................................................................... 78 Anexo I. Jornadas e jornais ..................................................................................... 81 Anexo II. Modelo de entrevista ............................................................................. 223
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 4 Anexo III. Cartazes das Jornadas ........................................................................... 227 Anexo IV. Esquema das Jornadas Literárias de Passo Fundo .................................. 246 Anexo V. Plano do Mundo da Leitura .................................................................... 252 Bibliografia...................................................................................................................254
5 O título escríbese aquí 1. Introdução As Jornadas Literárias de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul (Brasil), funcionam como uma plataforma para a formação de leitores. Com caráter bianual, foi o primeiro evento deste teor no Brasil (a 1ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense realizou-se em 1981), apostando desde o início pela difusão da leitura no país. Em 2006, a cidade de Passo Fundo converteu-se em Capital Nacional da Literatura, através de Lei Federal (Lei nº 11.264). No decorrer deste trabalho explicaremos como, situando-nos numa perspetiva de sociologia da literatura, fundamentalmente a partir das propostas de Pierre Bourdieu e Itamar Even-Zohar, podemos analisar o evento literário que representam as Jornadas Literárias de Passo Fundo e algumas das suas implicações no campo literário como uma plataforma, também, para a formação de leitores/as. Decidimos seguir uma estrutura em que, em primeiro lugar, se atenda a uma perspetiva histórica das Jornadas para, posteriormente, explicar as diferentes propostas teóricas que nos permitem realizar uma análise mais funcional das Jornadas, dos agentes, participantes e dinámicas. Assim, os nossos objetivos focam analisar, em primeiro lugar, a repercussão das Jornadas a diferentes níveis; nomeadamente, na cidade de Passo Fundo e no Estado do Rio Grande do Sul, integrando parte do seu Patrimônio Histórico. Em segundo lugar, analisaremos o papel das Jornadas na formação de leitores/as -das várias idadesatravés de diferentes meios, sendo o Centro de Referência de Literatura e Multimeios (mais conhecido como “Mundo da leitura”), anexo à Biblioteca Central da Universidade de Passo Fundo, um exemplo de dinamização da leitura e projeção em diversas linguagens para atingir os seus objetivos. Partimos da hipótese de que as Jornadas implicaram mudanças na própria cidade que as acolhe e em determinados hábitos dos seus habitantes. Assim, entendemos que a cidade de Passo Fundo ganhou uma visibilidade de que carecia antes das Jornadas, com implicações, por exemplo, no espaço; e que o hábito leitor de Passo Fundo não foi impermeável à realização desta iniciativa, tendo sido criados organismos vinculados ao
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 6 evento, com um trabalho continuado ao longo do ano em torno à formação de leitores. Hipóteses que confirmaremos ou refutaremos no desenvolvimento do presente trabalho. À hora de escolher o tema para o presente trabalho valoramos positivamente o fato de poder ligar a estadia de um semestre (entre Julho e Dezembro de 2015) na Universidade de Passo Fundo (UFP) –através de um convénio de mobilidade entre esta Universidade e a de Santiago de Compostelacom a formação e os conteúdos adquiridos na Graduação em Línguas e Literaturas Modernas: Português na USC. Nesse sentido, entendemos que seria importante adotar algumas das perspetivas teóricas que abordámos –no decurso do Maior em língua portuguesa e literaturas lusófonasao analisar a produção literária da Lusofonia; nomeadamente, as teorias sistêmicas de Itamar Even-Zohar e os estudos de campo, de Pierre Bourdieu. 2. Procedimento metodológico e estado da questão Para a realização do presente trabalho consideramos pertinente, inicialmente, elaborar um estado da questão sobre o assunto que aborde, ainda que não possa ser completo pelo próprio teor de um Trabalho de Fim de Graduação, algumas das diferentes perspetivas de que são analisadas as Jornadas Literárias de Passo Fundo (imagem construída sobre o evento e impacto local e no país, entre outras). Para isso, optamos por escolher dois procedimentos. Em primeiro lugar, uma análise das notícias de imprensa disponibilizadas no arquivo digital do Portal das Jornadas Literárias de Passo Fundo (˂http://jornadasliterarias.upf.br/˃) 1 . Para abordar a polémica acontecida com as últimas Jornadas (2015) atendimos à imprensa local passo-fundense e nacional brasileira. As fontes de imprensa consultadas são aquelas dos anos em que se realizou a Jornada, localizadas nos arquivos do Portal das Jornadas Literárias de Passo Fundo (o critério das fontes é aquelas que aparecem no repositorio de imprensa do site das Jornadas). Para os últimos anos das Jornadas não pudemos utilizar os arquivos porque ainda não estão disponíveis. Nesse caso acudimos aos jornais O Globo, Estadão ou O Nacional. Escolhimos estes jornais por serem eles os incluídos no site das Jornadas para 1 As notícias encontram-se no anexo I do presente trabalho, na página 81.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 7 analisar as edições anteriores, para conseguir que exista continuidade. Em segundo lugar, analisaremos quem e de que maneira se aproximou às Jornadas de um ponto de vista mais teórico. Por último, e para completar essas perspetivas, referiremos brevemente como observamos, in situ, o tema concidindo com a polêmica da não realização da Jornada relativa ao ano de 2015. 2.1. Procedimento metodológico Para tentar completar a perspetiva que oferecerão as notícias de imprensa e a bibliografia que foca o tema das Jornadas, foi planificado um procedimento de elaborar entrevistas a diferentes agentes involucrados na organização das Jornadas. Os perfis destas pessoas pretendiam abranger a anterior organização (prévia ao ano 2015) e a nova (posterior a essa data); pessoas que em 2015 quando foram previstas as entrevistas –na altura da estadia como aluna na Universidade de Passo Fundoeram identificadas com diferentes níveis a organização das Jornadas. As entrevistas (cujo modelo incluímos em anexo II, na página 223) pretendiam conhecer, em primeira pessoa, as impressões e perspetivas que completariam este estado da questão. O fato de ter coincidido com um momento muito delicado e com evidentes tensões -como recolheu a imprensa do momento (Lerman, 2015)-, já que resultou ser o fim de uma etapa iniciada em 1981 com Tânia Rösing à frente, e o início de um período de transição antes de decidir qual seria o futuro do evento. As entrevistas planificadas (inicialmente quatro) foram enviadas através de correio eletrônico e prévio contato com as pessoas selecionadas (em função dos cargos que ocupavam). Infelizmente, a situaçao não permitiu essa colaboração através das entrevistas. Teria sido um material precioso para estabelecer contrastes de opinião, mas tentaremos, na medida do possível, abordar essas questões a partir dos materiais e fontes disponíveis. Para isso, utilizaremos os jornais disponibilizados no arquivo eletrônico do Portal das Jornadas (˂http://jornadasliterarias.upf.br/verConteudo.php?cod=346˃) para tentar analisar a visibilidade das Jornadas no Estado do Rio Grande do Sul e fora deste. Referência fundamentais para o nosso trabalho serão os dois volumes que compõem a edição comemorativa dos 30 anos de Jornadas Literárias (Rettenmaier e Rösing, 2011);
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 8 assim como os textos publicados pela UPF Editora e a que tivemos acesso na nossa estadia na Universidade de Passo Fundo. 2.2. Análise das notícias de imprensa: Arquivo digital do Portal das Jornadas Literárias de Passo Fundo Ao analisar o arquivo de jornais disponíveis no Portal das Jornadas Literárias (o avultado número de notícias sobre o tema evidencia o grande impacto que a Jornada teve, e tem, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul e no Brasil inteiro) vemos como desde a Pré-Jornada 2 existiu um forte compromisso com a difusão da leitura (o qual se verifica com a existência de plataformas como o "Mundo da Leitura" -que impulsa, entre outras iniciativas, o "livro do mês" (alunos da graduação de letras da UPF e alunos de ensino médio de escolas da região lêem um livro que é analisado posteriormente com o/a autor/a)-, a existência também de passeios guiados para alunos/as do ensino médio pelas áreas da cidade dedicadas à literatura, etc. É nessa Pré-Jornada de 1981 que se concede especial importância à criação literária e quando o sucesso conseguido (segundo informa o jornal de Passo Fundo O Nacional,12/8/1981, acudiram ao evento 790 pessoas) poderia fazer prever o sucesso sem precedentes que implicariam as seguintes edições. Em parte, esse bom começo deve-se também ao apoio de muitos escritores e escritoras que –como fez o teólogo, poeta, crítico de arte e ensaísta gaúcho Armindo Trevisan (1933)- mesmo enviaram manifestações falando da sua obra, estabelecendo uma sorte de auto-propaganda que serviu para fazer visível a Jornada. O poeta mineiro Affonso Romano de Sant´Anna, em 1985, compara no Jornal do Brasil a Jornada com um show num estádio coberto; um show ao que chegaram três ônibus que tiveram de dar volta por não haver espaço para tantas pessoas (Sant’Anna, 1985). A imprensa equipara, assim, a Jornada com um Rock´in Rio da literatura (Sant' Anna, 1985), sendo esta, já na sua terceira edição, a maior festa pública da leitura 2 Trata-se de um evento em que grupos interdisciplinares fazem a leitura antecipada das obras dos autores convidados para a Jornada Nacional de Literatura, a fim de desenvolver análise e interpretação dos textos, e que se produz por primeira vez em 1981, antes da I Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 9 brasileira, semelhante, por exemplo, ao festival de Campina Grande 3 , onde destaca a figura da escritora, crítica literária e professora Elizabeth Marinheiro, que ajudou a visibilizar a literatura no Festival ao organizar as diferentes edições do Congresso Brasileiro de Teoria e Crítica Literária. Porém, a Jornada de Passo Fundo tem uma caraterística pedagógica original, que já se observa nas notícias publicadas pela imprensa em relação às primeiras Jornadas e que se extende até às mais recentes que falam sobre as últimas edições: trata-se de um evento em que os seminários preparatórios, as leituras prévias e as atividades que giram ao seu redor estão focalizadas para transmitir à população -de todas as faixas etárias- o amor pela leitura. Naquele momento (em 1985), este trabalho prévio seria impensável, como comenta Sant' Anna (1985), em um evento do Rio de Janeiro ou São Paulo, tendo mais força este tipo de iniciativas no sul do Brasil (por se tratar, no caso de Passo Fundo, em relação a uma cidade grande como o Rio de Janeiro ou São Paulo, de um espaço mais pequeno e abrangível para experiências deste tipo) de modo que contribuiu para descentralizar, fora do eixo Rio-São Paulo, uma atividade cultural destacada, que situava a cidade de Passo Fundo num lugar mais central no mapa cultural e literário do Brasil. Até o próprio escritor Ignácio de Loyola Brandão –autor do conhecido romance Zero, publicado em 1975, que passou a ser especialmente conhecido após a proibição pela censuraenviou, em 1985, uma carta a Tânia Rösing –responsável e figura fundamental das Jornadas Literárias de Passo Fundorelatando a marca que Passo Fundo lhe deixou a nível pessoal e profissional e destacando a ausência nas Jornadas do academicismo frustrante e frio que, em sua opinião, existe habitualmente nos encontros literários. Finalizou a carta comentando que deveria existir no resto do país uma profunda inveja pelo relacionamento gaúcho com a literatura (Brandão, 1985). A estela de Loyola Brandão continuou e nos jornais que analisámos de 1988, ano no qual se celebra a III Jornada, Passo Fundo era visto noutros estados como o maior centro cultural literário da época e assim se faz ver na imprensa de todo o país, como se aponta no jornal Diário da Manhã (29/5/1988). De fato, Loyola Brandão falou, de novo, 3 O Festival de Inverno de Campina Grande (Paraíba) une diversas disciplinas como teatro, música, dança contemporânea, além de fóruns e debates sobre temas dos mais pertinentes ligados à cultura nordestina. O evento é realizado desde 1975.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 16 algumas iniciativas 13 ; entre elas o 13° Seminário Internacional de Pesquisa em leitura e Patrimônio Cultural, com Ignácio de Loyola Brandão, Luciana Savaget, Roger Chartier e Lucia Santaella; ou o "livro do mês". O orçamento inicial previsto para a organização de 2015 era de R$ 3,5 milhões, a ser captados pela Lei Rouanet 14 e a estadual Lei de Incentivo à cultura do Rio Grande do Sul. Com dificuldades para conseguir o dinheiro da parte da organização, a demanda foi reduzida para R$ 3 milhões e depois para R$ 2 milhões (Lerman, 2015). Mesmo assim, não foi possível garantir os patrocinadores e, em consequência, anulada a celebração da 16ª edição do evento. Tânia Rösing, que continuava sendo a máxima pessoa responsável pela organização, escreveu uma carta para explicar a decisão motivada por esta situação e foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação, como veremos. Nesse mesmo ano, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), considerada um dos maiores eventos literários e culturais dos últimos anos no mundo (Portal do Brasil, 30/7/2014) também referiu dificuldades financeiras, mas finalmente, "sem grandes estrelas, 13ª FLIP supera ano de dificuldades com bons debates" (Balloussier, 2015). Trata-se de um contexto de crise econômica e financeira no Brasil, não especialmente perceptível nos anos anteriores. Depois do acontecido em 2015 (a não realização da 16ª Jornada Nacional de Literatura), no mês de dezembro de 2016 os jornais eletrônicos divulgaram a notícia de que em 2017 a Jornada estará de volta, entre 2 e 6 de Outubro. Como explicou o professor da UPF e membro da Comissão Organizadora das Jornadas de Literatura de Passo Fundo, Miguel Rettenmaier, para diversos meios de comunicação, será uma Jornada que incluirá mais o espaço da cidade no evento, convertendo assim a cidade como um palco mais (O Nacional, 15/12/2016). Há vários projetos já definidos e aprovados na última reunião anual da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), do Ministério da Cultura do Brasil, que se realizou de 5 a 9 de Dezembro de 2015, para captação de recursos através 13 Durante o semestre no qual estivemos em Passo Fundo pudemos assistir a várias dessas iniciativas. 14 A Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991), sancionada pelo expresidente Fernando Collor de Mello é a lei que institui políticas públicas para a cultura nacional, como o PRONAC - Pr. Essa lei é conhecida também por Lei Rouanet (em homenagem a Sérgio Paulo Rouanet, secretário de cultura de quando a lei foi criada).
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 17 da Lei Rouanet. Entre eles, encontra-se o tradicional Festerê Literário (de que falaremos), o "Projetos transversais: rotas leitoras", a atividade "Livros na mesa: Leituras boêmias" (a celebrar em bares da cidade e em espaços culturais, entre as 22h e as 24h) ou "Caminho das artes" (num ponto concreto da cidade, das 21h à 1 da madrugada). 2.3. As Jornadas como material repertorial da pesquisa acadêmica. Breve estado da questão Para a análise das Jornadas Literárias de Passo Fundo a imprensa oferece, como vimos, possibilidades para conhecermos diferentes aspetos do evento e tentarmos reconstruir a sua história através de informações, depoimentos e dados. No entanto, entendemos que é necessário, também, elaborarmos um estado da questão relativo aos estudos e trabalhos que, de uma perspetiva acadêmica e teórica, analisaram este acontecimento literário e cultural. Em primeiro lugar destacam, pelo volume e a autoria, os trabalhos de Tânia Kuchenbecker Rösing, figura fundamental das Jornadas, porque foi ela a idealizadora do projeto e quem se tornou a sua responsável ao longo de todas as edições até 2015; foi a sua cara visível e a mulher que lutou nos últimos anos porque continuassem existindo quando os recursos econômicos já eram escassos. É, como explica no seu curriculum 15 , doutora em Teoria Literária e, atualmente, é a responsável pelo Cento de Referência de Literatura e Multimeios (Mundo da Leitura). A repercussão que o seu trabalho com as Jornadas teve na cidade e na formação leitora e cultural dos passo-fundenses fez com que conte com uma biblioteca que leva o seu nome, desde que foi inaugurada em 2011 no Teatro Novo de Passo Fundo. Os seus estudos teóricos tratam sobre a formação de leitores e a visualização das suas práticas nas Jornadas e no Mundo da Leitura. Também são de destacar os seus trabalhos de difusão das Jornadas além das fronteiras. Nos últimos tempos atendeu à formação de leitores em um ambiente multimidial, tornando-se uma referência, também, neste âmbito. Encontramos livros organizados por Tânia Rösing como Do livro ao CD-ROM, 15 Está disponível na plataforma Lattes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) do Brasil. Vid. ˂http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4783966Y0˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 18 publicado em 1999 pela UPF Editora e onde se apresenta a ideia novidosa, na altura, de leitura através de diferentes mídias. Neste livro T. Rösing apresenta um artigo intitulado "O desafio da tecnologia no ensino da literatura" (Pp. 163-169) em que mostra a sua ideia da necessidade de não serem herméticos (desde a Universidade de Passo Fundo e desde o ensino em geral) às novas propostas, apesar de manter um comportamento sempre crítico face às novidades. Apoia neste artigo a necessidade de criar uma leitura plural através de plataformas que a favorecem. Noutro livro organizado por T. Rösing e Miguel Rettenmaier, intitulado Biblioteca, lectura y multimedia (2010), a professora da UPF escreve o artigo "Formación de lectores: experiencias lectoras em la família, en la escuela y em diferentes perspectivas de biblioteca" (Pp. 209-228). Nele continua aproximando-nos à necessidade de encontrar um ponto de união entre as formas de ler mais tradicionais e mais atuais. Incide na formação de leitores, um assunto fundamental para a Universidade de Passo Fundo e objetivo fundamental das Jornadas. Devemos ter em conta também que é esta uma publicação pensada para difundir fora do âmbito da UPF. Como vimos, Tânia Rösing sempre realizou labores de expansão das Jornadas fora das fronteiras do Rio Grande do Sul e, em ocasiões, também do Brasil. No ano 2011 a UPF publicou 30 anos de Jornadas Literárias, com organização de T. Rösing e M. Rettenmaier. É uma edição comemorativa que conta com dois volumes, um primeiro que reúne artigos que focam a história e importância das Jornadas e um segundo mais visual, com fotografias das distintas edições das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Nesta publicação, Tânia Rösing intervem com dois artigos: "O início do sonho e sonho em ação" (pp.32-52), onde faz um percurso pela história das Jornadas, e "Concurso e prêmio literário: estímulo a iniciantes e reconhecimento a consagrados" (pp.158-166), em que presta especial atenção às diferentes maneiras que existiram de celebrar a literatura dentro das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Portanto, o trabalho de Tânia Rösing esteve muito ligado às Jornadas, sendo estas um veículo para chegar à formação de leitores; uma formação que, entendia Tânia Rösing, para ser efetiva, devia acompanhar os avanços tecnológicos e as novas realidades sociais. Em numerosos trabalhos organizados por Rösing aparece outro nome fundamental para o estudo das Jornadas e da formação de leitores: Miguel Rettenmaier. Possui, como
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 19 explica no seu currículo Lattes 16 , Doutorado também em Teoria da Literatura (2002); é professor na Graduação e no Mestrado em Letras da Universidade de Passo Fundo, desenvolve projetos na linha de pesquisa de Leitura e Formação de Leitor, focalizando seus trabalhos na questão da leitura relacionada às linguagens digitais e participa da Comissão Organizadora das Jornadas de Literatura de Passo Fundo. É líder, com Tania Rösing (UPF), do Grupo de Pesquisa CNPq: Leitura e acervo literário, como ele mesmo explica no seu curriculum Lattes. Interessa-nos especialmente, para o assunto deste trabalho, a sua pesquisa em torno à leitura relacionada às linguagens digitais. De entre as suas publicações podemos analisar, por exemplo, o seu artigo publicado em Biblioteca, lectura y multimedia "Com uma dulzura antigua, en un mundo más moderno y celular" (pp. 152-170), onde, seguindo a postura que já tinha adotado Tânia Rösing de incluir novos suportes de leitura que aproximem os textos a potenciais novos leitores sem esquecer a tradição leitora, consegue refletir sobre a impossibilidade de fugir a essa conexão a uma complexa rede de interdependência. No livro 30 anos de Jornadas Literárias, (UPF Editora, 2011), que organizou junto com Tânia Rösing, escreveu o artigo "Quando a leitura é património" (Pp. 92-106), deixando de lado, neste caso, as novas tecnologias para entender como a leitura é capaz de incidir em uma cidade como é Passo Fundo. Mas, de novo, quando o objetivo é falar da formação de leitores, Miguel Rettenmaier, assim como fazia Tânia Rösing, continua com o discurso que relaciona suportes multimidiais com a literatura. Assim, Rösing e Rettenmaier organizaram em 2012 a publicação do livro Lectura y formación del lector: Estudios en red (UPF Editora) e juntos escreveram o artigo "La lectura y lo digital em las Jornadas de Literatura" (pp.191-208), em que incidem sobre o fato de o ecrã ser um ambiente de comunicação e leitura. De novo, adquiriam um discurso que sempre defenderam, aquele que uniria a leitura tradicional com os novos métodos leitores com um único fim: a formação de leitores. Tem bastantes casos de alunos e alunas da UPF que elaboraram trabalhos 16 Está disponível na plataforma Lattes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) do Brasil. Vid. ˂http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4792197Y0˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 20 acadêmicos sobre as Jornadas, como demonstra o fato de a linha de pesquisa existente na Faculdade de Letras para a Pós-graduação se intitular "Constituição e interpretação do texto e do discurso, Leitura e formação do leitor e Produção e receção do texto literário"; e estar direcionada para realizar trabalhos arredor das Jornadas ou de temas que se tornam fundamentais para entender estas últimas. Também há outros estudiosos procedentes de diferentes universidades que focam as Jornadas, vários deles vinculados ao Rio Grande do Sul. Este é o caso de Regina Zilberman, que, de acordo com o seu currículo Lattes 17 , possui doutorado em Romanistica - Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1976). Atualmente é professora adjunta do Instituto de Letras, da UFRGS, com atuação no Programa de Pós-Graduação em Letras. No livro 30 anos de Jornadas Literárias (2011) participou com o artigo "Formação do leitor no horizonte da cultura" (pp.53-64), que funciona, em certo modo, como resumo da sua atribuição aos estudos que giram arredor das Jornadas. É um artigo em que reflete sobre o fato de que na cultura pós-adolescente predominam as formas que utilizam imagens figurativas, "propiciadas sobretudo pela tecnologia eletrônica" (Zilberman, 2011:55). Seria através dessa tecnologia eletrônica que deveria ser perseguida a formação de leitores, uns leitores que não têem que ser unicamente crianças, também o mundo adolescente é suscetível de receber uma formação leitora. Vera Teixeira de Aguiar ou Maria da Glória Bordini também representam o perfil de professoras de universidades gaúchas que analisaram o "fenômeno das Jornadas" de Passo Fundo. Aguiar é especialista no lugar da literatura na vida social e sua interação com outras linguagens. Escreve em 2005 Leitura e cultura portuguesa na escola: como formar leitores, onde introduz o tema da formação de leitores. A Jornada Literária de Passo Fundo, portanto, foi muito observada por estudiosos da própria Universidade de Passo Fundo, mas também de outras universidades, que analisaram o tema de várias perspetivas. 17 Está disponível na plataforma Lattes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) do Brasil. Vid. ˂http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4783911U1˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 21 3. As Jornadas Literárias de Passo Fundo As Jornadas Literárias de Passo Fundo implicaram uma mudança importante nos campos literário e cultural pela preocupação que os seus organizadores tiveram com a formação de leitores. Como consequência destas Jornadas, a cidade gaúcha de Passo Fundo (aproximadamente com 185000 habitantes) teve o maior índice de leitores do país (O Nacional, 4/5/2011), contando com uma média de 5,5 livros por habitante no ano 2005. Porém, em 2011 baixou a 4,2 e em 2015 voltou subir a 4,41. Em 2015, o Rio Grande do Sul contava com 50% de leitores. Chegamos a estes dados através de Retratos da Leitura no Brasil 18 (2016). Imagem 1 tirada de Retratos da Leitura no Brasil (2016). Percentagem de leitores No ano 2015 a percentagem de leitores no Brasil é do 56%. 18 Retratos da Leitura no Brasil. Instituto Pró-livro. Março 2016. Disponível em: ˂http://prolivro.org.br/home/images/2016/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_-_2015.pdf˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 22 Imagem 2 tirada de Retratos da Leitura no Brasil (2016). Estimativa de leitores no Brasil Na altura dos 30 anos do evento, em 2011, e no prólogo ao livro que o homenageava (30 anos de Jornadas Literárias), alguns dos seus responsáveis –com Tânia Rösing à frenteexplicavam o pequeno milagre que as Jornadas implicavam numa cidade como Passo Fundo: Ver para crer, essa máxima está associada a este livro. Pois quem acreditaria que, numa cidade de 300 quilômetros de um centro regional não necessariamente nuclear nas dinâmicas sociais e políticas do país, fosse ocorrer uma das maiores movimentações do planeta em torno da leitura? Os trinta anos de Jornada são parte de um histórico de promoção da leitura do tempo de quando o livro era artigo para iniciados ou de privilegiados. A demanda assumida, em 1981, de formar leitores nasceu em anos pós-ditadura, quando mesmo a palavra cultura era muito perigosa. E, acredite, o que estava em interdito se fez ou foi feito, em primeiro em um âmbito reginal, depois nacional, depois internacional, sem deixar de ser brasileiro. A Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo inacreditavelmente venceu fronteiras e fez caber em si importantes personalidades da intelectualidade e da arte do Brasil e do exterior. (Rösing, Rettenmaier, Langaro, Brezolin; 2011:35).
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 23 No trecho anterior são quatro os autores que condensam nele aquilo que supuseram as Jornadas para Passo Fundo, mas também para o Brasil. As Jornadas Literárias começaram em 1981, num momento ainda de ditadura e no final de um período em que os campos literário e cultural tinham uma forte dependência (heteronomia, em termos de Bourdieu –1996) em relação ao campo do poder político (Villarino Pardo, 2000), que tinha adotado diversas estratégias de relacionamento com aqueles outros durante os vinte e um anos de ditadura (Süssekind, 1985). A Jornada de Literatura de Passo Fundo nasce no interior do estado do Rio Grande do Sul como um ponto de fabricação e expansão de ideias na base de um ideal maior: formar leitores para transformar, através do seu entorno, o país. Desde 1981 a Jornada de Literatura de Passo Fundo apresenta-se (no Portal das Jornadas Literárias) 19 como o maior evento cultural da América Latina que, com caráter bianual, reúne durante cinco dias a escritores/as e leitores/as que trocam informações e que debatem sobre a importância da literatura e do livro. Como explicam na página web das Jornadas 20 ("Três décadas marcadas pela formação de leitores", 2011), sempre se procurou: A formação de um leitor que priorize o texto literário, mas que também possa se constituir em um intérprete das linguagens veiculadas em diferentes suportes e das características peculiares das várias manifestações culturais. O tom festivo e informal, associado a uma programação cultural diversificada e repleta de autores renomados da literatura brasileira e estrangeira, fez da Jornada um dos maiores eventos literários da América Latina. Como já indicado, as Jornadas foram coordenadas pela professora Tânia Rösing até o ano 2015. Foi a sua criadora e, nesse tempo, acompanhou as diferentes mudanças e inovações que teve o formato inicial, incluindo no programa o Concurso Nacional de contos Josué Guimarães em 1988, o Festerê Literário em 1995, o 1° Prêmio Passo Fundo Zaffari & 19 Portal das Jornadas Literárias. Disponível em: ˂http://www.jornadasliterarias.upf.br˃. 20 Portal das Jornadas Literárias. Op. Cit.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 24 Bourbon de Literatura em 1999, a Jornadinha em 2001 ou a JorNight em 2011. Nesse percurso, também presenciou o incremento e o interesse do público; entre as 750 pessoas que assistiram à primeira edição e "as 130000 das últimas décadas" (como aponta Rösing, 2011:49) e as mudanças estruturais que isso também implicou. De fato, para albergar esse grande número de pessoas escolheram cinco lonas que criaram uma imagem de “circo cultural”. Imagem 3. Circo da Cultura. (Rettenmaier e Rösing, 2011: 50-51, vol. 2) Surgiram, também, "espaços-satélite" das Jornadas –como veremos-: o Centro de Referência de Literatura e Multimeios - que abriga programas como o Mundo da leitura na TV-, o Mundo da Leitura em Comunidades (que leva a literatura a comunidades que não têm por que estar relacionadas com a UPF) ou o projeto arquitetônico dos Largos da Literatura (monumentos urbanos com alusões literárias que se situam em diversas partes da cidade para fazer presente a literatura na vida dos passo-fundenses), que consolidaram Passo Fundo como Capital Nacional da Literatura a partir do ano 2006. Essa estrutura passou a fazer parte daquilo que denominamos "marca Jornada Literária de Passo Fundo" e que se foi consolidando nas sucessivas edições. Em 2015, essa etapa com Tânia Rösing à frente concluiu e foi cancelada a Jornada desse ano prevista para 28 de setembro a 2 de outubro (no entanto, houve algumas atividades como o 13° Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural) por falta de
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 25 financiamento; ainda que, previamente, se tinha iniciado uma campanha de captação de apoios através da internet na página "Junto com você". Era esta uma iniciativa do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar que tentava conseguir R$ 405 mil. Foi um momento muito tenso, com intervenções da Reitoria da UPF para explicar que "a conjuntura econômica nacional impõe um cenário de contenção e exige restrições de investimentos em atividades dos mais diferentes gêneros" (O Globo, 28/09/2016) e de T. Rösing, que abandona a coordenação e publica um comunicado de imprensa para oferecer a sua perspetiva. Reflete nesse comunicado (O Globo, 1/6/2015) Tânia Rösing sobre a importância das Jornadas para Passo Fundo, apontando para um certo caráter atemporal das Jornadas, como um elemento já indissociável da cidade de Passo Fundo e dos passofundenses. Não é por vontade dela que as Jornadas não são realizadas em 2015 e deixa ver a sua disponibilidade para as futuras Jornadas, mostrando certa modéstia quando alude ao fato de não ser ela a figura fundamental das Jornadas senão todas as pessoas que participaram e participarão delas. Previsivelmente, e depois do cancelamento da edição da Jornada do ano 2015, seria feita uma ‘reestruturação do seu formato’ -como sugeriu o comunicado da Reitoria da UFP naquele momento 21 - e planificada a seguinte edição -em 2017- para continuar desenvolvendo políticas de vanguarda na área literária, atendendo à formação de comunidades leitoras e de cidadãos críticos, num ambiente de democratização literária. De fato, para este ano e até ao momento em que este trabalho está sendo feito, é possível conhecer já parte da programação da 16ª edição que terá lugar entre 2 e 6 de outubro de 2017 22 . Neste caso, a estrutura da Jornada conta com atividades semelhantes às das Jornadas anteriores (inclui a Pré-Jornada e a Pré-Jornadinha, a Jornadinha; o Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura, Literatura e Linguagens; a Feira do Livro, conferências, workshops...) utilizando como fio condutor a cidade de Passo Fundo, que conectará as distintas atividades literárias com o espaço físico. As pessoas encarregadas 21 Vid. ˂http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/06/tania-rosing-deixa-coordenacao-da- jornada-literaria-de-passo-fundo.html˃. 22 Portal da 16ª Jornada de Literatura. Vid.: ˂http://www.upf.br/16jornada˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 32 Imagem 4. Compilação de imagens das Jornadas (Rettenmaier e Rösing, 2011: 37, vol. 2). A seguir, analisamos algumas das edições das Jornadas que implicaram novidades ou determinadas apostas no formato habitual, para tentar conhecer melhor as mudanças que se produziram em torno ao modelo que se foi construindo ao longo de três décadas: • 1ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense. Podemos designá-la de Pré-Jornada, nome que recebe desde a sua criação. Aconteceu em 1981 na Escola Estadual Protásio Alves (num espaço bem mais discreto em relação àquele que caraterizaria posteriormente as Jornadas) e causou uma impressão muito boa entre os autores convidados (entre eles, destacaram o próprio Josué Guimarães, Antonio Carlos Rezende, Moacyr Scliar, Mário Quintana ou Carlos Nejar –todos eles gaúchos-) porque alunos/as e professores/as da escola estadual onde se realizava o evento tinham tido o cuidado de conhecer em detalhe as obras dos autores convidados, chegando a
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 33 produzir resumos e a publicar fragmentos nos jornais locais antes do evento (Rösing, 2011:31). Os autores convidados ressaltaram especialmente o contato com os alunosleitores por ser isto uma novidade no ambiente de pessimismo existente no Brasil em início da década de 1980 (ainda em período de ditadura) em relação ao pouco interesse cultural dos adolescentes. Porém, um dos primeiros efeitos observados foi de teor mais econômico, como apontava o Correio do Povo em 15 de agosto de 1981: Nas livrarias de Passo Fundo, o primeiro efeito da Jornada já se faz sentir com uma grande venda de obras de escritores gaúchos, principalmente daqueles que participaram do encontro. Segundo os livreiros, a Jornada já propiciou um aumento de vendas em torno de 57%, devendo trazer um grande incentivo à leitura, como escritores ganhando mercado num momento em que tão poucos têm o hábito da leitura. (Rettenmaier e Rösing, 2011: 36). Em definitivo, constatou-se o efeito positivo, em todos os sentidos, da criação dessa 1ª Jornada. Por esse motivo, Josué Guimarães decidiu ampliar o evento (de estadual para nacional) e modificar a periodicidade da sua realização (de anual para bienal) (Rösing, 2011:35). Imagem 5. Pré-Jornada (Rettenmaier e Rösing, 2011:45, vol.2). • 1ª Jornada Nacional de Literatura e 2ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense. 1983.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 34 Aconteceram em 1983 (de 9 a 12 de agosto) no Play Center do Clube Recreativo Juvenil e serviram para dar a conhecer a cidade de Passo Fundo como um lugar propício para o encontro de escritores/as com os/as leitores/as de uma maneira inusitada: sendo os/as primeiros/as aclamados como poderia acontecer com uma estrela do pop ou do rock (Jornal do Brasil, 18/08/1985). • 2ª Jornada Nacional de Literatura. 1985. Aconteceu em 1985 (de 13 a 16 de agosto) e esteve marcada por trazer um número muito maior de escritores que colocaram Passo Fundo no mapa cultural do Brasil (e não apenas). Entre eles estavam, por exemplo, Ignácio de Loyola Brandão 31 (autor prestigiado já na altura, com obras como Zero) ou a escritora carioca Nélida Piñon. Também foi este o momento em que vários pesquisadores de fora de Passo Fundo vieram para participar da Jornada. Entre elas, as professoras gaúchas Vera Teixeira de Aguiar, Maria da Glória Bordini e Regina Zilberman, cujos trabalhos sobre o evento são conhecidos. • 3ª Jornada Nacional de Literatura. 1988. Destaca a homenagem feita a Josué Guimarães (falecido em 1986) no ano de 1988 (de 9 a 12 de agosto). Foram várias as inovações que surgiram nesta edição das Jornadas. Em primeiro lugar, criou-se o troféu Vasco Prado, destinado especialmente para ser entregue a cada um dos participantes (Rösing , 2011:39). Em segundo lugar, inaugurouse o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães. O Concurso realizou-se em parceria com o Instituto Estadual do Livro 32 (Rösing, 2011: 39). 31 Loyola voltou a atividades literárias em Passo Fundo numerosas vezes; uma das últimas, para participar no 13° Seminário Internacional de Pesquisa em leitura e Patrimônio Cultural, no dia 1 de Outubro de 2015 –em plena ressaca da cancelação da Jornada desse ano. 32 O Instituto Estadual do Livro (IEL), sitiado em Porto Alegre, foi criado em 29 de janeiro de 1954, com o objetivo de difundir a literatura produzida no Rio Grande do Sul, apoiando o surgimento de novos escritores e trabalhando para a preservação da memória literária e cultural do estado. (˂http://www.cultura.rs.gov.br/v2/instituicoes-sedac/instituto-14˃). O IEL é um órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e tem como função principal realizar atividades associadas ao livro, tais como edições de textos originais de autores estreantes ou obras clássicas, promoção de encontros de escritores com a comunidade, organização de seminários, viabilização de uma política do livro e da leitura, cooperação com entidades públicas e editoras locais. (˂http://ielrs.blogspot.com.es/p/sobre-o-iel.html˃).
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 35 • 4ª Jornada Nacional de Literatura. 1991. A 4ª Jornada marcou um antes e um depois devido ao crescimento que experimentou o evento. Os objetivos continuaram sendo os mesmos mas esta edição de 1991, que se celebrou de 11 a 14 de junho (quando normalmente são realizadas por volta do mês de setembro-outubro), deixou mais espaço para conferencistas de perfil mais académico (José Luis Fiorin, Maria da Glória Bordini, Marisa Lajolo, entre eles). Interessa-nos especialmente a importância que teve nesta Jornada a presença –como já indicámos ao tratar da repercussão na imprensado conhecido escritor de novelas para Televisão, Walther Negrão, que defendeu a formação de um leitor eclético e multimidial. • 5ª Jornada Nacional de Literatura. 1993. Nesta edição de 1993 (entre 8 e 11 de junho) foram convidados autores e intelectuais de fora das fronteiras brasileiras. Assim, estiveram em Passo Fundo José Cardoso Pires e Carlos Reis, de Portugal, ou Eduardo Galeano e Julian Murghia, do Uruguai. Foi também importante esta Jornada pelo destaque dado à literatura juvenil, com um número mais elevado do habitual de escritores de literatura juvenil, como Lygia Bogunja Nunes ou Mirna Pinsky. O teatro tornou-se fundamental, como mostrou a inclusão de monólogos dos autores. A prestigiada autora gaúcha de teatro e infanto-juvenil Lygia Bojunga 33 apresentou o monólogo Livro. • 6ª Jornada Nacional de Literatura. 1995. Vai ser nesta Jornada, no ano 1995 (de 15 a 18 de agosto), quando o espaço destinado aos encontros deixe de ser o ginásio esportivo e passe a ser o Circo da Cultura, lugar que marcaria a imagem das Jornadas além fronteiras. Como explica Rösing (2011:40) a Jornada vai assumindo ainda mais o clima de celebração das letras, das artes, da cultura como um todo em espaço circense. Até "o início dos trabalhos passa a ser anunciado de forma peculiar: Respeitável público! O espetáculo das letras e das artes vai começar!" 33 Em 1982 recebeu uma das maiores distinções a nível mundial para autores/as de infantil e juvenil, o Prémio Hans Cristian Andersen, sendo a primeira autora de fora da Europa e dos Estados Unidos em consegui-lo.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 36 (Rösing, 2011:40). Um dos temas tratados nesta Jornada interessa particularmente para este trabalho: “A mídia e a literatura”, que propiciou o debate de ideias entre Juarez Fonseca, Fábio Lucas e Arnaldo Jabor, "mesclando posicionamentos jornalísticos e literários" (Rettenmaier e Rösing, 2011:41). Imagem 6. Interior do Circo da cultura (Rettenmaier e Rösing, 2011:226, vol. 2) • 9ª Jornada Nacional de Literatura e 1ª Jornadinha Nacional de Literatura. 2001. Avançamos até à 9ª Jornada porque vai ser nessa edição de 2001 (de 28 a 31 de agosto) quando se preste especial atenção às novas tecnologias, relacionadas com a literatura. O título da Jornada já foca diretamente essa ideia: 2001: Uma Jornada na Galáxia de Gutenberg –da prensa ao e-book. Foram várias as mesas redondas que focaram o tema da digitalidade; entre elas a chamada "A formação de opinião: jornalismo tradicional versus jornalismo eletrónico" ou "A formação do leitor do futuro: para o livro ou para o e-book?". Foi importante nesta edição a posta em funcionamento de uma iniciativa que trouxe muito sucesso nas Jornadas dos anos posteriores. Trata-se da criação da 1ª Jornadinha
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 37 Nacional de Literatura: o espaço da Jornada destinado à literatura infantil e juvenil. É o momento em que as crianças entram em contato com os/as autores/as dos seus livros favoritos e se estabelece um diálogo construtivo instaurado, como veremos, no âmbito da polifonia de Bakhtin. A Jornadinha recebe alunos/as da escola fundamental e ensino médio. Assim, como se explica nos Anais dessa 1ª Jornadinha, esta "constituiu-se numa demonstração mais que concreta do compromisso que os líderes dessa movimentação cultural têm com a formação de leitores desde os primeiros anos de vida de uma criança" (Weschenfelder, 2003: 11). Para que a Jornadinha funcionasse o requisito de indispensável cumprimento era a leitura dos livros que seriam apresentados, para que os alunos e alunas da escola fundamental e ensino médio pudessem ter um encontro mais prolífico com os autores e autoras dos livros. Também, com o intuito de que o encontro funcione do melhor modo possível organiza-se uns dias antes a Pré-Jornadinha: uma reunião em que se trabalham as obras que vão ser tratadas na Jornadinha. (Rösing, 2011: 44). • 10ª Jornada Nacional de Literatura. 2003. Continuando a linha iniciada na Jornada anterior, vai ser entre 27 e 29 de agosto deste ano 2003 (Vozes do terceiro milênio: a arte da inclusão é o título desta edição) quando se visibilize a necessidade de "acomodar" a literatura a novas formas de entender o mundo no século XXI. No programa das Jornadas isto explica-se da seguinte maneira: O ato de ler assume sua condição de viagem pela multiplicidade de linguagens e de recursos. [...] Serão debatidas as novas orientações do terceiro milénio e as recentes feições que a sociedade, a cultura, o conhecimento e a leitura adquirem na ordem de um tempo que se inaugura convidando à reflexão sobre a sua natureza já em constante mutação. (Santos, 2003). Dessa maneira, a figura de Roger Chartier 34 implica um apoio teórico fundamental para o contexto académico-festivo próprio das Jornadas, ao abordar novas formas de leitura do século XXI. Nesse ano celebrou-se o I Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e 34 Que também esteve presente em Passo Fundo em 2015 no 13° Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural junto com Loyola Brandão.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 38 Patrimônio, que abre um novo espaço à reflexão arredor da leitura e da formação de leitores desde um ponto de vista mais tradicional, longe da espectacularidade do Circo da Leitura. • 11ª Jornada Nacional de Literatura. 2005. No ano 2005 (entre 22 e 26 de agosto) celebra-se a jornada intitulada Diversidade cultural: o diálogo das diferenças. Foram várias as iniciativas que se sucederam e que deram uma maior visibilidade às Jornadas e a Passo Fundo; entre elas a realização do prémio literário Hans Christian Andersen ou do 1° Seminário Nacional de Jornalismo Cultural. Nessa altura, foi concedido o 1° título de Doutor Honoris Causa da UPF ao romancista, dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna (1927-2014). Desde a Pré-Jornada até esta edição de 2005 produz-se um incremento de público realmente notório, que vai dos 790 assistentes à Pré-Jornada aos 20000 na edição número de 2005 (Rösing, 2011: 65), como mostra o gráfico que elaboramos: Gráfico 1. Assistentes às Jornadas entre 1981 (Pré-Jornada) e 2005. Elaboração própria Não encontramos dados suficientes para realizar um gráfico entre 2005 e a última edição mas consideramos que é perceptível o aumento no número de assistentes às Jornadas, sobretudo no começo dos anos 2000. Assistentes 0 10000 20000 1981 1985 1988 1991 1997 1999 2001 2003 2005
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 39 • 13ª Jornada Nacional de Literatura. 2009. Esta edição, celebrada entre 26 e 30 de outubro, propiciou um debate amplo sobre o tema Arte e tecnologia: novas interfaces; de modo que permitiu ampliar "o espectro dos fundamentos norteadores da formação de leitores e de mediadores de leitura: do binômio educação e cultura para o trinômio educação-cultura-tecnologia" (Rösing, 2011:50). • 14ª Jornada Nacional de Literatura e a JorNight. 2011. No ano 2011 (de 22 a 26 de agosto), coincidindo com a 14ª Jornada Nacional de Literatura, cria-se a JorNight: encontros literários à noite destinados aos jovens que estudam em horário noturno. Como acontecia com a Jornadinha, por exemplo, é preciso que exista uma leitura prévia das obras que serão abordadas na JorNight. Também, como com a Jornadinha, existe uma Pré-JorNight; o momento em que os/as alunos/as se reúnem para discutir as obras, previamente ao encontro com os escritores. Os encontros da JorNight têm um caráter festivo e os encontros literários acabam com um show musical para atrair outros públicos com uma oferta mais ampla. 3.1.3. Festerê Literário, prêmios literários, o Mundo da Leitura e o Livro do Mês Depois de uma aproximação geral às diferentes Jornadas e àquilo que supuseram para o conjunto histórico de todas elas analisamos as "estratégias" que rodeiam as Jornadas. Utilizamos o termo "estratégias" adotando uma perspetiva de ‘campo’ e ‘sistêmica’ (de sociologia da literatura) em que este tipo de ações fazem parte das dinâmicas de um encontro/festa/festival como as Jornadas: são estratégias de mudanças no formato inicial para tentar dar conta a demandas do público, a mudanças no espaço social, no campo literário, no campo editorial... O Festerê Literário, os prêmios literários, o Mundo da Leitura e o Livro do Mês funcionam como elementos que complementam as Jornadas, existindo uma relação de reciprocidade entre eles. O Festerê Literário, iniciado em Passo Fundo em 1995, funciona, como explica Loch Sbeghen (2011:169), como um conjunto de práticas culturais desenvolvidas durante o mês que antecede a realização efetiva das Jornadas. É a comissão organizadora
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 40 interinstitucional das Jornadas que se encarrega dos distintos eventos que sucedem nas ruas de Passo Fundo; eventos que podem ter vinculação com autoridades educacionais e culturais, com empresas estatais e privadas, com instituições capazes de conceder apoio cultural. O Festerê Literário funciona, continuando com Sbeghen (2011:171), como uma sorte de chamada de atenção para os passo-fundenses e consiste num encontro entre pessoas, num espaço público, num ambiente festivo, para apreciar apresentações de diferente natureza artística e cultural, tendo especial importância o fato de dar uma grande presença a grupos artísticos da cidade ao mesmo tempo que se divulgam as atividades que acontecerão nas Jornadas desse ano. Isto contribui para que os habitantes de Passo Fundo compreendam o valor das Jornadas na sua cidade e compreendam também a importância do patrimônio cultural que envolvem as Jornadas: O Festerê Literário constitui-se [...] como um processo de educação patrimonial entendida como um conjunto de ações com metodologia própria que promove o conhecimento sobre os bens culturais de Passo Fundo. [...] (Loch Sbeghen, 2011: 169). Em sua opinião as pessoas tomam conhecimento e se relacionam com esse patrimônio cultural, “permitindo que se identifiquem aspetos culturais que os diferenciam de outras cidades, buscando elementos que possam contribuir com a sua preservação”, porque, acrescenta, “Faz-se necessário e urgente despertar entre os habitantes de Passo Fundo uma consciência comunitária, a fim de que seja entendido que esse patrimônio pertence a todos e que é compromisso de todos preservá-lo" (Loch Sbeghen, 2011:170). O Festerê Literário realiza-se em lugares de fácil acesso para a população, lugares em que se encontram por casualidade com o espetáculo sem, em muitos casos, estar previsto assistir. Assim, entre os espaços em que se celebra há shoppings, feiras populares, paradas, ônibus da cidade, praças ou ruas.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 41 Imagem 7. Festerê Literário (Rettenmaier e Rösing, 2011:89, vol.2) O Festerê Literário funcionou como reclamo para o grande público (como aponta Loch Sbeghen, 2011:173), o que contribuía para que as Jornadas Literárias, que celebrarse-iam um mês depois, atingissem elevadas cifras de assistentes, após uma aposta pelo incentivo do turismo cultural, como indica Loch Sbeghen (2011: 169). Assim, segundo Faccin (2016: 25), O Turismo de Eventos é mais do que o evento em si. Move recursos de variados âmbitos, desde organizações capazes de produzir eventos, patrocinadores essencialmente empresas, e todos os recursos possíveis, desde os financeiros, políticos, humanos e até naturais (Faccin, 2016: 25). De acordo com este autor que analisa o turismo cultural em relação à Flip: Apesar de não se tratar de um evento de cunho local, onde a cultura popular seria expressada, deve-se assumir sua importância para o município de Paraty, pois por meio deste evento houve uma série de iniciativas de inclusão social com o público jovem da cidade, projetos que continuam a ser desenvolvidos e transferem conhecimento a cerca do patrimônio local, além de aproximar o público com o mundo da literatura. (Faccin, 2016: 29). Por outro lado, os prêmios literários também foram fundamentais para promover as Jornadas Literárias e, ao mesmo tempo, dar a conhecer o trabalho de novos/as autores/as de literatura. Diretamente ligados às Jornadas Literárias existiam dois prêmios: o
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 48 Imagem 12. Praça Antonino Xavier de Oliveira. (Portal das Jornadas Literárias). Outra perspetiva é a do Patrimônio cultural intangível 44 , aquele que, como explica Martos Núñez (2011:111), permite integrar num todo as manifestações de uma comunidade. Dentro dessas manifestações podem ser incluídas as festas, a literatura oral, símbolos ou artes tais como a música ou a dança. Martos Núñez aponta para uma classificação própria que distingue os símbolos (uma bandeira, escudo, máscara...) de atuações e performances (por exemplo, um jogo, um ritual ou uma tertúlia) e de etnotextos (os textos da tradição, em sua origem orais), aqueles textos que conformam o campo da oralidade que "tienen como escenario de producción culturas comunitarias y que se consideran generalmente bajo el rótulo de mitologia" (Niño, 1998:109) como tenta explicar esta figura: 44 O Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível, segundo a UNESCO, compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes. ˂http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/worldheritage/intangible-heritage/˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 49 Imagem 13. (Martos Núñez, 2011:111). Entendemos que essa engrenagem que nos propõe Martos Núñez funciona no caso de Passo Fundo e, mais especificamente, em relação às Jornadas inseridas no contexto da cidade porque, como explicaremos através de vários teóricos (Bakhtin, entre eles) todos esses elementos mais tradicionais também têm espaço em um contexto plural, de intercâmbio de opiniões e encontro e desencontro de pareceres que fazem com que se construam novos discursos mas tendo em conta os símbolos, as performances e os etnotextos gaúchos. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto Fischer no seu artigo "Encontro de escritores gaúchos: Sua história e seu sentido" (Fischer, 2011) aponta para a preocupação dos organizadores das Jornadas com a existência de um espaço destinado aos escritores gaúchos, assim como com a necessária participação nas Jornadas das crianças e adultos locais, passo-fundenses que nem sempre têm contato habitual com a literatura. A Jornada, desta maneira, ampliou-se ao espaço da cidade, numa tentativa de continuar aproximando a literatura aos passo-fundenses, mas também -"aproveitando" o título de Capital Nacional da Literaturapara construir uma nova ideia de turismo para a cidade: o turismo cultural. Passo Fundo, pensamos, aglutina os dois tipos de patrimônio cultural (tangível e intangível), até porque foi a partir de 2006, com o nomeamento da cidade como Capital Nacional da Literatura, quando se criaram símbolos físicos que hoje são os maiores pontos turísticos da cidade, carregados de simbologia literária que alude às Jornadas (símbolo do patrimônio cultural intangível em Passo Fundo).
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 50 3.1.5. Além do eixo Rio-São Paulo As Jornadas Literárias de Passo Fundo não funcionam como uma feira do livro – cuja proliferação no Brasil atual é ampla, nas suas diferentes modalidades: festa/festival, bienal, feira 45 - porque não procuram a simples comercialização de livros. É habitual encontrarmos outros eventos que giram em torno ao livro mas de uma maneira mercantilista, procurando o maior dos rendimentos e focalizando o empenho na maior difusão entre um público maciço. Um exemplo desse mercantilismo literário seria a Bienal do livro de São Paulo de 2017, focada para o vampirismo e os atores da Rede Globo como reclamo 46 . Na última década, é visível o crescimento deste tipo de encontros (nos diferentes formatos) no Brasil e já foi apontado e abordado a vários níveis. Assim, na imprensa encontramos numerosos exemplos desta "explosão de eventos literários no Brasil" (Vid. por ex. ˂http://www.areditora.com.br/2015/11/a-explosao-de-eventos-literarios-no- brasil/˃). Nessa página da Ar Editora apontam como motivo para a "explosão" o surgimento na década de 1990 da Lei Rouanet, que permite empresas e pessoas físicas que investem em cultura, deduzirem esses valores nos seus impostos de renda. De fato, em 2015, num artigo em O Globo M. Filgueiras, referia mais de 300 eventos literários ao longo desse ano 47 e comentava: “Autores apostam que feiras de livros já substituem as bibliotecas no papel do estímulo à leitura” (Filgueiras, 2015). Em boa medida, deve-se ao sucesso de um desses encontros, com um formato que despertou a atenção da mídia e do público, mas também de outros agentes do campo literário e do mercado editorial, incluídos/as os/as autores/as. Trata-se da Festa Literária de Paraty (Flip), que nasce no ano 2003 na cidade de Paraty (no estado do Rio de Janeiro), 45 O Sindicato Nacional dos Editores do Livro (SNEL) publica anualmente o calendário do “Circuito Nacional de Feiras”. Para 2017 pode consultar-se em: ˂http://www.snel.org.br/calendario-de- eventos/circuito-nacional-de-feiras/˃. 46 Vid. ˂http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/mais-comercial-que-a-flip-bienal-do-livro-de-sp-tera- vampirismo-e-atores-da-globo/˃; a revista Veja aproxima-nos à programação da Bienal do livro de São Paulo de 2017, inclinada para um viês mais pop, procurando uma programação diversificada para atrair o público mais jovem. 47 Três anos antes, a cifra divulgada era de 200: ˂http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2012/08/08/brasilchega-a-200-eventos-literarios-em-2012/˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 51 22 anos depois de que se iniciaram as Jornadas de Passo Fundo. Atendendo ao portal virtual da Flip (˂http://flip.org.br/˃) encontramos as seguintes informações: Desde 2003, a Flip oferece todos os anos em Paraty uma experiência única, permeada pela literatura. Sempre em conexão com a cidade que a recebe, a festa é mais do que um evento, é uma manifestação cultural. Numa interlocução permanente entre as artes, propaga vivências focadas sobretudo na diversidade. [...] Além disso, a Flip oferece uma programação que mantém seus princípios fundadores: originalidade, intimismo, informalidade, o encontro singular entre escritores e público e, acima de tudo, ações de permanência. Flipinha, FlipZona e FlipMais compõem o programa da festa, com atividades que combinam literatura infantojuvenil, performance, debates, artes cênicas e visuais. Cada edição presta homenagem a um autor brasileiro –uma maneira de preservar, perpetuar, difundir e valorizar a língua portuguesa e a literatura do Brasil. Pensados pelo curador da festa, os eixos temáticos são apresentados a partir de um vigoroso time de escritores e escritoras. Salman Rushdie, Don DeLillo, Ariano Suassuna, Isabel Allende, Neil Gailman, Angélica Freitas, Toni Morrison e Chico Buarque são alguns dos nomes que já circularam por Paraty. Como de costume, trazer à tona autores da nova geração também é parte fundamental da programação da Flip. (Portal da Flip). Apesar da multiplicidade de feiras literárias decidimos atender o caso da Flip para ter em consideração em relação às Jornadas de Passo Fundo, com que tem algumas semelhanças. Em primeiro lugar, tem uma visibilidade a nível nacional, como aponta Bertol Domingues (2015:82), que o considera o evento de maior projeção no país. Na Flip monta-se uma tenda especialmente para a festa e nas Jornadas uma grande lona, mas a dinâmica que sucede nesses espaços é semelhante: realizam-se palestras, discussões, oficinas literárias, eventos paralelos para crianças (Jornadinhas no caso de Passo Fundo e Flipinha para o caso de Paraty) ou para jovens (JorNight para Passo Fundo e Flipzona para Paraty). Também existe, como em Passo Fundo, uma notável tentativa de valorizar a cidade através dos eventos literários.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 52 Mas, se existe uma diferença fundamental entre as Jornadas de Passo Fundo e a Flip é a exclusividade que perseguem os organizadores desta. Como apontam Bertol e Vieira (2015:85) a Flip preserva uma ideia de exclusividade em torno do livro, atraindo um "público mais elitizado", apesar de que o número de assistentes sempre se apresenta como mais numeroso do esperado. Aconteceu dessa forma com a primeira edição (em 2003) quando se esperavam centenas de assistentes mas acabaram por ser 6000. Liz Calder, mentora da Flip, admite (BBC, 17/5/2012) que a feira atingiu umas dimensões tais que gostava de que se mantivesse e não aumentasse, até porque, comenta na mesma entrevista, "é como se a Flip decidisse descer a estrada e sair de Paraty, não seria a mesma coisa. Acho que a festa não deve crescer além do tamanho a que chegou hoje". Na verdade, a Flip surge na Inglaterra (O Globo, 2/1/2017), e esse modelo importado estendese até à América Latina, como se estivéssemos perante uma franquia que se estende. Na edição da Flip de 2016, –em valores corrigidos pela inflação anual-, o orçamento previsto era de ₨ 6,8 milhões e seria o menor da festa literária desde 2010 (Folha de São Paulo, 4/5/2016). Até ao momento da publicação desse artigo (4/5/2016), o evento tinha capturado Rs 5,8 milhões via leis de incentivo. Há um circuito muito amplo de feiras/festas literárias no Brasil. As Jornadas são das primeiras nesse formato. O modelo das feiras de livros dista bastante do modelo construído nas Jornadas, dado que as primeiras estão mais orientadas para uma mercantilização do livro. Também existe o modelo das bienais do livro em São Paulo e no Rio de Janeiro. Se definirmos de maneira asséptica o que é uma bienal simplesmente constatamos que consiste em um evento que se realiza a cada dois anos. Porém, uma bienal implica mais aspetos. A promessa e o potencial das bienais reside em sua forma experimental, que continuamente se altera em um processo de questionamento e reinvenção (Dasartes, 10/6/2012). Porém, o modelo das bienais está atravessando uma crise acompanhada de críticas que aludem à repetição dos mesmos artistas de bienal a bienal, "do distanciamento desses eventos com o público local, destinação de recursos públicos a eventos que estão concentrados no tempo e no espaço e a relação próxima que as bienais estabelecem com as feiras" (Dasartes, 10/06/2012). Precisamente, o distanciamento desses eventos com o público local reforça a ideia que indicavam Bertol e Vieira (2015), e já assinalada anteriormente: a elitização
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 53 deste tipo de eventos. Em nossa opinião, esse processo não acontece nas Jornadas de Passo Fundo. Vinicius de Santos (2016:192) aborda o espetáculo das bienais e contrapõe a Flip às Jornadas de Passo Fundo. Segundo ele, a Flip mostra a presença "de ilustres críticos e escritores porque é isso que atrai grande parte do público [...]. Na verdade, esse escritor pode nunca ter sido de fato lido, mas tem um nome reconhecido porque já se construiu uma imagem sobre sua pessoa" (de Santos, 2016:192). Porém, considera que as Jornadas de Passo Fundo se mantêm alheias a essa excessiva espetacularização do escritor, dos críticos... O evento é menos expressivo em números que a FLIP, mas preocupa-se, a meu ver, muito mais com aspectos literários que proporcionem mais reflexões sobre nossa literatura e seus rumos, pois seu foco não está somente na espetacularização de escritores e críticos ali presentes. (de Santos, 2016:192). Sem esquecer que Passo Fundo foi nomeada Capital Nacional de Literatura e o título repercute nas Jornadas, proporcionando uma visibilidade externa maior, mas também na própria cidade, que se converte em reclamo literário nacional, como acontece com a Capital Nacional da Literatura Infantil (Taubaté). No segmento de livros para crianças e jovens, é significativa a ação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que desde 1998 realiza o Salão FNLIJ para Crianças e Jovens, no Rio, e se tornou um modelo para a criação de eventos do mesmo tipo em cidades do interior, como apontam Bertol e Vieira (2015:85). Um caso particular é, como avançamos, o da cidade de Taubaté –no estado de São Pauloconvertida em Capital Nacional da Literatura Infantil desde 2011. É o título que ostenta a cidade natal do prestigiado escritor de infanto-juvenil Monteiro Lobato (1882-1948), desde que a Presidente da República, –na altura Dilma Roussef-, sancionou a Lei nº 12.388. Para rentabilizar essa distinção (em termos de Bourdieu), a Secretaria de Turismo e Cultura promoveu e organizou uma Feira Literária Infantil de Taubaté (Flit), cuja primeira edição teve lugar já em 2011 48 . 48 Vid., entre outros, ˂http://www.redbcm.com.br/Novidade.aspx?id=158˃; ˂http://guiataubate.com.br/noticias/2011/01/taubate-planeja-feira-de-literatura-infantil˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 54 Uma vez compreendemos o funcionamento das Jornadas Literárias de Passo Fundo trataremos de estabelecer uma série de propostas teóricas que analisem o fenómeno social e literário que nos ocupa. 4. As Jornadas Literárias de Passo Fundo: algumas propostas de análise a partir das teorias de campo, sistêmicas e de receção 4.1. A novidade do espetáculo literário. Um olhar teórico: Bakhtin, Lévy, Itamar Even-Zohar e Pierre Bourdieu Desde 1981 e até aos nossos dias (excetuando o ano 2015 em que se suspenderam as Jornadas) a Jornada Nacional de Literatura funcionou como um espetáculo literário, chegando a acolher a milhares de pessoas nas suas conhecidas lonas. No seguinte gráfico que realizamos com os dados de Rettenmaier e Rösing podemos observar algumas cifras sobre a afluência de público às últimas Jornadas -até ao momento, a edição do ano 2013-, (Rettenmaier e Rösing, 2015:437). Gráfico 2. Fonte: Rettenmaier e Rösing, 2015:437. Elaboração própria. Através de vários estudiosos trataremos de entender as Jornadas como grande espetáculo, partindo da ideia do sujeito construído na linguagem de Bakhtin, passando pelos rumos da inteligência coletiva que estudou Lévy e a Teoria dos Polissistemas de Itamar Even-Zohar, para chegar às teorias de campo de Pierre Bourdieu, instalando-nos numa corrente surgida a partir da década de 1970 na linha do chamado giro cultural, face à predominância de outras teorias anteriores linguísticas, formalísticas e hermenêuticas, 6219 18000 2000 Participantes na Jornada de 2013 Público adulto Jornadinha JorNight
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 55 sobretudo da primeira metade do século XX. 4.2. O sujeito em Bakhtin e os rumos da inteligência coletiva de Lévy Tânia Rösing (2011:36) comenta que, já desde o primeiro momento, "a ideia das Jornadas pressupôs o uso da linguagem no seu potencial plurissignificativo". Com as Jornadas Literárias de Passo Fundo começou-se, já no início, a criar um sujeito: as próprias Jornadas, configuradas no contexto de uma complexidade que nos leva a outros sujeitos construidos a partir de diversas vozes. Bakhtin na sua análise da obra de Dostoiévski utilizou a palavra "polifonia" de maneira metafórica, entendendo que toda obra é plurivocal. Neste trabalho aproximamonos dessa metáfora da polifonia situando-nos numa perspetiva mais sociológica. Roman (1992-93:210) explica que Bakhtin pensou no fato de que as vozes dos personagens da obra de Dostoiévski apresentam uma independência excecional na estrutura da obra. As múltiplas consciências que aparecem no romance mantêm-se em pé de absoluta igualdade, sem se subordinarem à consciência do autor. Portanto, seguindo a Brait (2011:37) o gênero romance para Bakhtin apresenta diferentes vozes que se entrechocam, manifestando distintos pontos de vista sociais sobre um dado objeto; e por isso o gênero é polifónico por natureza. Assim, polifonia é, segundo Mikhail Bakhtin (1995:90), a diversidade, a impossibilidade de que exista um "rostro auténtico, indiscutible, de la lengua". Atendendo a isso, as Jornadas funcionam como um espaço de criação de sujeitos coletivos através da polifonia de que falava Bakhtin, mas, neste caso, entendendo a polifonia como o trabalho plural dos assistentes às Jornadas após ter lido as obras. As obras eram, assim, recriadas entre os assistentes aproveitando as ações ou os diálogos que sugerem -como explica Tânia Rösing (2011:38)- causas e consequências não explicitadas pelo autor. Por outro lado, Lévy (2004:51) explicou os rumos da inteligência coletiva, que confluem com a ideia da polifonia e a criação do sujeito de Bakhtin. Na conferência ministrada na Pré-Jornada da 13ª edição das Jornadas Lévy incidiu (Clic Soledade, 29/9/2009) na ideia de uma inteligência coletiva, criada pela coletividade. Ele insiste na ideia da necessidade das práticas de acolhida, de ajuda, de abertura, recolhimento e
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 56 construção porque só dessa maneira o ser humano conseguiu subsistir até hoje. Entende, portanto, que a leitura comum, entre todos e junto com o autor das obras, é positiva para a compreensão múltipla e completa dos textos. Neste caso, Tânia Rösing aplicou as ideias universalizantes de Lévy ao sistema de leitura e diálogo coletivo instaurado nas Jornadas. Tanto as teorias de Bakhtin quanto as propostas de Lévy podem ser aplicadas a eventos literários que atendem à polifonia, às ideias universalizantes e plurais. Nesse caso existe o diálogo entre obra e leitor de que fala o principal teórico da estética da receção, Hans Robert Jauss (1992). A professora gaúcha Regina Zilberman também trabalhou com a estética da receção, tratando de aproximar teóricos como Jauss da realidade brasileira. Depois de fazer um percurso pelas distintas escolas que abordaram a estética da receção reflete sobre o fato de que "cada leitor pode reagir individualmente a um texto, mas a receção é um fato social" (1989:34). Segundo Vargas Llosa (2012:15) é possível constatar que "en una civilización del espectáculo los artefactos literarios están ofuscados por la figura del escritor, colocado em el centro del interés del público lector". De acordo ainda com o autor peruano, esse fenômeno é "espelho de uma contemporaneidade bombardeada por imagens, pelo virtual e pelo universo midiático, alterando os parâmetros da receção, que reverbera, em última instância, no processo de circulação da obra" (Vargas Llosa, 2012:20). Porém, embora isso já foi constatado no presente trabalho, existe uma grande tentativa por parte da coordenação das Jornadas por fugir da superficialidade do simples contacto com o autor e isso consegue-se com o profundo trabalho prévio que existe para que os assistentes tragam lidas as obras no momento da Jornada. 4.3. A Teoría dos polissistemas de Itamar Even-Zohar Arrizabalaga (2007) explica que a Teoria dos Polissistemas constitui a prédica fundamental do Eixo de Tel Aviv (face à corrente dos Estudos da tradução do Eixo de Lovaina), herdeira do formalismo russo e o estruturalismo francês. De acordo com Itamar Even-Zohar (1999:9) os modelos de comunicação humana regidos por signos (a cultura, linguagem, literatura, sociedade...) podem compreender-se e estudar-se de maneira mais adequada se se consideram como sistemas mais do que como conglomerados de elementos díspares. Os sistemas estão em contato e apresentam um dinamismo contínuo,
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 57 de modo que falamos de operações semanticamente complexas. Atender a estes sistemas permite chegar a explicar fenômenos desconhecidos -e não só aqueles conhecidospela relação que vai existir entre esses sistemas. Even-Zohar (1999:16) explica na sua proposta teórica que os produtos literários de que falamos podem ser classificados em “canonizados” ou “não canonizados”. Entende por “canonizados” aqueles modelos ou textos que, nos círculos dominantes de uma cultura, se aceitam como legítimos, preservados pela comunidade para que façam parte da sua herança histórica. Por outra parte, os “não canonizados” são rejeitados como ilegítimos e a sociedade tende a esquecê-los (isto pode mudar se o sistema muda). A “canonicidade” ou “não canonicidade” não é, assim, um traço inerente às atividades textuais e, como indicámos, o seu status pode mudar. Se aplicamos isso aos sistemas culturais I. Even-Zohar (1999:17) explica que estes precisam de um sistema regulador para não desaparecer. Isto é, existem uma série de tensões dinâmicas que operam no seio da cultura para a sua preservação. O professor israelita entende da seguinte maneira a relação dentro de um sistema cultural entre a "cultura" e a "sub-cultura": Parece que cuando no hay ‘sub-cultura’ (literatura popular, arte popular, ‘cultura inferior’ en cualquier sentido, etc.), o cuando no se permite ejercer presión real sobre la cultura canonizada, hay pocas oportunidades para que exista una cultura canonizada dotada de viabilidad. Sin la estimulación de una fuerte ‘sub-cultura’, cualquier actividad canonizada tiende a fosilizarse gradualmente. (Even-Zohar, 1999:18) Isto é evidente nas Jornadas Literárias de Passo Fundo no sentido de que a presença da cultura popular gaúcha é fundamental para que estas funcionem, em um contexto em que também existe espaço para a literatura inserida habitualmente dentro do cânone. Alves da Costa (2007:11) a partir das ideias de Even-Zohar, afirma que a evolução do sistema literário precisa ser analisada em sua correlação com os outros sistemas semióticos com os quais interage, porque a literatura é um sistema aberto. Comenta ainda que a literatura tem uma rede de interdependências entre os seus sistemas centrais e seus
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 64 obsessão para autoridades e pessoas com responsabilidade em políticas de educação e cultura no Brasilde incrementar os índices de leitura no país com o fato real de que o contato com o mundo digital é cada vez maior. Já em 2003, o crítico Weschenfelder (2003:31) opinava que os livros impressos, a escola ou o professor tinham possibilidades de desaparecer (14 anos depois não perderam tanta força como se chegou a prever, num debate de que essa opinião é um exemplo), de se tornarem obsoletos se não adotarem práticas leitoras que contemplem mudanças que insiram os/as alunos/as na cibercultura (práticas vinculadas à cibercultura como as propostas por André Lemos, 2015). Weschenfelder distingue três elementos que concorrem no conjunto de mudanças que, em sua opinião, configuravam na altura o novo perfil de sociedade: "a velocidade com a qual os dados circulam e são produzidos; o entendimento das relações entre trabalho, cidadania e aprendizagem e os dispositivos tecnológicos" (2003:33). Este último, ligado à incorporação das tecnologias contemporâneas. Estas, como sabemos, sofreram grandes mudanças nesses anos, visíveis em praticamente todos os âmbitos, incluídos o cultural e o literário (como aponta Castells, –2000-, ao referir-se às mudanças dos suportes de leitura), como se evidenciava já nas Jornadas em inícios do atual século: "instaura-se na atualidade um terceiro pólo de emissão e receção de conhecimentos: a comunicação informatizada, ou seja, a cibercultura" (Weschenfelder, 2003:35). Em inícios de 2000, a pedagoga Ramal explicava o seguinte: Os suportes digitais, as redes, os hipertextos são, a partir de agora, as tecnologias intelectuais que a humanidade passará a utilizar para aprender, gerar informação, ler, interpretar a realidade e transformá-la. A memória coletiva torna-se ainda mais dinâmica: da subjetividade restrita de um único narrador e, das bibliotecas de livros e documentos, passamos à rede de computadores, na qual a história vai sendo escrita dia a dia, bite a bite, não por um autor, mas por uma infinidade de vozes e olhares. (Ramal 2002:23) Nesse contexto, a interação entre autores e leitores varia, porque antes do acesso mais amplo ao mundo digital a relação autor-texto-leitor era distante. Segundo apontam Rösing e Melo (2007:232), havia um ‘abismo’ entre os elementos/agentes envolvidos no ato da
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 65 leitura; e, durante séculos, “o distanciamento criado entre autor, texto e leitor deixava constantemente um vazio imenso entre eles, como se fossem fatias distintas e que deveriam, a todo custo, ser condenadas a permanecer afastadas” (Rösing e Melo, 2007:232). Com o computador e a Internet as barreiras entre autor, texto e leitor foram diluindose; uma das consequências de uma rede que democratiza e aproxima os integrantes de uma relação "tensa" no processo de leitura, como aponta Magnabosco (2009). Neste sentido, as Jornadas Literárias de Passo Fundo funcionaram e funcionam também como elemento democratizador, que aproximam, como vimos, autores e leitores através de um diálogo em um ambiente festivo que lembra, em boa medida, um circo. Também foi importante, ao longo destes anos, o fato de as pessoas organizadoras terem trabalhado muito para que nas Jornadas existisse uma visível multimidialidade. Para compreender melhor o conceito de multimidialidade recorremos à definição de Scolari (2008:35): La multimedialidad supone la integración en el hipertexto de distintos medios. Los documentos hipertextuales pueden ser textuales, gráficos, sonoros, animados, audiovisuales o una combinación de parte o de todas estas morfologías; por lo que el término hipertexto puede tener características multimedia. Multimedia significa la combinación o utilización de dos o más medios en forma concurrente. Esse trabalho para que na Jornada existisse uma visível multimidialidade traduziu-se na criação do Mundo da Leitura, onde a formação de leitores e leitoras se realiza digitalmente. Esta foi uma das maisvalias das Jornadas ao criarem novas possibilidades para a relação entre produtor e consumidor literários. Essas novas relações também afetam o produto literário, o texto. Um texto que, no mundo digital, passa a ser modificável 51 (pensemos nos hipertextos, por exemplo. 51 Vid., entre outros, Guimarães Tavares, O. "Um luthier digital". Dossiê Especial V. I: Literaturas Digitais.2012. Pp. 151-160.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 66 Segundo Rösing, A intangibilidade da obra de arte desaparece e os internautas hipermidiáticos leitores/escritores/críticos passam a assumir uma espécie de coautoria sobre os mesmos, à medida que se apropriam dessas riquezas em suas próprias produções hipermidiais compartilhadas, as mais diversificadas. (2009:132). Portanto, vemos que estamos perante um panorama completamente diferente nos últimos anos em relação às primeiras edições das Jornadas, que mostra uma produção literária mais participativa na sua própria conceção e no diálogo entre produtores e consumidores. A partir da 9ª Jornada Literária de Passo Fundo (2001) une-se a vontade inicial dos organizadores de que se estabeleça esse diálogo entre os autores e os leitores às novas oportunidades de um mundo digital que promove facilmente que exista um diálogo. Desta maneira, os modos de leitura que permitem as mudanças tecnológicas são diferentes àqueles da leitura no suporte tradicional, convivendo ambos nestes anos. A continuação mostramos uma gráfica que atende à participação digital no número de exemplares de livros de interesse geral vendidos no Brasil nos últimos anos, onde se observa uma crescida exponencial: Imagem 15. Retratos da Leitura no Brasil (2016).
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 67 Porém, segundo Cunha (2016) o mercado de livros digitais está a se estagnar nos EUA e na Europa e não chega a decolar no Brasil. Entre as causas desta situação indicase que, em 2014, as editoras conseguiram a possibilidade de fixar os preços de seus próprios e-books mas nessa altura muitas começaram a cobrar mais, e isso deu competitividade aos antigos livros impressos. De acordo com Cunha (2016) já em 2016 o livro digital perde o brilho e fica com só 3% do setor do livro. Mas o livro acaba por aproveitar-se dos recursos introduzidos pela tecnologia da informática, "facilitando, graças a programas de editoração de textos, de digitalização de imagens e de tratamento de figuras, o processo de formação, revisão, impressão e distribuição" (Rettenmaier, 2007:144). O historiador da leitura francês Roger Chartier indica três revoluções que o mundo digital implica para a literatura, nomeadamente em relação à ‘ordem dos discursos’: "propõe uma nova técnica de inscrição e de divulgação do escrito; incita a uma nova relação com os textos; impõe a estes uma nova forma de organização" (Chartier, 2007:205). O professor tunesino Lévy na Jornada Literária de Passo Fundo em 2009 (Clic Soledade, 29/9/2009), falou da "inteligência colectiva" num momento em que se vivia uma revolução cujo último passo seria o ciberespaço. Segundo Lévy, existe uma inteligência coletiva que se consegue com uma base comum global para a comunicação e a inteligência coletiva aumentada. Lévy (2004) entende a inteligência coletiva como a capacidade que temos os seres humanos de pensar coletivamente, de manipular os símbolos linguísticos e agir coletivamente. Mas isto não significa que a leitura mude: La literatura, como objeto estético, ha sido, obviamente, influenciada por Internet y por la informática globalizada. Eso no implica la idea de que la manera de leer la literatura ha cambiado. En realidad, la literatura se contamina por los medios sin dejar de ser literatura. De la misma forma, estamos en la era de las máquinas sin que dejemos de ser humanos. Ese es nuestro destino, lentamente ser a veces y produndamente leer siempre lo que es arte, en la búsqueda de un sentido que se promete desde el origen de las palabras (Rettenmeier e Rösing,
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 68 2012:207). Talvez sem contradizer a contundência de Rettenmeier e Rösing de que a literatura se contamina pelos meios sem deixar de ser literatura apareçam outros autores que insistem no fato de que a maneira de ler a literatura mudou. É o caso de Rodríguez Ruiz (2000) quando, em inícios do século XXI, insiste na existência de novas formas de leitura através de, por exemplo, os hipertextos. Para concluir esta, necessariamente breve, aproximação à questão da multimidialidade aplicada ao contexto literário, consideramos de interesse a reflexão do professor de origem húngara Petöfi, recolhida em Albaladejo 2007, que condensa essa relação ao indicar que La aplicación de la tecnología digital permite una discursividad interactiva y multimedial que, con la escritura, lo visual no lingüístico y lo acústico, da como resultado la superación de algunas de las limitaciones que para la literatura se han derivado de la escritura y de la imprenta, al no poder acceder aquella antes a las posibilidades interactivas y multimediales que las nuevas tecnologías le ofrecen. (Albaladejo, 2007:5). 5.2. O Mundo da Leitura: Leitura na multimidialidade Um dos nossos principais objetivos é conhecer qual é a importância da multimedialidade e como isso se conjuga com a literatura no ambiente das Jornadas Literárias de Passo Fundo de modo que prestaremos especial atenção ao Mundo da Leitura, também chamado Centro de Referência de Literatura e Multimeios. Foi criado em 1997. O objetivo principal do centro Mundo da Leitura consiste em formar leitores e leitoras de literatura em diferentes linguagens, potenciando, assim, a multimidialidade, adaptando-a dentro do mundo da literatura e instaurando-a no sistema literário. O centro desenvolve várias atividades ligadas à pesquisa, ao serviço à comunidade em geral e oferece, por exemplo, a possibilidade de visitas agendadas para professores e alunos em turmas, como se pode observar no próprio endereço web do Mundo da
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 69 Leitura 52 . O próprio espaço em que se encontra o Mundo da Leitura é atraente 53 , sobretudo para os mais jovens. Imagem 16. Mundo da Leitura no interior. (˂http://www.vangfm.com.br/principal.php?id=11586˃). A localização é contígua à Biblioteca Central do Campus I (dos dois que existem) e para entrar é preciso atravessar um labirinto real, que existe fisicamente, que leva a outro "labirinto": o labirinto da literatura, como aponta Rösing (2011:180), para quem Pelo espaço passa um fio imaginário que conduz o leitor a diferentes suportes e linguagens, possibilitando sempre uma nova leitura. É uma referência ao mito de Teseu o Minotauro. Constrói-se, assim, em cada visita, uma atmosfera de mistério, de despertamento da curiosidade sobre o que encontrará nesse ambiente multimidial (Rettenmeier e Rösing, 2011:180). A experiência pessoal in situ permitiu-nos trabalhar neste Centro de Referência de 52 Vid. ˂http://www.mundodaleitura.upf.br/˃. 53 Pode ver-se um plano do local, da autoria de Rösing e Silva (1999:34) no anexo V. Pág. 252.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 70 Literatura e Multimeios 54 e observar que, no seu acervo, havia um volume importante de livros, quer de caráter teórico quer de criação literária, e de entre estes, a maioria é do setor infanto-juvenil. Conta, também, com outro tipo de materiais; entre os quais, CDs, CDs-Rom, diapositivos, filmes em vídeo, histórias em quadrinhos ou audiolivros. O Mundo da Leitura dispõe de diversos computadores para a utilização em sala de todos esses materiais, mas também podem ser emprestados porque este Centro funciona, aparentemente, como se de uma biblioteca se tratar. De fato, inicialmente foi criado para receber o acervo literário enviado pela Fundação de Assistência ao Estudante do Ministério da Educação, como aponta Tânia Rösing (2011:180); mas, depois, viram a necessidade de aumentá-lo. No entanto, vai muito além daquilo que normalmente entendemos como uma biblioteca convencional, porque conta com toda essa série de materiais que permitem uma leitura multimidial, acessível e que não deixa de lado as novas maneiras de se aproximar à literatura; uma forma interessante de conetar com um público mais jovem e que explica, em boa medida, o fato de muitas das obras estarem dirigidas a um leitor infantil ou juvenil. De entre o conjunto de materiais teóricos presentes no Centro, grande parte deles tratam das Jornadas Literárias de Passo Fundo; esperável se temos em conta que o Mundo da Leitura é uma feliz consequência destas. Portanto, o CRLM funciona como um grande repositório de todos os textos que se criaram antes, durante ou depois das diferentes Jornadas. De fato, foi um lugar fundamental para localizar e trabalhar determinadas fontes bibliográficas deste trabalho, que, em determinados casos, não estavam disponíveis no Portal Virtual das Jornadas nem acessíveis na internet. Trata-se de um lugar onde se conjugam as "linguagens quadrinizada, informatizada, teatral, musical, televisiva, falada e escrita" (Rösing e Silva, 1999:28) e onde convivem, além das consultas bibliográficas, projetos de pesquisa e projetos de extensão educativa e social. Se bem o objetivo principal do Mundo da Leitura é, como indicámos, a formação de leitores, as pessoas responsáveis são conscientes de que essa formação deve ser feita através do divertimento dos assistentes individuais ou daqueles que chegam ao Centro 54 A partir de agora, CRLM.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 71 através das visitas agendadas de práticas leitoras (estas são ações de leitura promovidas nas visitas agendadas), que consideram básicas para assentar uma perceção, entre o público mais jovem, do disfrute da literatura. Jovens que, em geral, chegam ao Mundo da Leitura junto com o/a seu/sua professor/a da escola e ali "cria-se um ambiente ideal onde tudo se interliga: o acervo, os sentimentos, as expectativas, o tempo" (Rösing e Silva, 1999:28). O Centro, desta maneira, funciona como um laboratório de formação de leitores em ambiente multimidial, que atende a demanda de um novo leitor, "numa perspetiva crítica e cidadã" (Rösing e Silva, 1999:28). Para além dessas praticas leitoras, sobre as quais voltaremos, uma das iniciativas ligadas ao Mundo da Leitura é o projeto do Livro do Mês. Trata-se de uma proposta iniciada em 2006 com o propósito de mostrar um novo modo de se aproximar de uma obra literária. É, como explica Rösing, uma das iniciativas culturais promovidas pela Universidade de Passo Fundo, com motivo de a cidade “ter sido, por força de lei federal n° 11264, de 02/06/2006, transformada em Capital Nacional da Literatura” (2011:181). O Livro do Mês passa por várias fases. A primeira consiste na eleição de uma obra, habitualmente orientada para um público juvenil. A escolha é responsabilidade dos/as professores/as de literatura brasileira e literatura em língua estrangeira e pelos monitores 55 do Centro. Posteriormente, os/as alunos/as desses cursos realizam uma leitura individual da obra selecionada para, mais tarde participarem da atividade, junto com os monitores do Centro, numa sala criada especificamente para eventos desse estilo (a Arena). Nesse espaço, tem lugar uma apresentação dinâmica do texto e, aproveitando todos os meios de distinta natureza que lá existem e num cenário de multimidialidade, os monitores e alguns alunos explicam quem é o autor ou autora do livro e situam os alunos no contexto da obra. A seguir, estabelece-se um debate coordenado pelos monitores e, algum tempo depois mas dentro do mesmo mês, o conjunto da comunidade que participou do encontro no Mundo da Leitura assiste a uma palestra do autor ou autora da obra trabalhada, onde se estabelece um diálogo entre leitores/as e autor/a. Vinculado com este projeto do Livro do Mês existe também o de Livro do Mês em Comunidades, numa parceria entre a Universidade de Passo Fundo e a Secretaria 55 Os monitores são pessoas voluntárias ou que fazem parte do pessoal contratado do Mundo da Leitura.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 72 Municipal de Educação da Prefeitura da cidade. Está dirigido a crianças e jovens das camadas mais populares e trata de aproximar a literatura a jovens de diferentes procedências da cidade (já não se trata de público universitário), por vezes, em situação de vulnerabilidade social e, ao mesmo tempo, também tem como objetivo que os jovens se eduquem no ‘letramento digital’ 56 . Por esse motivo o projeto está organizado pelo Mundo da Leitura e o Mutirão pela Inclusão Digital. O projeto deste Mutirão, segundo informam na sua página web 57 , está "vinculado ao curso de Ciência da Computação da Universidade de Passo Fundo, "ao tempo em que se articula profundamente com ensino, pesquisa e com outros projetos de extensão do curso, propõe processos de formação que buscam propiciar a grupos em situação de vulnerabilidade e risco social". Outra iniciativa vinculada com o Mundo da Leitura são as chamadas Sacolas circulantes: os professores podem pedir emprestadas as sacolas aos trabalhadores do Mundo da Leitura com 35 títulos de textos literários. Como explica Rösing, "é possível que o professor organize a sua própria sacola, por temática ou por gêneros textuais, [...] levá-las para sua escola, utilizá-las por determinado período e trocá-las por outras durante o ano letivo". (2011:181). Outra das atividades programadas no Centro é o projeto Arte & Literatura aos sábados, criado pelo Mundo da Leitura em 2009 cujo objetivo é oferecer atividades relacionadas com a arte e a literatura. Com este projeto realizam-se oficinas que giram arredar de temas literários, abertas a qualquer pessoa mas orientadas para as crianças. Como analisámos ao trabalhar com as notícias de imprensa sobre as Jornadas, em 2003 inicia-se o programa de televisão Mundo da Leitura na TV (que passou a partir de 2005 a emitir-se em rede nacional) como um exemplo mais da multimidialidade pela qual apostaram os responsáveis pelo Mundo da Leitura, a partir do momento em que se inaugurou. Mundo da Leitura na TV é um programa dirigido para crianças, tendo como 56 Como explica Bagno, 2002, este é um tipo de letramento aplicado ao domínio das tecnologias digitais, à apropriação que um sujeito faz das ferramentas de comunicação disponibilizadas grazas aos recursos tecnológicos. 57 Vid. ˂http://culturadigital.org.br/project/mutirao-pela-inclusao-digital/˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 73 personagem principal o Gato Gali-Leu, um símbolo 58 do trabalho de formação de leitores através dos programas de televisão para crianças. Em definitivo, as pessoas com responsabilidade no Mundo da Leitura, os trabalhadores, preocuparam-se por aproximar à população passo-fundense –mas conseguindo atingir o conjunto do estado do Rio Grande do Sul e o Brasil através do Mundo da Leitura na TV e da repercussão das Jornadas Literárias de Passo Fundo para além das fronteiras da cidade- a uma produção literária que vai além do livro físico. É importante não esquecer que estes objetivos são, fundamentalmente, dirigidos a potenciar a(s) prática(s) leitora(s) especialmente entre as crianças e os adolescentes. Assim, foi criado também o projeto Mundo da Leitura no Contexto da Escola, mediante o qual se distribuíram pelas escolas de Passo Fundo, em DVD, o conjunto de programas do Mundo da Leitura na TV. Porém, embora o foco principal da formação de leitores em ambiente multimidial fossem os/as alunos/as das escolas de ensino fundamental e educação de jovens, os materiais também chegaram a programas destinados ao ensino de adultos do município. Tudo que acontece no Centro de Referência de Literatura e Multimeios fica registado no Jornal Mundo da Leitura, escrito pelos monitores do Mundo da Leitura (podem-se encontrar alguns números na página web do Mundo da leitura 59 . Evidencia-se, mais uma vez, o caráter multimidial de todo o sistema que envolve o Centro e, por extensão, também as Jornadas Literárias de Passo Fundo. Para o Mundo da Leitura o exercício da leitura instaura uma apropriação de distintos significados em diferentes linguagens, entrando em contato com as novas tecnologias. 5.2.1. Práticas leitoras em ambiente multimidial: Novas atitudes de leitura Desde 1997 até hoje produzem-se no Mundo da Leitura práticas leitoras em 58 Tem relevância o fato de ser o Gato Gali-leu um ótimo leitor e ser seu maior sonho se tornar um escritor de sucesso e publicar o seu livro. Já em 2005 a repercusão do Gato Gali-leu foi tal que se utilizou a sua imagem fora da televisão como bandeira do trabalho pela formação de leitores. 59 Vid. ˂http://mundodaleitura.upf.br/centro/index.php/publicacoes/2-conteudo/24-jornal-mundo-da- leitura˃.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 80 autores e autoras literários/as em ídolos do grande público, que permitiram a abertura de um diálogo aproximando os leitores dos autores, e tudo isto inserido dentro de um ambiente festivo (baixo a grande lona circense), mas nem por isso menos académico e inspirador.
As Jornadas Literárias de Passo Fundo como espaço para a formação de leitores em ambiente multimidial | Elena Veiga Rilo 81 Anexo I. Jornadas e jornais
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