GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS VOLUME 2 GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS VOLUME 2 GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA VERNACULAR: EXPRESSÕES E REPRESENTAÇÕES VERNACULAR: EXPRESSIONS AND REPRESENTATIONS Este capítulo apresenta alguns contributos para a discussão de expressões culturais (materiais e imateriais) que se organizem no espaço da dicotomia formal erudito/popular, com as suas infinitas e biunívocas leituras, sempre referenciadas aos diferentes tempos e contextos históricos. This chapter presents some contributions discussing cultural expression (both material and immaterial) set within the formal scope of the dichotomy between erudite and popular, with its infinite and dual interpretations that constantly refer to different times and historical contexts. VIAS, PAISAGEM E TERRITÓRIO | ROADS, LANDSCAPE AND TERRITORY Os conceitos de lugar, espaço, paisagem e território têm sido discutidos em várias frentes disciplinares na última metade do século XX. Entre todos, o de paisagem permite a convergência de olhares. Na paisagem, entendida como produto cultural, revela-se a intervenção humana em vários níveis, nomeadamente através da construção das vias que se estruturam como elementos vitais (e até estéticos) das relações humanas, ao mesmo tempo canais de circulação, espaços de contacto e sociabilidade ou mesmo «não-lugares», segundo o cunho de Marc Augé. The concepts of place, space, landscape and territory have been discussed in various disciplinary fields in the latter half of the twentieth century. Between them all, landscape allows a convergence of views. In landscape, understood as a cultural product, human intervention is revealed at various levels, in particular through the construction of roads, which are structured as vital elements (and even an aesthetic) of human relations, while also being circulation channels, spaces of contact and sociability or even «non-places», as endorsed by Marc Augé. ARQUITETURAS MILITARES | MILITARY ARCHITECTURE No âmbito desta temática, apresentam-se neste capítulo alguns estudos que podem contribuir para a pluralidade de aproximações possíveis ao fenómeno da Arquitetura Militar, esquematizadas em grandes linhas de força: as muralhas e outras defesas do habitat concentrado; os acampamentos militares, que pressupõem a existência de exércitos profissionais e permanentes; o aparecimento do castelo, enquanto estrutura significante da Idade Média, os ritmos de encastelamento e a evolução das suas formas arquitetónicas; o fim do castelo e as experiências da “arquitetura de transição”; e, finalmente, a afirmação das fortificações modernas, marcadas pelo aparecimento e triunfo do baluarte anguloso. In the scope of this topic, this chapter presents some papers, which can contribute to view the phenomenon of military architecture from a wide range of possible approaches, which can be subdivided into broad themes: walls and other means of defending concentrated habitats; military encampments, which presuppose the existence of professional standing armies; the appearance of the castle, both as a significant structure in the Middle Ages but also with regard to the changing nature of castle-building and the evolution of its architectural forms; the end of the castle and the experiences of “transition architecture”; and, finally, the affirmation of modern fortifications, marked by the emergence and triumph of the angular bastion. MUNDOS DE TRANSIÇÃO | TRANSITIONAL WORLDS A historiografia ocidental tradicional dividiu a História (e a Pré- -história) em períodos e subperíodos sucessivos, separados por intervalos temporais que estabelecem as chamadas Transições. Seccionou-se, portanto, o continuum da História sugerindo a existência da rutura após um tempo longo de continuidade. Mas, de facto, o que normalmente representa a rutura não é mais do que um longo processo de mudança histórica, por vezes de duração secular ou mesmo milenar. Todavia, a História e a Arqueologia conseguem identificar sinais e espaços/ materialidades e territórios que anunciam a mudança cultural – Mundos de Transição – que traduzem o fluir do processo histórico. Este capítulo apresenta algumas reflexões sobre estes Mundos de Transição e sobre essas dinâmicas de transformação. Traditional Western historiography has divided history (and prehistory) into successive periods and sub-periods separated by time intervals that constitute so-called transitions. With the continuum of history sectioned in this way, there is the suggestion of time being ruptured after long periods of continuity. Yet, in fact, what is represented as a rupture is no more than a long process of historical change, sometimes occurring over centuries or even millennia. However, history and archaeology are able to identify signs and spaces/materiality as well as territories that herald cultural change – Transitional Worlds – which reflect the flow of the historical process. This volume presents some reflections about these Transitional Worlds and these dynamics of change.
VOLUME 2 COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS
Título: Genius Loci: lugares e significados | places and meanings – volume 2 Coordenação: Lúcia Rosas; Ana Cristina Sousa; Hugo Barreira Fotografia da capa: Figura antropomórfica oculada – Regato das Bouças, Serra de Passos, St.ª Comba, Portugal. Adaptado por Marzia Bruno e Fuselog. Design gráfico: Helena Lobo | www.hldesign.pt Edição: CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» ISBN: 978-989-8351-843-5 Depósito Legal: 434992/17 Paginação, impressão e acabamento: Sersilito -Empresa Gráfica, Lda. | www.sersilito.pt Porto Dezembro 2017 Os textos e as imagens utilizadas são da inteira responsabilidade dos autores. Trabalho cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e por fundos nacionais através da FCT, no âmbito do projeto POCI-01-0145-FEDER-007460.
5 ARQUITETURAS MILITARES Apresentação 11 Foreword 13 Apuntes sobre los Procesos constructivos de fortificación en el territorio de la Corona de Castilla 15 Manuel Retuerce Velasco; Fernando Cobos Guerra Castros o castillos: problemas metodológicos y de identificación de fortificaciones medievales en Galicia 51 David Fernández Abella Seguindo os passos do exército romano: uma proposta metodológica para a deteção de assentamentos militares romanos no Noroeste Peninsular 67 Andrés Menéndez Blanco; David González Álvarez; José Manuel Costa-García; João Fonte; Manuel Gago; Valentín Álvarez Martínez Castra Oresbi: um assentamento militar romano na Serra do Marão? 81 João Fonte; Maria João Correia Santos; José Manuel Costa-García; Catarina Isabel Sousa Gaspar; Hugo Pires La fortificación de las ciudades vasconas en la tardoantigüedad. Algunas reflexiones 95 Ángel Antonio Jordán Lorenzo; Iosu Barragán Cidriain Elementi difensivi lungo il confine nord della diocesi di Porto fra IX e XII secolo: primi risultati 107 Andrea Mariani Toponímia e arquitectura das ordens militares em Portugal: a memória do Oriente Latino 121 Nuno Villamariz Oliveira O castelo de Outeiro na fronteira bragançana 133 Ana Maria da Costa Oliveira Nem só com castelo se defendeu a fronteira: Atalaias e Povoados fortificados na margem esquerda do Médio Côa 145 Tiago Pinheiro Ramos “Aqui Nasceu Portugal” – Da sublimação do Castelo de São Mamede em Guimarães à sua conversão em arquétipo cultural do Castelo Português 159 Joaquim Manuel Rodrigues dos Santos O cubo artilheiro da barbacã do castelo de Freixo de Espada à Cinta no contexto da arquitetura de transição da raia transmontana em finais do século XV 171 João Nisa; Tânia Falcão SUMÁRIO
6 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 O Livro das Fortalezas de Duarte de Armas – Contributo para uma análise comparativa dos Manuscritos de Lisboa e de Madrid 183 Mário Jorge Barroca Transformations of Riga’s Fortification System in the 17th Century as a local Manifestation of well-ordered Fortress 207 Anna Ancane Das fortificações portuguesas em Mascate: análise morfológica e territorial 219 Ana Catarina Gonçalves Lopes; Jorge Manuel Simão Alves Correia Fortificações da Foz do Tejo 231 Cristina Coimbra Próspero Os manuais de castrametação, a aprendizagem do desenho urbano e um tratado manuscrito de Luís Serrão Pimentel 243 Margarida Tavares da Conceição MUNDOS DE TRANSIÇÃO Apresentação 257 Foreword 259 Concepções mentais e práticas funerárias dos séculos V a VIII: entre a perpetuação de arquétipos e a abertura a novos influxos 261 Andreia Arezes As sepulturas escavadas na rocha e as leituras possíveis de um território a sul do Douro 275 César Guedes A devoção às almas em Portugal. Perspectiva antropológica e histórica 289 Maria Inês Afonso Lopes Romane VS Romanesque. A invenção de uma nomenclatura 303 Maria Leonor Botelho Cerâmica romana importada na Foz do Douro: uma escavação arqueológica no Castelo de Gaia (V. N. Gaia, norte de Portugal) 315 António Manuel S. P. Silva; Rui Morais; María Rosa Pina-Burón; Roger Prieto de la Torre A topografia histórica de Mértola na Antiguidade Tardia 333 Virgílio Lopes A arquitetura no «largo tempo do manuelino». Síntese pragmática e eficiente 347 Tiago Filipe Trindade Cruz PROGREDIOR: o Palácio de Cristal Portuense 359 Vera Gonçalves
7 SUMÁRIO Na Transição entre os Séculos XX e XXI – Interseções e Sobreposições entre Educação e Criatividade nos Museus 371 Inês Ferreira; Alice Semedo; Elisa Noronha Nascimento Monte Branco da Foz do Carvalho (São Marcos da Serra, Silves): 5 milénios de evolução histórica até à submersão na Barragem de Odelouca 385 Susana Rodrigues Cosme VERNACULAR: EXPRESSÕES E REPRESENTAÇÕES Apresentação 401 Foreword 403 As expressões de arquitectura vernacular em contexto de Avaliação de Impacte Ambiental 405 Gertrudes Branco Dimensão Ética nos Objetivos do Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa 419 Francisco Manuel Portugal e Gomes A casa nobre no concelho de Ponte de Lima. Análise dos frontispícios: vivências e estratégias de afirmação 433 Maria Amélia da Silva Paiva O aro rural de Arrifana de Sousa/Penafiel na época moderna: as casas de lavoura segundo a documentação coeva 443 Maria Helena Parrão Bernardo A casa rural em Penafiel, entre meio de produção agrícola e espaço ritualizado 459 Ana Dolores Leal Anileiro O território, a história e o Espírito do Lugar: a arquitetura de Mértola no Sul de Portugal 471 Ana Costa Rosado; Miguel Reimão Costa; Virgílio Lopes; Maria de Fátima Palma; Cláudio Torres; Susana Gómez Martínez Espaço e tempo: a cortiça na arquitetura tradicional portuguesa 485 Rui Fontes Ferreira Uma aproximação preliminar ao estudo da arquitetura tradicional do Atlas em Marrocos 495 Desidério Batista; Miguel Reimão Costa Corpus loci e matéria. Uma visão peripatética sobre a construção do mundo 507 João Soares; António Coxito; Luís Ferro Cultural identity and shared memory: a comparison of Superkilen and Piazza d’Italia as case-studies of contemporary “Place”-making 519 Eric Firley; Julie Gimbal Tracing the Rural in Exhibition Spaces of İzmir, Turkey: Tire, Ödemiş and Bergama Museums 531 Tonguç Akış
8 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 VIAS, PAISAGEM E TERRITÓRIO Abertura 545 Foreword 547 Os caminhos de perto e de longe 549 Laura Castro La construcción visual del paisaje. Iconografía urbana, memoria e identidad territorial 561 Carla Fernández Martínez De território a paisagem: o que é “paisagem”? 575 Natália Fauvrelle; Alice Lucas Semedo O papel dos edifícios icónicos na conformação da cidade contemporânea –análise arquetípica de proeminentes equipamentos públicos de Curitiba 587 André Luís Cordeiro da Costa Os caminhos da construção do território dos Açores nos séculos XV e XVI 599 Antonieta Reis Leite Remeiros do São Francisco: expansão, comércio e costumes nos caminhos do rio 611 Jackelina Pinheiro Meira Kern Water on Roads in Jacob van Ruisdael’s Landscape Painting 621 Juliane Rückert De chafariz a arca de Mijavelhas. Firmitas, utilitas et venustas numa intervenção na berma de um caminho à distância a cavalo da cidade 631 Iva João da Silva Teles Morais Botelho; Luís Filipe Coutinho Gomes O sítio romano da Malafaia, um casal agrícola no vale de Arouca (Norte de Portugal) 645 António Manuel S. P. Silva; Paulo A. P. Lemos; Manuela C. S. Ribeiro La viabilità antica nella zona dei laghi della Lombardia occidentale. Implicazioni strategiche nel periodo tardo romano 659 Andrea Mariani; Marco Brivio
67 SEGUINDO OS PASSOS DO EXÉRCITO ROMANO: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA A DETEÇÃO DE ASSENTAMENTOS MILITARES ROMANOS NO NOROESTE PENINSULAR ANDRÉS MENÉNDEZ BLANCO* DAVID GONZÁLEZ ÁLVAREZ** JOSÉ MANUEL COSTA-GARCÍA*** JOÃO FONTE**** MANUEL GAGO***** VALENTÍN ÁLVAREZ MARTÍNEZ****** Resumo: Neste trabalho apresentamos e abrimos a debate uma proposta metodológica para a deteção e estudo de sítios arqueológicos relacionados com a presença militar romana no Noroeste Ibérico. A metodologia baseia-se no uso combinado de ferramentas de fácil acesso para qualquer investigador, desde a análise da fotografia aérea, cartografia, toponímia e tradição oral até à prospeção de campo. A isto justa-se a recente disponibilidade em aberto de dados LiDAR em Espanha. Consideramos as potencialidades destas técnicas em distintos tipos de terreno, comprovando-se a sua eficiência para a investigação arqueológica. Finalmente, oferecem-se algumas propostas para a divulgação do património arqueológico associado ao exército romano e aos processos históricos relacionados com a sua presença. Palavras-chave: Castra aestiua; Conquista romana do Noroeste Ibérico; SIG; Prospeção arqueológica. * Universidad de Oviedo. andresmenendezb[email protected]m. ** Instituto de Ciencias del Patrimonio (Incipit), Consejo Superior de Investigaciones Cientificas (CSIC) Department of Archaeology, Durham University.
[email protected]. *** Departamento de Historia, Universidade de Santiago de Compostela. Faculteit der Geesteswetenschappen, Vrije Universiteit Amsterdam. joseman[email protected]. **** Instituto de Ciencias del Patrimonio (Incipit), Consejo Superior de Investigaciones Cientificas (CSIC) Department of Archaeology, University of Exeter.
[email protected]. ***** Universidade de Santiago de Compostela. magag[email protected]m. ****** Investigador independente.
[email protected].
74 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 Tradição oral e toponímia Alguns autores já enfatizaram a prudência com que deve ser usada a toponímia na investigação arqueológica devido ao facto de se tratar de uma fonte ligada às mudanças vividas pelas sociedades ao longo do tempo14. Os topónimos evoluem, mudando o seu sentido original, deslocam-se, ou podem ser substituídos por outros, mas muitas vezes a sua criação pelas comunidades humanas responde a uma tentativa de descrever elementos da paisagem marcantes, entre os que se podem encontrar restos arqueológicos. Nomes de lugar que contêm cerca, castelo, castro, cidade, entre outros, assinalam geralmente a presença de recintos fortificados entre os que se podem incluir os acampamentos militares romanos. A localização e prospeção destes lugares resultam muitas vezes na descoberta de novos sítios arqueológicos. A tradição oral também preserva na sua transmissão entre gerações a memória de estruturas hoje pouco visíveis ou desaparecidas. A título de exemplo, em El Pico el Outeiro (Astúrias) soubemos da existência de um pequeno castellum, hoje encoberto pelas infraestruturas existentes, através da informação dos residentes de uma aldeia próxima15. É, portanto, altamente recomendável incluir entrevistas à população local nos territórios onde se realizem prospeções. Por outro lado, ao selecionar áreas de prospeção também se deve ter em conta os registos de batalhas ou guerras antigas pois muitas vezes estas histórias também conservam a memória da descoberta de restos materiais de natureza militar16. Textos de eruditos Além da bibliografia arqueológica recente, não devemos subestimar o potencial dos textos de eruditos e autores antigos. O profundo conhecimento do território que demonstram alguns ou a oportunidade que tiveram de ver estruturas hoje desaparecidas permite às vezes a obtenção de informações extremamente úteis para a nossa investigação. Exemplo disso é a obra de Elías García-Tuñón y Quirós, quem interpretava El Picu Currieḷḷos (Astúrias) como um acampamento romano já em 1858, declaração que cairá no esquecimento até à sua redescoberta arqueológica em 2001 17 . É igualmente interessante o caso da revista local Correveidile, onde em 1987 o alpinista Sandalio López Gutiérrez já referia um acampamento em El Mouru (Astúrias)18. 14 ZADORA-RIO, 2001. 15 MENÉNDEZ BLANCO et al., 2014. 16 MENÉNDEZ BLANCO et al., 2015. 17 CAMINO MAYOR & VINIEGRA PACHECO, 2010. 18 MENÉNDEZ MENÉNDEZ, 2004.
75 Seguindo os passos do exército romano: uma proposta metodológica para a deteção de assentamentos militares romanos no Noroeste Peninsular Prospeção convencional de superfície Todos os recursos e técnicas anteriormente descritas permitem-nos localizar estruturas que podem relacionar-se com a presença militar romana ou identificar as zonas de maior potencial arqueológico. Mas, independentemente do grau de fiabilidade que cada técnica possa oferecer, a comprovação sobre o terreno é sempre obrigatória, uma vez que as evidências observadas poderão responder a outro tipo de elementos artificiais ou naturais que nada têm a ver com o nosso objeto de estudo. Claro que também existem em campo fatores que alteram a visibilidade das estruturas. Por exemplo, a luz rasante ao pôr-do-sol ou a acumulação de neve nas defesas durante o degelo favorecem a observação e a documentação fotográfica das microtopografias. A luz rasante gera sombras que, por exemplo, definem melhor os desníveis das defesas. Por sua parte, a neve foi essencial para a documentação de recintos como o de El Xuegu la Bola (Astúrias) e facilitou a documentação fotográfica de El Chao y La Resieḷḷa (Astúrias), ambos bastante arrasados pelas atividades pecuárias e florestais. A enorme superfície ocupada por estes recintos militares e a quase inexistência de níveis de ocupação conservados que podem definir-se arqueologicamente, motiva a utilização de outras técnicas de teledeteção numa segunda fase de estudo. Através da prospeção magnética pode recuperar-se uma parte dos elementos metálicos que conformavam o equipamento dos soldados. O uso de outras técnicas como o georadar, a magnetometria ou a resistividade elétrica permitem documentar com maior precisão tanto as defesas perimetrais destes assentamentos como os vestígios de outros tipos de estruturas perecíveis situadas no interior dos recintos (canais, caminhos, etc.). Enquanto a primeira técnica tem sido utilizada com certa frequência na Península Ibérica19, as restantes são praticamente inéditas apesar de se ter demonstrado o seu potencial para o estudo de assentamentos militares romanos na Europa20. ROMANARMY21: UM PROJETO DE DIVULGAÇÃO Um dos eixos principais deste projeto baseia-se no conceito de transmídia da comunicação científica destinada a uma audiência geral não especializada (Fig. 5). 19 FERNÁNDEZ IBÁÑEZ, 2006; PERALTA LABRADOR, 2007; FERNÁNDEZ VEGA & BOLADO DEL CASTILLO, 2011. 20 DAVIES & JONES, 2006; GROH & SELDMAYER, 2015; SOMMER & MATEŠIC, 2015. 21 http://romanarmy.eu/pt/
76 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 A transmídia implica a produção de conteúdos através de múltiplos canais, gerando produtos específicos que aproveitem de maneira eficiente as particularidades de cada um dos suportes22. No nosso caso, a transmídia exerce-se sobretudo através do canal digital, ainda que se utilizem distintos meios complementários que proporcionam dados de grande interesse sobre a receção da investigação científica. A nossa aposta de comunicação ao público geral passa por uma estratégia de comunicação em tempo real que membros da equipa praticaram em projetos arqueológicos anteriores 23 . Não se trata tanto da comunicação imediata de cada uma das ações da equipa científica, mas estabelecer uma comunicação do processo de conhecimento científico, situando a comunicação como um eixo relevante de trabalho e concedendo às metodologias, às hipóteses, às abordagens, tanta ou mais relevância como aos resultados finais da investigação. Desta forma, na atualidade gira-se à volta de três eixos: os perfis em redes sociais, a web corporativa e a produção audiovisual. Cada um destes eixos distribui mensagens de diferente qualidade. Enquanto os perfis sociais difundem uma ideia mais ‘corporativa’ do grupo de investigação, dando conta da sua atividade pública além da de investigação, a web serve como depósito de publicações científicas ou como espaço para a elaboração de textos que vão complementando o próprio desenvolvimento dos projetos. A ideia última que se explora é a de que é possível gerar uma audiência que acompanhe o desenvolvimento de um processo científico e que esta audiência não só deve ser procurada nas fases finais de difusão do conhecimento, mas antes incorporada, de algum modo, em momentos anteriores de produção desse conhecimento, difundindo uma cultura da ciência e sua praxis. Ao difundir as técnicas e a metodologia mergulhamos também num âmbito interessante: o da investigação 22 SCOLARI, 2013. 23 GAGO et al., 2013. Fig. 5. Público assistente a uma visita organizada ao acampamento de Moyapán (Astúrias) através da associação Eixe Cultural Ayandés.
77 Seguindo os passos do exército romano: uma proposta metodológica para a deteção de assentamentos militares romanos no Noroeste Peninsular distribuída. Na medida em que muitas ferramentas digitais são de âmbito público, a construção de uma comunidade de agentes interessados na localização e estudo de sítios arqueológicos deste âmbito permite uma exploração do território complementar à investigação que gera muitos dados adicionais e complementares que os recursos humanos da equipa não poderiam abarcar. CONCLUSÕES Através das experiências científicas da nossa equipa de investigação durante os últimos anos, desenvolvemos uma metodologia interdisciplinar baseada na integração de múltiplos meios e técnicas e na capacidade de constante renovação. A fotografia aérea (histórica e recente) e os MDT’s criados a partir de dados LiDAR mostraram-se como os recursos mais efetivos para a localização de acampamentos temporais romanos no decurso da nossa investigação. Ainda assim, os resultados mais completos surgem com a combinação de todos os meios e técnicas disponíveis. Assim, o uso conjunto e combinado de todas estas técnicas e meios podem e devem usar-se de maneira ordenada para desenvolver um método altamente eficaz e produtivo que permita atualizar o catálogo de assentamentos militares romanos no Noroeste Peninsular. Indo além da mera localização e catalogação, são úteis também para um reconhecimento preliminar de cada sítio de forma prévia à obrigada prospeção superficial e à necessária escavação. O processo metodológico que propomos baseia-se na otimização dos recursos disponíveis, buscando, sempre que possível, aquelas ferramentas que ofereçam a máxima qualidade e um mínimo investimento para o investigador. Por outro lado, consideramos importante aprofundar a metodologia de divulgação iniciada, o que nos permite não só rentabilizar socialmente o esforço de investigação, mas também começar a experimentar com novos métodos de pesquisa que permitam incorporar ativamente o público no próprio processo de construção do conhecimento. BIBLIOGRAFIA BLANCO-ROTEA, Rebeca; COSTA-GARCÍA, José Manuel; FONTE, João; GAGO, Manuel; GONÇALVES, José Alberto (2016) – A Modern Age redoubt in a possible Roman camp. The relationship between two defensive models in Campos (Vila Nova de Cerveira, Minho Valley, Portugal). «Journal of Archaeological Science: Reports», 10, p. 293-308.
78 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 CAMINO MAYOR, Jorge & VINIEGRA PACHECO, Yolanda (2010) – Elías García-Tuñón y Quirós y el campu bélicu de La Carisa (Ayer-Llena), «Asturies, memoria encesa d’un país», 29: 24-37. COSTA-GARCíA, José Manuel; BLANCO-ROTEA, Rebeca; GAGO, Manuel; FONTE, João (2015) – Novedades sobre la presencia del ejército romano en el occidente galaico. In Camino Mayor, Jorge; Peralta Labrador, Eduardo; Torres Martínez, Jesús Francisco, eds. – Las Guerras Astur-Cántabras. Gijón/Xixón: KRK ediciones, p. 285-289. COSTA-GARCíA, José Manuel; FONTE, João; MENÉNDEZ BLANCO, Andrés; GONZÁLEZ ÁLVAREZ, David; GAGO, Manuel; BLANCO-ROTEA, Rebeca; ÁLVAREZ MARTÍNEZ, Valentín (2016) – Roman military settlements in the Northwest of the Iberian Peninsula. The contribution of historical and modern aerial photography, stellite imagery and airborne LiDAR, «AARGnews», 52, p. 43-51. DAVIES, Jeffrey L. & JONES, Rebecca H. (2006) – Roman Camps in Wales and the Marches. Cardiff: University of Wales Press. DEL OLMO MARTÍN, Julio (1995) – Arqueología aérea en tres núcleos campamentales romanos de Zamora y León, «Brigecio», 4-5: 109-118. FERNÁNDEZ IBÁÑEZ, Carmelo (2006) – Post Vestigium Exercitus. Militaria romana en la región septentrional de la Península Ibérica durante la época Altoimperial. In Morillo Cerdán, Ángel, eds. – Arqueología militar romana en Hispania II: producción y abastecimiento en el ámbito militar. León: Universidad de León, p. 257-308. FERNÁNDEZ VEGA, Pedro Ángel & BOLADO DEL CASTILLO, Rafael (2011) – El recinto campamental romano de Santa Marina (Valdeolea, Cantabria): un posible escenario de las guerras cántabras. Resultados preliminares de la campaña de 2009, «Munibe (Antropologia-Arkeologia)», 62, p. 303-339. FONTE, João & COSTA-GARCÍA, José Manuel (2016) – Alto da Cerca (Valpaços, Portugal): um assentamento militar romano na Serra da Padrela e sua relação com o distrito mineiro de Tresminas. «Estudos do Quaternário», 14, p. 39-58. GAGO, Manuel; FERNÁNDEZ MALDE, Antón; AYÁN VILA, Xurxo; TOURAL, Carlos (2013) – A Torre dos Mouros (Lira, Carnota): Una experiencia de ciencia en comunidad y comunicación en directo. In Almansa Sánchez, Jaime, ed. – Arqueología Pública en España. Madrid: JAS Arqueología, p. 291-316. GILLIVER, Catherine M. (1999) – The Roman Art of War. Stroud: Tempus. GONZÁLEZ ÁLVAREZ, David; MENÉNDEZ BLANCO, Andrés; ÁLVAREZ MARTÍNEZ, Valentín (2008) – El campamento de Moyapán (Ayande, Asturias), «Férvedes», 5, p. 363-371. GROH, Stefan & SELDMAYER, Helga (2015) – Expeditiones Barbaricae. Forschungen zu den Römischen Feldlagem vom Engelharstetten, Kollnbrunn und Ruhhof, Niederösterreich. Archäologische Forschungen in Niederösterreich, 2. Krems: Landessammlungen Niederösterreich / DonauUniversität Krems. LOEWINSOHN, Ernest (1965) – Una calzada y dos campamentos romanos del conuentus asturum, «Archivo Español de Arqueología», 38, p. 26-43. MENÉNDEZ BLANCO, Andrés; ÁLVAREZ MARTÍNEZ, Valentín; GONZÁLEZ ÁLVAREZ, David (2015) – La tradición oral como complemento de la arqueología para la localización de evidencias bélicas en la montaña asturleonesa, «Férvedes», 8, p. 471-479. MENÉNDEZ BLANCO, Andrés; GONZÁLEZ ÁLVAREZ, David; ÁLVAREZ MARTÍNEZ, Valentín; JIMÉNEZ CHAPARRO, Jesús Ignacio (2013) – Propuestas de prospección de bajo coste para la
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