Rimas de Joao Gabriel de Matos entre os Pastores da Arcadia Portuense : Albano Erithreo ... / Dadas a luz por Caetano de Lima e Mello
Full text
RIMAS
DE
JOiO
XAVIER
DE MATOS
•
NA :
Z eudCfi
RIMAS
DE
JOAO XAVIER
DE
iSIATC
ENTRE OS PASTORES
DA ARCADIA PORTIJENSE
ALBANÓ ERITHREÓ
.
,
DE
DICADAS
Á
MEMORIA
DO GRANDE
.
LUIZ DE CAAIOES
PRINC1PE
DOS POETAS
PORTUGUEZES
D
ADAS
Á
LUZ
POR
CAETANO
DE LIMA E MELLO.
TOMO
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O.
9
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LISBOA
NA
REGIA
OFFICINA TYPOGRAFICA.
1
.
712.
Com
iicenca
da Real Meza
C
enfiria.
—
Vende na
/ola da
hurr
o
11.1'
yCi
Nem eu delicadezas vou cantando,
Co' golfo do louvor,
, nus explicando
Puras verdades já por mi .pafradas
Oxalá forão
.
fábulas fonhadas.
CAMIíES.
tanç.X.
PROLOGO
•
i
r
Un c
'
oso Leitor
7
as Poefias de
JOX0
XAVIER DE MATOS táo
conhecidas e ellimadas dos noltos Por-
tuguezes , so as que offcrego nefie pe-
quen
°
volume á tua curiolidade: Elle
poderia fer maior, fe fora vencivel o
pouco aprego , que faz o A. das fuas
admiraveis compolig6es , tanto em p re-
juizo dos que amo a bella fimplici-
dade , e prézáo mais os vellidos pro-
prios da natureza, do que os adornos
emprelIados da Arte : Tu, que deva
fupp6r delte número, no defapprova-
rás o trabalho , que tomei, para dar-
te a ler cm hum
1
-
6
Livro os Teocri,
tos, os Lobos e os Bernardes.
Vale.
O.
.d
Pe
Pa
Po
o
Po
Sej
Qjj
%
9
.SONETO
A
FOITO córte o mar o navegante,
Por engrotfar nos lucros a fazenda;
Feche o foldado os olhos na contenda,
Por deixar do valor próva baftante:
Palacios mil o cortezáo levante,
Porque a cega lifonja mais o attenda;
O Rei grandes exercitos eflenda,
Por conquiflar a terra mais diftante:
Trabalhe em fim por tetra, e mar profunda
A louca, irnmoderada gente humana,
Qre eu na minha pobreza he que me fundo;
Th
hurna alta ventura náo me engana:
Seja a todos pequen
°
embora o Mundo,
Que cu caibo multo bern nelta choupana.
SO-
E.
1MA
SONETO
41".
IN
V1 Atino nefcador no Tejo andava,
Deitando a réde hum ¿a, e outro dia;
Mas por mais que a deitava, e recolhiai
Náo recolhia mais que o que deitava.
Qutra vida bufcar determinava,
Vendo táo contra f: a pefcaria:
Do lanço, e do batel fe defpedia,
E nas humidas praias o cncalhava.
Na pobre vida de paflor fuccede;
Mas faltáo-lhe os cabritos na efpeffura
Como algum dia os camaróes na rede;
Por quanto he natureza a defventura
Etn váo he trabalhar ; que náo procede
D
.
n mundança do eftado a da ventura.
SO,
DE
3.
X.
1SE m
S'„
SOMETO
Efta Aldea, onde eflou , meu bom Fileno
Crayas a Deos , alegremente paffo
l'efco humad vezes, outras vezes cayo:
O ar he sáo, he fertil o terreno.
Náo bebo aqui de amor 'cruel veneno,
Nem ouyo_as vis elCufas de hum efcaço;
Náo ando as cortezias ; e fe as fayo ,
He a quem me náo tem por rnais pequen°.
Os homens so fieis; ha temperança
No veffir,
, e comer ; paz, e alegria
YivIráo'fempre nefta vizinhanya,
A idade de Ouro pouco mais feria;
Só me falta huma Bemaventuranya
Qpe era o ter-vos na minha companhia.
SO-
50-
L
A' vem apparecendo a minha Aldea
Junto daquella ferra defabrida,
Que por entre arvoredos efcondida
Confufamente
a
vida me recrea.
Mas a qual creatura ferá fea
A habitaçáo, aonde foi nafcida!
Por mais grandeza, em que fe pafre a vida,
Sempre em fim he madrafta a terra albea:
Alli , fugindo ás rnãos de quem me engana,
Soubera-me livrar das falfidades,
Qlte o Mundo rece á fimples gente humana;
Quem de todo abraçára efias verdades;
E lá da milla ruftica choupana
Diírelfe,, para fempre: A Deos Cidades!
RIMAS
4
SONETO,
DE J. X. DE MATOS.
S .
SONETO
a,
ma,
a;
N
A45 chóro como aquelle, que em perigo
Naufragou entre as ondas foçobrado:
Nem clamo, como o rnifero foldado,
Que foi cahir nas lanças do inimigo:
No gemo como aquel/e, que em ea/ligo
Tocou duros grill-J(3es encarcelado:
Nem parmo como algurn , que defterrado
Verdeo da amada Patria o doce abrigo:
Sinto mais forre mal , pena mais dura;
Pois fem nunca fahir da minha Aldea,
Inda a vida anda cm mim menos fegura:
E fe náo , vejo fe ha Ciaufa mais fea,
4C2e vir a precifar (trifte Ventura!)
Na propria cena de cabana albea!'
o.
SO-
6
RIMAS
SONETO
VAIS
os annos fngindo , e vai a idade
ti
Correndo ap8s dos meus: Váo as tardanças
Entre confornidoras efperanyas
P
Gaftando inutilmente a mocidade:
C
I'
Pluma vez defengana-fe a vontade
No continuo exercicio das mudanças;
Ontra vez j'a tentada das lembrarigas,
C
le torna a confiar da variedade:
./.'
(
Aflim fe paffa o lempo mal feguro ,
Continuamente fabricando enganos,
Com que a todos promette huna bem futuro ;
J
5
Mas eu, que eftou exprimenrando
OS
danos
De táo incerta vida , que procuro?
Se náo me aproveitar dos defenganos?
so-
DE J. X. DE MATOS.
7
SONETO
J
A',
Fortuna cruel, tenho affentado
Por mais eftaveis bens, que me offereças
Que de balde no engallo me intereffas,
Pois já vivo incapaz de fer tentado.
Se tenhO,ha tanto tempo exprimentado ;
Que fe, para os roubar,
, he que os começas;
Agora guarda as tuas vans promeffas,
Que eu te perdoo haveres-me enganado.
Dos teus dons apparentes defconfio;
S6mente da razáo náo defefpero,
Com que a viver leguro princifío:
Já nem me tardas, nem tambem te efpero;
E fe quanto me offreces renuncio,
Tudo me fobra, porque nada quero.
So-
13
ano;
anos
o-
RIMAS
SONETO
S
Alve, Templo feguro, onde a vontade„
Os
(
naufragios de Amor já no recea ,
Beijando aquelle Altar, que
fe
alumea
Da
inextinguivel rocha da verdade:
Aqui deixo á razáo , e á liberdade
Deipedaçada a mifera cadea
Agora ifenta a alma, e livre a idea
Ouvirei cá de longe a tempeflade:
Gemendo efláo os miferos humanos;
E a mim já
náo me altera aquelle earondo,
Que infurdeceo ella alma tantos anuos:
De 1á me chama Amor, e eu no refpondo;
Que para náo me urdir novos enanos,
Nunca mais faberá, que aqui me efcondo.
S O-
2
lo;
DE J.
X.
DE MATOS.
9
SONETO:
S
E acafo deito a villa da lembrança
Pelos iongos defertos do paffado,
Náo encontra o folícito cuidado,
Mais que apenas os fajos da mudança:
Se a memoria outra vez, que não defcança,
Se volta para o tempo náo chegado ,
Nas contingencias de hum futuro eflado
Tropcça com mil rifcos a efperança:
Em fim, fe na prefente adverfidade
Record() ellas razóes, baila hú ló dia,
Para fazer-me trille em toda a ¡Jade:
Pobre idéa, cançada fantezia?
CILle não defcobre cm tanta variedade
O mais pequen° inflame de alegría!
S
O-
LO
RIMAS
$ONET
II tempos refifti á força dura
Do feto Amor; mas elle acautelado
Tinha a ultima induftria efcogitado
Em fe valer da vofla formofura:
Affirn o fez: Moftrou-me a face pura.;
Ctliz fugir-vos, náo pude; enamorado
Perdi o esforgo de que andava armado,
Qué de vós nenhuma alma eftá fegura:
De meu amor cruel evxecutora,
He toda voffa a gloria da conquifta,
Recolhei os triunfos vencedora:
Quem no Mundo haver'a
4-
vos refifta?
Se o mefmo Amor, para render-me agora.,
Foi pedir.o foccorro á voffa vifta:
Jui
Su_
o
A
De
A
Po
S'a(
Q
SO-
Y_
Q
U'ando nas mão.s de Amor me vi fujeito;
A razáo em mil erros confentindo ,
Jurei de nunca más, cm lhe fuzindo,
Sujeitar-me a feu barban) precei-co.
Ora pude efcapar-lhe , e ver desfeito
O
duro laço , que me and:fra urdindo,
Até, que pouco a pouco fui fentindo
De novas chammas intlammar-fe o peito.
Olhando entáo por mim, achei quebrada
A
ligeira promeffa, a hum brand° rogo,
Por mirilla propria máci facriticada;
Qzfe juras contra Amor, por defafogo,
Sáo votos de tormenta jt pallada,
1:2
2
e depois que ferena. efquecem
O-
'ton.
13
S O-
DE J.X. DE MATOS.
SONETO
TZ
RIMAS
'SONETO
V
Em , ó
Ninfa gentil, que no merece
9
O
meu antigo
amor, que
aflim
te
efcondas:
O
Vem , doura
as aguas
deffe
mar, qué fondas,
Q!
Bem
como o faz o Sol, guando
amanhece.
Pc
,
Se
a
converfaçáo tninha
te aborrece;
Ta náo
digo, cruel, que me
refpondas;
O
.
Mas fe
quer,
, lá
de
longe fobre
as ondas;
40:
A
meus faudofos olhos
aparece.
M
Como fe me figura, 6 Ninfa amada,
Que
já
o
cryfiallino corpo erguendo ,
Pc
Vens fobre
as
crefpas
ondas levantada;
Mas
fó vem meu engano apparecendo;
Era
huma
onda,
ergueo-fe encapellada,
Pc
La fe
vAi
entre as outras desfazendo.
Fe
S
O.
ce
T
Raz-me aos males de Amor táo col:turnado
Jas:
O meu forçofo, o men cruel Dedino ,
ndas,
Que em fer alegre já , náo imagino,
ce.
Pois vivo de viver,defefperado.
.
• ,
Deo-me a beber, por cópo táo dourado
O veneno de Amor defde menino,
Que as mefrnas qualidades de malino
Me tem naturalmente faftentado.
J1 matar-me no pode o meu tormento;
Pois creado com elle por coftume,
Fez em mim natureza
o
fentimento.
O proprio mal, que a todos mais confbme,
Porque narce de Amor, he o meu fuilento ;
Que a quern'he fogo, náo offende o lame.
so.
DE J.'X.
DE MATOS.
SONETO
11.
1
M
AS
SONETO
Ugindo fui de Amor, que
ke
feguia
Com arco , aljava, e ferias indigriedo,
De ver que tantos tiros tinha errado,
Sem lhe deixar fazer a pontaria.
Voltando o roa() ás vezes lhe dizia,
Corno quem hia de correr cançado:
•
Que me queres, cruel? Defenganado
Ji puderas eftar da vá porfia.
Eis-que fuhitamente me apparece
Defronie a iniqua Mái, que cm tním. pegava,
Porque fugir ao Fallo náo pudeffe;
Mas como eu , della, já. ferido andava,
Amor, que o golpe vio, defapparece,
Metiendo as feitas
outra vez ná aljava.
10;
DE J. X. DE MATOS.
:O
NETO
a
gava.D
Q
U'e me
quereis,
memorias
de
algurn dial
Trazer-me nova m'agoa á conjeaura ?
Onde
he
táo
diligente a
defventura,
Efcufa menfageiros
a
agonia.
Se
vincles
por
fazer-me companhia,
Fu cedo
deffe obfequio;
que he
loucura
Náo podendo eu comvofco
ter ventura,
quererdes vós comigo
ter
valia.
Deixai-me defcançar,
trille memoria!
Que
alern
de
fem razIo , ferá fraqueza
Confeguir
de
quem foge huma
Deixai-me ;
e fe
nafceis
da
ligeireza,
Com
que
voou
a
minha inflavel
gloria
5e
t
,oui-1he
agora a
mefma natureza.
S
Q.
S
a
RIMAS
5
•
9'
N E
TO
S
O'com o Grande, e immorta1 Cam5eg
Me ponho a converfar noites, e dias:
Ora nas lacrimofas Elegias,
•
Ora nas magoadilfimas Canç6es:
Aqui me coma mil perfeguiOes
De Fortuna, e de Amor por tantas viaS;
Que olhando para as minhas agonias,
Tirando fempre vou labias lições.
Sobe elle os olhos outras vezes paro
jâ meios de agua; e digo entáo comigo:
Oh alma grande, efpirito preclaro!
Que cm váo me queixo ao Ceo do meu caíligo!
Pois como náo ferá comigo avaro,
Qupi foi táo pouco liberal comtigo:
S
01
D
O gofio, que j5 tive n'outra idade
Que
faço em
recordar a
longa hiftoria
Senáo ierve
de
mais
dio memoria,
Que para
mantimento
da faudadel
Só póde
da
apprehensáo aaividade
Fingir
prefente
a
coufa tranfitoria:
Que lucro
pois,
de andar
fingindo
a gloria,
Senáo fazer invejas it vontade
Ora
eu hei
de vencer
efta
porfia,
Por ver fe
hum pouco o
coraçáo defcança,
Indo
p6r n'outra
parte a
fantezia.
Mas oh
defejo
vio,
louca efperança!
Como potro
efquecer-me
da alegria,
Se
confite
o
meu
mal
neila lembrança?
ligo!
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
SO-
R 1 M
SONETO
N
Efle que julga o Mundo abatirnento,
Em vez de me alterar, vou conformado :
Se em lualquer tempo , fe em qualquer eftado
kle cm a queda, de que ferve o augmento
Se hum longo , e perennal contentamente)
Entre os humanos a ninguem foi dado;
Embora gyre o meu voluvel Fado,
Com tanto que me deixe o foffrimento.
Eu parto, fim , com animo difpofto;
E quanto mais o meu pezar profundo,
Tanto a razáo o vai trocando cm gofio,
Inda o defterro me fer'á jucundo ;
Porque renda á defgraça alegre o roflo,
Irle Patria para o fabio todo o Mundo.
lado
nto
Enhora , effes efpiritos ditofos,
Que
andáráo nefla
vida
defierrados,
Na
Patria
efiáo
dos
Bernsaventurados
Inda
mais
vivos, inda
mais goflofos.
Se
perdIráo teus
mimos
amorofos,
No Ceo
náo
falta
quem lhes faça
agrados;
E nos braços
dos
Anjos defcançados
Náo vivem já,
como nos
teus, chorofos:
Bern fei
que a maternal
humanidade
Náo
e
ferá facilmente tranfitoria ;
Mas
tambem
a
razáo
vence a
faudade.
Conferva emhora delles
a memoria;
Ns
cheia
de
huma
tal
conformidade ,
,
Que,
fe he
pollivel, ihes augmente
a gloria.
Co
DEI. X. DE MATOS.
S
ONETO
zes
.11 IMAS
SONEr0
Uantas vezes pacifico, e contente
Q
P
Debaixo daquella arvore fombria ,
E ¿
Deitado fobre a relva adorinecia ,
Ex(
Ouvindo murmurar ella corrente?
De
Qpntas tocando a flauta alegremente;
I
(Porque inda entáo d'amores não fabía)
A f
O pequeno rebanho que trazia,
Ma
Era todo o meu trafego innocente?
Efr
Perdí a quietação defla bonança;
f
E f5 n'um voltar de olhos , fem cautela;
A 1
Perdi rudo o que tinha na efperança:
Do
Ninguem
fe
fie
cm fi, e menos nella :
En fim , porque náo tenha igual mudança,
Sé acafo
vir Lorinda,
foja della.
A
DE
J. DE MATOS.
SONETO
:a3
P
E
i
ga ,
Lucrecia, no punhal violento,
E dando exemplo de conftancia ao Mundo>
Executa no peito hurn fern fegundo
De heroica acção honrado atrevimento.
Parece que baftava o feu tormento
'A fazer-lhe inda hú golpe mais profundo;
Mas no p6de com animo iracundo
Efperar que a mataffe o fentimento:
Abre a fatal ferida, o fangue corre
•
A remir tanta injútia; e antes que clame
Do Efpofo a offenfa, honradamente morre:
Cruel parece, mas ninguern 'rho chame ,
A mifera Lucrecia; pois difcorre
Que ha morte honrada, quando ha vida
infame,;
RIMAS
SONETO
F
Ilho , por mais que
a
Praça combatida
11;/
Veas, ou por valor, ou por deffreza,
En
Náo recees morrer ; porque a vileza
Q22
56 confille na entrega, ou na fugida:
Nii
Ainda que ceda a efpada enfraquecida
g
1
Corra por conta da alma a fortaleza,
Nc
Náo eft5 na tua máo ganhar a empreza,
Qz..]
'No teu valor eílit perder a vida.
Ta
Eu tambem aqui morro; mas o honrado
Conflante amor da Patria efiá, prirneiro:
Fa
I3em to deixo na acçáo recommendado;
As
Que Ce S Praça no firvo j'a guerreiro;
Ao menos no confelho , que te hei dado,
E
4
foccorro depois de prizioneiro.
Et
DE 3. X. DE MATOS. \
SONETO
ida
A5 foi divida mas natural
Em
vós, do fal a A
y
a promogáo
Que miniftrado por tão fabia m'a°
Ninguem fe
deve
defgoaar do l'al.
Será o bem commum , ferá igual
No gyro da fiel diaribuição
Q
l
ie o mefmo fal, que impede a corrupção
Tambern corrompe, fe fe applica
Dando á terra de noVo outro efplendor,
,
Fareis ern minas de ouro converrer
As rnarinhas do [al, que daqui for.
Os
nacionaes,
e
ellranhos o hão de ver
E huns , e ourros vos ciará° louvor,
Em quanto o Sado
para
o
aliar correr.
lo
n
0;
SO-
RIMAS
(SONETO
Eu
Pa
i ,
o nupcial ajuntamento
Foi fempre
todo o
objedo ao meu
cuidado;
Achei
Conforte
em d:fcriçáo,
e
agrado
De
nobre,
e
fingular merecimento.
Ella
tem
das
virtudes o ornamento:
Náo
ha dote
mais
rico; e o
noíro efiado
Para
fer táo
feliz, como
fagrado,
Só lhe faltava
o
feu confentimento.
Flem
que
delle abufei, ao
que parece,
Os
meus defignios regulei
de forte,
Qe
queixar-fe
a
razáo
nunca
pudeffe:
Nem
ha para o
perdáo outra mais
forte,
Que
fer
tal a Conforte que
elegeffe,
Qual bufcando-ma
Tu,
foffe a Conforte.
Da
O
Dei
1
A
E:
De
An
Os
1
Po
Fe]
SO.
ado;
e,
DE J. X. DE MATOS.
:S
,SONETO
O
Uvio Amor ten canto, e fuTendido
Di
magica harmonia, que efcutava,
O
arco, e as duras fettas, que empunhavaí
Deixou cahir das máos, como efquecido.
Depois tornando cm fi mais advertido,
A
teus mimofos pés depoz a aljava ;
E aquelle , que vencendo almas andava,
De ten celefte canto foi vencido.
Cada vez cheio de mais novo efpanto
Amor confeffa, que da humana gente
Os coraçóes náo l'alpe mover tanto.
Rendeo-te as armas : Como andon prudente !
Pois de que fervem ellas, fe o ten canto
Fere inda as almas mais fuavernente?
o-
SO.
2
6
RIMAS
SONETO
A
C
fo
fui fenhor,
, rico, &limado ,
ti
r
lye peideffe depois honra, e dinheiro?
Depois de General, fui prizioneiro ?
Dcfci do aureo Sceptro ao vil cajado?
Fui guardador
de
numerofo gado,
A quem depois ficaffe hum fe) cordeirol
Fiz ferviços á Patria aventureiro,
Qjje me viffe depois mal premiado ?
Se nada diflo fui, onde me querern
Levar ideas vans, que o Fado ordena,
Só porque mais o meu focego alterem
Seja qualquer que for a minha pena:
Oh
beinaventurados os que derem
Ao cahir huma quéda táo pequena1
o
Os
Sen
"1
Fói
E
Let
E
De
504
DE J. X. DE MATOS.
27
SONETO
•
•
Q
He ferá ifio? As Ninfas enfeitadas?
O
Téjo a longa barba perneando ?
Os Paf
-
lores as francas temperando?
Sem comer as pacificas manadas?
Todas as portas dos cafaes ¡tincadas?
Fóra do ninho os pallamos cantando ?
E
nos troncos das arvores gravando
Letreiros as Serranas aprefladas?
Hei de chegar-me a ler ; porque o que vejo,
E
traz a todos geralmente ufanos,
Denota algum grandillimo fettejo:
Diz o letreiro:
Al-visaras , Serranos,
Q
..
tye
a Ninfa Tutelar do
nojjo
Tejo,
forniofa
.Filippa,
boje jai,
annos.
SO-
Ton.
I.
e
SO-
R
I
M
AS
SONETO
IT
Uns graciofos olhos matadores,
Que ás vezes por mortaes ficáo mais bellos,
Huns dourados finiflimos cabellos,
Das madeixas do Sol defprezadores:
Huma face, de donde as proprias cores
Da matutina luz tiráo modllos;
Huns agrados táo doces, fem fazellos ,
(Z
.
le por elles Amor morre de amores;
Hum rifo táo parcial da honeflidade,
Que no infenfivel caufar1 deftroço ,
Qganto mais na razáo , e na vontade:
Ella he a Minha: Oh tímido alvoroço!
Eu tomo de dizello a liberdade :
ECU he a Minha . . a Minha . mas não poffo.
Con
011-1;
Val
Se
Efpe
Ac-u(
Que
Não
Q
,
u
,
e
Sc
31 cp
Que]
s
o-
C
ii
P
Or que foges Paffora , a hum defgraçado
2
Correndo atrás de ovelhas neffe outeiro?
Olha que inda que bu pobre vaqueiro ,
Val o meu coraçáo mais que o teu gado :
Sem ti ando ha mil días defgarrado:
Efpera hum pouco; que náo he primeiro
Acudir aos balidos de hum cordero,
Que
áS
queixas de hum Paftor defconfolado.
Mas
vai ,
Paffora , a rnais cruel que ha hoje
N'áo qucira o Ceo , que tanto me perfegue,
Q..ge o meu continuo fufpírar te enoje.
Socega tu, e eu tambern focegue ;
Já que por hurn rebanho , que te foge,
Queresdeixar hurna alma, que te Legue.
offo.
DE 3..X. DE MATOS.
29
SONETO
S O-
30
RIMAS
SONETO
_. U vi huma Paftora em cerro dia
C
Pelas praias do Téjo andar brincando,
Con
Os redondos feixinhos apanhando ,
Teu
Que no puro regaço recolhia.
D.n
Eu
vi nella tal graça , que faria
Inveja a quantas ha ; e o géflo brand°,
Com•que o fereno rofto levantando,
Parece namorava quanto via.
Eu vi o paffo airofo , a compoftura,
A
Com que depois me pareceo mais bella,
Me
Guiando os cordeirinhos na efpeffura.
Na
Fu o digo de todo ; vi a Eftélla
E
De graça, de candor, de formofura
Che
poderei ver mais, tornando a vella.
J5
.Refl
Nen
Faz
SO-
DE
3.
S.
DE MATOS.
;1.
SONETO
C
Ruel, fica-te cm paz, e o vil intento
Confegue embora , como o tens difpofto
Teus olhos, tuas lagrimas, teu rollo,
Já nada tem comigo valimento
Já eftá no meu feliz conhecimento
Reffaurada a razáo , perdido o gofio:
Nem he a vez primeira, que o defgollo
Faz cobrar o perdtdo entendimento.
A rnefma dor da ofFenfa recebida
Me fez tornar a mim Já náo me falles
Na sota fé mil vezes promettida; .
E por mais anfias, que affeecada exhales,
Chega tarde o remedio da ferida,
Qlje eu já curei mous males com meus males%
O-
Nác
Qut
Qut
Amn
O
Do
Hát
1-
•
1 5
Se
Pre
1z
RIMAS
SONETO
S
E
intentais neffe engano induatioCa
Ser a minha gentil [era homicida,
Para que he de cruel tirar-me a vida,
Quando podeis matar-me de forrnofal
Fareis, moarando a face- ortentofa,
Que fique fendo a morte ap crecida:
Deixai de acautelar-vos efcondida,
Que cm vós indicios sáo de criminofa:
Allim me matareis mais á vontade,
Moarando-me effa Angelica figura:
Que o mais náo he valor, fora impiedade:
Tá.o infame fereis,
e
eu
fem Ventura;
Que por dar hurn triunfo á crueldade,
Veg,ueis huma viaoria á formolura?
S O-
A
Deos , Paflora ingrata, já de Aleixo
Náo te recordes rnais, perde a efPerança;
Que eu apago tambero a feg,urança,
Que no tronco gravei defte alto freixo.
TvIss fe entre os defenganos, que te deixo 5
Ainda record() a tua infiel mudança ,
O tempo rifcará ella lembrança,
Que tambem a corrente galla o feixo.
E podo, que lernbrar-me poffa a hifloria
Do nolfo amor por força da faudade,
Háo de os aggravos confundir a gloria:
Mas trae allivio he elle na verdade!
Se inda para rifcar-te da memoria,
Precifo que me lembre a falfidade.
SO.
DE J. X. DE MATOS.
33
SONETO
O-
34
RIMAS
SONETO
S
E
eu me vira n'um borque , onde náo déffe
Sinaí, veftigio humano de habitado,
De
verdenegras ramas táo fechaJo,
Que ajada alli de d'a anoiteceffe:
Se entáo 111 de Mía batía ao longe houveffe
Gemendo hum mocho, e tudo o mais calado
56 d'entre alguns rochedos pendurado
Com fom medonho, huir: rio alli correffe:
Em fim n'um lugar tal, onde os meus dias
Confumindo fe foffem na certeza
De
náo tornarem mais as alegrias:
Faminta ainda a trine Natureza,
Cercada alli de tantas agonias
"Nem entáo fe íartára de trifteza.
Já
Am
Qu(
Ij
De
Ou
Tin
Em
Nel
Da
0,1.
1
so-
I)
Epeis que a mil tormentos offrecido,
)á de mui larga idadc tinha o pela),
Amor me appareceo t'a() comrafeito•,
Que me enganou depois de conhecido.
Parece que ou Amor compadecido
De meus males eflava fatisfei(0
Ou que eu de novo á dura Lei fujeito,
Tinha já leus enganos efquecido.
Mas no foi erro cm mim , nem nelle engano
Em mim , porque mui bem o conhecia;
Nelle, porque mil vezes fui tyrano.
Pois donde tal defordem nal-ceria?
Da fraqueza nafceo de hum peno humano,
Que do mermo que teme, fe confia.
.efTe
do
ias
DE
3.
X. DE MATOS.
1
5
SONETO
RIMAS
SONETO
Q
Ue affim fahe a manhá ferena , e bella!
Como vem no Orizonte o Sol rajando!
Já fe váo os outeiros divifando
Já no Ceo fe náo ve nenhuma Effrella:
Corno fe ouve na rufbca janela
Do patrio ninho o ro-uxinol cantando!
Já la vai para o monte o gado andando:
Já começa o barqueiro a içar a vela:
A Paílora acolá, por ver o Amante,
Com o cantaro vai á fonte fria:
Cá vem fahindo alegre o caminhante;
Só eu no vejo o roffo da Alegria:
,Q
3
2e em guamo de outro Sol morar difiante,
Eáo ha de para mim naícer o dia.
Qu
o
Q11
Té
Só
ve
Na
Cc
Fa
S O-
O-
so.
C
Orno di efte fitio focegado!
Que aflim caminha furdo efte ribeiro!
O vento náo faz bulha no ialgueiro:
Que feio o monte eltá, que tr'ifte o prado!
Dos guardadores náo fe efcuta o brado;
Té parece que dorme o Mundo inteiro
Só pela encofta 1i daquelle oweiro
Vejo buril lume ora accezo, ora apagado:
Algum aftor ferá, que
a
porra abrindo,
Na choupana eftará fazendo lume:
Corno fe vai o coraçáo cubrindo!
Pois que importa o focego, fe o coffume
tnte,
Faz com que fempre n'alma efteja ouvindo
Os eftrondos, que faz o meu ciume ?
!la!
DE J. X. DE MATOS.
37
SONETO
Or mais que faça hom atrevido efiudo
De expór á excelfa Tirce o meo defejo ,
Do
13ufcando vella fó, ió porque a vejo,
E
Em lugar de dizer-lho, fico mudo:
De
Animo-me mitra vez, fallo, e com todo
Náo fei fe por temor, fe por cortejo,
Já
Abaixo os olhos, encho-me de pejo,
E fico entáo mais trate, que fluido.
5e
Ella, que enes affedos me tem viflo,
Pergunta-me
Qlse tens
Para explican°
De milis valor o animo revino:
N(
Vou a dizer-lho, balbuciente fallo,
Formo algumas razóes, ateimo,
Er
Mas de novo fufpiro, cremo, e callo.
Q1
so.
RIMAS
3
3
SONETO
s
DE J.
X.
DE MATOS.
19
SONETO
lo
P
Oz-re o Sol; como j'a na fombra fea,
Do dia pouco a pouco a luz defmaia!
E a parda máo da Noite, antes que caja,
De groffas nuvens todo o ar fernea!
lo
Apenas j1 divifo a minha Aldea ;
Já do cypretle náo diflingo a faja:
Tudo cm filencio efiá: 86 lá na praia
5e ouvem quebrar as ondas pela ara.
Co' a máo na face a villa ao Ceo levanto,
cheio de mortal melancolia,
Nos trifles olhos mal fuitenho o pranto:
E fe inda algum alivio ter podía,
Era ver ella Noite durar tanto,
Que nunca más amanheceile
o
dia.
49
RIMAS
SONETO
O
H
quem pudera fombra defle arbufto
Paffár o tempo da retiante vida,
Cantando para fempre a defpedida
Da habitaçáo, aonde mora o fulto!
Faz defle monte o tráfego robufto
Invea á dignidade mais fubida:
E adora o
-
cortezáo a immenfa lida
De hum mando inda pezado, guando he julio.
Oh bemoventurada defiffencia
Daquelles, que por táo feliz bonanga
Trocáráo das Cidades a opulencia!.
S6 em ti, fe ha no Mundo fegurança
Póde, ó fanto lugar, fern contingencia
Gozar huma alma a paz, cm que defcança.
Se
Ná
Ná
Pri
Ná
Fa
QL
A
Ce
Se
SO-
DE J.:11. DE MATOS.
41
so-
SONETO
Ue trille, que profunda foledade
Se obferva aqui de fima defle outeiro!
Náo anda lá no mar nenhum barqueiro,
Náo fe ouve algum rumor cá na Cidade.
Como da Lua a frouxa claridade
Pratea aquelle monte derradeiro !
Náo fabe a villa aonde vá primeiro
Fartar o penfamento de faudade:
O Ceo fereno como eflá fizudo!
Q
2
ie
t
a a planta, o mar adormecido,
A terra focegada , o yerno mudo;
Mas que eftrondo fizera , e que alarido
Ceo, planta, mar, e terra, vento , tudo,
Se rompeffe o filencio o meu gemido!
Ro
uflo.
a.
O-
RIMAS
S O_ N E
T
9
D
Ivina Laura, fe vencer deixalles
Dos meus queixumes o teu genio efquivo,
E para mim com rofto compaffivo
Effes formofos olhos inclinaffes
Viras fervir-re, em quanro me mandains
y
Ou forre com razão , ou fem motivo;
Viras-me por meu gofio andar captivo,
Por mais, e mais grilhaes, que me deiraffes;
Viras efta alma , que tu mefma feres
y
ten mando fu¡eica , exp6r-fe forte
A quantos rifcos idear puderes:
Mas ah! Que inda es cruel da merma forte!
Já
fei que o que de inim f6mente queres,
He ver em lugar dato a minha morte.
Là
Cio2
Se
Con
Ou)
Que
lv
Cui
Que
N
Con
Qe
7
791n..7.
D
SO-
) y
Gora, em quanto def
t
iertando
a gente,
1.1 no
1
,
a.rio Orizonte a
luz
náo raia,
Gozarei da frefcura defta praia,
Se tanto o
meu Dellino
me
confente,
"es
5
Verei
do
Téjo
.
a
placida corrente,
Como enrolada fobre a areia eipraia;
Ouvirei entre os ramos deila Faja
res;
C/Ireixar-fe o rouxinol fuavemente.
Mas
louco, em fim , em
¿J
.
me
eflou detendo !
Queda eflar huma hora focegado,
Cuidando que era pouco
o
que pertendo?
Náo;
que
voando Amor junto
a
rneu
lado,
Com magoada voz me eflá dizendo,
Q
l
e inda vivo de Lattra defpre2,ado.
DE 3..X. DE MATOS.
43
SONETO
44
RIMAS
%0NETO
V
io Alberto a Filena, enamorado
Tanto no gello da l'aflora ardia,
Qje f6 por merecella , lhe offrecia
Tudo quanto mandava
o
feu cajado ;
Mas ella, que f6 tem todo o cuidado
Na tarefa , que traz da lá que fia,
Buril forrifo lhe deo, com que tara
Mover o caraçáo mais focegado.
Sufpira Alberto, e chama-lhe tyrana
Filena entáo fe fobrefalta, e altera,
E da-lhe as máos receofamente humana.
Satisfeito o Paflor confia , e el-pera:
Váo ambos converfar para a cabana.
Oh fe lb> mefrno a mim me fuccedera!
E
Jun:
Ab!
Coi
Tar
QL1(
S6
De
1
Se
Foí
S
O-
11)
Ormindo eftava Algano ; e porque Alberta
Junto a fi
Ihe
parece que
efh.
vendo,
Abrindo
os
braços,
as mentiras crendo,
Com elles cuida .que a Paftora apena.
Tanto aquella ventura tem por certa,
Tanto fe vai de amor enternecendo ,
tIZIe á força
de
huna gemido eftremecendo
Set comfigo abrasado entáo defperta.
Defperta , e diz:
Qye
importa que
a
alegria
De ver-te me fugiffe, fe .rufpeito
Que
me fays eterna companina
a mefma no conceito:
Se faltas no lugar, em que te via,
Foi porque te efcondefle no,nteu peito.
D
S O-
50-
DE
J. X. DE MATOS.
45
SONETO,
SONETO,'
C
Flegou o tempo , em fim, que eu mais temía:
Manda a Fortuna que de ti me aufente;
E mil vezes Amor, que o náo confente,
Ao coraçáo prefago mo dizia.
As mimofas palavras, que te ouvia,
Qpndo a efcutallas tornarei contente?
Quando verei teu rorro brandamente
Voltar-fe para mim como algum dia?
Se ella certeza alguem me fora dando,
Inda que tarde, ao menos com meus ais
Táo longo mal iria alliviando ;
Mas diz-me o coraçáo fegredos raes,
Que até receio perguntar-Ihe o guando,
Pois póde ,refponder-me:
Nunca mis.
S
o
-
Que
Alli
Que
Ago
Imp
De
p,
Que
Em
Fug
Pois
46
RIMAS
SO.
O-
Ormindo Anarda eflá. Qzyem te dilata
Que náo vingas , Amor, a tua affronta
Alli tens a cruel, de quem fe corita,
Que íó teu forte Imperio desbarata.
Gema huma vez, quem tantas vezes mata:
.Agora, agora tens occafiáo prompta:
Impunha o arco, e com dourada ponta
De aguda fetta, fere
s
aquella ingrata;
Porem olha no feas prefentido;
Qie fe em ti peie os
-
olhos penetrantes,
Em vez de Vencedor, ferás vencido.
• Mas ai que ella acordou! Trilles amantes
Fugi, fugi , que tudo ellá perdido,
Pois vive Anarda ingrata, como d'antes.
DE
J.
X. DE MATOS.
47
SONETO
SONETO
A
Lhino, cuja idade inda o levava
Por innocentes palios, cerro dia,
Parando, a hum tanque, que fereno via,
Com defiguaes pedrinhas atirava:
AfTim que davão n'agua, efla faltava,
E mil diverfos circulos fazia:
A hum pequeno , outro grande fuccedia,
Lté que outra pedrinha 1ie deitava.
Eu cae fimples pairatutwo vendo,
Lembrei.me que tambern os des favores,
Que padeço , huns dos outros
vão
nafcendo:
E no depondo a Sorte os feus rigores,
Daquelle mefrno modo fuccedendo
Verei.meus males cada vez maiores.
S O-
Vos
(be
Cui
E
Imz
E
f
He
Mil
INJ'a
Qu
RIMAS
T
Arito nene faudofo apartamento
Vos reprefcnta Amor na conjeaura,
Qte erradamente a viffa vos procura,
Cuidando fer verdade o fingimento.
Entáo, guamo me pinta o penfamento,
Imagens sáo da voffa formofura;
E fe nelle outra coufa fe figura,
He fó temor do voffo efquecitnento.
A's vezes, qual depois de hû largo fonho
Mil coufas, que me affutláo de comino,
Na vaga idea a revolver me ponho;
Mas queira o Ceo por efla vez benino ;
3'a que he faifa a Ventura que fupponho ,
Que fe¡a engano os males, que imagino.
3-
so-
DE
3.
X. DE MATOS.
49
SONETO
s
50
RIMAS
SONETO
D
Epois que a linda Altea deftes prados
Ditofa foi fazer outra efpetrura,
Já náo vemos correr a fonte pura,
Só fe for
a
dos olhos magoados.
Tuclo nefles contornos são cuidados,
Nafcidos de tamanha dcfventura,
Piza fern dono o gado a ferneadura,
Ji fe náo ve na Aldea entrar caiados.
As Pafloras deixárão de ir ao rio,
As abelhas fugíráo da colmea ,
O rebanho fe fez magro, e bravio:
Ando todos dizendo:
Altea, Altea,
Onde eflds? Torna a -vir,
, que
o
teu depvio
Tenz-nos feito mutis perdiz que Unta chea.
já
já
(2e
A
Sóm
Mas
já e:
Ti
He
Para
Das
As c
Deos, Natercia ingrata, a Dees impía,
tudo fe acabou, rompeo-fe a venda,
náo levo cadeia , que me prenda;
Que a razáo he mais forte, que a porfia:
A chamma fe extinguió , e a cinza fria
Sómente guardo por final da emenda;
Mas para que outra vez fe náo accenda ,
Já eílá fóra das Aras, cm que ardia.
Tua mudança (bem que n'alma gravo)
He na memoria fó onde a contemplo,
Para náo fer já mais de Amor efcravo:
E da Verdade no pieclofo Templo,
Das injurias de Amor , por defaggravo,
As cinzas, e os grilhóes finjo de exernp/o.
SO-
DE J. X. DE MATOS.
51
SONETO
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DE J. DE MATOS.
53
SONETO
-1
57
lo-me Altea, com livre defafogo
Gozar dos frutos de huna tranquillo etlado;
E
t
achando-me de Amor táo defcuidado
Chegou, ferio-me, e rctirou-fe logo
Agora, que entre lagrimas lhe rogo ,
0_
1
2e remedee o mal, que me ha caufado,
De longe eftá com géflo fimulado
Ateando ainda mais de Amor
o
fogo.
Náo ha maior
t
raiçáo , maior crueza,
Do que ferir-me, e aflim negar-me a cura,
Como que nada do
meu
mal
lhe peza:
Mal
ha¡a
Amor ! Mal haja a formlra!
Ella, porque em amor náo tem firmeza;
E elle, porque cm mina náo tem ventura.
54
RIMAS
SONETCr
ouvindo
a
doce tnelodia
N
Daquelle paffarinho namorado,
Qje alliviaffe cm parte o meu cuidado,
E y
Corno já n'outro tempo fuccedia:
LoE
E vendo as aguas, que ella rócha envia
1
A
regar manfamente o verde prado,
Tm'
Q:ae, efquecido das miras que hei chorado,
0.9
Com rollo enxuto agora cantaria.
Po:
O contrario fuccede, porque cm guamo
1
O agradavel °bledo cita. detronte,
E
Dos trilles olhos mais fe engroffa o pranto;
lit
Pois foi a minha gloria nefte monte
Mais fuave que as vozes deffe canto,
Mais ligeira que
as
agoas defia fonte.
o-
DE J. X. DE MATOS.
55
SONETO
MAndou-me, que cantaf
r e Amor hum dia
Qpantos effeitos feas huma alma fente;
E para começar mais altamente,
-
Loo á Ventura protecçáo pedia.
Puz-me a cantar; mas ella me fugia:
Imporuunei o Ceo, a una, e a gente;
Que quem nafceo para chorar i5 mente,
Por bem que cante, a todos enfarcia:
Mil vezes diffe a Amor que eflava rouco,
E que era tido já da gente dura,
'Jumas vezes por nefcio, outras por louco.
Rindo-fe cm fim da minha defventura ,
Retpondeo-me:
Itao fabes que val puco
Querer cantar de Amor, fem ter Ventura?
SO-
s6
RIMAS
SONETO
que inda efpera ter Ventura
Com peito feminil, que louco efpera!
Pois quando mais feliz fe confidera,
Entáo encontra a
fé
menos fegura.
Como filha do mar a formofura,
Com elle ora fe aman fa, ora fe altera:
Náo le mais vária na Celefle Esfera,
A
que muda tres vezes de figura:
O
defengano, que elle avifo infpira,
Náo he felredo, que revelo agora,
He já défordern, com que o tempo gira:
Porque no peito de quem cego adora,
Se o gofio, ¿tirilla que nafce, logo elPira,
já maís a defventura fe melhora.
De
Bu
Hur
Out
No
Ag(
Ag(
E
For
1
Poi
.Fa2
E Amor em trifles lagrimas banhado
De que nunca fe falta o meu defgofto ,
Huma vez para o Ceo levanto u rofto,
Outra vez para o cháo olho inclinado.
0
,2
A fempre das gentes apartado,
Nos fitios mais deferros eftou poflo:
Agora fobre a mão a face encofto,
Agora vou correndo exafperado:
Mil idéas t formo, e j'a. clesfaço;
E porque
o
Mundo em fim me no condene;
Forço na boca hum rifo frio, e efcaço.
Allim ando, 6 forrnofa Dinamene;
Pois fendo a caufa tu de quanto
pairo,
,Fazes tão pouco cafo de que eu pene.
so.
DE J. X. DE 'TATOS.
57
'SONETO
S
O-
Toi
C
Orno forrres, ó Jupiter Supremo,
p(
Que a gentil Galatea por feu gofio
Defcance indignamente o alvo rollo
E air
Nos braços vís do bruto Fofa
-
cm°
Náo
He pollivel pairar
de
extremo a extremo,
De
Tocando aquelle finguiar compoflo
Nem
Com feias máos , fujeito fó.difpofio
Cirag
Ao duro punho do pezado remo?
Hora
Tu pois , que o movimento te he fujeito
Da natureza cm rudo táo conforme,
Náo confintas agora elle defeito:
• I
Conh
Faze de Cíalatea hutn tronco informe:
Vingue-fe allim das Ninfas o refpeito;
E fe ama hum tronco, ern tronco fe transformeí
Po
Am
Que
53
RIMAS
SONETO
ne;
DE J. X. DE MATOS.
59
SONETO
P
Onho táo livre os olh
g
s erri Damiana;
Que a vejo ás vezes, e náo fei fe he ella;
E
-
ainda guando chego a conhecella,
Náo me lembra fe quer que foi tyrana.
De a ver albea, da a julgar ufana,
Nem prazer, nem defgotio me defvela.
(iraças a Deos, que ja chegou aquella
llora feliz, que a pOucos delengana!
C
me deixafre cm fim , que me fugiffe,
0.22e me póde importar, fe daqui nafcc
Conhecer a razáo, já fou felice;
Porém nunca cuidei que ella chegafre
A
merecer táo pouco, guando a vifle,
Que nem para o defprezu me lernbraffe.
)«.
Ton;. .4
O
S
annos da feliz puerilídade
Chorei fem culpa, e confumi fem gofto
Depois crefcendo, vegetou-fe o rollo
Daquella foinbra, que authoriza a idade.
Foi-me fendo plaufivel a maldade,
Bufcando o allivio por caminho oppofio:
Chamei prazer, ao que me deo defgolto,
Quiz acertar, fitgindo da verdade.
Corno defpojo atado finalmente
Ao carro infame da cegueira eflive:
Que mais fizera irracional vivente?
Nunca ufei da razão , depois que a tive;
Que aílim he trifte, o que aili eflá contente!.
Çomc
p
vive enganado, o que ailim vive!
S
O=
Ond,
Com
Tant
o'
Oe
Pois
Hão
A'
Com
P orét
Nã
P orqi
En
a
e
RIMAS
SONETO
DE J. X. DE MATOS.
6k
SONETO
Inte!
Quelie amor , que tinhas n'alma efcritó,
Onde efilt Dize , ó faifa? Tão depreffa
Como he poiiivel , que hum amor fe efqueça
Tantas vezes aos Ceos jurado, e dilo
O'praza aos meftnosCeos,quedmploro
Ozie inda igual defventura te aconteça1
Pois como teftemunhas da promeilã
Hão de fer vingadores do deliao:
A' minha villa te calliguem logo
Com delãmor, defprezo, e defagrado;
Porém que peço , que fupplico, e rogo?
Não fea affim teu crime canigado;
Porque eu tenho mais prompto defafogo
En?, chamar-Te mulher; e enou vingado.
Oa ,
faudofo Amor, e em breve giro
.Abrindo as brancas azas docemente,
A' bella Dinamene diligente
Leva da minha parte elle fufpiro.
Se o receber tão hem conforme infiro,
Deíta memoria, que lhe devo aufente ,
Dize-lhe tudo, o que minlia alma fente,
Defde o feu cultofiílimo retiro.
Dize-lhe mais, que ao menos
a
amargura
Do feu efquecimento hum pouco adoço
Com táo nova, e fuaviflima efcritura:
E que cm fé do meu íntimo alVoroço
Fico
(4i7,e que o vifie)
com ternura
Beijando as letras, já que a máo náo poíro;
o
As
Av
Hoj
Que
Em
De
E
Prol
,Q33e
1M
(be
Acrt
RIMAS
SONETO
SO-
DE J. X. DE
MATOS.
63,
SO
N1ETO
O
Tempo ,
que veloz defapparece,
As coufas d'an:e os olhos apartando,
A voffa formo Cura reipeitando,
Hoje com ella a todos enriquece:
No corre pava v6s, antes parece
Que o veneravel galo levantando,
Em voffas altas prendas contemplando,
De voltar o relogio entáo fe elqucce.
E
com raz'ão , que opp8r-fe-vos fería
Profanar cegamente a immunidade,
pzie a táo gentil prefença fe devia
Mas ou.por intereffe, ou por vaidade3
Q
j
er morar, quanto póde nelle di4
Acreditar-fe a fi
com voffa idade.
SO4
O-
Eja-te parabem , Téjo fagrado,
Do grande Antrito a cotnpanhia honrora;
Outra vez efle bem desfrura, e goza
Das tuas claras Ninfas rodeado;
Das ondas gravemente levantado,
Ouve-lhe agora
o
verfo , agora a profa,
Com que a pezat da crítica invejofa
Fuá fempre
o
Mondego celebrado ;
E cm quanto o ouves cantar táo altamente
De inviaa palma, de triunfante louro ,
Vai-lhe adornando a judiciofa frente:
Depois reconra ao Seculo vindouro,
Qt:e p6de em fim a Lufitana gente
Ver na idade de Anfrifo
a
ti:Jade de. Ouro.
Do
,Por
'S'en
Lo
Ont
Vol
Diz
Ter
IT
A fli
Dii
S O.
RIMAS
04
SONETO
DE J. N.
DE MITOS,
65
SONETO
C
Om
alegre
apreffado movimento
Do Ceo vi
já defcer
a alta
Lucina
,Porque affiffir ao voffo nafcimento,
Senhora,
o
mefmo
Ceo
ihe
determina;
Nafcefles,
e
com brando tratamento
Logo
cm
feus braços vos
tomou benina,
Onde cheia
de amor, e
acatamento
Vos
eftá
embalando, e
lendo
a fina.
De
v6s goftofos
vaticinios canta:
Diz
que fePeis feli
k
, quanto formo fa,
Terna, compadecida ,affavel ,
a:
Diz ern
fin,
que fereis niaravilhofa;
Affirn
vos
louva, alfim
vos
acalanta I
Ditofos voffos
Pais, e
vós ditofa.
).
so-
66
RIMAS
SONETO
Rm1 ditota, que de cá fubifte
Lâ
onde pena alguma fe náo fente,
Se razáo p6de haver, com que fe augmente,
Effa Gloria Immortal, que confeguifte:
Que alegre ficatias, guando ville
Entrar no Ceo effa alma inda innocentd.
Como virias com razáo contente
A receber o filho, que parifle!
Que o defeiavas
Deos bem fabía,
Náo te quíz demorar táo alta Sorte;
Goza, goza da fua companhia;
E praza a Deos, que na Celefie Corte
Te dé depois do derradeiro dia
igual contentarnento a minha morte.
Em
Efcã
Que
. Q
'Apa
Che
4::/.11C
As
Dig,
Din
QL.1(
S
DE J. X. DE MATOS.
67
SONETO
F
Elices margens do faudofo
Ent cuja branca ara finaladas
Efláo de Dinamene inda as rizadas,
Que aufente adoro, que inclinado bejo.
Quando vejo eftas praias, e a no vejo
'Apanhando as conchinhas prateadas,
Chóro as glorias de amor alli pafradas,
Que nunca paffará6 do mcu defejo.
Aqui lhe clifTe mens fieis amores.,
As ondas amancei, deíive os ares,
Dig
,
áo-no ellas arlas , e ellas flores.
Aqui rambem agora entre rezares
Direi aos Navegantes, e Pafiores ,
Qe refreitem de
.
longe cites lugares.
SO-
6a
RIMAS
SONETO
Ncontron
:
-me ella graça etn tal defiroço,
Que
nein oufo , Senhor,
,
a recebella
E por mais que cm bufcar-me fe defvela,
Jâ náo percebo o minimo alvoroço.
Andou nefle favor, que todo he voffo,
Induilnofa a minha infaufla
Porque, guando en podia , náo quiz ella;
E agora, que ella quer,
, he que eu náo poffo.
Olhai como elle bem fe desfigura,
Pondo-fe
,
ánte
os meus olhos por negaça
Q2ando ha de malogran
°
a conjunerura!
Que outra coufa , Senhor, quereis que eu agá?
Se me
chega
de forte effa
Ventura,
Qje
ji fe náo diftingue da defgraça.
N
Hur
A or
Viv
.1N
Met
Pob
Que
E
Mea
Que
Que
Fug
so-
DE J.
X. DE MATOS.
69
SONETO
'off°.
faça?
N
A5 haverá hum
z
fitio táo farado
Hum lugar tao feguro, e defendido
Aonde vá da Fortuna perfeguido
•iver por algum Lempo delOançado?
Náo haverá ; porque ella
o
tem jurado;
Metrenclo a máo no lago denegrido:
Pobre de quem já vive táo perdido,
Que eflá para as Venturas reprovado!
E no receia o Mundo que o infefte
1VIeu hálito mortal? Inda confenre
Que eu pize os matos delle monte agrefle:
Como daquelle mifero doente,
Que foi tocado da snafigna
Fugi,
fugi de mim, ditofa gente.
o-
o-
RIMAS
íIONETO
N
O
Templo entrei de Amor: Inda geladck
O fangue tenho, do que nelle víra:
Alli ella o ciofo, que delira,
De mil fufpeitas vans atormentado.
Aqui o aufente em lagrimas banhado ,
Longe hum pouco dos mais, trifieTufpira;
}hm jura fé , mettendo a máo na Pyra,
Outro náo póde co' grilháo pezado. •
Sobre as cruentas Aras de Cupido
Q2entes entranhas, que inda eftáo vivendo,
Tem por tenções diverfas offrecido.
Fugi , mortaes , defle lugar tremendo:
Se he o Templo de Amor táo defabrido,
Como ferá o feu Inferno horrendo!
(Mi
Serr
Irei
Do
Sen
Ind
E
De
Fali
Ani
Suf
SO-
Q
U
e
te vejo rneus olhos, no confente
(Meus trilles
-
olhes) por mais tempo o Fado;
7‹
Sem ti para táo longe deflerrado
Leí viver, fe viver pollo, aufente.
-Comigo irá teu nome eternamente
Do neo efquecirnento prefervado,
Sendo, fe
dio
fer póde, articulado
Inda ao paflar do Lethes a corrente.
E fe algum dia vires, que á fineza
De fer comtigo agradecido, e humano
Falto, fem dar de tanto amor certeza,
Não julgues nao, que a antiga fé profano,
'Antes baixos os olhos, de trifleza
5ufpita,
e
dize então:
He
morto Albano.
ada
DE J. X. DE MATOS.
7'
SONETO
S O-
.
SONETO
P
Ara ver fe cantar-vos faberia,
D
Dep
s
ois que a frente de jafmins ornava,
Con
A cythara comei, que náo foava,
A m
E na garganta a voz fe me prendia.
Que
. Do gráo Paflor de Adinero, que me ouvia
O
rr
Em meu ioccono o el
-
pinto invocava:
Entc
De novo a voz, e a cythara esforçava,
O ti
E de novo com ella ernudecia.
Seus
Eis-que fe me aprefenta em fórma humana,í
Sorrindo-fe de mim o Paítor Louro,
Neri
Que ern vez de me ajudar,
, me defengana:
A v
Sabe, mortal,
me difi
-
e,
que no Douro,
N
Para cantar de do gentil Sarrana ,
Q2e
Sómente he digna a intnba Lyra de ouro.
Nad
RIMAS
SO-
S O.
DE MATOS.
SONETO
11)0 rio as claras aguas, que foando
Correm por fima de afperos ieixinhos,
A mufica dos ledos paffarinhos,
Que de longe fe eftáo defafiando:
O murmurante vento , que affoprando ,
Entorna o frefco orvalho dos raminhos,
O tremulo balar dos cordeírinhos ,
Seus curvos faltos lobre a relva dando.
Tudo em vez de alegrar-me, me arriofina,,
Nem o rollo huma vez fe quer levanto
A ver, o que fe paffa na campina.
No he allirn, ouv indo o voffo canto,
Ql
.
le erra virtude de voz táo peregrina
Nada no Mundo me confula tanto.
:na
DE
via
74
RIMAS
SONETO
r
u, que os collurnes ,
e
as paixóes retratas
Em teus verfos fuaves, e Divinos:
Tu que das máos de G-regos, e Latinos
A
Tu,
cythara arrebatas:
Tu , que as materias de Coturno tratas
Por modos fó do feu caraaer dignos:
Tu, que a pezar dos criticos malignos
O
ten, e o noffo credito dilatas:
Sobe, 6
Aleino , ao
Prendo,
voando,1
.Da
Arcadia o lauro
cingirds na
frente,
one
por lima dos
mais
,
vds
levantando:
Diffe Apollo do throno refulgente,
A'
villa de teus emulos rafgando
O
volume da crítica infolente,
,
M eu
M as
S e mí
Sob
A
offt
Q ue e
V icio
Ben
S ubir
A
quc
Mal
S aber
M ais
Ton
s
0-
F,
Ton.
L
ID E J. X.
DE MATOS.
SONETO
î
i
Ste obfequio, Senhor, que vos envia
Meu animo fiel, curto parece;
Mas quem
o
pouco, que poffue offrece,
Se mais tivera, muito mais
Sobre fingelas máos náo fe avalia
A
offerta pelo vulto, que apparece;
Que entáo a acceitaçáo fora intereffe,
Vicio, que nunca em vós haver rodia.
Bem fei que de meus verfos a humildade
Subir náo póde
r
aquelle defempenho,
A
que antiga affeiçáo me perfuade; r.
Mas huma falvaçáo comvofco tenho;
Saber que a voffa candida vonrade
Mais préza humdom de amor,que d'alto enzenhor
'atas
75
76
RIMAS
SONETO
M
Orreo o born L-u.iz: Jt náo veremos
A.quelia boca para' todos rindo:
Plum fono perennal eilá ddrm indo:
1á de ouvillo a Ventura ná'o tetemos.
Hum novo Her6e cortado em flot choremos
Qie por mais que fubamos o alto.Pindo,
Ao Ceo, para onde foi de nós fugindo ,
15 agora cm váo por elle chamaremos:
Até para ficarmos mais fauclofos,,
O feu frio cadaver nos tir5ráo
D'ante os olhos táo trilles, e chorofos:
De vello as efperanças fe acaVatá•;
Venturofos aquelles , vena:rol-os,
Que as ultimas palavras lhe efcm5ráo
P
Guar
T omi
L os
o
P ouc/
V end
A
Ve
E m F
P ara
Se
Q yan
H e a]
s
D E J.
M A ‹)5.
77
SONETO
P
Romettendo a Lituano Dorbthea
Guardar-lhe a fé,. que feu amor devia,
Tomou por teflem-unha a luz do dia,
E os juramentos efcreveo na aria.
O vento , que a •revolve, e que a manea,
Pouco a pouco a efcritura desfaia;
.
Vendo ifto a Pailora, que faria?
A Liman° lambem rifcou da idea. •
Veo 15 corno a fe cfb bern fegura
Em peito ferninil: Qpe documento
Para quem crer mulher, ou crer Ventura!
Se airada na que tem mais fundamento,
Quanto diz, quanto efcreve, guamo jura,
He aria, que a rnove qualquer vente.
Fu
S O- ,
78
RIMAS
S
ONE D
O
tim dia, de Liman
° acompanhado,
Defcendo por hum valle manfamente,
Cahio minha vita de repente
De hum tiro
da
Fortuna derribado.
Como vinha tán junto do feu lado,
De medo me affufirei naturalmente
Pois náo fou inda aflim táo defcontente,
Que ya cahir náo polla cm baixo eftado:
N'áo effou inda etn mirn, porque duvido
Se daquelle defafire , por acerto
Sahi,
ou
não , fem o faber, ferido;
•
.Que afrombrado fiquei , Beliza, he cerro;
Mas náo culpes quern anda eftremecido,
Vendo o rajo cahir de
fi
tão
peno.
Mea
Do t
Por
Cá
0.2e
Affirr
Ten
Da
De
ni
Aon
Po
E fe
De a
S
0-
DE J.
X. DE MATOS.
79
SONETO
Eu amado Mondego, meu amado
Mettre gentil, que fabio me educafte
Do tempo, que benigno me hofpedafie,
Por onde quer que for ferei lembrado.
Cá
toma conta da Pailora , e gado,
9
e já com teus falgueiros abrigafte,
Allim nunca a Eftaçáo do Elijo gafte
Ten cryfiallino curfo focegado.
Da Patria huma jufliffima vingança
De ti me leva a outros Orizontes,
Aonde pague a culpa como herança.
'o;
Por ti , por ella, sáo meus olhos fontes;
E
fe vivo, he fómente na efpetança
De ainda tornar a [andar teus montes.
R 1 rvil A S
SONETO
Q
A
Ue effranhos cafos vi no monte, e prado,
Em quanto ouvi ten canto : Aquelle outeiro
Enfa
Ilum pouco fe moveo, e elle ríbeiro,
De 1
Para ce ouvir melhor, ficou parado.
Ides
Derceo dos montes de tropel
o
gado,
C1
A Serrana, o Paffor, e o pegoreiro,
Faze
O voraz'lobo , o tímido cordeiro
Con
Tudo ficou attonito, e pafmado.
Dos
Até a minha horrida Trilleza
V
Batendo as negras azas fugiria ,
Abh
Se Ilto n'áo impediffe a natureza;
Ergi
Mas hum pouco fufpenfa da harmonia.
M
Deixou-me refpirar, e foi deffreza,
Para
Por ver fe me matava huma alegna.
E
er
S O-
DE J. X.. DE MATOS.
81
SONETO
rado,
Onde andais, ó Parcas venenofas,
iro
Enfanguentando as mãos ? Como infolentes
De Cidadáos fieis, de Heróes valentes
Ides cortando as vidas preciofas ?
Como em trifle viuvez tantas efpofas
Fazendo andais no mundo dekontentes,
Como tantos filinhos innocenres
Dos braços arrancais das Máis chorofas?
Voltai-vos contra mim , vingue-fe a Serte,
Abbreviai-me a horrida partida,
Erguei a máo , que eu me fujeito ao córte;
Mas ha que imprecação mal proferida!
Para a morte dos outros 'palla a mane,
E einimim para morrer fobeja a vida.
82
RIMAS
SONETO
F
OrrnofilTima Olaia , o teu femblante
N
No fei qu'e graça ,tern , que almas cativa
Quc
náo fora a tua táo efquiva ,
CuE
Aflum náo fora a minha táo conftante.
Orr
Ah! Qije
fe
te encontrára hum f6 inftante
S
A
minha adoraçáo menos altiva,
Nut
Em vez de defprezar-me fugitiva,
Tan
Paráras a efcutat meu rogo amante.
Ver
Entáo compadecida do meu pranto
C
Darlas mil finaes de fentimento
Da
Neffe rofto gentil, fereno, e fanto í
Afli
Mas táo altos favores não intento,
IN
Nem póde fer,
, nem eu mereço tanto,
, Coi
Cura volver dos teus olhos me contenta,
La
s
DE
1. X.‘DE
MATOS.
83
SONETO
2
ate
N
Infas defies vizinhos arredores,
Que táo altivas prefumis de belas,
Cubrindo os vultos de cuflofas telas,
Ornando as tranças de feSes de flores.
Sabei que Olaia, Olaia , os meus amores
Nunca prccifará defras cautelas:
Tanto vos vence a vós, quanto ás Efirellas
Vencem do claro Sol os refplendores.
Qual a frefca bonina, que florece
Da máo da Natureza cultivada,
Allim de Olaia a formofura crefce.
Náo he táo bella a luz da madrugada,
Como Olaia gentil, guando apparece
Lá de longe a meus olhos deiloucada.
so-
RIMAS
SONETO
Q
Uem nunca vio a luz formofa , e pura
De teus olhos gentis, de teus cabellos,
Póde, corno eu já fiz , antes de vellos
Zombar de Amor, e rir-fe da Ventura.
P6de defconhecendo, o que he ternura
Perguntar o que he fé, e o
que
são zelos?
Eáo ter faudades, n5.o fentir defvelos,
E
á
minha inquietaçáo chamar loucura;
Mas não depois de os ver, que derribado
Do feu alto defcanço ficaria ,
Cheio de confusáo defenganado;
Pois perclendo o valor,
em
que fe
fia ,
Moneda em teus oIlios abrazado,
Prezo nos teus cabellos gemeria.
E
E
N
Na arr
E hurr
Conta
Ora
Por
eh
Ora
qt,
Aos re
Dep
Doces
Com
No
Dos o
Nova
O-
so-
DE J. X. DE MATOS-
85
SONETO
E
Ntra o foldado envolto cm fangue , e terra
Na amada Patria a defcançar contente;
E huma vez ao vizinho , outra ao patente,
Conta os perigos da pairada guerra.
Ora diz ,
que fubíra bunia alta ferra
Por entre o Togo do pelouro ardenie:
Ora que peleijando frente a frente
Aos receios da ;norte os olhos cerra.
Depois colhendo vai para o futuro
Doces frutos da paz, que eftá gozando
Com vida alegre,
e
animo feguro.
Náo eu afiim , que apenas defcançando
Dos conflietos de Amor
t
yranno, e duro,
Nova guerra me faz teu géilo brand°.
S O-
so.
Q
Ual
Pallar, que do fono
accommettido,
No
cháo
os lafros membos
enconando,
Da
noite
as trilles horas
vai
pallando
Dos leus manfos cordeiros efquecido.
Té que do
refplendor
do Sol ferido,
A'
força
de
feus raios defpertando ,
Abre os
olhos,
e o rollo levantando,
Fica
por grande
efpaço fufpendido.
Tal
ett
de ver
teu
rollo
defcuidado,
Nelle empregando
a villa de repente,
De tanto
refplendor fiquei pafmado.
Mas o
fim defle cafo foi diffrente;
O
Paflor levantou-fe defcançado ,
E ce
cahi ferido
mortalmente.
A
Náo
Qzté
Onde
Se te
Porás
Hum
An
Para
Cuidz
Poi
Ze
Que
c
86
RIMAS
SONETO
A.
Lbano , quem
es tu? Teu baixo eftado
Náo
te confunde,
náo
te
defengana ?
Q
2
é
das
Iavras,
que
tens,
qué da
cabana,
Onde efiáo
as
cohneas, onde
o
gado
Qpe
has de
offrecer
a
Olaia
confiado,
Se
re ouvir algum dia más humana:
Porás aos pés de táo gentil Serrana
Hum gurrão pobre, hum paftoril cajado?.
Aníias, fufpiros, lagrimas, e ais
Para quem dcfconhece, o que he ternura,
Cuidas que são huns grandes cabedaes1
Pois fabe, que re diz a formofura,
Qr_ie
ames menos ,
fe
vieres rvaler mais ,
Que onde fobeja Amor, falta a Ventura.
So-
DE
J. X. DE MATOS.
87
SONETO
88
RIMAS
SONETO
en pudera viver de noite, e dia,
Vendo fempre effe gérto delicado,
0e. ditofo , que bemaventurado ,
Formoía •laia, o meu amor feria!
Mas, em que eflou rnettendo a fantazia
Váo , ociofo , rnifero , coitado ,
Ditofos fó aquelles, que a ten lado
Gozáo da tua amavel companhia.
O' da Fortuna errado rnovirnento,
O
.
De o bem que nega, a quem por ti fufpira,
Dá talvez fern nenhum merecimento.
No fe fez para rnim contentarnento,
A deferperaçáo, a inveja, a ira
Só fe fizeráo para meu fullento,
S O-
C
U
Z ,Iacul
U nge
T ao
O(
D o 11
D os n
S e te
De
P orqu,
A cho
Am
O rne
0 „Lre c
DE
J.
X. DE MATOS.
SONETO
C
Uidas talvez , Olaia , que imprudente
),}aculada tençáo meus paiTos guia?
Longe, longe, ó terrena fantazia,
Tão contraria a meu animo innocente.
O
Ceo, o
jufto Ceo, que lhe he prefente
Do Mundo a mais occulta fympathia,
Dos meus olhos aparte a luz do día,
Se te nao diz .a lingua, o que a alma fente.
De idolatrar-me nenhum fruto efpero,
Porque te devo mais, quantor.maisÇo
Acho teu genio ou compailivo,,e..
Amo as tuas virtudes, farisfaço
O meu amor co'ineu amor ; mas 'cillero
Qe
conhecas meta Bern , o mal que pairo.
S
o.
io
RIMAS
SONETO
T
)(t'arma Olaia , o mi defabrimento
Troca , que he tempo
j,
troca em brand= ,
Faze que ene queixofo da Ventura
Seja fe quer feliz por hum momento.
L
A'
• Onde
Aonde
Ao fui
De teus olhos gemís hum movimento
Bem fei que militó val ; mas a ternura
De táo conftante amor, de fé táo pura
Tenha comtigo alguna merecimento.
Nifb
Té Ti(
Olaia ,
ljtá ,
Valhá'o-me elles fufpiros innocentes,
Que j'a para abrandar fiará °
bailantes
Feítos de tigres , olhos de ferpentes.
Corr
E para
Onde
A mão para matar-me não levantes
Ou moffra ao menos, que os meus males rentes,
E clepois sl cruel , como eras d'antes.
Ah c
Huma
Se tu r
S O-
Ton.
Ton!. I.
1:5
S O-
A'n'utria praia cavernofa, e fria,
Onde chamar teu neme cofrumava,
Acude citas, Olaia, perguntava
Ao furdo mar, que nada refpondia.
Nifto paffei, ó Ninfa, todo hurn dia
Té que de novo a voz alevantava:
Olaia , Olaia , aonde efiás, gritava
LYtá ,
dizer-me o éco parecia.
Corro vagando a humida efpenra,
E para aquella parte me arrebato,
Onde ouvir tua voz fe me figura.
Ah que afrim foi o meu Deflino ingrato!
Huma penha achei fb, formofa, e dura,
Se tu náo eras, era o teu retrato.
!S ,
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
RIMAS
SONETO
E
M
.
frauta agrefte , em lyra altitonante
Siga cada Poeta o feu Defino,
Cante a Narercia, o !neo Cam6es Divino,
E o nome de Beatriz celebre Dante.
Por Laura chore o feu Petrarca amante,
A Livia dé louvores Andrelino,
A Colona o fonoro Bernardino
Por Genebra Ariolto a voz levante:
Louve a Beliza a Mufa de Salado,
Honre a Caffandra Sanazaro ,
era
quanta
Catulo a Lesbia, a Flora Maldonado;
Que efe nome 'de Olaia, que amo tanto,
Será de Albano cm verfo celebrado,
Feliz affumpto de raais alto c3nto.
T
R
Nos vi
No dui
Os del
Ah
Com ti
Eem h
A quer
V6s,
\rinde
Caftas
Vind
Ide dia
Para pa
S O-
DE J. X. DE MATOS.
93
SONETO
T
Razei, Ninfas, trazei, mimofa arla
Nos virginaes regaços: Efpalhai,a
No duro cháo : No mortifique °laja
Os delicados p.és, guando pafrea.
Ah como vena
de
maravilhas chea!
Com tantas graças a manhá náo raja,
Nem he tão belta a corpolenra Faja,
A quem o brand° Zefiro menea.
V6s, Napéas do hofque mais vizinho,
\
r
inde efperalla, derrarnai-lhe llores,
Canas roías, devoto rofmaninho:
o,
\rinde, beijai-/he a máo ; e v
'
ós, Panores,
Ide diame delta, abrí caminho
Para paffar
a
Deofa dos Amores.
O-
Gii
SO-
.94
RIMAS
SONETO
Um mudo fufpirar continuamente,
Em fegredo o tcu nome articulando,
Agora feito eftatua, agora errando,
Sendo talvez a fábula da gente.
Huma c6r ja de morro propriamente
Hum fallar fem faber que eftou fallando:
Com vergonhofas lagrimas banhando
Hum rofto para todos del-contente.
So Olaia., os efltragos de hurna vida,
Qe
depois de morrer por ti de amores,
He de balde cm defprezos coiifumida.
Recorclallos , no he pedir favores,
He porque vejas fó defvanecida
O
fruto, que háo tirado os teus rigores.
.<5
• Louvo
De pó
Cahe-r
Que
Cheio
Mas o
Cante
Que
Ora o'
Ora a:
No
Eftarei
-
No te:
DE J. X. DE MATOS.
95
SONETO
Uando , Anarda gentil, os merecidos
Louvores teus a decantar começo,
De pór a boca nelles efmoreço,
Cahe-me a lyra das máos, perco os l'eneldos.
Que so os meus defejos atrevidos
Cheio de confusáo, mui bena conheço;
Mas outra Mufa de mais alto preço
Cante os louvores, que te so devidos.
Que ett cá de longe, como envergonhado,
Ora ouvindo louvar o rifo brando,
Ora as palavras, ora o doce agrado;
Náo a voz, mas os olhos ievantando,
Eftarei fobre a lyra recollado,
No reo forraofo gefto contemplando.
a-
S
O-
1
1
\
A borda do
feu concavo fáveiro,
V(
Acafo huru dia,
oh día
aliignalado!
Nas
O
pefcador Albano achou
gravado
Ora a
Inda de
frefco
elle fatal
lecreiro:
Ora (
Conhece , Albano , que es hum wil barqueiro,
15.4
o
Ao trabalho do remo acos
r
luniado ,
Para
Negro do Sol, dos eventos açoutado ,
Que (
De inembros torpe, de exprefsóes grojeiro.
Sois
1
Olaia ido te quer,
, ella o tenz (lit° ,
J
Eni
Efie he, o pefcador,
, o extremo dano
Coral
Da
fentensa mortal do teu delito.
1
As cc
Leo-o; e
chorando
o
defgraçado Albano ,
E
Arranca a
taboa, aomie ellava efcrito,
Cantz
E
ao
Templo a
foi
levar do
Defengano.
Da A
S O-
9 6
RIMAS
SONETO
DE J. X. DE MATOS.
97
SONETO
O's, que fombra dos alarnos copados
Nas voffas flautas pailoris tangendo,
Ora as aguas parais, que váo coirendo,
Ora os troncos movis, que cía() parados:
Mofirai que cm voffos verfos levantados
Para elles meus táo alto eftilo aprendo,
Q
i
ye di do Tejo a fraca voz erguendo,
Sois Fa de mim no Douro acompanhados:
Ent'áo levando ao peito a fanfonina,
Coroado de roías, e Amaranto,
As cordas ferirei corn máo Divina;
E
fe
acafo, 6 Paílores, poffo tanto,
Cantando efpalharei nefla campina
Da Arcadia Portuenre o novo canto.
98
RIMAS
VERSOS
GLOZA
DOS
NA
REAL
PRESENÇ
A
PE SUAS MAGESTADES, ALTEZAS,.
MOTE
Gloria dos
Reis ,
do Reino figuranta,
GLOZA
SONETO
J
A' Portugal refpirará contente,
O' formofa, ó Auguíta Succeffora:
4:12e tem a Inveja que fazer já agora;
Mais quo eítar-fe a morder continuánaentel
Alta eleiçáo do Rei , que fabiamente,
Se Efpofa , a IVIonarquia vos adora,
Nos recompenfa os fullos da demora
Nefie impenfado jubilo prefente:
Já, Princeza, na noffa intelligencia
Tornando campo vai certa efperança
Da voffa dilatada dofcenciencia:
Por ella o Lufo Imperio cm vós defcança,
Contemplansio-vos já fem contingencia,
Gloria dos Reis, do Reino feguranya.
S
E c
Porcp
Fez c
Pois
Ve
De h
Fará
Náo
Se ir
Eu i]
E ht
Sem
15
5
.
O-
DE
J.
X. DE MATOS.
99
MOTE
Sen2
4 dita de Aquiles ter
inveja.
GLOZ
A
SONETO
E o
gyloCantor,EjolUundo encheo de efpanto,
Porque
-
a fama de Aquiles poz notoria,
Fez que Alexandre lhe invejafle a gloria,
Pois náo devo ás
Mofas
outro
tanto:
Voffa Alteza,
Senhor,
, que fabe o quanto
De hum , e outro Heroe vence a memoria,
Fará que eu decantando a voffa hiftoria,
Náo inveje tambern de Hornero o canto.
Qtje affiarnpto mais feliz, ou rnais gloriofo!
Se inda á vifta daquelles , faz que feja
Fu invejacio , e vós nunca invejofo !
Hum novo Hornero cm mim por vós fe veja
E
hum Alexandre cm
.
vós por mirn famofo,
S'ern á dita de Aquiles ter
inveja.
•
m0-
roo
RIMAS
MOTE
A' grandeza do
affiírnptc alpira
a
1114.
GLOZ
A
SONETO
Li
E a Fama, que altamente pregoeira
Cantou fempre as acOes da voffa vida,
Boje de aflombro conl razáo duvída
Ser de rão faulias novas menfageira:
De que forte, Senhor, de que rnaneira
A minha voz, por baixa, nunca ouvida,
Cantar póde huma empreza táo fubida,
Que inda a Mufa rnais alta lhe he raffeirá?
Materia he de coturno a acção prefente;
E dizer coufa , que louvor produza,
Náo póde o picares humilde, e defcontente:
Mandai cantar por outro a gloria Luía;
Que cm mim , por mais que louve , inutilmente
A' grandeza do affumpto afpira a Mufa.
Na
Sen
Par
u
Faz
A
ODES
te
Onde me arrebato.
Na fanta devoçáo &tic alto empenho?
Por mais que as azas bato,
Sempre pezado, e froxo me detenho;
Mas quena forças me deo
Para fubir, para voar ao Ceo?
V6s, Santo illuftre, e forte,
0,...ge de hum gloriofo rapto lá fubifte;
Sebaftiáo, que a morte
Fazer foubefte alegre, feudo trille;
Vós fois, de quem en canto:
A minha Mufa enchei d'hum furor funto.
Hu-
Taz
RIMAS
Huma fetta brilhante,
Das que foi alvo illuflre o voffo peito,
D(
Fazei, que penetrante
Defça já fobre mim : Oh prompto effeito
5
O
Que
n'alma vou fentindo!
Agora firn, que v6s me eflais ferindo.
Vós fois o valerofia
Campiáo de Chrirto , que cm yirtuofa guerra
Con fumma fles di to fo
O triunfo melhor, que ha fobre a terra:
E
A'
Patria verdadeira
Levando as almas por táo sá carreira.
E
A cega idolatria
/Zas máos o errado perfido volume
1
E
Aberto revolvia;
E vendo a Lei deffe infernal cofturne,
N
Que aflim por vós fe infama,
Sobre elle negras lagrimas derrama.
Ella prefenceava
Por voffo esforço, que com zelo ardente
As coftas lhe voltava
Quafi infinito numero de gente;
E que com voffo exemplo
Efiá fem culto o feu nefando Templo.
No
DE J. X. DE MATOS.
No peito introduzida
Deffe purpureo indomito tyrano
Faz tiro á voffa vida:
Oh ímpiol Oh infiel Diocteciano!
VI o que determinas,
Q
.
22.e aquellas sáo as mais fieis doutrinas.
A penitente boca,
Que no farninto pavorofo Inferno
Latindo fe fuffoca
Entre o groffo vapor do Jume eterno,
Abre a triforme fera,
E por feu vulto denigrido efpera.
Manda fechar a aljava,
Em quanto he tempo , manda. Mas que cego
Temor me alucinava!
Vós efperais, ó Santo, com focego
A mone; e na partida
Morrendo ireis á mais illuftre vida.
Sim,.que ji lá vivendo
Defres miniftros do furor , triunfante
O premio recebendo
Eftais devido á vona Fé conflante:-
Sem que a ferena face„
Levemente
de
funo fe enfiane
ia
to4
RIMAS
Vides a defcórada
Ameaçadora m'a
°
da Morte fla
Contra vós levantada,
0_11e
fettas o corpo vos rodea;
Porém fem fufto a vides,
Que com ella do Ceo a porta ab.rides.
Se frene aqui pudeffe
Soltar por mina a voz , melhor dina,
Corno vos fortalece
O claro lume , que do Ceo defcia:
E para o tranfe amargo
Vos dá valor, e fofFrimento largo.
Neffe tronco ditofo
Os innocentes membros vos atárão
Oh tronco venturofo !
Cuja alta forte os outros invejárão,
Q
i
te na fertil carnpanha
O Sacro Tibre vagarofo banha!
A grande, amiga Roma
Confufa o vio , e ainda vacillante
No verdadeiro dogma
Os olhos abaixou, mais já triunfante
Vos chama; vos felleja
Da Fé columna , Defenlor da Igreja.
Mais
DE J. X. DE MATOS.
105
Mais prodigios difiera
Inda do voflo ungular martyrio:
En fó, eu f6 fizera
Morder-fe o Inferno, e alegrar-fe o Empyreo,
Que inda cá fimo o eiTeito
Da ardente fetta, que abrazou meu peito.
Mas vós, ó Coro Santo,
Quamo melhor que as filhas da memoria.,
Ern votfo irnmorral canto
Deftes aífombros
.
numerais a gloria!
Eu ouço, eu ouço os Flynos:
Cantal , cantai, Efpiritos Divinos.
Ntre as Deo
fas
tão célebres cm Ida
Embora o fogo accenda
Effa, que no aureo pomo introduzida
Moveo alta contenda:
Derrame embora tragico veneno
Sobre amigas Cidades
Qual Noto fero, contra o mar fereno
Defate
\
as tempettades:
Das
206
RIMAS
' Das máos arranque de Hymineo fagéado
A faxa Iuminofa;
Arme agudo Orilla' enfanguentado
Contra innocente Efpofa.:
aça que o Pai fizudo ao filho vendo,
Ao fillio que gerara,
Os antigos agg,ravos revolvendo ,
De rancor volte a cara:
Vt
pelo Mundo murmurando
.
, e rindo
Dos males, que femea;
Com máo fubtil de caía em caía urdindo
A fimulada tea:
Feliz fóm ente noffo amor, Beliza,
Náo terne fors:a eftranha:
Longe do vulgo o excelfo curne piza
Da Olimpica montanha:
Náo teme da fevillima Megera
O furibundo enfaio ;
Multo além vive da eltrondora Esfera,
Onde fe forja o raio:
De alto verá beber no amigo Douro
Mil apeadas rezes
Cubrir-lhe as margens, no de atlas
de euro,
De verdenegías fézes
Ce-
Ce]
Sey
Do
Far
Qu,
Ma
Ah
Ne.
o
A
En
/11,
DE J. X. DE MATOS.
to7
Celebre o Mundo do incendido Pado
As aguas, que já foráo
Sepulchro triite do mancebo oufado,
Que as Helyadas choráo:
Do formidavel bruto a grao viaoria,
De toda a Arcadia efpanto ,
Famofo faya pela Herculea gloria
O rapido
.
Erimanto
Que o puro Amor, que o tempo náo confome
2
De Beliza , e Albano ,
Mals alto,
6
Douro , levará teu nome,
Q..te as ondas do Oceano.
Ah Beliza , no temas a inconflante
14Ientirofa Ventura;
Amor náo firma o pé no difco errante
Da roda mal fegura :
Nella alma vives, de que tu es parte:
Noffa maligna Eftrella
O afpeao moltre de Saturno, ou Marte,
Nenhum poder tem nella
:•
A
fe nos une, a fronte nos coroa
Pacifica oliveira:
Em váo no punho ¡migo aos ares voa
A purpurea bandeira.
•
Tom. I
A
•
aloa
III
Onde aonde, coraseies humanos,
Batendo as roxas nas,
Belleza encontrareis e fuavidade,
Sem que os rapidos voos
Vos levem diligentes, onde habita
Isbella encantadora 1
De huns appetece o paladar aaivo
Os faborofos frutos ;
Revolvem outros na groffeita boca
Infipidos manjares:
Comtigo fallo, abominavel vulgo,
Que dos lodofos charcos
Farras a fede nas falobres aguas;
E a fonte pura deixas
Pela terra perder-fe inutilmente.
Longe daqui te aparta ;
Que a corrente das gratas harmonías
Para ti fe náo folta.
Culta Lisboa, ergue a fábia, fronte
Para admirar Isbella :
Verás hum novo, e delicado géflo
Aonde as Grasas moráo
O
s
Vo
g
RIMAS
Os
fu
A
DE
DE
MATOS.
'
Os c6pos de fuaviffimo veneno
Dando a beber aos olhos ,
Corn que a vontade hydropica fe abraza
De infaciavel fede.
Oh que defejos mil andáo voando
Ao redor de feu rofto!
O narnorado Amor netle fe encofia
Suave , e manfamente
Para efcutar-lhe o canto de mais perro,
A cuja força eftranha
Váo, como de tropel , as mais ifentas
Almas arrebatadas;
Qz..)aes nos campos de Thracia ao fom Divino,
As indornitas féras.
Verás as Ninfas'defcuidadas tanto,
Qlte as grinaldas, que tecem ,
Deix/o cabir das rnáos fobre o regaço.
Nos cavernofos montes
Eólo enfrea os vemos; f6 refpira
Brand amente Favonio;
Porque a noffos ouvidos traga, e cheguern
Ellas
celefies vozes:
Eu vou, eu
; a magica harmonia
Me eleva, e me tranfporra:
Da terra erguer me finto fobre as nuvens;
Parece que ao Ceo voo.
109
A branda voz, que penetrou minha alma,
Náo póde fer, náo pede
Refpiraçáo de truco alento humano!
As vozes sáo de Isbella.
Com menos fuavidade, á frefca fombra
Das arvores frondofas,
A rnufica dos ledos paffarinhos
Ao laffo caminhante'
De hum irnperfeito fomno adormentado,
Os fentidos !he prende.
Oh bemaventurado , o que vos ouve!
O Monftro macilento,
Cujas accezos, revirados oihos
Impacientes náo foffrem
As luzes das Eftrellas , enfanguente
Os eftiticos dedos
Entre os immundos venenofos dentes;
Que, para prefervar-te ,
Da torpe Inveja , que a Virrude opprime,
Sempre o merecimento
Mais alto, e fingular tens aor teu lado.
Tu cauto, errante Grego
Que 1s vozes de Partenope efcapafte
Artiticiofamente,
Senáo queres render-re ao novo canto,
Ah foge, Olifes, foge
De entrar fegunda vez a foz loberba
Do
Lufitano Téjo!
Náó
N
Ir
N
E
P,
A
no
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
No
vas,
6 Formordlima Cantora,
Como já para ouvir-te
Inclina o Padre Oceano a veneran&
E cerulea caheça
Mudos efiáo os fátytos longevos
As crefpas fobrancelhas,
De admirados, erguendo ; e fobre
a boca
P6em
o
ruitico
dedo.
IV
0,940/
ti
Con
feguio a pallida doença
Com defcarnada máo tocar teus membros,
Verter ten fangue , desbotar ten rollo 1
Que deshumano infulto!
E pode enfraquecer deffes tetas olhos;
Deffes teus bellos olhos, a luz pura,
Aonde o pio Amor continuamente
Ardendo fe verja!
V6s, juniflirnos Ceos! que o perrnittifIcs;
Porque náo permittilles que eu ao menos,
Chegado ao brando leito de Lo rinda,
Chorar feu mal pudetre
.Alli en mefmo , com piedofa mágoa,
O
c6po
da
afquerofa
medicina
A beber
ihe daria, eu a animara,
.
Se
lhe voltaffe
o
roao,
Alli receoro ,
e
próvido eflivera
De guando ern guando a pergunta
r
-lhe eu mermo;
A,
Se éflava angufliada , ou
fe
ji tinha
A
Mais algum refrigerio?
Alli fora o primeiro, que velafre
No filcncio da imite; e manfamente
De inflante a infante a ella chegaria
A ver le
refpirava.
Infeliz, tu primeiro dos humanos,
Que com teu venenofo mal pudefte
Inficionar a bella natureza
Das miferaveis gentes!
Tu fizelle caduca aquella idade,
Que refpeitára a inexoravel Cloro
De outros erros maiores es a caufa;
Oh mal haja o teu erro!
Que o tronco irnmovel , que a infenfixel pedra
Sejáo unís perduraveis, mais radios,
Que os bem fornidos membros, que organizáo
O corpo mais robuflo!
Mas ah! Náo queira o Ceo, Lorinda bella,
D.
que deftas pensóes
re
náo fez livre,
Que tão cedo a corrupta natureza
Dellas te peffa cuota.
nn2
RIMAS
DE
J.1X..
DE MATOS. A%
Refpirem fempre os ares mais benignos
Ao redor de tea corpo delicado:
A infefta vifta para ti náo volte
A pállida doença.
V
edra
.izáo,
A
O mais leve ruido,
Co' a prompta vifta a caía rodeando,
Acorda expavorido
O vil ambiciofo , imaginando,
Que o nodurno, e deltriflimo ladro
As chaves Ihe tirou da efeaffa máo.
Applica o temerofo
Ouvido, receando, quanto efcuta,
Infulto criminofo ,
Que cm feu thefouro avaro fe executa:
Qual edificio , em que fe ateia a
flama,
Alvoraçando a caía , os fervos chama.
Feliz, tu, que defpertas;
Podendo, ern pobre cama focegado
Com as portas abertas
Tornar ao doce fomno começado,
Até que volte o dia , fem mis pena,,
Que adiar talvez a noite fer pequena.
.ef-
rr4
1 1,
1
M
A S
Qpieto o penfarnento
Repoufa cm
ti',
fem nunca fatigar4e;
Nem por mar, nem por'Vento:
Com elle vás do mundo a qualquer parte:
As coufas vls, e a difcorrer náo oufas;
Trille, o que fabe du-v-idar das coufas!
Da foffrega ambiçáo
J.4
mais feguir os pafros determinas,
Por medonho certáo
A ir defencamar preciofas minas;
Mas antes , fem tentar arduas emprezas,
Zornbas das honras, zombas das riquezas.
Rompendo o curvo arado
Em
paz a propria
y
erra, que femeas,
Te contens moderado,
Sem ir bufcar undivago as albeas,
Ou por hum afperiflimo &ferro
De hum perigofo, e vil mor cuberro,
Da terra fobre a face
Depois o fruto ir& que cm tempo veía;
O ouro alli te nafce
Nas barbadas efpigas do fenteio;
Que, dando-lho
.
fingelo , tem cuidado
De to reftituir multiplicado.
Ern
DE 3. X. D E "MA T O
Yrs
Em pequen° eelleiro
Recolhes mais feguro o teu fufiento,
Que o inutil dinheiro
Em chapeadas catres o avarento:
Em tí difiribuida honeftamture,
'Nene guardado vergonhofamente.
Ah que fe tu fouberas
O que paira no-Mundo , e feus cofiumes,
Outra ídéa fizeras
Bem diffrente de ti, do que prefurnes!
Que huma sá natural Filofofia
"Náci fé) augrnenta a dor , mas a alegria.
Quando ao morite fubiffes
Alguma vez a aparcentar teu gado;
E 1â ao longe viffes
5ahir a no , fendendo o mar cavado ,
A terra pouco a pouco atrás deixando ,
Até que volte fem faber-fe o guando:
Entáo , entáo darias
Todo o valor devido ao teu focego;
E col-migo dinas:
'Oh tu que entregue vás ao alto pégo!
Faminto, e váo
entregue
te india a vela
Puts vás com fede, e has de vir com ella.
7.,n1
Se
n6
RIMAS
Se fora a Natureza
Com fabia máo teus paffos dirígindo
Por toda a redondeza,
Novos Ceos, novas terras defcubrindo ;
Porque depois
a
nefcias creatuias
Deixaffes proveitofas efcrituras:
Arrifcaffes embora
Entre fullos, e lagrimas a vida:
A vida, que o náo Lora,
Se fó fora em regalos confumida;
Porque cm molles efpirítos náo cabem
As coufas grandes, que os prudentes fabern.
Mas ir abrindo os mares
Agora ao fundo abyfmo fepultado,
Agora pelos ares
Voar ao Ceo nas ondas levantado,
Tre mulo o corpo , e :la no rollo ah-lit°
Da fria Morte o negro gato efcrito
A doenças mortaes
Humas vezes expolio , outras a fomes;
Tudo por cabedaes,
Que ou náo chegas a ter, ou mal conformes:
Ah louco atrevimento de hornern louco ,
Tanto queres, bailando-te táo pouco!
Ci
Er
Se
Ji
Si
E
DE
J. X. DE
MATOS.
ii
7
A' nefcio, aonde v5.s?
Cuidas talvez que he pouco o que poffuo?
A fama, a fanta Paz
Em feos braços me aperta , no fluafio
No golfo da ambiçáo, fempre cm bonança
Me cérca Virtuofa Temperanga.
Aquí reina a Verdade,
Sem que a Iifonja lhe difpute o mando:
A ferena Amizade
Com pacifica máo vai derramando,
Náo os venenos da fizania antiga
Sim as doçuras da concordia ainiga.
Aqui fem artificio
Me veflem crefpas laos: Pobre apofento
De baixo frontefpicio
Me tólhe a chuva , e me repara
o
vento
De día alegremente trabalhando,
De noite do trabalho defcançando.
Aquí da negra Inveja
J'a iríais me infama o bafo Peftilente:
Do que aos outros fcbeja
Bem que me falte a rnim , vivo contente:
Porçáo pequena de qualquer comida
Baila para manter-me a curta vida.
Das
Mas
i x 8
RIMAS
Das tetas efpremendo
Da maní
-
a vaca o leite faborofo ,
Pafl
O vou depois bebendo
Pelo concavo tarro mais gofiofo ;
Far
Do que cffes odoríferos licores,
Coi
(be talvez defeoncertáo teus humores..
O
1
Aqui, guando 'anoitece
Tropel náo 111 que
o
fomno me embarace;
O
E logo que amanbece,
Alegre vem dizer-me que o Sol nafce
0.31
(Rodeando-me a choça) o pafrarinho,
Az<
4:Zie
prirneiro do que eu deixa feu ninho.
Lo:
Em vez de altos cuidados
Doce canto me acorda brandamente:
De empregos arrifcados
Nác, me faço importuno pertendente:
Badava-me a razáo, a faltar Lei:
Al:
Adoro o Rci, fbinente porque he ReL
Amiclas pcfcador:
Dt
O' venturofo Amiclas, fe pudera ,
O váo fubjugador
Pi:
Da Patria o Sceprro pelo remo dera
'Qgando pede, que o paífes , invelando
A paz, que n'alta noite eftas gozando..
Aí
In
D E J. X. DF, ATO S.
f;
Ir
Mas ande caminbas,
Fallor,
, que
eftás
cm váo vociferando?
Deixa as gentes metquinhas
Fartar do Iodo vil, que váo boleando:
Coroern reos trabalhos venturofos
O curo
náo
pampanos viçofos.
Deixar o Mundo embora:
O que boje vemos
nós, já
outros víráo :
Náo he, náo he de agora,
Qie peílimos
,
eoftumes mal le tiráo:
Azolados cm f6rdida cubiça
Longe de n6s, oh homens fcm jueciça
vr
Al, mefquinha
Arnbiçáo,
chega-te ao /cito
Do langoido doente,
Alli ihe reprefenta o rico aípeito
•
Do Indico Oriente:
Do awrifero Braza rimílra-lhe abertas
As profundas entranhas,
Finta-lhe os dons,
repete-ine
as
offertas,
0.,,ge
tu finges amarlas:
Azues faflras , rígidos diamantes,
Incendidas
granadas,
Inda as humidas pérolas brilhantes
Nas
conchas plateadas:
:as
Com
O
ilo
RIMAS
Com alcatifas de Achemenia lhe orna
A cata de ouro chea ,
E com ambas as máos profufa entorna
.0 corno de A.ma.lthea
Infaciavel Moriftro-, que me queres ?
Te diz entre gemidos;
Em nada, cm nada tenho effes prazeres,
Prazeres corrompidos:
Sobre a rija bigorna o
dia
inteiro
Co' duro braço erguido
Inda he:mais rico o fordido ferreiro,
De negro pó tingido
Volvendo o nauta rude
a
groffa amarra
No forte cabreftante
Mais feliz he, lurgindo pela barra
Coin robuito femblante:
Quer antes que perdelio o vil forçado
Paffar pelo defprezo,
Com que o defcalço pé move cançado
, Do vergonhofo pezo:
O mendigo embrulhado cm roto manto,
Que mal lhe tolhe o frio,
Alegre vai de por
t
a em porta, cm
quanto
Sente coipo
Jadio:
mo0
Do c
Ate f
De b
Novc
De r
E pr
A ca
Ond
1.<ao
Huir
DE J. X. DE MATO
S. sur
Do carrancudo Torrnentorio i villa
Pafsára oufadamente ,
Até firmar os pes na gráo conquilla
Da Luiltana gente:
De baço, e nú falvage no temendo
As fettas , e os alfanjes,
Novos caminhos por certóes fazendo,
Paf
-
51ra aiem do Ganges:
De mil polrantes naos gemer fizera
As-concavas entranhas,
E prenhes fobre o mar as eftencilra
De riquezas efiranhas:
A caía do foberho frontefpicio,
Que fund:tra com ellas,
Onde fe viffe o pródigo artificio
De marmoreas janellas.
No fora como a voffa., ó cega gente,
Táo longe da Virtude:
lium Templo fora a ti,
a
ti fómente
Benefica Saude.
'P.brtí
\Tu'
N A6 de ,Carthago, nem de Troia canto
Os já desfeitos, e abrazados muros:
Mais alto a voz levanto,
Que ha de ferv-ir nos fecolos futuros
De exemplo, e mais de efpanto
Longe fuperftiçáo, longe Deidade,
Que influir- l'ave os canticos affedas
Divina fthiviliade:
Eu fou
ferido das brillantes fettas
Da candidarVerdade:
Os altos edificios, cuja gloria
Pdfcar náo póde a negra m'a() dos Fados,
Padr6es de larga hiftoria
A' publica faude confagrados
Em honrofa memoria:
Náo so muros
de
Thebas, erigidos
Em virtude do canto fabuloío:
Náo sáo montes erguidos
Contra
o
poder de Jove refpeitofiy
Por hornens atrevidos:
4,
419544'4
í
V
Ir
E
rzt
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
;12;
Tu és, 6 gro Lisboa, alta Cidade,
Do Mundo Emporio, a Capital das gentes,
Patria da herolcidade,
Que debaixo das cinzas inda quemes
Refpiras Magettade:
Todas effas Cidades, que acabáráo,
Viama
infaufta de fanguinea guerra s
Que apenas te igualará°,
Inda jazern cabidas fobre a cero.>
Que fobetbas pizaráo;
No foi
de
belicofa gente armada
Repentina iovasáo, náo força efiranba
De mina rebentada
Náo foi efiraragema, náo foi manba
De inirniga cilada:
1\
t
áo foi efre flagello horrendo, e rejo,
Q
.
ge miniftrado nas fataes cruezas
Do ataque, e do bloqueio,
Yer no podem munidas fortalezas
,Sem tremer de rcceio:
- Effe, que pede de terror, e efpanto
Fazer tremer o Mundo, e a fraca ¡erra
Cubrir de amargo pranto
Foi quem re conflernou, quem te fez guerra,
Q
2
e outrem náo pode tanto:
Tm!.
L,
1
Eu
s24
RIMAS
Fu te vi ir corn a viva cor mudada,
A mal vellida roupa fluauante
Pelos hombros deicada:
A huma , e orara parte, vacillante
Correndo defgrenhada:
Fu te vi levantar altos clamores,
Tropeçar, e cahir atropellada
Dos teus habitadores:
Sobre mudos penhafcos , rodeada
De pállidos horrores:
Bem como aquelle, que cahio ferido
Entre os foldados do efquadráo guerreiro,
He logo foccorrido
Do bom amigo, que Ihe deo ligeiro
A máo compadecido:
Aflim do meio de miferia tanta
Te ergueo aquelle, que da negra Inveja
Opp rime a vil garganta :
Ah! Ciega ao grande Conde, a
mão lhe
beja,
A máo, que te levanta :
Oh Grande Poi da Patria, Heroe benino,
Tua robuila máo capaz f6 era
De tamanho Deftino:
Por ti o Alto Júpiter efpera
No aftemo
cryítallino:
Co
rn
e
A
A
E
A
DE J. X. DE MATOS. us
Com que rollo de lá do Soberano
Throno das almas dos Heroes potentes,
Verás, fenáo me engallo,
Ferver cada vez maís, ellranhas gentes
No
Téj.e Luíitano:
Quando voltarem para os patrios ninhos,
Viráo, movidos de alta crofidade,
• Sahindo-lhe aos caminhos,
A perguntar-lhe pela Gráo Cidade,
Parentes, e vizinhos:
Agora louvar56 os beneficios
Das fábias Leis , agora o fundamento
Dos nob res edificios,
QL:le inda poráo cm longo efqueciment9
Os célebres Egypcios.
No confultei de viaima innocente
As furnegantes hurnidas enrianhas:
Náo o Ceo reluzente,
Subido fobre o curne das monranhas
Cona juizo imprudente:
No aufpicio de curra luz os olhos fito:
De huma alma grande as intençóes proponlio9
Con fulto o Conde inviao :
Náo fe prefunaa que deliro, ou fonho;
Coro elle o acredito:
ii
eja
orn
Ja
°
E
S
RIMAS
.Jadem-fe eres Heroes conquifladores
(Nomes, com que fe o poyo neído engana)
Dos barbaros furores ;
Com que opprimindo a haca gente humana
Se chamáráo Senhores :
Entrem pelas Provincias defcuidadas
A mal avindos Ovos façáo guerra:
Vejáo defpedaçadas
Cahir as altas povoaçóes por terra,
Entre lunas, e efpadas:
Façáo tremer Neptuno de afruftado:
Rompáo-lhe á força de nadantes quilhas
O
ceruleo collado:
Obrem outras mais altas maravilhas,
Qge dáo no Mundo brado;
Q
2
e tu, 6 Fama, no portal do Templo
Defenderás a entrada iniqua , e dura
A femelhante exemplo ,
Refervando fómente ella Ventura
Ao Heroe, que contemplo:
Ao filho de Laertes, c
i
ne importára
O Auto esforço de afilar Dardania,
Se por memoria rara
Com bernfeitora máo na Lufitania
Lisboa náo fundára.
Ef-
Eu
DE J. X.
DE
I
MATOS, 127
Efie da verdadeira heroicidade
Será fómente o
mulo,
e o modo
De entrar na Eternidade ;
Que he mais, que desfazer o Mundo todo,
Erguer hurna Cidade.
VIII
II.
Anio
feliz ,
de
frutos
efperados;
Q
2
e
a crefcer principias:
Do Ceo, que te difpoz, abençoados
Sejáo teus bellos
dias:
Oh nunca a máo cruel , do
defabrido
Noto, contra ti vejas!
Antes de hum brand ° Zefiro movido>
Co' elle brincando efiejas:
Em frefco orvalho fobre ti defcenda
Todo o rifo da Aurora:
Elle ao
frece
Eftio te defenda
Da calma abrazadora;
Mas no
és
tu produelo florecente
Do tronco generofo,
Cujas folhas iráo perpetuamente
Tocar o Ceo
formófol
ty•
123
RIMAS
Eu no ercuto, Angelico Deflino
Com voz ferena, e fanta,
Qzle de
,
ten nafcirnento peregrino
Alta venturas canta.
No te promette cm reculo vindouro
De Outono razonado,
Melhores pomos, do que os pomos de curo,
Qz
.
le Alcides tem roubado.
Náo diz, que entáo á fombra recolhidos
Dì tua excelfa rama,
Virá5 do Téjo os cifnes efcolhidos
Cantar a tua fama:
Tu es ,•tu es o ramo abençoado
Difpolto etn cho fecundo,
Para feres no Mundo refpeitado
Dos melhores do Mundo.
Tragáo do campo as Tagides forrnofas
Flores nas brancas fraldas
De roixos lirios, de purpureas rofas
Te fabriquem grinaldas;
E as Graç
r
as , que em ti já. fe elláo revendo,
Iráo cheas de gloria,
Nas tuas verdes folhas cfcrevendo
Deite- dia , a menaoria,
IX
Pe-
DE J. X.
DE MATOS.
sa9
IX
E
em
teus puros Altares
Em honra defte dia , 6 bella Olaia,
iro
Náo -Ves fubir aos ares
Os fimos da odorífera Pancaia:
Se cm honrofa memoria'
Com fetlivas geraes acclamaçóes
Náo ves i tua gloria
Fundir eflatuas, levantar padróes:
Se do cedro aos ardores
'N.o vls chegar pacificas, e promptas
Coroadas de flores,
Cem brancas rezes de douradas pontas:
Se no vls as difputas
Das carroças nos círculos ligeiras,
Nem fanguinofas hitas,
Nem apoftas nas rapidas carreiras,
He porque no difpenfa
A avarenra Fortuna a hum baixo efiado
A grande differença,
Que vai do aureo Sceptro ao vil cajado.
lo,
IX
I 30
RIMAS
Pelas razas campinas
No ha entre as pobrifiimas cabanas
Vive
Mais que humildes boninas
Moles juncos , g,rofreiras efpadanas.
Qye
Nas malos Aldlas
Náo ha mais do que alegres paffarinhos,
Dar e
Mellifinas colrneas,
Pobres tarros, malhados cordeirinhos.
Náo
E'cos defafinados
Al
-
peros fons de míticos falteiros,
Louvores etna/hados
Nos corruptiveis troncos des falgueiros.
De huma fimples Pafiora
Sáo eftes dons proporcionadas prendas
De ti, minha Senhora,
d
N-
a0 sáo , nena devem fer dignas offrendas.
Aon
n
Mas fe liorna alma, que renho,
A' fot
Agora, ta náo der, para que a quero ?
Eu offrecer-ta verano,
Na cc
Recebe , ()laja, o dom, vê que he iincero,.;
Nena o teu nome efieja
Quan(
TVIais perduravel , do que cm bronze duro,
Hurn novo Templo feja
Defcu
Onde fe guarde do poder futuro.
Neh
DE J. X. DE MATOS.
131
Nelle fegura, e ufana
Vive a pezar dos feculos ingratos,
Queime-fe o de Diana,
Qye efie náo teme a
ITIá0
dos Herofiratos.
Kde abater-fe a torre,
Dar de fi a firmillima coluna;
Mas n'alma , que náo morre,
Eáo tem poder o braço da Fortuna.
y-
IN
'Una fino, que bufquei aecommodado
Para chorar meus males ,
,Aonde U> me via rodeado
De montes, e de valles,
A' fombra de hum altiffimo loureiro
0
.2
e
tem o nafcimento
Na corrente de huna candido ribeiro
Ainda mal me affento
3
Quando a huns ternos ais defconhecidos
O rofio levantando
Defcubro entre foluços, e gemidos
111,11n
menina chorando.
..Q.11C111
Por
Iz
RIMAS
Quena es? (lhe perguntei) quem
te
maltrata?
Deo-te, menino, alguem?
fort
Amor,
offende-me huma
ingrata,
Qye
de
nzim
do' ?do
tenz.
Na face o beijo,
e a
meu colo o trago,
As lagrimas intento
Limpar-lhe internecido ; mas co' afago
As lagrimas lhe augmento.
Aonde dilo
3
s fettas, lhe dízia,
Aonde o arco, a aljava?
Qlyeria refponder-me ,
e
náo podía,
De novo foluçava.
Aonde efta , Cupido, aquelle oufado,
Aquelle atrevimento
Com que as terríveis armas tens levado
Até ao Firmamento ?
Por ti náo defceo Jupiter t terra
Ern diverfos femblantes?
Náo temeo muito mais a tua guerra,
Qpe a guerra dos gigantes?
Contra Marre os reus raios náo defpedes,
Náo lhe aplacas a ira?
Náo fica prez° nas vulcaneas redes
Por Venus náo fufpira
A
E
E
5
e
Amor,
DE J. X. DE MATOS.
Por ti o Louro Deos , que os carros g-uia
Do día luminofo
Ap6s da etquiva Daphne que fugia
Náo correo amorato
Por ti a calla Deofa não deixava
Os Patrios Orizontes,
E entre brancas ovelhas no bufcaVa
Edymiáo nos montes?
Tu f, tu forte Amor abrir pudefie
A Porta Diamantina
Sahir Ir luz do Sol Plutáo fizefle
A bufcar Proferpina.
elyantos Deofes cm fim, quantos humanos
Sentíráo teu efirago?
Digão-no os Gregos, digo-no os Troianos,
E dize-o tu, Carthago.
Eu vejo, eu vejo o fogo devorando
Cidades, e campinas,
As Máis correndo, os hilos efpirando
No meio das ruinas.
Se ver pudefle, Amor tanta defgrnça
Com fembiante formo,
Como he poffivel que chorar te faça
klinn poder tão pequen°
1
33
ata?
3
Por
I
;4
RIMAS
Se u-
Amor, que no rneu pe:ro recoftado,
Ouvindo atuento efteve ,
Os olhos abaixou , de envergonhado
A fallar náo fe atreve.
Se
Té que dando hum fui
-
piro, já difpofto
Para fallar fe enfaia;
Que mal conheces o Di-vino roflo
Da podcrofa Olaia.
refponder-lhe , e elle comirdla:
Aquella ftra humana
He ainda mais féra , inda tnais crua
Do que be a Tigre frena.
'Zoniba das nimbas fettas pagadora,
Meu poder defconbece ,
1Yetn do que eu pap, nem do que tu choras
Huma "ve;
fe
internece
'Arco , aliava, e Mil fettas
fix,
de
t'ovo
-
De ponta mais aguda;
E antes de atirar,
, prirneiro as pro-vo
Ent huma penba ruda.
Pu; no arco as tnais fortes; e atirando
A feu peito huma e huata,
Ora fc entórtio, era rviio quebrando
Sem a ferie nenhuma.
Pe
A
/V
1
DE J. X. DE MATOS.
[35
Senrpre encontrei dóbrada regencia,
Té os forros ¡he ervava, .
Ni° me efqueceo nenhunta pro-videncia;
Mas nenhuma baltava.
Outros indos tentei: Parto voando
./los Cicilicos montes
Bajos ellio a :yupiter forjando
Eneropes , e Brontes:
Pelo a 7/idean° que hum,grilhão me fasa,
Mais forte, mais pe
k
ado ,
Que
eje , que ten com ?vilera defgrasa
Na roda a Ixion atado.
rolto com elle cheio de efperança,
Qye já me promettia
Olaia bufco , e -vejo que defcança
Entregue ao _fono hutn dia.
Ah que no fei diker-te vivamente
Daquelle galo brando
A grasa natural, pura, innocente ,
Com que ala refpirando!
Mío
f
ei dizp
l
por
mais
que a voklevante,
Como he bella dormindo ,
Perdoa, minha
o tea Temblante
1‘1"ã0 he, nio he tio lindo.
retn
I
36
RIMAS
Accende-fe de
, vella o rneu defejo;
E fezn que me fartaffe ,
No eburneo colo defcuberto a bejo
Nos olhos , e na face.
•
Indo nos lifos bralos por cautela
O grilb:io prevenido
Lbe deito nianfamente , porque delta
Nio foffe perfentido:
Quando de/te meu pranto defprendida
Huna lagrima ardente
Lije cabe no bello roilo , e efpavorida
Acorda de repente.
Os olhos pokem injiui formofa, e fera,
Tal fogo ?
'
elles trak,
Que como ao lume fe derrete a cera
O mea valor desfak.
Rompe a cadea dos mintofos braços
Quenz tal imaginan!
E enz defpre
k
o c' os miferos pedaços
De longe me atirou.
Defarnzado fiquei , fahi corrido
Té parar nena praia:
nie rt.Vo chamo Amor , nenz fou cupido,
Sou o odio de Olaia.
Só
DE J. X. DE MATOS.
So' de quantas idéas tenho
,
Util póde fer ocia
Deffe teu cora
l
io, deffe teu peito
Hum fUfpiro me einprefla.
Com elle juro aos Deofes , e as Es'irellas
De obrar coufas tamanhas,
9
.2
e até ¡he fallí derreter aquellas
.DurtGimas entranhas.
Nenas armas f6mente confiado
Pardo, Amor, voando,
E eu a fufpirar acoftumado,
Lhe diffe fufpirando:
Aqui te efpero, Amor, nefles retiros:
A viaoria fegura;
Mas olha bem, que sáo os meus fufpiros
Sufpiros fem Ventura.
137
CAN-
Só
E
A
CANÇÓES
Onge barbar °
vulgo!
Fugi, fugi de mim; porque os fubidos
Rilyflerios, que divulgo
Na
attençáo dos incredulos ouvidos,
Náo fazem doce effeito:
P6e , 6 Mufa, tanta alma no conceito
Dele alto affumpro, que me occupa a mentt,
ferida de hum ralo intelligente,
Faça o que for compondo
Armonia no Ceo, no Inferno efirondo,
Toril. I,
Náo
• 140
RIMAS
No cantarei de Ormias ,
De Lucrecias , de Porcias as vulgares
Efiranhas oufadias ,
A quem no Mundo a Fama ergueo Altares;
Nem de ourras de igual Fama :
Cantarei a Matrona , que fe acclama
Entre as forres mulheres , MULHER FORTE;
Que as Leis vencendo da invencivel morte,
Os vinculos defata
Da culpa, e vive co' a pureza intata.
Náo cantarei as Didos,
As Sabás , as Simiramis , que a gloria
De feus Reinos luzidos
Inda duráo nas paginas da bufona,
A Divina, a Profana:
Canrarei a Rainha Soberana
Que já muno antes de que hOuvefTe idade,
A prefervou de humana enfermidade
Quem todo o poder tem
C'um poder alto, nunca dado a alguem.
No
DE J. X. DE MATOS, 4:
Náo cantarei Joannas
Urfulas, nem Luzias, que vencendo
As fuggeftóes profanas,
Que arma contra a pureza o vicio horrendo
h
De coroas, e palmas
Ornáo triunfantes as preciofas almas:
Canuarei a mais pura, intaaa, e Santa,
Que a Fe adora, e que a Igreia canta,
Que foi Mái, feudo Virgem ,
Ponte de Graça, da Pureza orig'ern.
No cantarei as Saras,
As Lyas, as Raqueis táo conhecidas,
Na formofura raras,
Grandes em nomes, célebres em vidas,
Notaveis na Efcritura:
Cantarei a celefte formofura ,
Que honrou da enferma Natureza a mafraj
Que de graças encheo o Author da graça,
A Rofa mais perfeita,
Que o Ceo, plantada cm Jericó, refpeita.
5;
TE;
e,
St
áo
Can-
Oh!
Cantarei a formofa
Judith contra o Gigante do pecado,
Tauro mais valerofa ,
Qllanto vai da figura ao figurado:
Do Teftamento a Arca
Canta rei , cantarei aquella barca,
0,
,
ye no Diluvio da original tormenta
Entrou no Mundo do naufragio ifenta;
E a pomba, que o virente
Ramo trouxe da Paz a toda a gente.
Cantarei huma Aurora,
Náo como a que ante o Sol nos vem rajando;
Mas outra Precurfora,
Qpe á luz do mermo Sol as luzes dando,
As recebeo mais bellas
Do Creador do Ceo, e das Efirellas:
E fe o meu fraco efpirito lá chega,
Nette alto mar de luz, em que navega,
Nova Eflrella me guia,
Q
.L
ie es Tu> es Tu, Santillima MARIA.
142
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
143
ido;
Oh! Como vivamente
Na idéa fe me d'Ya reprefentando
Que no Ceo (altamente
O teu Nome Santiflimo entoando)
A Efpiritos Divinos
Repetir ouço os Canticos, e os Hynos;
E que o mefmo Senhor tres vezes Santo
De hum amor ineffavel fe enche tanto,
Que, fe poilivel fora,
A
gloria fua fe augmentára ac,ora
b
Oh! Como me parece
(Zie as Eftrellas fcintilláo mais brilhantes!
Que o mar no fe enfurece,
Que eftáo de nós os Ceos menos diflantes!
Que lá dos horizontes
A terra inclina os levantados montes!
Porém que o Reino de ira fempiterna,
Onde tudo fem ordem fe governa,
Onvido o nome Santo,
Levanta horrendo, e inconfolavel pranto.
>h
Qtje
Que trasbordando fóra
Fervem da Eftige as denigridas aguas;
Que a chufma gemedora
O pezo foffre de dobradas mágoas;
Que os impíos maldizentes
A raiva exprimem no earidor dos dentes;
E as almas novamente atormentadas
A' força das cadeas arrafladas,
<
Sentem tremer abfOrtas
Nos duros eixos as Tartareas portas.
3
Megera efpavorida,
Que quer fugir do carcere parece,
E acbando-o fcm fabida ,
Contra os foltos cabellos fe.enfurece;
Nas ímpias máos trazendo
As víboras mortaes, que efla mordendo:
1
Que effe Dragáo, que prefidencia impía
Tem da Regiáo, que náo conhece o día,
Da immunda boca fólta
Ríos de efpuma cm ncgi-o fangue envolta,
Mas
(.
144
RIMAS
Já,
VIas
DE J.
X. DE MATOS.
145
Mas já do infame throno
Defcer o vejo tremulo, e forçado;
E qual de grande fono
Trez vezes cahe no cháo defacordado ,
Incendios vomitando:
Ern tanto a devoçáo continuando
A celebrar o Nome de IIARIA ,
O monflro , contumaz na reheldia ,
Na cauda quer firmar-fe ,_
Porém de balde intenta levantar-fe.
Santiflima Senhora,
V6s, que debaixo deffa inviaa planta
Lhe pizais vencedora
A venenola , e tumida garganta
Por toda a Eternidade,
Ponde tão milagrofa fuavidade
No baixo fom da minha ronca lyra,
Que fer a arpa de David fe infira;
E em voffo Nome Santo
Alfugente o Demonio com irieu canto.
f4 6
RIMAS
Já, Senhora, náo quero
Aquella, que invoquel, profana Mufa;
Pois f6 de vós el pero
Aquelle ardor; que quem o alcança, efcufa
Outro algum poderofo,
Qpnro mais o do Pindo fabuloro:
Cançáo rninha, publica a toda a gente,
Que fe fe entoa algurn louvor diferente,
Para fempre emudeça,
Que outro louvor mais Santo fe começa.
Ir
C
Om reo formofo ron°
Enconado na máo ? C'os olhos bellos
Cuhertos de defgollo ,
E fobre elles os lucidos cabellos
Sern alinho pendentes!
Que mágoa he effa, que 6 Beliza fentes?
Mina de guando cm guando
(Da velha, e trufe Mái defamparada)
Mudos fufpiros dando !
56 dos tenros filhinhos rodeada
A carpir innocentes! »
ie mágoa he effa, que 6 Belliza (entes?
Aos
DE j. X. DE MATOS.
147
Aos membros delicados
Tirando as forgas! E na face linda
Impreffos mil cuidados!
Dos efiranhos deixada; e ?Dais ainda
Dos indignos parentes !
Que mágoa he effa, que ó Beliza fentes1
Mas já, formofa Dama,
Amor, o cego Amor o vai dizendo:
Teus fufpiros derrama
De mágoa o Ceo, a terra , o Mundo enchendo
QI:e o mefmo Amor nos deve
Dizer a caufa, já que a culpa teve.
Ji ouço d' entre a gente
Soar hum rumor trille, que levanta:
Qua] geme defcontente,
Q
2
a1 manea a cabeça , qual fe efpanta:
Todos trines murrnuráo,
Todos Beliza acompanhar procura°.
Que faça hum vil marido
A huma fraca mulher táo dura guerra!
Torpe, e defeornmedido ,
Indigno em fim de que o fultente a terra!
Infeliz formofura!
Bpliza rriftç,mais
q
ue a noite efcura,
Aquel-
los
Aquelle brand
°
gato,
Aquella compoftura , aquelle rifo
Entre contente, e honeao;
Retrato do fereno Paraifo:
Com tanta femelhança,
Que rudo o mais aparta da lembranga.
J1 Rufticio te efcfnece?
iá, Beliza, náo he como dizias ?
Já trifte náo merece
EATe grande fenhor, que fer quenas?
Os mimofos infantes
Já náo sáo teus filhinhos como d' antes
Elles são os futuros
Defcanços tantas vezes promettidos?
Sáo effes os feguros
Premios de Amor a tanto amor devidos
Era ella a Ventura,
Qe efperava a innocente formofura?
Qtal o
limpies menino,
Que da tenra flo
r
zinha fe namora,
Com, galos de comino
Ena, quanto Iba náo ciáo fufpira, e chora;
Que depois maltratada
Cahir das máos
a
deixa defprezada:
Não
e
E
E
48
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
No de outra forte obrafie
Com a trille Beliza, que algum dia,
Como embebido olhafle,
E agora a deixas (mas quem tal dina!)
Nas máos da vil Pobreza,
Táo arrifcada a fragil natureza
Em funebre apofento
Encerrada fem culpa; e para a vida
Táo amargo lirfiento;
Que entre a neceflidade aborrecida,
He fe) por máos da borne,
Que amaffado com lagrimas o come0
Jt
tivera apartado
De feus olhos a luz a noite eterna,
Se por alto cuidado
De quem f6 nos fu Renta, e nos governa
Náo fora o beneficio
Suftentador do Angelico Edificio.
Defattento marido,
Oze ás innocentes vidas náo reparas;
O animo abatido
Da Conforte fiel, das prendas charas
Oh nunca farro fejas
Dos fuperfluos manjares, que defejas !
149
Não
In-
aso
RIMAS
Infolentes Arpias
A' meza fobre ti com furia defçáo,
Das máos as iguanas
Levadas pelo ar defappareçáo,
Como ja fuccedeo
Com menos caufa
a
Eneas, e a Phinee:
Onde rendes a efpada,
Celefle Dom, Jufliça vingadora?
Que na máo levantada
Eáo vinga
a
pobre,
e
mifera fenhora?
Mas ah que o náo confenre
Da piedofa Beliza o rogo ardente!
Se, inda mereço tanto,
Que tens de
, ó Ceo, algum cuidado,
Pelo continuo pranto
Deftes trines meninos fern peccado,
VI, que ped indo d'Ion
O perdáo para aquelle , que os gerou.
Perdoa ao inimigo,
Que tu mefmo me défte por Efpofo;
Senáo fer'as comigo
Da rnefma forte, que elle rigorofo;
Pois pela fé que trato,
Eão deixou de fer meu, por ier-me ingrato.
Ven-
do,
-ato.
DE J. X. DE MATOS. t5t
Venturofo Conforte,
Que contra perigofa, e longa aufencia
Podes feguro , e forte
Ver de amor conjugal tanta excellencia,
N'uma muiher táo rara,
Qlje Olifes por Penelope trocára!
Mulheres defcontentes
Do cego Amor: Mu
l
leres que cafafles,
E cegas, e imprudentes
Em lugar de homens , troncos abraçaftes,
Vinde ver cm Beliza
QLanto mal, quanta dor vos martyriza.
Chegai defconfo/adas
A fazer-lhe piedofa companhia;
E de pranto banhadas
(Em quanto ILGuver no Mundo noite
9
e la)
Chorai a toda a hora,
Com quem de dia, e
,
mais de noite chora.
Vereis como Hymineo
De dor apaga a tocha fufpirando;
A Lucha, onde accendeo
Seus defejos , Amor, que já quebrando
O arco fementido,
PISe a rná,o iobre os olhos, de corrido,
Ven-
n
ieg
zgz
RAMAS
D
A
clara eftirpe dos Heroes valentes,
(be em memoria das horridas batalhas,
Tora
°
deixando nos portaes pendentes,
Lanças, efcudos, capaceles , malhas,
Nem me prézo, nem ando
Caruncholbs papeis defenrolando;
De baixo tronco venho:
Humildes ramos por avás fá tenho.
Náo me gabo de fálidos talentos:
Falta-me applicaçáo , engenho, e arte:
Náo recolho nos cofres avarentos
Effes dons, que Fortuna mal reparte:
Náo
sáo
os meus projetos
Altas paredes, guarnecidos tetos:
Sou
pobre, e
defte modo
Ten'no por minha cafa
o
Mundo todo.
Eu náo honro a Naçáo , nem firvo o Eftado,
Q2e a tanto hum fraco efprito nlo fe atreve:
Deffes náo fou, que o nome tem gravado
Nos livros de ouro, mide a Fama efcreve:
Náo me conhece o Mundo:
Na efcuridáo daquelles me confundo,
Cujo procedimento
Cubrio o negro pá do efquecimento.
Ni
o
o
A
Se
In
In
Ir
A
Si
lado,
reve:
e:
DE J. X. DE MATOS.
is;
Náo efpero que erguida fepultura
O frio corpo meu , honre, e levante,
Onde pare affombrado da eftrudura,
A ler meu nome, o vago carninhante,
Nem efpero
Se a terra me faltar para cubrir-me:
Do famofo Catáo,
Infepultos os offos inda elláo.
Inda vive a memoria dos tyrannos,
E ainda , para affombro dos futuros,
Vertendo eítáo o fangue dos humanos
De Roma as praças, de Cicília os muros;
E de (puntos Var6es
Inda fe ignora a fama das acç6es.
A verdadeira gloria
Náo he encher Capitulos na Flifforia.
A gloria de hum mortal náo
fe
alimenta
De fangue, nem de lagrimas; fó ,
Saiba-fe, ou náo fe faiba, guando intenta
Perdoar generofo ao que fe hurnilha:
Quando vir levantada
Contra a innocencia ameagadora elpada,
Interpor fe valente,
Seja de amigo, reja de patente.
Náo
N
i()
154
RIMAS
Náo ter cm menos conta, o que trabalha
Co' arregaçado braço todo o dia,
Que o feto Capitáo, que na batalha,
Cego talvez pela ambiçáo porfia:
Eflimar a virtude,
Onde quer que efiiver,
, no fabio, cu
Ser grato aos beneficios :
Amar os homens, reprovar-lhes os vicios.
Cumprir o juramento huma vez dado,
Inda que feja ao barbaro Africano:
Ver fobre fi com roflo focegado
A máo erguida de hum algoz tyrano:
Amar a temperança,
Seja na tempeffade , ou tia bonança:
Aos foltos appetites
Tomar o freio , e afinar limites.
Ser fenfivel lis lagrimas daquelle'
De quem talvez Fortuna fe náo doe:
Enternecer-fe, fufpirar por elle,
Que eu náo f6rmo de pedra o rneu Heme;
Oh Santas qualidades
Vós fóm ente he que fois heroicidades,
Sois geraçáo do Ceo,
Que táo pouco na terra fe cande() !
STá
s
.ide;t
s.
De:
DE 3. X, DE
MATOS.
ISS
Vós fois capazes de fazer ditofa
A alma de lum Partor,
, e de hum Barqueiro;
Mais livre eftá do raio quem vos goza,
Do que á fagrada fombra do loureiro:
Cornvofco ao Ceo voárá.o,
Effes, que de morrer nunca acabáráo
Eu vos amo, eu vos ligo;
Mas fem vaidade , e fem foberba o digo.;
Náo efludo palavras, e artificios
Do manhofo 'Sináo, tecendo enganos ;
Quaes elle fez nos dons, e facrificios,
Que introduzio nos miferos Troianos:
Náo foil lobo esfairnado
Com pelle de cordeiro disfarçado:
Amo por natureza
A
doce paz, a bella fingeleza.".
Refpeito o fahio , o virtuofo , o forte,
Eflirno ao bemfeitor ; por mais que vejo
Crefcer ao meu vizinho os bens , e a Sarta
Sabe, quem fabe rudo, fe os invejo
Se
poffo ,
ao pobre acudo,
Dos primeiros propofitos náo mudo:
No gofio, ou no perigo
He a minha metade o meu amigo.
57(53
Tom. L
RIMAS
A faude me falta, e não.me altero;
Soffro a murmuraç5o, foffro a violencia,
Sómente o gofio de morrer efpero,
Abraçado co' a minha paciencia :
Elles so meus thefouros,
Eftes os meus braz6es, elles os louros,
0
...
ye me adornáo a tefia;
Efte he o meu nome, a minha efiatua he
efia.
ECLO.
7
:g
efia.
Abano, e Danziana.
Or entre a nuvern roxa apparecia
A deftoucada Aurora no Orizonte,
E já de novo a efcaffa luz do dia
Dourava o curne do apartado monte:
A nevoa da rnanhá fe
a
desfazia ,
Cantava o roxinol, ria-fe a fonte,
Abria a porra o milico na Aldla ,
Branquejava na praia ao longe a ara,
ji
Tra-
1
5
8
RIMAS
Trazia o Tempo as horas diligente,
E os hombros fe deixaváo ver da terra:
Já lá fe diftinguia claramente
Furnegar o cafal na incuba ferra:
O
fimples cordeirinho de contente
-ApOs da chara Mái , faltando , berra;
E antes que o Serrano ao pallo a deite,
No manfo aprifco lhe mugia o 'cite.
Já
fe
efcutava da manada a choca
.Ao longo da ca.mpina: De outra banda
Ali
punlía
a
Serrana a lá na roca,
Aqui paftava a cabra a relva branda:
Huin guardador além a flauta toca,
0ando a beber o gado á fonte manda:
Ouvia-fe alternada em feus amores
A fincera cantiga dos Paítores.
O novo jugo a.tarda companhia,
Defam parando o mítico agazalho,
No calejado collo recebia,
Para feguir o pri5vido trabalho:
O peicador nas praias eftendia
As redes a enxugar do freí
-
e
°
orvalho:
Todos que era chegado o Sol fabiáo:
Huns acordaváo ouí
r
os já fahiáoe
E
E
E
Mas
DE J.
X. DE MATOS.
Mas Albano Pallor, que madrugava•
¿‚inda mais que o lUzeito matutino,
Já fem acordo folitario andava
Pelas margens do Téjo cryflallino:
E
corno alli fentia , alli chorava
A trine fem-razáo do feu Deficino :
Nunca, por mais que via ao Sol o roflo,
No feu femblante arnanhecia o gofto.
' Era elle entre os da Alaa o mais polido,
Pobre PatIor ; porém de fangue honrado;
E
pofto que no monte foi nafcido,
Tinha fido por Meflres educado:
Mas rinha-lhe a Fortuna decahido,
Contra quem nunca achou feguro eflado
E
com pobreza huna claro nafcimento
Náo he fenáo fervil abatimento.
Ama
y
a Albano ; e erío feus cuidados
Da ingrata Damiana os váos favores:
Aquella, que entre a plebe dos ea:lados
Foi amorofa guerra dos Paítores:
De fempre vivas cores animados
Seus olhos, boca, e face, eráo melhores
tiZue os da Mái de Cupido ,a quem p-uclera
Ernulagáo fazer,
,
f
c
.
ella o
foubera.
Mas
'N'as
760
RIMAS
Nas ribeiras faudofas encoftado
Se achava Albano ao tronco de hum falgueiro
Cujo lugar hurn tanto levantado
Ficava fendo ás aguas fobranceiro:
A lace encofia ao curvo do cajado ,
Olhando para o Téjo Iifongeiro,
A cuja villa o feu pezar foi tanto,
0.13e ellas palavras mifturou corn pranto:
O
'
río
,
venturofo , (principia,
Arrancando primeiro hurn ai magoado)
Oue'cedo alcançards nella porfia
Satisfaz,er o fin do teu cuidado!
Tri
g
le de quem rijo acha huma alegria,
Por mais que corra cm lagrimas banhado;
Mas tu, inda correndo , tens focego;
Eu nem parado a ter defcanço cbego.
Tu corres livre do amorofo encanto
Mas oh! Que efiranho ePito exprimentáras,
Se agim como te augmentas do mett pranto ,
Sentiras o meu mal, que -entIo feccaras!
Qyanto de-ves temer o tempo! Qyanto!
Que póde perturbar-te as aguas claras,
01,t
faz,er-te tio pobre, que inda a nado
Te
-
paff e a ma.-o o rneu pequen° gado.
Q_uan-
Qyan-
Quantas
,vekes contente
já
me vine
Ao pé dejle falgueiro , e des
c
la
akerdza?
_E
agora de repente me
,
-oés trifie!
Terás nzais
, que eu no tenha
O benz de fer alegre ido conlifle
Em que a Ventura hunz puco fe detenha:
_Eu nio poffo
já
nzais coiwer goscioro,
Mas tu podes deixar de fer ditofo.
Prefla-me hum pouco compaffi
,
vo , e grato
Piedofo
otrvido
a
nzeu cruel lamento;
Se he que die mefino
pranto ,
que defato ,
Te mío aprega mais o moviznento;
Como
fuccerie
a
effa,
a quem relato
(Por nJo querer ouvillo) o meu tormento;
Effa, a quem tanto imitas
na helleka ,
Quanto ella
a
ti
na
propria ligeireyt.
Aquí
chegava Albano
enternecido
Sem
refrigerio algum , que o feu cuidado
1,1 dentro n'alma 'he tanto mais crefcido,
Q
,L
tanto agora o fupp6e mal empregado:
Envolto cm fow
fahe qualquer gemido,
As
vozes fegue
o pranto dilatado;
Qge Amor quiz para próva defie affeto
De chammas filho fer, das aguas neto. .
Af-
leíro,
DE J. X. DE MATOS.
16z
RIMAS
Aflim paffando as horas defcontente
O
Paflor defcontente a qualquer hora,
Duvidofo de longe, efcuta, fente
Os ecos doces de hunia voz fonora:
Julgou fer da Pafiora facilmente
O
canto Angelical, que nunca o fora;
E levantando os olhos para o monte,
Vio que era delta, e que 6m:uva á fonte.
QualLavrador, que atrás do curvo arado;
Succedendo fugir-lhe algum bezerro,
Para logo o apanhar todo affuilado,
Deixa a lavoura , defampara o ferro,
Aqui corre, acolá falta hum valado,
Atalhando o caminho pelo ferro,
Culpen
°
de fuor,
, e de poeira
Continuando vai fernpre a carreira:
Tal
o
Paflor, em quem fe verifica
O
quanto p6cle hum mífero cuidado:
Náo lhe lembra a cabana , que cá fica,
Larga o çurráo, efquece-lhe o ea:lado
O
por ir mais depreift , ao valle applica
Os paffos, por caminho no trilhado ,
O
gado larga j'a , nada o focega ,
As paffadás arniuda , á fonte chega.
E
E
1
11
DE,J. X. DE MATOS.
16;
ado
fe achava a Pafiora lá prefente ,
Ouando Albano , detrás de burn verde arbuflo
Sahindo-lhe ao encontro de repente,
Elle com dor náo falla ella com
Qualquer dos dous ao Fado, impertinente
Accufa nefte lance, mais que injullo:
Duas imagens ficáo do fegredo,
E junto de hurn pencdo , outro penedo.
Até que 'Albano trifte corneyando:
:Ardo te *ales;
(lhe cliz) mas náo podendo
Dar mis do hurra fufpiro , foluçando
Lhe vai o pranto a voz interrompendo:
ufpira fem fallar de guando em guando,
E de novo outra vez convalecendo ,
Antes que a voz de todo embargue a morte
Principia chorando detta forte:
No te affunes , cruel, que o teu Albano
Fu
ainda fou (dizendo-lhe)
a detinha;
Que fora poder niais , que Amor ,- o engallo;
19o
-
fer teu , porque deixes de fer nánha;
Entre o nufero horror de tanto ¿ano
_inda refpira a fé , que a alma faiinha,
Inda fayr niio póde o teu defeito
A mais le-ve mudansa no feu Peito•
31
Fu
164
RIMAS
Eu fou aquelle Albano, que alguna dia
Por ti piza-va alegre efla efpeffitra;
Pois
cara tett favor me parecía,
Que tinha que in
-
-vejar-me inda a Ventura;
Mas boje huma mortal melancolia
O
ros% , o géflo , a voz me desfigura;
Alegre aos campos vim die contorno,
E
qulo mudado agora a elles torno!
g'd capellas de lauro
ni
°
pertendo
.A
r
enz já cuido no apio do meu fato
Depoas que me deixafte affina vivendo
Dos mas Pas
c
iores aborreço o trato:
A mira proprio confufo nao me entoldo,
Finalmente ando a modo de infenfato,
ji fe no vé na minha boca o rizó,
So' me falta perder de todo o fi2,o.
,
gd
para as cabras ido defcubro o patio,
ijidclancolico fempre trago o rosclo
Continuamente cona metí mal me agaflo ,
Defde que nafce o Sol até que he pos'io:
•
des7e modo ponto
a
pauto pifio
A vida cá por dentro cona defgos7o ,
Confumindo:fe era fina, fem que a efperança
Do que fui me prometta femelhanla.
rid
o,
7
-
u
me deixafle fent
raçlo,
Damíana,
Que por mais que difcorro penfativo,
rao-fe as horas, os dias , e a femana,
E nao poffo julgar-te hum fó motivo:
Acho te cada ve; rnais des/y:mina
Na ,verdade não fei como fou vivo!
Affin
z paffo , affitn
.
chóro , affim me canço
Sem
fem gofio, e feni defcanço.
Parsão-fe dias , que nao vejo o gado
Perdido pela ruilica rnontanha;
E vivo
á
folidão tão colitunado ,
QUe
entro na Aldea, como cm terra diranha:
g'á me nao lembra o jogo
rajado,
'Ara carreira qualquer Pajior me-opanha;
E fe algum me pergunta a caufa
.
g
efpondo
,
que nao fei; mas he por Lao.
e
já não repito as doces cantilenas,
Con; que alegre atí.qui faffava o anno
Pois f chorz
,
,ndo as magoas , que me ordenas
Se ercuta na campina o trifle .Albano:
frauta , con; que ja'
_fi; mais pequenas
.Antigas fem-rayes de Amor tyranno,
(Poraue boje alli-vio nella ao mal não acho)
.Na l'e'vada a deitei pella agua abaxo.
Dei-
DE J. X. DE MATOS.
14s
I
66
*RIMAS
Deixei nunca, cruel, por teu mandado
De atraveffar o monte mais efiranho?
.1Wo levava a beber fempre o ten gado1
Nio era como ten o mimen rebanho?
Qyantas vekes por ti lá no ferrado
Larguei da fementeira o pobre anianho?
Que cabra leite ¿-leo , niel a colma,
,
Que nitO _foSe levar-to en mefmo
á
Aldea?
Até dquella ovelba en mais quena,
Que rnais que as outras todas te agradava:
Seu paflo era o melbor,
, porque fabia
Que com die ferviço te obri-ava.;
E fe acafo do monte fe perla,
Prornptamente ao rebanho ta leva-va;
Defejando nwitrar-te de algum modo,
Que cm ti fo' tinha o metí cuidado todo.
Acafo no arraial
Tregue;ia,
Onde ao Domingo a feíta fe executa,
Tiquei menos que os outros algum dia
Na apofla da
-
carreira, ou na
luta?
_Mío te le-va.-va., allim que fe co
.
lbia,
A no;, a amendoa , a macaroca , a fruta?
E guando aqui paffavanios a f¿fla,
.Na
-
o te da-va as Unirlas da florefla?
J
o
O primeiro niio fui, que entre os Pafiores
Enz ti bufquei honeila fociedade?
Em pertender conflante os teus fa,vores
Nio
confurni a tenra mocidade?
Que frios en: Janeiro , em julho ardores
Ndo fojfri jd no monte , jd na herdade
E he cri
,
vel que finems tão fabidas
Caffigues , como ojjenfas recebidas!
Tu fofle nunca ao monte, que
"Ao rio que eu tambeni Id niio me
Que Faia , por mais alta que ella
Tolheo , que os ninhos para ti rou
E que peixe fe cria na agua doce,
Que eu para ti contente ndo pefcafr
Tudo affinz foi , que deixo repetido
Mas oxald que ¡idoti
,
vera fido!
Nunca os olhos da efirada le,vantava,
(Que dio fa' fakquern lifamente adora)
Quando por efies campos encontraam
No camtnho da fonte outra Panora:
Se aqui alguma
,
vekte mío achava ,
Te efpera-va faudofo de hora cm hora;
E lo' guando chegavas , e ett te
,
via ,
Grasas
a
Deos! Comigo entdo dizia.
eu fore
achate?
fije ,
,baffé?
e?
Ne-
DE J. X.
DE MATOS.
167
o
i68
RIMAS
Negar ella verdade , ala fineza,
Pallora , em vio teu animo procura :
Ou dá-me de o faker quaiquer defesa ;
AlTim tenhas do que eu melhor Ventura!
Mereça-te efla ves ntinha trifiesa
O que nio confeguio a fé mais pura;
E fe a piedade no tett, peito cabe,
Saiba mover-te, ja que Amor não fabe.
.Nio quero , rdo , Paflora rigorof a,
Es
c
lorvar-te eJfe ajfedo , que pertendes ;
Qz,tero , guando feja táo forlofa,
Perguntar-te a rasão , por que me °leudes?
Por ifro tneftno , Albano , (
defdenlioía
Lhe
refponde a Paítora )
mal me entoldes:
Por iffo niefmo , que forlola a vejo,
poffo dar-te milis que a do defejo.
Se a féra mais cruel, que o monte cria ,
_Fallar foubera (Albano
continúa)
A
,
vo;talves
com que re explicaria ,
Menos afpera !Ora do que a tua:
Eu morro; e jci que morro cm fin, quería
Saber antes que •-veja a morte
'
atta ,
Em que rasío _re funda, fe afjim
mata,
Ejra Lei, que ce obriga a fer-me
ingrata.
15,
DE J.
X.
DE MATOS.
169
com voz, nada menos defabrida,
teinzes , a
Pailora lhe tornava )
cm fer /Nana mulher agradecida
-.1
s
Tenz por i
.
fro fe obriga a fer efcrava:
En te quik, mas deixei-te aborrecida;
já pelo Fado allim difpo
g
lo ejkao-va:
No tens que te queixor da variedade ,
Que amor nio he razjo, he ló ,vontade.
En bem fei, fe ¿e deixo, que te aggravo ,
Porque a fayllo fem rakão me atrevo;
Mas como hei de livrar-te deffe aggra-vo ,
Se he mito ?mis o que amo, que o que devo?
rai fer agora de oz:tro amor efcra-vo ,
Que cm coma teus
.
fervisos já näo
levo:
Lá tens Alberta, lá tens Benta,
Todas formofas sio, nenhurna iynta.
Bern fei de ten defgos
c
io a larga hitloria,
g
'á n
-
ao finto de °un:W(1 alguna dejeonto:
Suppd'e que cm ti pagou de Amor a gloria,
Como o
faz
a mentira ern qualquer como:
Não percas a cabana da memoria,
Pai ten gado bufcar,
, não fejas tonto;
Que pode acafo pois ciofo
vive,
Saber Fileno , que comtigo
Dei-
J
á
it7o
R I M-A S
Deixa, que eu goke os frutos do foeego
Na
,
viçofa
erperança de outro agrado:
Deixa-me:
, que cm nzelhor emprego
Se occupa no-yamente o nzeu cuidado:
Ege no-yo Paftor, cm que me emprégo ,
Tenz drvez,as tambe
.
n, tambenz tenz gado:
Finalmente mais nada te repito
.Delle go's
c
io , de ti no necellito.
Elles écos ouvia deshumanos
O Paflor entre' novas agonias,
Vendo na Primavera de feus annos
no
mal vingado o fruto dos feus dias:
Que tarde próva extremos derenganos,
Qyem fe deixou levar de vans porfias
Inda mal, que he táo cerco! Oh cega gente!.
Damiana o fahe, o trate Allano o fente.
Quer fallar-lhe outra vez; porém avante
Ir náo fe atreve ; e cm lagrimas desfeito ,
Ficando mudo por hurn breve inflame,
Afilia° as máos apena junto ao peito:
Como quem fente mágoa penetrante,
Qtre promptatnente faz
-
mi
-
feto effeito ,
A/bano fica., cm quanto a anguftia calla;
Mas rompendo o filencio , aílim lile falta:
Ah
DE J. `X. DE
MATOS.
171
lo
wite
e.
-ante
Ah tyranna Pas9ora! Quem diría
Naquelles
'
da affeiçiio doces enganos ,
Que em hum inflan
.
te fd Amor faria
O
trabalho perder de tantos anuos!
Aquelle olhar affavel de algum día
Onde efid , de teus olhos foberanos?
Se , tirando-os de mirn tit
-
o de repente,
Com elles vás faz,er o chdo contente.
Qyantas veys chorando me a rmavas,
(Se acafo , ingrata, já me njio mentias)
Que tanto de meus albos te alentavas
Que fan elles do Sol a luknio vias!
Entio cm mim os teus fo" recrea-vas,
Hoje ,
por nJo '-ver-me, os tiranas
Os
MCUS
fem
eflão , pois feudo amantes
n'do achão nos teus o affago d' antes.
He d'U aquella fé , com que algum
Paffando a calma juntos defia fonte,
Mil
vekes
ten amor me promettia:
Ser mais claro que o Sol,
,
firme que o monte?
Nio jura-vas endo , fe en te não cria ,
Que ao pagar huma ve; aquella ponte,
Azuda com ella foffes ter ao rio,
Se tiveffes na
fo
qualquer defvio
Tom,
IVI
Ab!'
Ah
172
RIMAS
Ah! M'o paffes por ella na incertem
De o Ceo tomar de ti :pifia ,vingansa,.
Que as pedras deixario de ter firmeza,
So para Cafligar huma inudança:
A confusiío
da
tua ligeirem
Eflás
vendo
na fua fegurança;
Mas nio poffo efiranhar quanto fiyres ,
Porque cm fin: as Pa floras sio mulheres.
Quantas rveys , fubindo aquelle outeiro
Comtigo pela mío , efla que apertas
(Me dizias)
penhor nzais ,verdadeiro
Será fempre de amor:
(Palavras cenas)
O
tronco ,vendo eflou, onde en! letreiro
Inda lá dijo por tefiemunbo abertas
Ou cumpre quanto emito me tinhas dito,
Ou deixa-me ir rifar tio -vil efcrito.
Elfe Paflor,
, que adoras novamente
(Que íémpre caufa amor a novidade)
Mais firme nio
.
ferá; que o (
-
ello a gente,
Ni° pro-vem da maior felicidade:
Tu poderás fayllo raais contente
Mas nio dar-lhe es9a minha si wontade:
De mais , quem o fegura nefle cEado
Se a indo !he dás , que já me tinhas dadol
Bol§
DE
3.x.
DE MATOS.
r7;
Bem fei que tern cabana levantada,
E
que a ?nimba he pequena, pobre, e efcura;
Mas olha , que ao cahir fempre a pancada
Collunza fer d proporlio d' altura:
Bent fei que traz,,-de bois grande manada;
Mas repara , que o benz nem fempre dura,
E
que, guando o defejo he
,verdadeiro,
1/al mais do que hum rebanho hum
cordeiro,
Teme as crueis difpofições do Fado,
Que chegiío guando menos fe imagina:
Nio te confies de hum rifonho agrado,
j
á
que em nzim proprio ,vés effa doutrina:
Tomarás no-va poffe do meu garlo,
Seroir-te-hei como d' antes na carnpina,
Farei de amar-te como fempre efiudo ,
A minha alma terds , que he mais que tudo.
Se te deo Natureka bum gés`lo lindo,
Toma conforme a elle hm genio brando:
re ,.que zao quero , de te andar fervindol
Mats premio, que a Ventura do teu mando:
A nzeu mal efie ahliio permittindo,
Com bem pouca te irás defobrigando:
Ambos fujeitos
,
a affeilTto nos traga
Tu lem mais detrimento, cu fem
,
mais
paga,
M
ii
174
RIMAS
l'arei por ti a ultima
fineza,
Que tenz viilo do monte a longa idade:
Precifo nio ferá para a firmem
Crear n' alma dé novo outra vontade.;
Que inda que fe me eftranbe elta vileyt
Entre a gente da Aldea ou da Cidade ,
Quero que vejas, que de mizn fe coma,
Que os olbos fecho cm t
.
do notoria affronta.
A
r
io me fa; a defgraça cJe fer pobre
Soffrer o vil partido que fupplico;
Que betn po'de morar hunza alma nobre
Debaixo da rotura de hum pelico:
Quent me fa;cego , quenz a fu; me encobre
(Com que vergonha! Com que dor o explico!)
He parecer-me ainda nefle engano
Tu rnais formora , que o meu mal tyrano.
Se tu Indina confeffas boje cm dia
Ser a minba
tio verdadeira,
tens para encubrir a tyrannia,
Nenz fe quer a defculpa da cegueira!
Quem tamanba inconftancia julgaria
2sio lifo trato de bruna fé ,primeira!
Quein , depois de cm ti por toda a
efpernsa,
Ha-.a
de fuppór efla nutdansa!
D E J. X. D 1V1 A T O S.
175
Se procuras mudar-te, e defde a infancia
O collinne de
,
ver-me te amofina,
SoMente por feguires a inconflancia ,
Que fempre o peito fentinil domina:
Fu tiío outro eflou t, tanta diftancia
Do que fui, ao que fou o Ceo deflina ,
Que podes boje , ufando de piedade ,
Manter inda comigo a variedade.
Torna, a querer-me, torna: Mais pequen°
1:Irás nieu mal oil tio fua-ve engano;
Que, polio que não feja o teu Fileno,
Tambem nio fou, no que pares° , Albano:
Por antar-te olha a quanto me condeno,
oue ouso , e tilo creio o mermo defengano.
Que mais queres de inini? Tudo efrá dito:
Té acceito en: defeulpa o teu delito.
Sempre chorando, Albano affim fallava,
Em tanto que Damiana o pote enchia,
Que mais fria, que a fonte lhe efcutava
As namoradas queixas , que Ihe ouvia:
Sem refponder,
, no canta ro pegava,
Que elle ajudar-lhe a levantar quena;
A,las cm váo, que a Pallora mui ligeira,
Voltando as cofias, diz defta rnaneira:
Se
Al-
Alblno, ido te pogo ouvir já agora",
Nem receber de amor
ã
nova offerta:
Tens-me detido aquí ha mais de huni hora,
deixei do ca ('al a porta aberta:
Yai fervir,
,
já
te di/Te, outra Pallora,
Nio he dellas a Aldéa tEo deferta:
Muito a tempo te a
.
vifo. E
foi andando,
De guando cm guando para tras oihando.
Q
2
al a tenra novilha, que, perdida
Das brutas companheiras, pela eflrada
Berrando em cata dellas vai fentkla ,
Sem atinar co'fitio da malhacla:
Tal o trae Paffor na defpedida
Da Pailora cruel em váo bufcada
O litio defampara, deixa
a
fonte,
Outra vez defce ao valle, fobe ao monte.
E vendo lá de longe inda a Paftora,
Exclama (fem que os palios lhe detenha:)
Deffes montes
,
vai fer ha,bitadora,
Terio em ti cruel mais Urna penha:
Em quanto o Sol lu;ir,
, rajar a Aurora,
Eu proteflo, que a elles
.
mais ,venha;
Que
já , guando o meu mal prefenceário,
Mais do que tu, mil
,
vekes fe abalárilo.
Efi'
Pi:
P
7
9
176
RIMAS
DE J.
X. DE MATOS.
177
E em guamo vago afflitio efla montanha
En? pa; te deixo , fica fem cuidado,
Que dor nenhuma fentirei tamanha ,
A' que tu me nao tenhas cofiumado:
Pikarei para fempre a terra esqranha,
Daquelle patrio abrigo deflerrado:
mint te efquece , já que alegre pajas
.11/tas temo, por pedir-to , que o não
Aparta-te de mim: Fai , que algum
Fortuna, onde ni° ha feguro efiado ,
l'ara que tambem eu de ti me ria ,
Pagando-me do tempo que hei chorado:
fará, que inda tu merma a aleivokia
7 alvekque fintas de me ter deixado;
Que o julio Ceo, que as fem-raes diffingue ,
A's tnãos te levará de quem me vingue.
3á tudo fe acabou: Logra, tyrana,
O focego felikda tua Aldeia:
Perca eu
o
agakalho da cabana
Na peregrinalão de terra alheia:
Tudo quanto lá fica na choupana
Yenha De
k
entbro, leve embora a cheia,
A' mingoa morra o gado, e eu aufente
Nunca.mais veja, e trate humana gente.
E
E
178
RIMAS
E chegando-fe a hum cedro corpulento
Em cujo tronco, guando alli fe achava ,
Gravar, cm fe do feu contentamento ,
O
nome de Damiana coilumava:
Rifcando-o , grita,
que tdo baja intento
Nenz hum breve final de que te ama-va;
Que inda huna tronco , que o tempo nio contorne,
Inconflante ferd, tetado o ten nome.
E vo's , canzpos , outeiros , nos, gados ,
Nunca a Sorte a fartura vos defconte
Sena nzim ficai-vos betnaventurados
Que en bafto a faker trifle esie horizonte;
E re meu punto ha de affogar os prados,
Meus fufpiros faker feccar o monte,
A
_Deos! Porque ferá , como cm minz vifies ,
Deixar-vos menor mal, que -ver-vos trifies,
DiiTe: e na eterna aufencia que fazia,
Tudo perder intenta da lembranya,
Teniendo que pudefre inda algum dia
Tornar pelas pegadas da efperança:
Com pafTo incerto, e tremulo fugia
Daquella perigofa vizinhança;
E pelas ramas de huma mata efpeffa,
Para
nuis náo fer vifio,entrou deprefa.
Buf
Clu
Gu:
N'a(
A' 1
Fen
13ui
E !
A
E
Se
Pe
O
Ai
Pi
E
Tu
le,
-
DE
J. :`'‘.
DE MATOS.
Tu agora, mortal, que o vil tormento
Bufcas de Amor , náo queiras como Albano,
Chegando-lhe táo cedo o documento,
Guardar para táo tarde o defengano:
Náo catives o nobre entendirnento
A' paixáo de hum eftimulo profano:
Fenece Amor, caduca a formofora,
bufca fómente o bem, que fempre.dura.
ECLOGA
,
II.
Agrario,
Bra;,
e
Anfriro.
QUafi
de todo nos faltava o día;
Mas inda a noite duvidofa eftava ,
E
o vento j'a mais brand
°
parecia
Qlre entre as folhas do bol
-
que repoufava:
Sobre as praias o mar adormecia:
A fcintillar o Ceo principiava;
E
lá nos apartados horizontes
Se via apenas terminar os montes.
Entrava o paffarinho acautelado
Pela confufa balfa, onde fe aninha :
O
Pallor manfamente leva o gado,
Ainda maffigando a ()randa hervinha :
Já, defcançando o iuzidio arado,
Para a choupana o Lavrador caminha,
E
o vagarofo bol , rernoendo o parlo,
Leva o duro refcolo já mais gallo.
179
Só
r8o
RIMAS
Só no meio de hurn monte folitario,
Abundante de relva os mais dos mezes,
Efquecido ficava o trifte Agrario
Sem
levar ao corral as manfas rezes:
Pallar queixofo de hum Defino vário,
Com que Amor o ferio baitantes vezes,
E
a quern táo fóra já de fi trazia,
Que vinha a noite, e náo lho parecía.
Náo acha allivio , que o pezar lhe abrande ;
E
entregue mudamente ao feu defgofto ,
Affim corno quem penfa cm cafo grande,
Ora levanta, e ora abaixa o rollo:
Vai-fe-lhe o gado fem Paftor,
, que o mande,
Aos pes cahindo-lhe o curvado encoao;
E
as mlos, com que tambern a dor explica,
1
3
6e debaixo dos braços; e allim fica.
9,_!!
Pela encella do monte manían-lente,
Ambos co' a lenha ás collas no cajado,
Vinha defcendo Braz velho , e prudente,
Com Anfrifo ainda moço, e namorado:
Po
A elle ternpo Agrario, que iómente
N,
Efiá cm feus pezares elevado,
Imaginando que ninguem o ouvia,
Com lagrimoia voz affirn dizia:
Paflora desleal, cm cujo roflo
Qr:tikanimar o ceo tanta belleka,
Para efconder Amor tanto defgofio ,
Lá
Por,
Poi:
Ni,
Em
Por
io ,
DEI. X. DE MATOS. lb
Sabe que de rneus males a grandezg,
Lá onde quer que es
c
lás , farei notoria,
Porque nem refle a Amor efia
A todos contarei a miraba hisrloria;
Pois jd que eu Terco o bem da tua
Não percas tu do meu pekar a gloria:
Fu farei que
a
miraba alma lá te affisqa
.Ean fé de meus puriffimos amores ,
Por mais que o teu defprey ¡he rejilla:
Ouvir fe-hão nefle valle os aneus clamores,
Fin
quanto me durar a vida breve,
Que ten: feita mais curta os teus rigores.
JVIorrer por ti ferá finem leve:
Quem perdendo-te cm finz , não perde a vida,
Airada a muito mais , e nzais fe atreve.
A tua voluntaria defpedrela ,
Por naa
i
s que Alazor me leve a eflranbos lares ,
Nao poderd jd mais fer efquecida.
Tal be a
l
fem-razão40 me debcares ,
Que inda tornando '-ver-te, o que Ido creio,
nao
metts pekares.
Té
182
RIMAS
Té me parece o gado magro, e feio;
j
E o campo, que comtigo florecía,
á
me não fer-ve aos olhos de recreio:
A fonte , que tal-vez adormecía
Ao
fom ola minha flauta, boje defperta
Aos ais , que dou cm mifera agonia:
Pa,ra o curra! o gado nio arena,
Dormindo pelos montes: E rufpeito,
Q_ue tudo de me -ver fe defconcerta.
Inda a mais chegarei por teu refpeito;
Que Amor ;tío guardará tyranno ¿lado
(Se acafo o tem peior) para outro peito:
Mas
.
fe ¿Id , cm que
eu
_finta o defagrado
Da tua condilão formofa Altéa,
O fer eu venturo:ro , ou defgralado ,
Torna a fayr alegre a no/fa
Huma alma a con rolar , de que es ,fenhora,
Feja-te antes ingrata, do que albea:
Não ten!» de que,fejas poffuidora
Outra coz:fa melhor , que boje te offrela
Mas não fa;potwo quem fem premio adora:
E
A
F, c
•
Ve
Se ti
ilont
Hur
Oh
Pan
E
O
Ac
PC
D
E J. X. DE MATO S.
1
8;
E ¡'cm que tão divina te contigo,
Se te Mío merecer quem mais te es9inia,
_donde irás bufcar quem te meresa?
Broz,.
Tu no
ouves , Anfrifo , deffa
parte
Huma
voz de
peffoa magoada?
Oh como he trate! O
coraçáo
me parte!
Para a
ouvir,
tiremos-nos da
ettrada.
Anfrifo.
Vamos, que
foa aqui
para o
teu
lado
A
voz
piedofa,
que
ao depois ouvifle;
E de tras
deffe
tuno
fen-leado
'Veremos de
quem
he queíxa táo
trille.
Brok
Paffa
tu de vagar para
diante,
E no vamos de rijo
converfando,
Que
já náo plule fer
u-mito
diflante
O lugar, donde as
vozes vem foando.
Será de
algum Paffor
a trille
queixa
Que de Amor,
ou
Fortuna
perfeguido
Aqui talvez
a
fufpirar
fe
deixa
Pois
a
tudo
anda o
homem offrecido.
An-
184
RIMAS
Anfrifo.
Lá vejo hum vulto de homem levantado;
Mas já náo potro bem ver-lhe o femblante:
Sózinho ella fallando; e o feu cuidado
Nafcer parece de algum cafo amante.
E cuido (enganar-me-hei) que pela altura,
Pela voz, e Paítora que nornea,
Quem fe queixa de tanta defventura
He Agrario, Paílor da notTa Aldéa.
_Era;
Agora vejo. O mefmo me parece,
Porque depois que Altea eta diflante,
uando fe falla nella , fe entrillece,
Um
poder disfarçallo no femblante.
Nifto tcm reparado os mais Paflores;
E
a mim n'algumas vezes, cm que o via,
Nunca me quiz fallar nos feus Amores,
Como quem de eu fabellos fe affligia.
.Anfrifo.
Ora pois
fe
te apráz , daqui lhe fallo,
Que he PaPror bein creado, e noffo amigo;
Náo fora máo que foffes confolallo,
Anda, aprefla-te, Braz, que eu vou corntigo.
Bras.
13em
E o
Aind
Mal
Oh
Se h
E cc
Que
Que
De
Qut
Do
Me
0.1.11
DE 1. X.
DE MATOS.
t85
Bra;.,
Q2ern ama cegam ente huma Pallora,
Pem he que poffa compaixáo dever-te;
E o mefmo cafo, que elle fente agora,
Ainda mal, que nao venha a fucceder-te.
Guarde-te o Ceo, Paffor, elle te ajude:
Mal fabes quanto fimo effa trifteza:
Oh praza a Deos, que o genio fe te mude,
Se he que póde mndar-fe a Natureza!
Aqui me traz a queixa do teu dano;
E confidero , vendo-o táo profundo,
Que f6 póde nafcer daquelle engano,
Que tantos defgraçados faz no Mundo.
Agrario.
Ah rneu bom velo, que mal fabes quanto
De ver-te me alegrei , e fe, me reza,
-4:Zue
participes de meus males tanto!
Deixa-me outra vez 1
-
6; porque a certeza
Do mal, que tirei fempre da alegria
Me faz goilar de Ludo o que he trifieza:
Foge, foge da minha campanilla,
Qzje fervir-re náo póde, fenáo queres
Que te pepe hurna tal melancolia.
Án-
Agrario, aqui me tens tambem comtigo,
Grande quina° deffe pezar me cabe:
Eu tambern tenho amor, fou ten amigo;
Qlanto finto ten mal 1
-
6 Deos o fabe.
Soffrendo d'Ion continuas crueldades,
Mil
dias ha tambem de huma Patiora:
O Mundo cheio efiá de falfidades;
Feliz quem as náo fente, ou as ignora!
Tambem tenho rneus dias de trifleza,
Nada me alegra, o gado me enfaília ;
E rudo o que náo he fallar a Andreza,
Seja o que for,
, me enfada, e me agonia:
Outras vezes encontro a Braz no monte,
VI-me trille, já fabe o meu cuidado:
Mil cafos me repete ao pé da fonte,
Com que fico algum tanto confolado,
He Panor, a quem tenho meu refpeitersi
(NI° he por elle eflar aqui prefente)
A _fua companhia de proveito
Tem icrvido na Aldea a muita gente.
-
E como pollo eu fer teu confelheiro
Aonde Braz ella, e o feu bom dito?
Pois fei, amigo Agrario, que primeiro-
(Mais que tu) dos confelhos necellito.
Agra-
Qu
o
N
Pl
E
A
186
RIMAS
Anfi-ifo.
DE
3.11,
DE
MATOS:,
_Agrario.
Que allivio me datas, que me conforte>
Que na merma lembrança do que peno
O náo converta Amor em dor inais forte?
Fazer com que meu mal feja pequen°,
ile o mefmo , que atiliao cm lugar de agua._
Querer matar a fede corn veneno.
Bra;.
Da-nos parte do mal, que o Ceo te manda
y
Tudo a noffa amizade te merece;
Que o mal communicado l'a fe obrando,
Porque em fim repartido fe padece.
Náo bias tu dizendo o teu tormento
Neffe lugar deferto aos matos broncos,
Que nunca ter puderáo fentimento:
Pois mereço-te eu menos, que effes troncosl
Eubem fei que fou rudo, mas fou velho,
Ná4,
ha
molor fciencia do que a idade:
A's vezes vai o allivio no confelho
kotico
val o difcurfo fern vexdade:
a-
1
Ton.
7,
Faz.
RIMAS
Faz-fe a todos o allivio táo precifo,
Que inda ao boj mais forçofo afflige a carga;
E a fimples ovelhinha fem juizo
Deixa ás vezes a herva, que ihe amarga.
De lerdo no tens nada, es avifado ,
Ern
fim homem , que baila ella 1embrança,
E bufcas , da razáo táo defcuidado,
Aquillo mefino, que re afflige ,
e
cana?
Algum dia dirás:
(oh,
Deos
o
mande!)
Benz
me
dizia Bra;, benz
me
di;ta!
Que fempre hum homé , por mais cego que ande,
Cahe na razáo mais dia , menos dia.:
Qgem fegura affeiçáo no Mundo efpera,
Expriencia náo tem dede trabalho:
Bufcar fé nas Fafloras de tal era,
He querer que dê pinhas hum carvalho.
•
Tu
náo vifle ha dous días praticado
Iflo mermo cm Albano, a quem Daniiana
Por Fileno deixou , (fe eflou lembrado)
Talvez 1
.
6 porque tem melhor cabana?
Qliafi no mefrno tempo o pobre Aleixo
Defprezo de Metilde, antes amores,
(Hum moço certamente como hum freixo)
Por Silverio, a deshonra dos Pallares?
E
Pal
Po
Se!
(Q
E
Ba
DE J. X. DE MATOS.
E prefumias tu, que era baflante
Para fer firme Altla , o ter Altla.?
Por ventura á mulher faz mais conftante
Ser Getrudes, Lucina, ou Dorothea?
Deftes cafos ha mil mita campina;
(Que trifies premios os que Amor concede!)
E quando re faliaffe ella doutrina
Bailava o que a ti rnefrno te fuccede,
Agrario:
.NiPto tenho ha mil dias affentado;
Mas náo tiro do meu conhecimento
Mais, que outra vez'ficar no mefrno eflado;
Porém que queres tu, fe o penfamentó,
Por rnais que n' outras coufas fe iniflura
La vi fempre encontrar co' feu tormento?
Em quanto a Primavera der verdura,
O fogo der calor, o ar for leve,
Me ha de lembrar de Altla a formofura:
Inda por menos clara aquella neve,
Que nas frias manhans cobre a canina,
Comparar-fe com ella fe náo (leve:
ii
Da
de,
ra,
r
q
o
RIMAS
Da vermelha papoula a c6r mais fina,
Como angelicamente mifturada,
Vive naquella face cryftallina.
De tanta formotúra , e graça ornada,
Que for lempre por toda a vizinhança
Das mais lindas Pafioras invejadal
ca
alma finalmente efla lernbrança
Tirar-fe-me náo pócle: Nem já agora
Efqueccr-me táo afpera mudança:
O que mais me atormenta a toda a hora
São aquellas promeffas, que fazia.
Aqui mefmo: Oxalá que afiim náo fan!
Tão amantes palavras me dizia ,
Pondo os olhos cm mirri de agua arrazados,
Que ao mais exprimentado enganaria.
Huma tarde me lembra, que abrigados
Do Sol, que dava entáo grande quentura,
A' fombra dcfles alarnos copados :
Depois de me eu queixar da mal fegura
Afreiçáo defte Mundo, cm que náo cria,
ie
dilfe então, fazendo-me efia jura:
Mais
ra
DE T. DE
T
O
S.
ut
Mais conflante, que a mefma penedia
Serei, Agrario metí, por mais que faca
zalquer outra mudansa cada dia:
Eu perca
a
fementeira da !inhala,
O
gado
a 'vida, tudo me aconteça ,
Antes que outro Paffor me caia en! grasa;
E para que mais credito ineresa
Tanta fe, tanto amor, tanta werdade,
Enz lagrimas
inca
rollo to encaresa
E chela de honeftiflima piedade,
Qual a faudofa, e frefca madrugada
Banha o peito, onde ef
-
conde a falfidade;
Tanto eftimei aquella fé jurada,
Que fe curnpridas taes pa.lavras viffe ,
Que mais do Mundo quererla? Nada.
Caufa náo teve em fim para deixar-me
E ver que lba náo dei, nem levemente,
He a que Amor me di para queixar-me.
Antes fora huma hiftoria impertinente
Paftores meus , fe agora repetiffe
Finezas, que por ella obrei comente:
Que
Que com o rio a ponte fe cubrirte:
Que com a cheia o campo fe alagaffe,
VIUM
dia náo paffava „que a náo
E portn*is que Pafioras enchntraffe
Sem que alli viíre a minha Altla bella,
Nia hora que cfte corpo fe alegraffe.
alegria eta tal fómente em vella,
Que ainda guando ao longe apparecia,
Jit de cá me hia rindo para ella:
Humas vezes cantando a divertía
Nos verfos, que cornpunha aos meus amores
Com muita mais verdade, que harmonia:
Outras vezes , mais /ivre
de
temores,
Quando lá pelo prado fe fentava,
O regaço Ihe enchia de mil flores:
Entáo a mais bonita lhe pregava
Na cara do jubáo, e cuidadoio
De brancos malrnequeres a toucava:
t
Seguro-te, me/3 Braz, que táo goflofo
N'um Puro agrado hum peito fe intereffa,
Que
mffl
julgava fer o mais ditofo;
Po-
021
Dui
.Att
Cu
As
Ar
Cc
A
Ir
Y92
RIMAS
DE J. S. DE MATOS.
i93
Porém faltou ás juras táo depreffa
orbe creio , (e náo me engano) que cm Pafloras
Dura mais hurna flor, que huma prometfa.
Nefras confideragóes confumo as horas,
.Atraveiro no dia mil caminhos,
Cuidando que affim acho á dor melhoras.
Qual ave, que roubando-lhe os filhinhos
As ociofas máos da pouca idade,
Anda como queixando-fe aos raminhos:
Vai-fe outra vez ao ninho com faudade,
revolvido o feno , e torna fóra
Como quem náo dá credito á verdade :
Afii.rn me traz o amor defla Paflora,
A mirn , e ainda a todos parecendo,
Que nunca chegaria a fer traidora.
Elles são os motivos, porque entende
Que remedio o meu mal nunca tenia,
Inda que foffe feculos vivendo ;
Mas ai, que já de longe parecia
Oue o coraçáo prefago verdadeiro
Táo grande defventura me dizia!
a-
E
Ai , Paflores , que afiim que o meu rafeirat
(Seudo a fazer-me fefla coflumado
Com maior manfidáo, que a de hum cordeiro)
Vi
que huma vez fahindo
de
entre o gado
Ladrando me avançou táo forremente,
Como fe eu fora o lobo atraiçoado;
E inda nefle cajado clara-mente,
Que ao tempo me fervíra de defeza,
Vereis as móffas do raivofo dente:
Sobre mim caltio logo tal trifteza,
Ta/ defgofto da vida, tal
xeceio
De
algum futuro cafo de eftranheza,
eQ
.
12C
mil vezes confufo nefle enleio,
Valha-me Deos ! Queixando-me, dizia:
Que Sorte efcura, que fucceffo tejo.
Ter
a de acontecer-me qualquer dia?
Mas cumpra.fe o Decreto da Ventura,
Q
2
e náo pócle durar fempre a alegria:
Caja a choupana ; affogue
a
femeaaura
Arrebatada cheia ; e o meu rebanho
Caja mono de ronha na efpeffura.
(Ctli
.Vá
E q
Naf
Fan
Qut
Net
Ne
Co
Ne
Vio
De
Ve
1
94
RIMAS
o)
DE
DE MATOS. 195
E mal logrando o tempo o pobre amanho,
((l
i
le :d'hm no pouco a Sorte me calliga)
Vá mendigar fuffento a monte eltranho:
As cabras pallem f6 afpera ortiga;
E guando me defirua o trigo a chela,
Nafláo abrolhos no lugar da efpiga.
Náo veja para fempre a Patria Aldla,
Parte-fe o
Mell
Deilino; mas com tamo,
Que fe náo mude nunca a minha Altla.
Cumptio-fe finalmente elle quebranto,
Nem podia nafcer daquelle agouro
Menor defgraça, mais pequen° elPanto.
Que mais podia fer que o meu defdouro1
Nem fei , bebendo táo mortaes venenos,
Como náo tenho dado já hum eflouro!
Dos ontros males, como so pequenos,
Nenhum me aconteceo; porque a Ventura
Vio que todo elle mais a'inda era menos:
Mas cm oue eflou detendo a conjeaura?
Derenganado elan de que algutn dia
Veja fereno o roa° da Ventura.
Nem
x96
RIMAS
Nem tem remedio iá minha agonía,
Que aorkie fe perdeo huma efperança,
Ninguem lá vá bufcar huma aleg,ria.
Aconfelha-me cm váo, cm váo fe cança
Quem bufca coniolar-me , fe pertende
Rifcar-me tanta mágoa da lembrança,
Que o iegredo de Amor ninguem o entende.
rak.
Ai, Agrario infeliz! Melhor me fora
No ter dos males teus lamben) fabido;
Pois de ouvir qualquer delles, inda agora
Sinto cá dentro o coraçáo partido:
Que defmanchos no faz hurn moço louco 1
E depois quantas vezes os defpreza?
Eu tambem fui rapaz, ria o rneu pouco,
E foube o que era Amor, (do que me peza.)
Hoje defres traballicys iá náo fimo,
Bufcando á vida algum honrado efleio:
SiS me ahíta, que o anuo vá farninto
Que morra o gado, que náo de fenicio:
Alegre paffo os días de bonança.
Debaixo de algum abmo fombrio:
Ao pé de mina
fe
deita a ovelha manía,
Ouço as aves cantar, correr o rio:
Ou-
Gaft
E fe
De
Em
Troi
O
n
Par¿
40,13 e
Que
Ef1:1
Pur
Enc
Coi
Ou
Di2
Cal
Te
Qt2
DE
J.
X. DE MATOS.
197
Outros f6 faço , porque o Sol me a,quente :
Gaflando alguns cm concertar o arado;
E fe me afilijo ás vezes, he fómente
De náo ver-me ha mais rempo nelle eflado:
Pois ir gaflando os annos defattento
Em
negregado Amor, que n'um f6 dia
Troca em lorigos efpaços de tormento
O
mais pequeno infiante de alegria,
He coufa tão pezada-, cm que me fundo
Para temer, que a todos aconteça,
Q
.
ue no haverá homem nefie Mundo,
Que inda que amores finta, o náo conheça.
Náo so fabulas no , náo so enganos
Filas, que julgarlis impertinencias,
Puras -verdades sáo, com que os rneus annos.
Encheo , Amor, de longas expriencias.
Qual fern ver huma grande ribanceira,
Correndo rara ella dercuídado,
Outro dalem Ihe bradá
carreira,
Dizendo-lhe, que vai precipitado;
Affim eu, que,te vejo cm tal locura
Caminhar cego ap6s o teu perigo,
Te avifo da maldita defventura ,
Qi
2
e Amor cm feus effeitos traz condigo.
Va-
198
R I
MAS
Vamos todos, Agrario, para
a
Aldba,
Tem dó do pobre gado , que anda earanho,
Pois das offenfas, que te fez Altla,
Em nada foi culpado o teu rebanho.
E eu, que já no andar fou vagarofo,
Por cita encofia itei fallir á effrada,
Que o monte he por aqui menos fragofo:
(Ah velhice cruel, vida canfada!)
.Anfrifo.
Qneira Deos que effas horas lá na feria
Náo tenhas os cabritos dizimados;
Pois anda cheia toda a noffá terra
De zorras, e de lobos esfaimados.
Os roupeiros fe queixáo geralmenta
Das cabeças , que faitáo na manada;
E de que os rvfaioraes injultamente
Lhes defcontem as rezes na foldada.
Mas eu de boamente arrifcaria
As melhores, que traz o meu rebanho,
Se a troco deffe mal (que hum bem feria)
Te pudera livrar de mal tamanho.
Náo
Qu
e
Se ht
Devt
Cuft,
Ern
Para
Efpc
Já n
Ton
Que
Na
Q.ut
Nác
Peç
Qui
a
DE J. X. DE MATOS,
199
No digo, que no ames, fé) te digó,
Que náo fejas no amor defefperado:
Se he acafó, vencello; e fe
:
he Caftigo,
Deve hum homem fentillo conformado.
Braz por coma da fua muita idade
Cutta-lhe andar de noite por máo
Ern mim náo fallo já, que a mocidade
Para tudo me dá`ldefembaraço
nile já val defcendo ; vamos ora,
Efperará o que chegar primeiro:
Já náo permitta a noite haver demora:
Toma o cajado , chama o teu rafeiro.
Agrario.
N.áo valem para mitni,rtz6es eflranhas,
Quie eu de todo a morrer effou difpoilo
Na muda folidáo deftas montanhas:
Trago o animo em fim já defcompoflo ;
Quem náo tem mais allivio, 'que o tormento,
Náo quer mais companheiro , que o defgoflo.
Deixa-me, amigo, 1
-
6, muda de intentó:
Peço-re por aquella affeiçáo notra
nem mais eu te venha ao penfamento.
(-7
o
Ca
Cá te
fica ,
o curral, os bois,
a
aoça
Colmeias, olival, rebanho, e vinha
Mais náo poffuo, que olfrecer-te poffa.
Coufa rián tenho já, que feja minha,
Depois que me deixou effa Paítora ,
Pois com ella perdi nido o que tinha:
Perdi as efperanças da mentora,
Só reffa vir a mOrte, e ao que fupporto,
Náo poderei viver muito já agora:
Até falta ao efpirito o conforto
E effou do fim da vida já táo peno,
Que
náo fei fe vos fallo vivo, ou morro;
Porém fe algum de vós nene deferto
Meu corpo adiar defamparado, e frio,
Náo o deixeis ao menos defcuberto.
E junto do cipreffe mais fombrio ,
Que nas rnargens do Tejo fe'devante,
Huna fepulcro lhe abri tofco, mas pio :
De azares o cercai no rnefmo inflame
E alli, no tronco funebre gravado
Elle avifo, dizei ao caminhante:
L)
•
,200
ZIMAS
ç
a
7
te
DE
3.
X. DE
T
O S.
'101
Tu, que fegues de Amor
o
errado mando,
Depois que a minba hinoria for fabida,
¡'ë, que premios te vai apparelhando
E fe -vires Altéa derabrida ,
Inf
orma-a de tamanha depventura:
Que cm firn perdeo por ella Agrario a ,-vida,
Por final que ¡he vine
a
fepultura.
ECLOGA
III.
Galathea.
H
Avia largo tempo , que efcondlra
A luz o Sol debaixo do horizonte,
Por quem a defejofa gente efpera:
Quieto o valle, folirrio osMonte,
O refonar do boique fe miflura
C'o grave fom da deipenhada
Mas táo efeaffamente alli murmura
De hum preguiçofo yervo maneado'
(22e inda taz mais fauckfa•a noite efcufg:
E
c'o pezo das nuvens carregado
Por toda a parte o Ceo le nos morcrava
De hum vapor lento humedecendo o prado:
En-
.
A
act
.?
O
T '11. I
,Entre
-
quieta, e trille a noiteleftava ,
O
mar nos váos rochedos náo batía,
A' parte efquerda ao longe fuzilava:
Humas vezes a Lua apparecia
Os macilentos ralos efpalhando
E
outras tantas a nevoa os encubría:
Ouvia-fe depois, de guando em guando,
O
paffaro nodurno, a voz tentida
Pela deferta praia alevantando.
Então la junto de hurna rocha erguida,
Sobre as margens do Téjo debruçada,
De fempre verdes rnufgos guarnecida,.:
Aonde o rio fórm
,
a hurna quebrada,
Para entrar pela fenda de hum u te i ro
N'urna quieta, e placida enceada,
Ao verde pé.de hum humido falgueiro
O
pefcador Marino havia atado,
Como tem de coftume, o feu faveiro ;
:rEnfobre a fraca borda recatado,
Deitando a villa ao long
°
da corrente,
Do leu amor fórnente acompanhado
y
a
£1;.
:obwri
DE J.
11.
DE
MATOS.
2b1
Da ingrata Ninfa, que adorava aufente
(
Que tarde hum grande amor fe defengana)
Della arte fe queixava triftemente.
Galathea gentil, e desbumana,
Náo cuides por fazer-te o Ceo formofa,
Que ha de Amor defculpar-te o fer tyrana.
Póde fer,
, que a belleza rigorofa
DI cauta tanta vez a que fe diga,
Que náo ha formofura venturofa.
A fer-me ingrata, ó Ninfa, quern te obriga?
A natu reza náo, a razáo menos
Olha que nada tanto o Ceo caftiga.
Seno me aborreceffes, Ninfa, ao menos
Tal fou eu, que illo fó me ballaria
A fazer meus pezares mais pequenol.
Q
.
nem defles olhos trilles te defvia
Que náo vens corn teus olhos táo
formofos
Anticipar nos meus a luz do da?
Senáo podem por meus fer venturofos,
Ah Galathea, mováo-te a piedade,
J'a
riáo
digo por
111C
mas por
chororos.
Ton
L
O
Tu
.0;
te,
5
ro
11
2
0
4
RIMAS
Tu
fabes melhor que eu tanta verdade,
Capaz de commover alma ferina,
Qz
.
lanto mais huma Angelica vontade.
Pois 15 no fundo d' agua cryfiallina,
Onde banhas teu corpo delicado,
Quando já do mais alto o Sol declina_,
J5 terás o fabor exprimentado
Do meu amargo pranto , que tem feito
Mudar-fe o doce Téjo cm mar falgade.
Em mar o Tajo, fern que fatisfeito
Me finta de chorar ; e náo entendo
Como inda tenho lagrimas no peito ;
Pois guando vai o preamar defcendo,
Se acafo com mais força o pranto folro,
Torna a vir claramente a agua enchendo.
Com meus fufpirós crefce o vento falto,
E logo as manfas ondas encrefpando,
DeiXáo por muito ternpo o mar revolto:
Tudo finaes de compaixáo vai dando,
A tudo vol: mudando a Natureza,
E fó náo fei tornar teu genio brand°.
Se
Se
O
ii
Se cm ti fizerá meffa a vá riqueza,
O que eu de ti náo creio, julgaria
Que defprezavas minha vil pobreza.
Aqui por te abrandar trabalharia
Mais que todos os outros pekadores,
Para os vencer cm groffa pefcaria.
Eáo sáo elles do que en mais foffredores
Dos trabalhos maririmos , nem so
Mais affoutos, e déltros nadadores.
Ver-me-hias arrifcar a vida entáo,
Náo cona mais gofto du que agora o faço,
Bem que perdendo-a vou fern galardáo
Mas, porque em teu ferviço deffe hum pafro
Com fatisfaçáo tua , e náo defgofto ,
Como agora fuccede a quanto paffo:
E fe forem no eflado, cm que ellou poflo ,
, Os mens pequenos ganhos táo ditofos,
Qge venháo a fer inda do tea gofio,
Aqui ha mil peixinhos faborofos,
Vellos-has contra a veia da agua clara
Ir forçando a corrente boliçaos:
;1to:
o
).
ndo.
DE T.
X. DE
MATOS.
205
E para fui:tentar a vida citara,
Verás como engodados cahir vão
No torio anzol , que a morte lhes prepara
Bem corno tu, tyrana, que á traição
A vez primeira os olhos me puzefle,
Para morrer por elles defde entáo.
Aqui verás aonde, como invefle
O meu batel nas praias encalhando
Quando o ternpo correr do Sul agrefle:
No fja diverte o rio focegado'
"Lá recreia tambem , quando fe lança
Por lima deftas pedras levantado ;
Mas fe o vires, defp ida da efquivança ,
Ql_te ufas comigo, enião foceg2rá,
Pois tantas vezes, vendo-te, fe amança:
E
-
bem que o gordo xerne aqui náo ha,
Nem morre o falmonete táo mimofo,
Nem o rajado polvo aqui fe dá,
1-Ia o folho innocente , e proveitofo ,
A pintada , e feixatile lampreia,
A frefca boga, o favel faborofo;
206
RIMAS
DE J. X. DE
ITATOS.
207
ara
2
te:
ça:
E fe mais o marifco te recreia,
irei (fe for precifo) á Foz do Téjo ,
Sem me efcapar a rnais remota areia.
Depois te contarei, corno forcejo
Por tirar d entre os humidos penedos
A liza amejoa, o tardo caranguejo:
Dos negros caramujos, que eflão quedos,
Nenhum me efcapará, inda que traga
Calejados de novo cites meus dedos.
l'orém que importa ? O corpo então fe eflraga
Tambem por gofio meu, fe por teu gofio
Nelle anda tela a alma em viva chaga :
C
i
pe aílim trouera elle animo compofto ,
Se em premio deftes
176 ver pudera
Huns longes de piedade no teu rollo!
Corno contente a par de ti viv'éral
Como ern teus olhos elles meus detidos,
Todo elevado em ti fernpre eítiveral.
Ein dar-te gofio f6 pondo os fentidos,
Para ti neftas praias arenofas
Fora colhendo os buzios retorcidos:
E
208
RIMAS
E as conchinhas córadas, e luarofas,
Qpe
eaáo inda orvalhadas, imitando
Deffe reu alvo roao as freleas rofas.
I-Iontem vi fobre as ondas vi boiando
Huna ramo de boninas amarellas,
A tomalJo de prella fui nadando:
Recelo
que fe murchern , vem por ellas,
Prezas em verde juncos enfeitar56
De
teu fino cabello as tranças bellas:
5e
aqui as conchas perolas náo dáo,
As fioreszinhas, que ellas margens tem
7
Pollas erra ti maior valor teráo.
Luz dos meus oihos , no me tardes, vem , -
Vem, que meus olhos triffes, e cançados
Em te náo vendo a ti , mais nada vem.
Mas a quern vou dizendo os meus cuidados ?
Como de balde o fufpirar náo cleixo,
Se ha fufpiros táo mal affortunados.
A qtem me efiou queixando, cm váo me queixo:
Náo tem humano coraçáo , f6 tem
yor cotaláo algum gelado feixo.
fltle
DE J..X. DE MATOS.
209
Que Satyro falvagem te detlm?
Ah Galathea! Sem razáo , que logo
A foccorrer-me o teu amor náo vem.
Fere-fe a dura pedra , e lança fogo ,
E tu de táo contraria natureza,
Que esfrias mais com meu ardente rogo!
Effeito de táo rigida crueza.
Náo póde humana califa produzillo,
-
Náo tens de humana mais que a gentileza.
•
Se
ha crocodilos no famofo Nilo,
Em ti tambem , 6 Ninfa, ingrata, e dura
Creou o noffo Tejo hum crocodilo.
No fei
fe
rneu amor já fe murmura
Entre os patrios , e eftranhos pefcadores,
Que fabern derca minha del-ventura.
Serei talvez dos /edos amadores
Apontados c'o dedo brevemente,
Quando paffar chorando os teus rigores:
Zornbará de meus males toda a gente,
Tomará nova força o meu Defbno,
Se para mim ha mal, que inda fe invente.
Mas
.219
RIMAS
Mas terne, ingrata, terne o Ceo Divino,
Antigo vingador do Mundo errado,
Que de l'a vendo ellâ meu mal comino.
Teme o poder dos Deofes indignado,
Que a fórma a tantas Ninfas perverteo,
C
•
m menos caufa que a que tu lhe has dado,-
Como em Ida a i.ethea aconteceo;
M
Que o bello corpo ern pedra convertido,
rnca mas os mimofos pés moveo.
Deixo de repetir o parecido
Exemplo de outras Ninfas fem Ventura
Que de ti, alta Ninfa, he bem fabido.
Mas que fizera nifto a defventnra?
P6de fer que mais branda te fizera,
Se agora es mais do que ella rócha dura.
-E guando affim acafo fuccedIra,
Tal he o meu amor brand
°
, e piedofo,
Que ver-fe táo vingado náo quizera.
Primeiro nefie rio o furiofo
\
r
ento, dando na vela de pan cada,
Quando en
f
o
r
navegando mais gonofo,-
Se
Po
DE
3.
X. DE MATOS.
211
Se
deite fobre
as
ondas, e alagacla
Co' meu pobre batel, enuao fe veja
A aguda quilha para o Ceo virada.
,Que a Fortuna, que agora te fobeja ,
Te de por algum meio náo cuidado
Q9alquer mal, por pequeno que elle feja;
Pois não fou eu táo pouco arrazoado ,
Q2e ernendar queira hurn erro da Ventura
Com Amor, que já mais anda acertado:
Defenganou-me a minha defventura :
Como de mim náo fugirás efquiva ,
Se em firn fou eu fou eu quem te procura ?
nata-me
embora , ó Ninfa fugitiva,
Oe aqui meus trifies olhos feito fonte
Por ti choraráõ fempre , em quanto eu viva.
Calou,fe o pefeador, ergueo a fronte
A ver o Sol, que vinha já rajando
Por entre as pardas nuvens do horizonte:
F
icor
por multo tempo a
voz
foando;
E
o Téjo , que a ouvio , de enternecido
Abaixou a cabeça , e fufpirando
Chegou hum pouco ao
mar
desfalecido.
EPIS-
EPISTOL
AS.
Rezado Jofefino;
Entre os Paliores o Paffor mais din°,
De quem eftou por meu injuflo Fado
Ainda mais faudofo, que apartado.
Depois que aquella aufencia,
Contra quem foi de balde a relifiencia;
Por força em mirn pegou,
E táo longe de vós ca me deitou,
Deveis-me, bom Paftor, hum tal cuidados
Que dera por vos ver, cabana, e galo;
Ma
s
bem Pouco faria ,
Que vale n
‘
lais a voffa companhia.
E
Sei
1114(
Ca
En
Cc
Pa
Le
.A‹
Al
11
-1\Í
A
)5
S(
A
Sem
DE J. X. DE MATOS.
213
Sem ella defcontente
Náo ha Sol, que me aquente;
E fe talvez Limano por piedade
Me aconfelha que bufque a fociedade,
Sem faber o que faço
Cabido o rato , vagarofo o paffo,
Em vós fó conremplando,
Com elle caminbando
Para as converfaçóes de outros Paftores
Lernbra-me entáo que as vallas so melhores,
Qual o touro rnatreiro
Que no alcance do incauto paffageiro,
Quando faz que o náo fegue, mais vizinho
Ao encomio lhe fahe n' outro caminho ;
Affim a minha pena,
Q
L
iando cuido que eflá já mais pequena,
Be porque vai bufcando
ovos caminhos de me andar matando.
3
etrt
Sern voz a minha doce fanfonina
Tempero hum dia inteiro, e náo fe affina:
A flauta lifonjeira
Que em
fim
depois da voffa era
a
primeira,
Já muda cita de todo, e defprezada,
De pó cuberta , ha mezes pendurada:
Se por fucceiTo a vejo,
Alernbrando-me a voffa o meu defejo,
Náo fei
COMO
a náo quebro de faudade;
VPde o que faz
a voffa fuavidade.
Tra-
,214
RIMAS
Trago logo á memoria quantas vezes
As minhas proprias rezes,
Ouvindo o voffo canto,
Se deicuidaváo tanro,
Q
i2
e as cabegas artonitas erguendo,
Deixaváo de ir comendo ;
E fe inda alguma a relva maffigava,
Como preza entre os (lentes lhe ficava.
Manfos os paffarinhos,
Deixando a leve habitaçáo dos ninhos,
Vos andaváo cercéndo,
Liçóes de vós tomando.
Q2antas vezes o Tejo
Deitou por fóra as aguas, com defejo
De poder de mais perro
Ouvir da voffa mufica o concerto!
Vede, Paffor,
, agora
Se a voffa voz fonora
Aves, gados, e nos punha cm calma,
0,2e rada ás potencias da rrlinha alma
Coi
Os
V6
Q.11
Poi
Co
O
Se;
E
;Se
Pa
56
Ds
N
A,
N
Oh
Que
DE J. X. DE MATOS.
zis
Oh guamo
devo á voffa companhia!
Comvofco divertia
Os
meus juitos pezares;
Vós fabieis
os MetIS
particulares,
Que de ninguem fiava ;
Pois fó
cm
vós achava,
Como fe
foffeis hum Paftor mais velho,
O experto
avifo ,
o próvido confeiho.
Vós
me
claveis quinháo na voffa terra
Sern
que
houveffe
entre
nós huma f6
guerra;
E guamas
vezes com
igual
,fartura,
S
endo voffa
tambera: a
femeadura,
Participei do fruto, e do
agazalho,
Que
deo voffo trabaiho?
Náo fou daquella
gente,
em
culo vicio
Só
le/libra,
em
guamo dura o beneficio:
Daqueila
gente da
razáo alhh,
De que ha tanta (inda mal!)
na noffa Aldla.
Qjuern
me quena
achar
toda a feroana,
1-ha á
voffa cabana:
Nella vivia mais
do que
na rninha,
Aonde
me
detinha
Mil horas,
fem faber
que
eráo pairadas,
Que fe>
conivofto
me
náo sáo pezadas.
Oh
216
RIMAS
Que proveitofos coritos,
De exempio alli táo prontos,
Trazieis na memoria
Para qualquer hiftoria,
Para qualquer confito,
Dando logo a razáo do vofro dito!
Todo me efiá lembrando a toda a hora,
Como fe fofre agora
Neflas confideraçOes pondo
o
fentido,
Ando como perdido.
Queixo-me aos troncos, que fentir náo podé,
E torno-me a queixar, pois náo me acodem:
Náo ha montes, ribeiras, náo ha prados,
Que náo tenháo ouvido os meus cuidados.
Dizendo alTira meus males,
Mais compridos ainda que cites valles,
Dota cornigo no outeiro, -
Que fica mais fronteiro
Da voira vizinhança ,
Fixando nelle os oihos, e a
efperança
De inda torwr a ver-vos.
Ah! Que náo fei dizer-vos,
Como
fico
triflonho!
E mais guando fupponho,
Que efquecido talvez do afredo nolTo
Vivais bom Jofefino , e que náo
Só para que melhor la vos afila,
Levar o corpo aonde mando
a villa.
E de
Ale
Neft
E, c(
Vivo
Náo
Not
Náo
Da
Por
Sen
Tat
Qu
Ob
Q11
Dal-
Af-
Ll
D
E J. X.
D
E
r‘l
A
T
O
S.
217
Dalli defappareço ,
E de novo começo
A lembrar-me de v6s, paffando os dias
Neftas, e femelhantes asonias.
E como o meu cuidado
Vive fórnente deltas occupado,
Náo potro de mim dar-vos
Noticias, que náo façáo magoar-vos.
De huma duzia de ovelhas , que me deráo
Náo fei fe tenho tres , as rnais rnorréráo.
Dous dias
, que cm bufca
Da minha vaca fufca
Por todos elles montes ando á toa,
Sem ter della noticia má, nem boa.
O
branco bezerrinho
Tambem levou carninho.
De mim julgo que foge a outra gente:
Quanto vejo prefente
Obfervo táo mudado,
e
por tacs modos,
Que creio que pesuei meu mal a todos.
a
2'8
RIMAS
Mina nefle fombrio
Monte, deferto , afpero , e bravío,
Vendo fempre defpidos arvoredos,
Debruçados penedos,
Sem ter quena me confole ,
Vivo fó entre gente efiranha, e mole;
Entre quatro Paffores todo o anno,
(Ah defgraçado Albano!)
Sem faberern fallar mais que no arado,
Na tofquía do gado;
(Olhai que lições tómo)
E nifto labe Deos ainda o como.
Pois fe acafo fe trata outra materia
Mais polida, mais feria,
Dizem que he coufa feia
Metter a fouce na fcara alheia.
Cuidáo fómente cm ferrolhar o milho,
Se lhes foge hum novilho,
Náo berra cm bufca delle a vaca tanto
Pelos °metros, guamo
lIum delles fe amofina, agaffa , e anda;
E ern fim,quandoDeos qucr que as coufas manda,
(O que elle náo permirta) eng,roffar a cheia,
.AfFoga-lhe o rebotaba
,
e alaga a Aldea.
te
Cos
Sea-1
Elle
A t
C22t
En
Me
O
Na
Sen
De
Ind
Ser
Co.
0.11
To
Pai
Qn
Tr,
No
Eis-,
DE J. X.
IDE
MATO S.
219
Eis-aqui como o Mundo fe govema;
em confusáo eterna,
Colno deíde que he Mundo fe colluma,
Sera efperança de melhora alguma:
Elle dá qualquer gottó-
A trocó de mil dias de defgollo:
Que vezes no que vejo,
E no que vou pintando no defejo,
Me fuccede inda agora?
O que provera a De,os que alijan no fota1
Q2e foi aquelle meu contentamento
Nas vcfperas do notro apartamento,
Senáo cerro prefagio
De ter eu que paifar elle naufragio?
Eu mefmo em mim fentia,
Inda na maior força da alegria,
2
Ser ella na verdade
Como contra vontade:
Que anda j'a mm de longe a Sorre efcura,
Tornando fempre o rofto da Ventura,
Para que a náo conheça
[da,
(bando para enganar-me me appareça,
a,
Trazendo, como viftes,
Nos alegres lindes agouros triftes.
ron!.
L.
0
2
.
20
RIMAS
O
mais fupponde-o vós: No fei dizello
Que afshs no fas..c• pouco em padecello;
Pois fe
a
hifloria, que n' alma anda gravada,
Pudeffe fer fiada
De palavras, talvez que por comprida,
16 cm comalia, confumille a vida.
Paffai, amigo, a 1:oil-a
Com defeanços na clioça, •
Com proveitos na lavra,
Sem que fe vos trefrnalhe huma fó cabra;
E fe no monte andarem,
No tempo que pailarem,
Em vez de agudo cardo que as molefle,
Lncontrcm branda relva, je ihes preite.
Primeiro do que aos mais o trigo crefga,
A fruta amadureça
Na volfa terra tarta, e abundante,
E o Paffor !h da ferra mais dittante
A Sorre vos inveje;
Mas fem faltar a elle, a vós fobeje.
E tanto da Ventura
Sejais a mais valida creatura,
Que neffes campos mora,
(li
j
e allim como anda agora
Buicando para mim novos tormentos,
Invente para vós contentamentos.
Fi-
ví
Del
Qu
Qui
Ma
Da
E
Fas
Ef
Dil
1VL
1\13
De
A
De
Cc
N a
Ire
M.
Finalmente abanado
Vivei, Pallor honrado
Deffes grandes haveres ,
Que dá Pomona , e multiplica Ceres;
Que eu outros náo procuro,
Mais que viver feguro
Lá na voffa lembrança :
Dai-me
fegurança;
E de
-
forte nenhuma
Faça em vós a diaancia o que cofiuma.
Nem receeis que poffa em curra idade
Efquecer-me de vós; porque a amizade
Difpoz cm meu afea° verdadeiro
Mais forçofas raizes que hum fobreiro.
Paffai alegres
Nas doces cornpanhia.s
Deffas gentis Paftoras:
Vós ji iabeis as horas,
A que ellas váo ao rio, ou váo a fefia:
De tarde na ilorefia ,
Com ellas de máos dadas,
Nas danças engraçadas
Deis de Amor cantando;
Mas vede, amigo, no venhais chorando,
Qge dellas 1
-
6 sáo lagrimas o fruto
De que inda trago o rollo mal enxuto.
Pii
Mas
DE J. X. DE MATOS.
221
IL
222
RAMAS
Mas ron bom difcurfo nada ignora:
Diverti-vos embora;
E lá do grande Menalo vizinho
Achareis de carninho
A communicaçáo dos feus cultores,
Que com tantos fuores
As terras fabricando,
Utcis , e novos troncos enxertando,
Tvloaráo a preguiçofos defcuidados
Mil faudofos ftutos fazonados.
Ouvi-os lá cantar corn voz mais alta',
E não vos fará falta,
Por triffe, e por pequena
A baixa voz de minha rude avena.
Ir
E agora, que de todo enrouquecida
Delta a refpiraçáo desfalecida
Da frouxa voz cançada,
(Porque
.
fa começou deaemperada)
Permitti-me que hum pouco defcançando,
Nova força tomando
Vá, para dar-vos conta , como quero ,
D'outros matores males, que inda efpero.;
o
A
N
.o
I.
A mil tempos, bom Silva , que faudofo
Da voffa companhia, determino
Ir ver-vos, como poffo, aiim queixofo.
O como, o guando, e os modos imagino ;
Mas as coufas baralháo-fe de forte,
Que eu mefmo dentro dellas perco o tino.
Ante mcus olhos vejo a fria Morte
puafi lançar-me a máo, e náo me arredo,
Porque eflou já difpollo a todo o córte.
Tenho ás moleflias tío perdido o medo
Q
.
32.e cahem fohre
corno fe déffem
Já no cOrpo infenfivel de hum rochedo.
Affim meus males, Jofefino, crefcem;
.Aflim nefie meu corpo magoado
Novos finaes funeflos apparecem:
Languido
9
pulfo, o rollo deshotado
O paffo lento, os olhos fem viveza,
O langue frio, 9 animo cançado;
Em fim tío pervertida a Natureza
Dos fyficos principios, que náo tenlva
Mais qualidades, do que a da trifteza:
Com
DE J. X. DE MATOS.
22;
nn
•
2/4
RIMAS
Cm ella a vida f6 'he que entretenho;
Nem eu por outro modo viveria ,
Pois já com alegrias náo me avenho.
Envolto aflim
\
no manto da Agonia,
O amortalhado efpírito preparo
Para o fatal, e derradeiro dia.
S6 entá'o he que efpero amigo charo,
Depois dos trilles dias , que aqu, levo,
Que me amanheça outro horizonte claro.
Nem fei como a fallar inda me atrevo;
V6s o vereis na rnefrna frialdade,
35
Corn que ellas raz6es minhas vos efcrevo;
1-7í
E fe confervo algurna affivitlade,
He 1
.
6 para fantallicas idéas,
E
Que augmentáo mais a minha enfermidade.
E-u revolvo as Eftrellas , e as arlas,
Metto-me n'outras coufas de alto dado,
Da rninha coma, e profifsáo alh'eas:
Faço tornar a vir, o que he pallado;
O
que inda no chegou, faço prelente:
Como anda o tempO
em
mim defconcertado!
Ve-
Ve
Cu
A
Vejo em defcanço alegre alguma gente,
Vejo outra toda a vida trabalhando
Cuberta de fuor,
, e del-contente.
Em fantazias tacs de guando em guando
2
(
Fois o quer affim n-iefmo a Providencia)
A fanta Providencia ellou louvando.
Defejo armar a todos de paciencia,
Qi2e he 16 aquelle bem, que me ha ficado,
Para fazer aos males refiftencia.
Enfermo , ou so , em baixo , ou alto eftadQ
35 náo terno Fortuna, que eu fó potro
Eazer-me venturofo , pu defgraçado.
Se dentro de mirn mermo me alvoroço
p
Effeitos sáo da fraca humanidade,
Q2e náo fe regern pelo arbi.rio noffo.
Amigo, ter valor, a adverfidade
He hum rico veftido, que orna , e enfeita
O homem na rnaior neceffidade:
A pompa vá tambera
fe
lhe fujeita
3
A Fortuna náo dura, e a Natureza
iguala a todos, e a ninguem refpeita.
Cal-
DE J. S. DE MATOS.
225
226
RIMAS
•
Calce embora a magnífica riqueza
O dourddo corbona
°
, com que piza
A
defeaiça humilifiiina pobreza:
Que a carne do Filofof
°
precifa
De bern facil fuftento, e cuberiura ,
O corpo acaba, a alma fe eterniza.
Jaae-fe a Fidalguia„ ou a loucura
Defre explendor dos Lus autepaffados,
Que codos ha de aehar na lepultura.
Mollre co'dedo os porticos gravados
De genero fos timbres; que cu fertadnte
Terei os virtuofos por honrados.
Cançai, amigo, o braço honradamente,
Que ailirn fe abre o carninho á Fama , e gloria,
Deixai fálar eiTa inienfata gente:
Se o voíro t'orne fe no ler na hifieria„
Din
-
o náo fe vos dl, porque ando neila
Muitos, que sáo indignos de merncria.
A fama efl'a fómente em rnere'&11a,
Confeguilla he acafo, e ráo virtude;
E vós dentro cm vós rnefino podeis tella,
Sua
A
Já
Se
O
Do
Os
Ba
Va
112
IJ
O
DEI. X. DE MATOS.
227
O trabalho mais afpero, e mais rude,
Suave, e nobre fe fará , corn tanto
Que de hum honrofo proceder Le ajude.
Aqui tecIra en rnais alto canto
A voffos altos doris, fenáo anara
Já efia lyra convenida ern pranto.
Oh quien/ antes que a vida fe acabára,
Se quer a par de vós corn fingeleza
O rnais que fimo em rnim ,•commu.nicára!
Agora ao brando fogo na afpereza
Do defabrido Inverno efpeculando
Os fegredos da fábia Natureza :
Agora o penfamento levantando,
No como os infoffriveis talladores,
Baixas, e vis materias ptaticando
Mas revolvendo amigos Efcrítores,
Varias razaes, diverfos ienrimenros,
Ceno manjar das almas ínpriores;
Mas efies racionaes diverrirnentos
Haviáo fer, amigo , fepar2,dos
Dc confufos, e tallos tratam,enlos,
La
228
RIMAS
Lá neffes campos bemaventurados,
Pat'onde foi a candida innocencia,
Dos
Fuginek) cá dos animos dobtados:
0.2e
De hurn cafal na pobrifTima aíliftencia
y
Onde não nos mordeffe, nern ladraffe
Der
De zoilos vis cruel maledicencia:
Vel
Alli verja hurn hornera, quancio nafce
A blanca, e roxa Autora no horizonte,
Do!
Moftrando á gente
a
lurninofa face:
Par
Ir manfarnente o gado para o monte
Comer da branda hervinha , e maftigandu
Va
Defcer a procurar a frefca tome:
Ve
Sahir o boj pacifico, inclinando
.Ao duro jugo o milico pekoço,
De
Pelas redondas ventas fumegando:
)No
O
geral, e follíciro alvoroço,
Com que para o trabalho, a choça abrindo,
Po
Ná
Sabe o velo encurvado, o ag,i1 moço:
Brotar depois a fruta, que apparece
No frondedo raminho pendurada ,
D(
Que cm tempo accommod.do amadurece:
Ef.
3
Eflar ouvindo a mufica alternada
Dos doces namorados paffarinhos ,
Qe a meus brandos ouvidos nunca enfada:
Vellos andar faltando nos raminhos,
Depenicando as folhas inquietos,
Vellos depois voar aos altos ninhos:
Oh ! Qz2e dignos feráo effes objeaos
Dos cuidados de hum animo innocente,
Para eflar contemplando cm feus fecretos
vamos, amigo, dai-me a mão contente,
Vamos fe quer hurn dia em noffa idade
Ver o roilo da Paz refplandecente.
A Deos , vans efperanças da Cidade,
Deixai-me ir acabar os triftes dias
No fanto Domicilio da Verdade.
Mas ah! Qpe todas eflas alegrias,
Por rnais, e mais que certas me pareção,
Eáo pafsáo de fonhadas fantazias!
Aquelles- negros Fados, que no cersão
De perfeguír-me, pondo-fe diante
rara prender-me os paffos, fe atravefiáo.
En
DE J. X. DE MATOS.
229
En vejo, en vejo o horrido femblante,
Com que me eaáo dizendo ,
(ab charo amigo)
Que]
Que nunca chegará fío doce infante.
Inda
Eaas confiderações, que andáo comigo,
Para confusáo rninha he que fe inventáo,
Con-
Qt
.
te en mermo me convenço , e me deidigo.
Me
Qtaes pelo Ceo nas nuvens fe aprefentáo
A'vifta
mil fantafficas figuras,
Dep
Que desfeitas no ar logo fe aufentáo:
No
Tacs as minhas erradas conjeauras,
Levan
t
ando caaellos (obre o vento,
Sua
Andáo fazendo vans arquiteduras;
Pois
4
E corno tem táo fragil fundamento,
Qpanto havia formado em militas horas,
Os
Perco logo de vial n'una momento.
Dep
Bem fiz por me entreter nenas demoras
A
Fprtuna outra vez com efperanças,
Con
Que de l'alfas im.agens sáo pintoras;
Cor
Mas en que a temerarias cOnfianças
Já. ouvidos náo dou feguramente,
Q1.1
Defvio do defejo
ea
'
as
lembranças:
Beij
Af.
230
RIMAS
Náo
Aflim pudera eu táo facilmente
'o)
Quebrar
,
d' alma as prizóes, que envergonhado
Inda arrollando vou por entre a gente.
Asprizóes doces de hum grilháo dourado
Com que Amor , nieus defejos enganando ,
;o.
Me fez parecer leve, o que he rezado.
itáck
Eu lile fui ao principio repugnando,
Depois-com menos força me efquecia
No milagrofo galo contemplando:
Aflim foi a razáo de dia em dia
Sua virtude natural perdendo,
pois
fó pela vontode fe regia:
E qual foberbo tigre, ,que mordendo
Os novos ferros da prizáo que eflranha,
Dcpois já'coftumado os voi lambendo:
'Oefta arte,Amor, que fempre me acornpanha,
Convertendo a violencia em fuavida,de,
Contra quem j'a náo val esforço, e manha.
Comigo faz táo meiga fociedade,
Que lb. por galio de lhe fer captivo ,
BeijO o
,
grilháo da mirilla libeldade.
'as
DE J.
X.
DE
MATOS.
2;I
23z
RIMAS
Náo baftaváo trabalhos, com que vivo;
Mil milhóes de fuccefibs náo cuidados,
Que me trazem da gente fugitivo:
Refpoflas
defprezos obrigados,
Vans cfperangas, feias impofinras,
Sufpiros de trilteza ao vento dados:
Enfadonhas molefiias, largas curas
Para a vida, táo perto de perdella
No rucio de tamanhas defventuras?
Senáo tambem agora no fim della
Ter mais cae contrario de fobejo,
Para poder de novo aborrecella.
Mas nos males crucis, cm que me vejo,
56 me fervíra, amigo, de foccorro
Hum Bem, que n'alma pinta
o
meu defejo:
Que era ter (mas de balde cm firn difcorro)
Ruma certeza fó de que vivia
Na memoria daquella, por quem morro:
Eis-aqui como levo a noite, e dia ,
Sern ter a quem me queixe, que náo faga
De meus trates errores zonallaria.
Di-
'A
(II
O ri
1-Ion
Fon
Que
A fe
Se a
Cor
Ver
-Que
Ver
Por
Por
Ditofa gente feita de outra maffa,
quem de Amor o dardo
MaiS
agudo
O
rijo coragáo nunca trafpaila
Ciabáo-fe de hum efpirito fizudo :
Homens de carne, e pedra juntamente,
Fortes por condiyao, náo por efludo.
iNá.o fei que tern Amor com certa gente,
Que fempre fisio della, e fó fe inclina
A ferir mais hum' alma intelligente.
Oh das mortaes paix5es , paixáo mais digna!
Se algurna culpa mollras , no .he tua,
He 1
.
6 de quem táo mal te determina.
Q23ein ha no Mundo, que de ti' fe exclua?
Correi v6s, homens, todo o Mundo inteiro,
Vereis efta verdade pura, e nua:
Vereis tremer de Amor o Heroe guerreiro ,
-Que náo tem
i
era- de Mavorte as iras
Vereis de Amor o fabio prizioneiro:
Vereis chorar ao fom de tantas lyras
Por elle as altas Mufas , fem que feja
Por fazer agradaveis as mentiras.
o
ro)
DE
3.
X. DE MATOS.
23;
34
RIMAS
O
meu grande Carnees, que cm paz efieja
Em guanto andou no mifeto defierro,
Para próva de tudo me lobeja:
Elle defles , que fallo , nota o erro;
Pois teve amor, e muico betn labia,
Que doutos coray6es náo sáo de fetro.
Com elle defabafo, elle me guia
Das Canoras Irmans ao claro accento
Cona lea doce, e immortal Poefia,
Bem que já a Mufa fem calor,
e
alentó
Com defgrenhada fronte, e voz chorofa
Fere táo mal as cordas do inftrumento ;
J'a no meio de vida táo penofa
Froxa , e cançacia ella
de
andar forçando
Táu frios verlos, que parecern prora:
Naquelies, que vos ouço citar cantando;
Tenia o meu mais certo formulario,
Se inda fizeire alguns de guando cm guando.
O bom Lima, que he delles Secretario,
Bem fabe as vezes, que embebido os lelo,
Quando aqui palio as horas folicario.
Se y
Que
nt
A
m
Den:
Mais
ia,
DE J. X. DE MATOS.
'1331
Mais de
mim
vos contára; mas
receio
0.:
L
ie
corra de tal forte elle meu pranto,
Que para o fufpender náo ¿che freio;
E fe por cafo grande de alto efpanto
Se vos fizer incrivel defta forte,
Que hornera já moribundo falle tanto,
Sabei amigo, cm fim , que cm mal táo forre
n'áo bu eu quetn faz táo longa efcrita:
má Fortuna he fó , que até na morte
centro defte rneu corpo falla, e grita.
3
Lis
"10
RIMAS
Abio Jurifconfulto,
Da Juítiça eiplendor, freio do infulto,
Em cuja máo reaillima defcança
Todo o equilibrio da legal balança:
Se o julto minifterio,
Qge a hurn tempo exercitais piedofo, e
ferio;
Ern táo importantillimo negocio,
Vos permitte algum oció,
(Porque nem fempre he vicio
Nufpender o exercicio;
E
faz, que o arco a enfraquecer-fe venba,
Quem fempre em comprimillo a força empanha)
Depondo por hum,poueo agravidade
Da voffa authoridade'
Permitti-me: que poffa
Ir á prefença voffa;
E
para vós, Senhor, de guando em guando
Eftes medrofos olhos levantando,
Livremente eamVofco falle, é diga
QLianto a Fortuna, e a razáo me obriga.
Entrei, Senhor, no Mundo táo malquifto,
Que inda náo
t
inha viffo
Raiar neile a formofa luz do dia;
•
já me faiecia
O piedofo alento
De
met primairo maternal fuftento.
Trift
Tri
De
Co
Ná
En
De
Da
Vi
En
Se
E
Já
Po
Po
Mt
ito
De
NI(
Ne
Le
At
o
Ct.
DE J. X. DE MATOS.
TrifI infallibilidade
De huma futura trahalhofa idade!
Com ella fui crefcendo,
Náo fei fe mais durando, que vivendo
Ern continuo defprezo,
Depois ao lume accezo
Da razáo natural, que cm mim crefcia,
Vi que por força de huma Elarella impia
Em
.
vida táo pequena
Se comprehendiáo feculos de pena;
E ás curtas horas de meus triLles anuos
la excedia o numero dos danos.
Mas ella, que fedenta
Nunca de grandes males fe contenta;
Me piSe de todos no maior perigo ,
Por ver fe acaba de hurna vez comigo.
roucos annos beijei a mão paterna ;,
o
Porque outra rao, que rudo emfiin govetta,,
Me poz em huma mífera orfandade ,
,Aonde não,herdei mais que a faudade.
Defde entáo conhecendo
Melhor o Mundo, que
já
agora entendo,
Nelle peregrinando
Levei fernpre arraftrando,
Arado á paciencia,
O pezado grilháo da dependencia;
Que em lugar
deaa forte,
Cuido que o ufo ajada o faz mais forre.
tift
,Qìi
Sa-
237
2;8
RIMAS
Sacudillo de mim ji quiz de rodo;
Mas em váo me cancei ; nem de alguna modoi
Encontro quem me valha,
(be
todo o Mundo contra mim batalha.
Encontro hurn valle, guando bufco hum monte;
lVforrendo eflou de fede ao pé da fonte;
Só para mirn, náo fei porque fegredo,
Nafce rnais tarde o Sol, p8e-fe mais cedo:
A ordem natural de mim fe efquece;
E já de horror, de enfado me parece,
Que até lhe cufta diipender cornigo
A terra encuito, as arvores abrigo.
Como não ha de a rnifera Fortuna
Ser-me táo importuna,
Se para fegurar melhor
a
empreza,
Se poz da fua parte a Natureza
"Vede agora, Senhor, com que efperança
Nos hornens hei de ir p8r a fegurança:
Hum fó por me náo ver, foge, e fe efconde;
Ourro por mais que o chamo, náo refponde.
Efle immovel fe faz, foberbo aquelle;
E eftou dianre delle
Cheio de hum folfrimento táo precifo,
Como a réo cm Juizo.
()Jamo 'mis me ello vendo,
Mais váo endurecendo:
Ser
Ale
Hu
Qg
Ser
Ou
No
Pei
(111
14:á
Qu
De
Or
A'
Le
Cc
0]
M.
Ni
Hi
SeM*,
:e;
io
DE J. X. DE MATO S.
2
39
Sempre acho nelles huma fria efcufa ,
Que
mais fez a cabeça de Medufa?
E fe a algum defies fe lhe ve na boca
Alegre differença., he que o provoca
Hum odio disfarçado ,
("pe val fempre no rifo mifturado.
Sem longa experiencia
euem náo fe enganará del'ca apparencia 1
Nova efpecie de féra,
Peito de pedrenal, reflo de cera.
Mas já do Mundo errado,
Que tanto me enganou defenganado,
Náo fou como algum
Que as vans prometí
-
as da efperança cria:
Delle fugindo vou , e a feus enganos,
Mas fem proveito confumindo os annos.
Ora da trate idéa , que me inclina
A' folidáo da pafioral campina,
Levar me deixo para a pobre Aldla;
Mas rambem a zizania alli feméa
Contra mim novos males, novos danos,
Que cm toda a parte ello chovendo enganos;
E l naquella gente,
•
(be eu fuppunha viver rnais fimplesmente,
Acho da mefma forte
Os clefconcertos, que obfervei na Corte.
Ora bufco outra. terra;
Mas fea
ou Corte, valle, ou ferra,
Náo ha, por mais que corro, ou que procuro,
Hurn lugar, onde ponha os pés feguro.
Qgal
240
RIMAS
!as
Attt
E
Ach
Da
Dai
CO1
Del
Ef
As
Poi
Ca
En
o
Da
Or
Ru
Ei
E
N
N
Qual o
CerVO
ferido ,
Que cm fi leva efcondido
No mortal infirumento
Da vida o
-
temió , e Ibais veloz que o yerno
Em váo fw,indo...vai e cm váo le cança ,
,L.
Que a pomos pálTos fernpre a morte o akarna;
Affinir ,eu , guando fulc, á minha Eftrella,
Mens5s me aparto della;
Que mal poffo
.
efcapar,defle perigo, .
Se aonde quér que fujo, vou comigo.
Em firn para contar-vos mudamente
De meu Fado inclemente,
Quahtes cafés por Intiu já rem
paírado,
„As vezes que pizado
Fui dos pes .infolentes
Do defprezo , de amigos , e
parentel,
As injultas vinganças
:
, que héi foffrido,
Ser cm todos os
latid-es
preterido,
Confumindo cm demoras
Infrudiferas -horas;
zTamas nifio. gaara ,
Qe
em mirn pritneiro
a vida fe acaMra.
De algum Afro a benefica virtude,
Fazeruto em mirn , que a amiga Lei te mude,
Me deitou odia terra
Onde o Fado me faz mais In-anda guerra,
Seno for de mens males nova rraça,
TQC
Gomigo
defcuidos a defgraça;
Mas
DE J. X. DE MATOS. 24,i
Mas voffa prefença
Attribuo, Senhor,
, tanta diffrença;
E fe fugindo venho, onde he que poffc•
Achar rnelhor amparo do que o voffo?
Dai-me (fe
be que
merep confeguillo)
Da voffa.,rnáo o podetofo afylo
Dai-me, Senhor,
, que ainda a defventura
Correr atrás de mirn fe me figura:
Defla hydra mortal Alcides forte,
Eflingui de hunl fó córte
As pulantes cabeças renovadas,
Por meu cafligo fempre em váo cortadas;
Porque fó pede a voffa heroicidade
Cauterizar táo vil malignidade.
Ern mim mefmo a defgraça vos offrece
O mais nobre intereffe,
Dando-vos hum motivo,
Onde fe próve o voflo esforço altivo.
Nunca os bomens mais Deofes fe parecem,
Que guando favorecem:
Derribar fortalezas,
Romper muralhas, confeguir emptezas,
Armadas dirigir a Climas novos,
Em fujeiçáo dos Ovos,
Pór atTedio 'as Cidades,
E o mais, que o Mundo chama heroicidades;
Nada diflo ferá de tanta gloria .
No futuro ¡Inmortal pregáo da hiftoria,
Co-
a;
242
RIMAS
E
Corno fazer hum peito generofo,
Rico a hum pobre, feliz a hum defditofo;
Vós , que melhor fabeis quanto eu vos digo,
Ea virrude exercitai comigo:
Náo entendais que ínvejo
Effa aura popular de hum váo cortejo.;
Nern me renta a ambiçáo infaciaver:
Tenho fina huna defejo mais louvavel,
Vlais racional , mais pio, mais prudente,
Que me faz defprezar natúralmente
Patios de rico, prefumpOes de Noble;
Poi
s rudo piro
I
e
r
e mais fer pobre.
O que fómente quero,
E o que de balde ha tanto ternpo efpero,
He arrancar ella agil mocidade
Da inutil, melle, torpe ociofidade;
De quena tantos defmanchos perigofos
Sáo filiaos monftruoios:
Sómente infedos vis geráo , danadas
De cortupçáo as aguas encharcadas.
Quero fó ter hum meto,
Com que me encofte a alguna honrado efleio;
Porque mai, defcançada chegue a vida
La ao fim da carreira bem fabida ;
Que, a quem táo polaco inveja,
Lf.to náo fó lhe bafta, mas fobeja,
Em
Aca
No
Faz
Def
S
De
E e
Erg
Ah
QH
Fu
'Dei
Ea
Dei
Ale
Fet
Oìj
Ca
5e
E
IV.
DE
3.
X.
DE MATOS.
E fe as conftantes Leis da sá JuPtiça,
Frn vós nunca rerniffa,
Acafo náo ofrendo
No pequen° defpacho que pertendo,
Fazei á Patria hurn proveitofo filho,
Defie que he da Republica ernpecilho.
Se affim me acontecer, como confio
De hum coraçáo táo
;
E entáo me virem com alegre rofio
Erguer do baixo eftado , em que ettou
Ah Senhor ! Corno he crivel,
Qzie a defgraça infoffrivel
Fugirá. de me ver torcendo a vifta
,Ra'ivofa de perder ella conquala,
Deixando o feu arrojo
Na voffa máo por mifero defpojo.
E lá depois, que a minha rouca lyra
Deixar
o
enfermo fom, com que relpira,
Alegre, e fonorofa
Ferida defla máo menos medrofa,
Q2e
a temperalla agora mal fe v.treve,
Outro louvor rnaior,
, que fe vos deve,
Cantando efpalharei por
t
oda a parte;
le a tanto me ajudar engenho, e Arte,
)
En.
IV.
V
O's , que da rica rnáo da Naru reza
Recebeftes os dons, que ella mais pféza;
Aquelles altos dons de foimofura,
De graça , difcriçáo , de compodura,
CIDe ratas vezes por occulro arcano
Unir-fe labern no cornpofto humano:
V6s
.
, que por força de hum penfar feguro,
Illuminando as fombras do futuro,
Dos mefmos coraç6es, e entendimentos
Penetrais as tenç6es, e os movimentos:
V6s, finalmente, qbe fabeis aonde
Allifte Amor, por nrais que Amor fe erconde¡
Náo entendais que a declarar-vos veniio ,
Se acafo tenho amor, e a quem o tenho.
1\/1
Venho á yo
g
a prefença ,
E;
56 como aquelle , que cm-
:
mortal doença,
S<
Dos ardores da fehre feote a calma
Qge atenuando-lhe as potencias d' alma,
A cada infiante affliao delirando,
e
A' fecca 'nigua le lhe váo pegando
3
As truncadas palavras , fern que tenha,
I\
Qpando o Medico venha ,
,..
C
Elum habil enfermeiro , hum afluente,
; .
C
CI,De exponha miudamente
3
Com zelo , e com piedade
7
Os progreffos da tonga enfermidade,
(22
De
E
Fai
En
Vt
Cc
Dt
Itt
Pa
244
RIMAS
de;
Enfermo vivo, mas de hum mal táo forte,
Que cm vida bebo a cada inflante a morte:
Defamparad
o
ellou , Amor me mata,
E ajucla-o a matar-me aquella ingrata
Que 1
-
6 c'um favor feu , que emfim
me
détre.,
Paria que pudeffe,
Em lugar ce matar-me de defgolio,
Ver-me morrer de gofio.
Com cite bem , que pouco lhe cullára,
De inirnigas Etitellas me vingára:
Ito
f6, ifio fá me bailarla,
Para dizer ao Fado, fe algurn día
Me
t
ornaiTe, corno boje, a fer contrario;
Que queres , temerario?
-
F,m váo, cm váo já agora,.
Depois daquella hora,
Em que tu compallivo , ou defcuidado
Me deixafte gozar táo alto citado;
Era váo, de tanta .gloria p.ezarofo,
Solicitas fazer-rue.defditofo.
Mas que contas so
penfamento,
Que andas férnpre a dcitar fem fundamento,
Mais que a vá conjeaura?
Eáo ha n-aior loucura,
Que andares nefia mifera memoria
Cortando os louros antes da viaoria.
Mas ah! Minha Senhora,
'Yudo
fine
quem ama, e
quem
adora.
:n.
Cetç
DE
J.
X.: DE MATOS.
245
2
4
6
RIMAS
Cercado eflou das lunas do inirnigo,
Cruel Amor, que fempre anda comigo:
E em tío ardua conquifia
Q
Náo volto a qualquer parre a trille
ue contra mim nao veja levantada
Eíra máo poderofa, e delicada,
Que inda tem !mis robufla fortaleza,
Que a dcfpedida bala, cm fogo acceza,
Contra foberbos muros,
Que os peitos de aço , que os broqueis feeuros,
Q_Ie de AlCides a clava,
Que de Cupido a vencedora aljava.
Peço que lhe digais,
Se tambera contra mina vos náo voitais,
Que cm
fim
(pois
o
defeja)
que me mate,
Que
excogite; que trate
Os mais tyranos gereros de morte;
Qe eu os erpero forte;
Náo para refiiiir-lhe confiado,
Mas a feus pés proftrado,
Para a morral ferida,
(Inda guando me culle a doce vida)
De novo o trille coraçáo lhe ofFerto
A
peito dercuberto;
Mas que repare bem , que fe me offende,
Náo contra mitn , mas contra fi contende;
Pois matar quem fe entrega ao rendimenro,
Bem que affegura, infama o vencimento.
Af-
1
Ná
En
Qu
E
Co
Sal
A
Ml
Cl:
Fa
Dc
E
De
Ne
01
Sa
Cc
56
(P
E
Ef
DE J. X. DE MATOS.
247
Affim de vós o julgo , affim o efpero,
Náo por mim , pelo multo que venero
Ern vós aquellas altas qualidades,
Que vos igualáo tanto ás Divindades
E mais que tudo , por aquelle affedo ,
Com que (faudofo de táo lindo objeao)
Sahir das ondas vejo
A efperar-vos contente o Padre Téjo:
Affim nunca o vejais correr turvado,
Mas antes focegado,
Claro , doce, fu ave, e abundante
Fartar-vos poffa toda a fede amante
Do voffo coraçáo, oh Ninfa pura!
E defcançando , de temor fegura,
Dentro das fuas margens, como entendo,
Nelle vos ellejais fempre revendo.
Náo cuideis que efla empreza
Offender pofra a voffa fizudeza:
Salvar a huna infeliz, guiar a hum cego
Náo he táo baixo emprego,
Como o vulgo infenfivel imagina:
Sómente huma alma grande fe dellina
(
Pois filbe o que he Amor)
a foccorrello,
E náo a defprezallo , e offendello:
E ló quena apadruaha, e quem refpeita
Effa paixáo, que as mais paixóes fujeita,
De benigno, de Nobre
Toda a grandeza, que em
í
tem, dekobre:
E
E em quem melhor
a
vofla poderla
MofIrar-fe atfavel , branda, heroica, e pia,
Qz
.
re em foccorrer em feu pezar profundo
O
maior trifle, que conhece o Mundo.
E fe eu merecer tanto,
Q
.j
e vos moya a piedade ene meu pranto,
INas brancas máos de Dinamene juro,
Por mina, por ella , e pelo fanto, e puro
Ceo , que ouvindo-me efta , que em quanto a vida
Deite corpo mortal náo for partida,
Corn vida, corpo, e alma,
Por yer
g
o frio, por ardente calma
Servir-vos-hei, Senhora, de maneira,
Q
ea
rnáo fobre a fogueira ,
sobre o cepo a garganta
Porei cern fé, e obediencia tanta,
4:be , fe pollivel for,
A meu mortal valor
Irei , Ninfa, por vós de qualquer modo
O
Inferno revolver,
e
o Mundo todo.
E ao foro da minha eythara piedofa,
Affim mefrno chorofa,
Cheia de m
l
agoa
'
cheia de afflicçáo,
Em quanto a füftentar na frouxa tnáo;
Proteflo toda a hora
De vós, minha Senhora,
Efpalhar,
, guando cante,
Louvores tacs, que todo o Mundo efpante.
V.
Que
<
Em b
Ahi v
Vos
De A
Ve
Ferer
Mas
Fazer
Dc
Mais
De 11
Nern
P6de
Qge
V<
E do
Qlre
Faze
248
RIMAS
As
L
°rinda bella, as obras paftoris,
Qge com tão grande empenho me pedis
Ern brand° verfo , em bem tecida profa,
Ahi
y
o-las remen° ; e mais piedofa
Vos peço , que vejais
De Amor tantos fucceffos defiguais.
Vede , que as fuas armas atrevidas
Ferem náo f6 as innocentes vidas,
Mas inda em duros peitos , como o voffo,
Fazem qual rajo mais voraz dearaço.
Do grande monte o curthe levantado
Mais peno eftá de Jupiter irado:
De Amor, e de Fortuna
Nern choça, nem tribuna
P6de ter fegurança ,
Qge Fortuna, e Amor a tudo alcança.
Vede pois que fazeis ,
E dos males
,
a,theios não zombeis ,
Qe
sáo de hurna alma indignos penfamentos
F4zer do,que he pezar diverrimentos.
DE
J. X. DE MATOS.
249
17.
250
RIMAS
As -mágoas, os retiros,
As afflicções, as anfias, os fufpiros,
O devotante fume
Do impaciente, do infernal ciume:
As duras efquivanças ,
As aufencias , as falcas, as mudanças
Em fin, de Amor táo longo prejuizo,
He materia de rizo?
Ifto náo he o mefmo que eflar vendo
De longe a hurn miferavel ir morrendo
A's máos do feu defgofto,
Sem querer acudir-lhe por feu gofio?
Ah Lorinda, Lorínda, guando
eu lia
As paftoris tragedias aigum dia,
Plum fuor frío o rofto me banhava ,
Sobre a máo encoftava
•A languida cabeça; e entáo de mágoa
O pranco
me
arrazava os oihos d'agua ;
iflo naquella idade ,
(Ah doce lempo!)
Em que inda na vontade
Náo tinha exprimentado aquelle effeico,
A que troj.e ió por vós vivo fujeito.
Neffe livro de Amor, cu?a efcritura
Contérn do monte a varia Jet-ventura,
.Aprendei os humanos fentimentos
Corn que haveis de efcutar os meus tormentos :
Divertí-vos embora ;
Porém náo com Amor, que fempre chora.
Dos
Dos
Se
pr(
Ah! D
Torná
Quant
Só de
E y&
Rirv
Ná(
Mas z
De A
Mude
E
que
Os m
De y
Do
q
Ve ja
Da cc
To
DE J. X. DE MATOS.
Dos
clamores da Aldla,
Se procurais encher a voffa idea
Ah! Náo fe diga, que indo a vós piedofos,
Tornáo a vir de novo mais queixofus
Quantos tem defmaiado,
SO de ouvir hum fucceffo defgraçado;
E N'Os, ouvindo tantos, pode reis
Rir-vos de Amor, zumbar de fuas Lcis?
No efpero de %T'as coufa táo dura;
Mas antes que cm ternura
De Amor, e piedade
Mudeis a natural ferocidade;
E
que guando efcutardes
Os rneus julIos pezares ,
De que poffo compdr livros iwaiores,
Do que o deffes Padores ,
Vejais quanta ficafles develara
Da coinpaixáo , que me negais agora.
Tom. L
VI.
zsz
RIMAS
A
AfTh
bel!
Cada
Logra
Qual ,
De mi
Dizen
Táo d
Náo
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Qie t
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Se
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Efta 1
Se
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Coof:
Mais
Mas
De ci
Eu o
Que 1
Que
O nv
VI.
M
Mía inimiga bella,
Gloria da rninha dor, e a caufa della,
Em cuja rnáo Amor depoíitado
Tem a minha Fortuna,
e o
meu cuidado:
Tu honras efes boíques,
e
eflas Fraias,
Ora encoftada á.fombra de altas fajas,
Ora pizando, guando aqui patreas,
Com branco pé as humidas arlas.
Tu envergonhas eftas Ninfas bellas,
Pois es mais linda, mais formofa que ellas;
Huma vetado-te epflá, como admirada,
D' entre a lirnofa concava morada;
Outra do banho fahe, e bracejando
As enroladas ondas vena cortando
C'o delicado peito: Deixa aquella
O rico fio, com que urdia a tella;
liuma deixa do Satyro o queixume,
Outra de ver os peixes cm cardume,
Corno falrlo na rede aos pefcadores;
E ora cheias de inveja , ora de amores,
Eftáo debaixo d' agua a huma e l'urna
Levantando as cabeças fobre a efpuma.
DE
J. X. DE MATOS.
253
Mina por ver-te, 6 Ninfa, fe alvorola
A
beililErna chufrna, porque poffa
Cada huma afta arte
Lograr de tanto bero táo grande parte:
Qual , para as mais
De teu Divino géfto eítá tratando,
Dizendo todas, táo Celeíte aceio ,
Táo defuiado géfio donde veio1
Náo fe recolhem , fem que tu te aufenres;
r
guando o fazem, trates, defcontentes
Ao Padre Téjo contáo,
Qs
j
e te víráo , meu Bem, e alli !he apontáv
As tuas perfeiOes, que nunca dizein ,
Por mais e mais que as exprefsóes repizem.
Se dizellas pudeffern, que diriáo
E
fe as viffem como eu, que fentiriáb?
Eu as vi, eu as vi: Com que minuta
De gofto, e de pezar fe me figura
Efta visáo ! 0' penhas circurnftantes
Se ettamos fós, direi as penetrantes
Coufas, que efta alma firmemente enferra
Mais entranhadas do que vós na terra
Mas até tenho medo
De confiar de v6s tanto fegredo:
Eu o direi cm
com ta
)
. cautella
Que o ou9a fó aquella,
Que foi a doce caufa, por que ni figo
O mal que p4fo, as
.
ew
,
7,refsócs que dile,.
Ru
No
?54
RIMAS
Náo cuides, Ninfa , náo, que da memoria
Rifeaf
mais fe poffa huma viecoria,
Que Amor a vez primeira celebrara;
Bern que depois cm mágoa fe trocara:
Inda tenho prefente
De mens dias o ¿ja mais contente:
Inda me lembráo os piedofos ais,
Os gefios, as palavras, os finaes,
As brandas petiç6es, os juramentos
Em tim os narnorados movimentos,
Com que ora examinando os olhos bellos;
Ora enfeitando os lucidos cabellos,
Toquei a face pura,
Onde Fiora miftura
A branca, e a roxa cór da madrugada.
Ah Ninfa delicada!
Todas citas razóes, fe me acreditas,
,
Vivem , e viverá6 nefla,alma efcricas!
Eflas as caufas sáo do meu defgofio,
Que me
vem
fempre na afflicçáo do rofto:
Ellas continuas lagrimal, que chóro,
Eafcem do que recelo, e do que adoro:
Olio cm fim para ti
i
-
e guando meço
Entre nt'is as diffancias , efmoreço:
Vejo que es !turna Ninfa celebrada,
E das mais altas prendas adornada
Eu hurn Paftor fem nome, que fe attenda,
Sem parte, fem razáo, que me defenda:
Tu
do
Os bo
Eu po
Só de
Tu de
Eu tác
Tu po
Que a
Qua
Po rqu
Depoi
E cert
O dar
Refoln
Que r
Mais
AlTi
Conhe
Que e
Náo f
Com
(Porqz
Me dt
De te
Oh!
De ta
Que,
Merec
Tu
DE
J.
X. 'D'E MATOS.
155
Tu
dominando os campos, fenhoreas
Os horques, e- as aras;
Eu pollo cm monte alheio , e táo deferto ,
Só de rufficas pelles mal cuberto :
Tu de formoCo roto delicado;
Eu táo mal figurado:
Tu polida; eu mais bronco
Que a groffa carca defigual de hurn tronco.
0
,
ual Lavrador,
, que alguma rez comprara,
Porque coni outros -náo fe aconfelhára,
Depois Ihe dizern todos, que he pequena,
E cerro que foi pena
O dar tanto por el/a; como lonco
Refolve-fe a largaIla por táo pouco ,
Que perde o pobre cm fim 1
.
6 por vendella,
Mais de metade do que deo por ella.
AlTim receio eu, que tu, Senhora,
Conhecendo algum' hora
Que effe amor repentino
Náo foca amor, mas fora deratino ,
Com que ao princípio para mim olhafie,
(Porque
conitigo nio
te
aconfelbascie)
Me deixes pezarofa
De ter fido cornigo táo piedofa:
Oh! Nunca chegue o dia
De tanto mal, de tanta tyrannia!
Que, inda que os teus favores valem tanto,
Merece-os o meu pranto
Me-
RIMAS
rvIcrece-os a conflancia,
Aquel!
A inquietação , o amor, o Inflo, a
anfia
Qye p
Que dentro d' alma finto:
E fe c
S6 neflas qualidades fou diftinto.
Suave'
Conft
Onde
Se aca
Se me
Seja a
Qze
Náo
Traze
Efe
Trufe
No tenho largos camros femeados,
'Que te roffa ofrecer, nílo tenho gados:
Náo poffuo colmas,
Vivo peregrinando nas Alaas
De cabana cm caballa:
Ilum mez aqui , além huata femana;
Mas tenho huma alma, bem que trirle , Nobre :
}Turna vida,' que he tua , ainda que pobre:
}km amor, que te iguala:
I-Iuma
fé ,
que a nenhum temor fe abxla:
Ern fim hum coraçáo , de quem tu fabes
A grandeza que tem , pois nene cabes.
N.o tenho outros haveres,,
Se difto re contentas, fe ifto queres,
Como jlt n
>
eutro tempo ficcedia;
Que para ti , ó Ninfa, no havia
Outro preço mejor.
Que huma alma cheia de hum
.
fincero amor,
Tudo
cm mira adiarás da mefrna forte;
E fe he pollivel, inda amor rnais forte.
Mas fe eftás 'de querer-me arrerendida
No te:.arrepndas de
me
dar fingida
Aquel-
Aquella
branda
merara de
piedade ,
Q
2
e paffou
tantos
tempos por—verisladeg
E fe
quer nefle engano ,
Suave
ao
mermo
tempo
que
tyrano ,
Conferva
o
meu defejo,
Onde tenho
mil mortes
de
fubejo.
Se
acafo
me aborreces, como
entendo,
Se me
deixares ,
de que
eflou
tremendo,
Seja allim, pois
o
queres;
mas
de modo,
Oze eu
o
náo chegue
a
conhecer
de rodo:
Náo
te
cuftara
multo
nelle
cítalo
Trazeres-me enganado
Elle
pequeno allívio
me
confente;
Trille
quem
de
táo pouco
ella contente!
TER-
DE
3.
X. DE MATOS.
257
25/
RIMAS
TERCETOS.
Irnofo Infante, Principe adorado,
Efperança :luís firme do futuro,
Confolagáo mais certa do paffado:
Amparai
cae
p/etro mal feguro,
Como fuccede a hera trepadora,
Qziando fraca fe arrima
ao
forte muro.
Nova Mufa me dai, pois temo agora
Defentoar no canto defta minha,
Por cofiumada as lagrimas que chota.
Oh Mufa a mais feliz! Q
l
tem te apadrinha?
Que ja fin:o fabir-rne a voz do peito
1
s
/renos
selada,
do que d'antes vinba.
Vós fois, ,Senhor,
, a caufa defie effeito;
Por ifío iicclaufulas pequenas
Ouvir-me-h^do o Mundo com refpeito.
E protegendo rufbcas avenas,
Ir-vos-beis coflumando de Menino,
Antes de ferdes Rei ,
a
fer Mecenas:
Qte
03.
DefF
l'era
No
Amy
Ven(
o
Que
Bem
AL
Den
V
Del
De
Que
Irá
Con
Nos
Que fe
o
forte Thebano cm pequenino
Defpedaçava já drag6es no berço ,
Pera he tambem
o
meu fatal Dercino.
Novo Alcides , Senhor,
, meu tofco verfo
Amparai ; que he mais ardua refiftencia
Vencer as forças de hurn Deftino adverfo.
Cluvi-me pois, ouvi-me fem violencia,
Que as raz6es da fiel finceridade
Bem pócle percebellas a innocencia.
Vós fois aquelle ramo, cm cuja ¡dada
A Lei florecerá conftantemente
Defla pequena amiga Chriftandade:
Vós fois aquelle fruto inda pendente
De huma arvore de Chriflo ao Ceo fubida,
De que hoje faz a Portugal prefente:
Vós fois aquella palma enobrecida,
Que na frente das noffas efperanças
Irá crefcendo para fempre erguida:
Vós o Iris fois daquellas feguranças;
Com que Deos táo benigno, táo piedofo
Nos promette pacificas bonanças.
Benl-
DE
3.
X.
DE MATOS.
2
59
160
RIMAS
Bemdito
Reino! Portugal
ditofo!
Vos
Se es do Ceo
táo bem
val°, e
táo mimofo.
Por
óbe ot
S
1
Oh
ná.o
te
affufles mais !
Oh
náo
l'oí-pires!
De
1
t
te
diz Affonfo,
que
refpires,
E
et
De
l
i
nefte feu novo defcendente
Vos e:
Te manda o ramo , o fruto, a palma, o Iris:
De yo
O
or
uardai,
como
promeffa,
cita. memoria
ente
Pa r:
Alvtneu Senh ! AIeu Principe excell!
cCohm
eio
De
huma
boca
infallivel,
que
náo
mente.
Lá
guando
lerdes
a
famofa hiftoria
Ves
Dos
voiTos Immortaes
Progenitores ,
Semp
Vereis mais
altamente a
voffa
gloria:
,
Enfre
i*
Vereis ,
que so eternos moradores-
Ve
--
Do
Verdadeiro Olympo , onde ficáráo
Com
Suftendo fempre
os Regios
Succeffores:
Defes
Vereis
o claro accento ,
a que
chegráo;
Ve
Náo
porque
foráo Reis,
mas
virtuofos
,
Do
N
No ardor,
com qUehuns aos outros
fe
imitáráo:
Da
f
Mas
voffos Pais Auguflos ,
e
famofos,
Vc
Qge
as
facrofantaS Less
da
heroicidade
Com
Sabem
dar, e
feguir táo cuidadofos ,
End
V
os
DE J. X. DE MATOS. z6t
Vos levarla á excelfa extrernidade,
Por onde com trabalho , e com defvelo
Sóbe a gozar o Heroe da Eternidade.
E cm quanto no podeis reconbecello,
\ Vos cía preparando burn novo eftado
De voffo Augufto A
y
a o amor, e o zelo.
Para vós vai creando efte Reinado
Cheio de gloria, cheio de exceliencia ,
Com que fe faz no Mundo refpeitado :
Vereis nelle invariavel a obediencia,
Sempre conftante a Fé, reeca a Juftiça,
Enfreada a Ambiçáo , muda a Infolencia:
Vereis a applicaçáo nunca remiffa,
Com que entretida a molle ociofidade,
Defentorpece os rnembros a preguiça:
Vereis feguir-fe as regras da piedade,
Do valor , da fciencia, da conftancia
Da fanta Paz , da juíta liberdade:
Vereis aquella radical fubflancia
Com que nutre o Cornmercio as Monarquias,
Encher voffos eftados de abundancia:
Af-
Em
Affirn vereis, Senhor, todos os dias
Com proveitofa fingular cultura
O
Reino florecer por tantas vias:
Como aquelle, que cm grande femeadura
De bem mondado trigo vai com gofto
Cortando a loura efpiga já madura.
Crefcei , qual tronco cm fertil chao difpofto
Que des que os largos ramos eicendlra
Servindo a tantos, vai de abrigo, e encollo.
Vinde
illuffrar de todo a Luía Esfera;
(li
j
e feudo milito, o que de vos alcança,
He muito mais o que de vós elpera:
Grao parte do feu pezo cm vós defcança;
E
já iem que o fintais fe differença
O
multo que podeis fó na efperança:
Por nós ao Ceo chegou fúpplica imrnenfa;
E
de raes qualidades quiz encher-vos,
Que fez maior que o voto a recompenfa.
Elle, que tanto fouhe enriquecer-vos,
Ha de, affeiçoado ao voiro gefto lindo,
De fafcina.ntes olhos defender-ves.
Er
Brini
Q„pa<
Hun
Outi
o
Ora
Ora
Efco
Qu:e
Ci
Nos
Tor<
A
já fi
Ban
S(
Defi
Que
262
RIMAS
DE J.
X.
DE
MATOS. 261
Em vós todas as Graças fe erro rindo,
Brincando trío comvorco melindrofas ,
Ques ao filho de Venus divertindo.
Do voffo tratamento cuidadofas
Hurna no berço de ouro vos reclina,
Ourra vos cobre de purpureas roías.
Ora Piro embalando-vos benigna,
Ora nos braços da rifonha Aglasya,
Ora no
brando coito de Eufrofina:
Para vós anda Theris ji na praia
Efcolhendo do mar alvas pedrinhas,
Qu_e a onda arroja, e lambe, guando efpraia„
Com ella váo as Ninfas mais vizinivs
Nes virginaes regaços apanhando
Torcidos buzios, concavas conchinhas.
A lona, e branca barba penteando
Já fobre as manías ondas apparece
Banhado ern goa() o Tejo venerando.
Seu futuro Senhor vos reconhece:
Defcubri-lhe eiTa rnáo candida, e pura,
Que ja para a beijar fe enfoberbece.
Voa,
Voa, 6 Fama veloz, pelo ar fegura
Sacode as pandas azas, val feguindo
O caminho, que te abre ella Ventura.
Defle Principe
o
nome diffundindo
A's mais remotas gentes, que encontrares
Na didancia, que vai do Tejo ao Indo:
Voa áquelles longillimos lugares,
Que com teu brado univerfal abranges,
De Africa as terras, e do Oriente os mares:
Tremáo de fullo os barbaros alfanges,
Que inda para cercar a Luía frente
Cria palmares inclytos o Ganges :
Dize ao torpe, e toflado continente
Da inculta Abylla , que vá já tirando
O perfido turbante reverente:
Ao feio Tormentorio vai chegando,
Arroa-lhe os afperrimos ouvidos ,
Nunca fabidas coufas efcutando:
E que dos navegantes deftruidos
O erime pagar, que inda Ihe reffa,
Vendo os rnembros grandillimos tolhidos;
Por
As Lr
Lhe h
Faz
Depoi
Lá pe
Ag
Agora
Affarn
Pro
De fe
Deja
Em
Anntr
Mil
E 1
Toda
Arma
Fui
Tribu
Perol
Por-
264
RIMAS
Porque fe os mares ainda agora infeaa
As Lufitanas proas, que algum dia
Lhe ha de abaixar a carrancuda tefta:
Faze-te ouvir por toda a Cafraria ,
Depois avante palia, e vai correndo
Lá por outra Regiáo menos fornbria:
Agora a rica
0111111Z
eftremecendo ,
Agora Meliapeir, e o Guzarate,
Mamados dearidos difcorrcndo:
Prognoaíca hum cruifiimo combate
De fegura
viaoria
ás fortaiezas
De Jalofo, Tidore, e de l'enlate:
Ern fim das fortes armas Portuguezas
Annuncía do Mundo cm toda a parte
Mil futuras, e profperas grandezas.
E vós, corn quena benigno o Ceo repatre
Toda a graça de Adonis, algum dia
Armado filho vos veráo de Marte:
Europa a voffos pés, de medo fria,
Tributos vos dará; e a Afia ingente
Ferolas Orientaes, que a Aurora cría:
Na-
DE J. X. DE MATO S. 265
Negros vulros iráo de Africa ardente
Dirá
Defentranhar na America faivagem
Que f,
Thefouros ricos de metal luzente.
De tal
De tal
Po
y
o earanho de barbara linguagem,
Pela foberba foz do Tejo entrando,
Vos jurará firmiflima homenagem:
Entáo corn lyra de ouro cm verfo brand°
3
A vas mais 'dignamente altos boyares
Os Paftores da Arcadia iráo cantando:
Louvai louvai , follícitos Panores,
O novo Succeffor do Reino: Ceffe
O coílumado canto dos amores:
Cantai o amor da Patria ; o intereffe
Commurn da Monarquia: E o bom Pai (Ha,
Por quern dos Pavos todo o bem florece:
M'un vos fareis dignos da capella,
Que Febo para aquelles tern guadado ,
Que louvar falx;rn a Virtude bella;
E guando o aureo Tempo for chegado
Que de Saturno o feculo finja,
(Ah Tempo ! Tempo Bernav'enturado!)
Di-
266
RIMAS
DE J. X. DE MATOS. 20
Dirlo,
verificada a
profecia ,
Qt_te fatidicamente fe cantava:
De tal Pai, que outro Filho nafceria?
De tal Avo, que Neto fe elperaval
'VD111.
S
E E,
268
RIMAS
BEL1Z
A.
P
Ois náo quereis , memorias imprudentes
Senáo andar continuo revolver:cm
Coufas, que mais vos façáo defcontentes:
Com inquietas azas
De
novo vivas d
'
almas accendendo,
E nellas reduzindo
,L
vos a brazas:
Fattai-vos, loucas, confurni-me embora:
Voemos onde mora
• O principal motivo,
Por quem no meio de mil mortes vivo;
En vos darei materia accommodada ,
A todas as idades ráo eftranha ,
Q
12
e nunca em verfo trifte foi cantada:
Qyal louco mal guiado
Correndo vai
20
alto da montanha,
E fe deita de lá defefperado
.Aflim perdidos já, da melma forte
Vamos bufcar a morre:
Primeiro fubiremos,
Depois precipitados cahiremos.
Sub
Onde
A' fre
Recor
Como
SOmer
IVIas f
Ser m
E aílii
Demo
Aqi
A rna
Defde
Inda 1
Que
Ou
Aquel
Beliza
Aquel
Onde
S
il
A
Subamos pelas rnargens do alto Douro,
ende cuido inda agora que me vejo
A' frefca fombra do fronclofo louro:
Recorde as alegrias,
Como aquelle, que ceva vo defejo
Sómente com pintadas iguanas;
Mas fenáo podem glorias já paffadas
Ser mais que imaginadas,
E aflim vos fatisfaço,
Demos, memorias mirillas, mais hura paffo
Aquelle o bofque á Ninfa confagrado,
A mais famofa, que o gráo Douro ha viflo,
Defde que corre para o mar falgado:
Inda fe me figura,
Qz.ie alli as horas palló, alli pedal°,
Ou feja dia claro, ou noite efcura:
Aquelles os confufos ramos, onde
Beliza fe me efconde:
Aquelles os lugares,
Onde a Amor :la Fortuna ergueo Altares,
DE J. X. DE MATOS
26y
270
RIMAS
A
quem direi
os
cafos venturofos;
Que
alli pafiei,
cm
quanto o
quiz rneu Fado,
Que os
náo tenha talvez
por
fabulolos?
Oxalá ,
que
pudeffe
&r fonho aquelle tempo já paffado,
Alfim
como inda agora
mo
parece!
Mas effes
altos montes fe
abaixáráo,
Efias
aguas
paráráo
ouvir
os
louvores,
Que allí me
deráo
Ninfas, e
Pafiores.
Alli
vi de
Beliza
os
olhos
bellos:
"Náo fei
que
rnovimento
os
meus lhe acháráo,
Q
.
ue defde emáo náo
pude
eftar fem
vellos:
Allí
hum
ceno día
Das
palavras ufei,
que me
enfináráo
Os
ditofos exernplos
da
oufadia:
Logo
Fortuna
encaminhou rneus paffos;
Levantou-me
nos
braços,
E pela roda
vária
brota
a Amor de
lhe não fer
contraria.
O
n'
tape a
De
go
Mace(
E das
Hirma
Para
f
A pon
Que
q
Arma
Vos'
Beliza
A m'a(
Vós,
Lile o
Que e
De
E
logi
Por
tá
Que
i:
DE J. X. DE MATOS.
27 I
O
menino, que nunca prefumio
Ozie a forre Deofa em feu favor tenia,
De goa
°
as brancas azas facudio
Metteo a máo na. aljava,
E das agudas fettas, que trazia ,
Huma e
-
fcolheo, que mais aguda eflava:
Para ferir Beliza a deltinou,
A poma lhe dourou,
Que quer que a arma feja
Arma igual á viaotia, que defeja.
Voando foi Amor com rorro 11do,
Beliza vio , e difparando o tiro
A mão tres vezes lhe tremeo de medo:
V6s, ditofas monranhas,
Lhc ouvifles o ardentiílimo fufpiro,
Que en:áo lançou das intimas entranhas:
De piedade os olhos fe lhe enchlráo,
E logo fe volvIráo
Por tao doce maneira ,
Que inda
náo
fimo
coufa
que
mais queíra.;
Qu
27±
RIMAS
(be
devotos louvores náo me ouvírão,
Dar a Amor, e Fortuna elles outeitos,
Quando entáo meus
t
riunfos de alto víráo
Náo ihe queirnei perfumes,
Náo Ihe emulei novilhos, nem cordeiros,
Sacrifiquei a vida a feos cabales,
Ardeo fern fe gaffar nunca a vontade,
Para ter liberdade
De pár no Altar mil vezes
Novos defejos, cm lugar de rezes.
Os t'Abres, que o víráo entre tanto;
Nos rnais duravels troncos o entalháráo
Para letvir aos Satyros de efpanto:
As Naydes, e Napeas,
Por mandado de Amor o recitáráo,
Elumas nos bofques, outras nas aréas;
E ás que erá.o mais deftras nos lavores,
Por Tritóes nadadores,
O
rnefmo Padre Douro
Mandou recelo n'urna téla de ouro.
Mía
Eo ráo
Erguln
Enrre I
Armar
E as f(
Qual e
As per
Qual r
De ric
Hay
Da
Que fi
Do rm
Táo
p
A mei
As cal
Ao
E na
pin
Mi;
DE
J. X. DE MATOS.
Affirn que as alvas filhas informadas
r
oro
de feu paterno mandamenro,
Ergulráo máo das obras começadas:
Entre fi concerráráo
Armar novos theares n'um momento,
E as fedas de mil cores ajuntáráo:
Qua' efcolhe das conchas cryltallinas
As percas mais finas,
Qual renova ligeira
De rico fio, eburnea /ançadeira.
FIavia Hirene debuxado a hifloria
Da filha de Nereo formofa, e
pura,
Que foi de Polifemo pena, e gloria:
Do monfIro a fymmetria
Táo propría , e feia effá, que da figura
A mefma Ninfa, que a bordou fugia:
As canas defiguaes, com que tocaya,
Ao cólo nú levava,
E na mão por casado
O pinheiro maior,
, que fe ha cortado:
271
Mais
l
2.74
RIMAS
Mais ao longe alvejando ertava a atla
De
huma praia deferta , e deleitofa,
ende fe via a linda Galathea:
Nos bracas tinha o moço ,
Que fez depois Fortuna , de invejofa;
Das duras máos do Cyclope defiroço:
N'outra parre coriendo váo fem tino,
Que era o cruel Detlino
Do doro Gigante,
A's máos haver, o feu contrario amante.
Tanto á pintura as dellras mãos foccorrern
Que quein ah os vl fe lile figura
Que por lima do panno vivos corrern
Depois apparecia
O Killorinho inerme, e fem Ventura
Debaixo de hum penedo , que o cubria:
Com elle do falvage a l'orla bruta
crueza executa
De ouvir cm tal crueldade
Ranger-lhe os tenros offos, fem piedade.
Log
Perdei
Em
Que e
Da gr
E o n
Até cy
A con
Q
2
e al
De fel
Clit
N' out
Qge
Daqtú
EuroF
&fto
Allt a
Pintan
E do
,Altera
DE J. X. DE MATOS.
275
Logo 9 itrifte mancebo deixa ver-fe,
Ferdendo a fórma humana, e começava
Em gottas de agua o corpo a desfazer-fe,
Que cm rio convertido,
Da grão Cecilia os ferteis campos lava
E
o nome de Acis tem , bein conhecido:
Até que entra no mar, e cm mar fe troca
•
compaixáo provoca,
Q
j
e ainda muriumIndo,
De feu antigo mal fe eftá queíxando.
Climene ouro, e
feda
entretecendo
N' outro delgado patino, alli parece
Que as ondas do Helefponto eftão
fervend
o:
Daquém na populofa
Europa Abido avulta ; e apparece
&ftc> dalém na Afia poderofa:
Ah; as trifies cores lhe miftura;
Pintando a noite efcura,
E
do mar reprefenta
,Alieradas as,aguas co'
a
tormptl.
Nel-
N
276
RIMAS
Nellas Leandro vai quafi affogado,
56 hum braço entre as ondas fe lhe via
Que o outro tena já de nadar cançado:
Ao longe efcaffarnen:e
Na torre de Ero a frouxa luz ardia;
Porérn naquella noite inutilmente.
Ah que farias Ero, guando vifte
Na praia o corpo trille
Deffe, que por amar-te,
Inda depois de mono foí
bufcar-te
Eur
O bru
E a cc
N' out
Em fe
Que t,
Mas a
Ellas
A out
De na
Entretida Leriope bordava
Em
Os campos de Fenicia, onde abundante
Mas a
O groffo gado de Agenor pallava:
Que c
Logo o filho de Mala
V6s,
Guiando as manías vacas mais diflantes,
V6s ,
Se vl ao longo da efpaçofa praia:
Aiuda
Da branca, e fliva c6r, que imita o carro
As az,
Pinta o formofo touro,
Ao P:
Em que fora mudado
Empn
Jupiter, d'alta Europa
namorado.
Qge r
Etla
En
s
D E 3. DE M
-
A T O S.
Europa alli de flores mil o enfeita,
O
bruto as alvas máos lhe efta lamhendo,
E a cornigera fronte ihe fujeira:
N' outra parre co' a preza
Em feus hombros no mar fe vai mertendo,
Que táo formula carga no lhe éza;
Mas as Ninfas aqui chegavão, guando
Ellas obras deixando ,
A outras dáo começo
De mais verdade, de mais alto preço.
Em nova tella Hirene principia
Mas ah lonco, onde vou, que náo conheço,
Que ern lugar tal náo po
b
ffo entrar fem guia
V6s, Filhas da Memoria
Vós foberano Amor, por quem padeço,
Ajud
'
ai-me a recer ráo nova hiftoria t
As azas , cona que já voar pudefte
Ao Parnafo Celefte,
Empreftai a meu canto,
Que nunca precifou de fubir
tanto.
278
RIMAS
Em nova tella Hirene reprefenta
N'or
Hum horque de altas arvores copadas;
Entre (
Que nas margens do Douro fe apofenta;
Eum í
Pelos troncos
.
bordando
Lugar;
As brancas madrefilvas, enroladas
Muitas
Parece, que por elles vão trepando ;
eaflei
O
verde cho femea de outras flores
Mas in
De mil diverfas cores,
1
Parece
E entre ellas miftura
Segred
Fugitivos regatos de agua pura.
quie eí
No fundo do arvoredo fe divifa
De huma f5 madre perola formada
cavernofa gruta d
Q
Beliza:
De Ninfas inferiores
Servida alli fe moftra, e rodeada,
Bem como a roía em meio de outras flores;
Alli genios folícitos voando
A mão lhe efião beijando,
E o Sacro Pan lhe rece
As capellas de
lyrios,
que
lhe offerecei
Clin
mmn
Vagan,
Agora
As má
A ver
Agora
Sobre
Woutr
Correr
N'ouj,
N'outra parte do panno eft5 pintado
Entre os viçofos ramos da florefla
Pium fornbrio lugar do Sol vedado:
Lugar, ende algum dia
IVIuitas vezes as horas da alta céfla
eaftei com ella, cm quanto Amor- quena;
Mas inda guando alli Mudos eflamos ,
Parece que fallamos
Segredos delicados,
Qe efcreve Amor nos géflos namorados.
Climene denramente 15 figura
minha inquietaçáo : Allí me vejo
:Vagando peda mítica efpeiTura:
Agora levantando
As maos ao Ceo, que me levou do Téjo,
A ver do Douro o rollo venerando:
Agora penfativo , e recoftado
Sobre o curvo cajado,
Woutra parte da tedia
Correr me vejo para os braços della.'
DE J. X. DE MATOS. 279
180
RIMAS
Já me recebe nelles, já me apena,
Turbada a face tem de vergonhofa ,
De amor, de peijo, e de fuor cuberta
Logo os
..
olhos levanta,
P8e
-
fobre o branco peito a máo forrnofa,
Juizando a fé, que nunca mais quebranta:
D' entre os ramos os Satyros Caprinos
(
Com feus olhos malinos)
Porque vifios náo fejáo,
Notando efiáo o rnefmo , que defejáo..
N' cuna parte fe vl com brando rofio
Na lyra modulando, os namorados
Doces verfos, que Amor lhe tern compollo:
Os vizinhos penedos
Das imminentes ferras defpegados
Rolando vera ouvilla : Os arvoredos
As raizes da terra já tem fóra
Ao forn da voz fonora,
E o leve paffarinho
No ar parado náo lhe lembra o ninho:
Mas
Pelo ci
E cm
O cafe
TecenC
Com
Traba'
A quell
Que al
Afflige
A hl
Em ca
Denou
Carreg
De for
E em
As Nit
r
Pinta,
Beliza
Perdid
Alas
Mas Leriope deftra, que alcançava
Pelo enrío das aguas o tuturo
E cm mudas profecias trabalhava:
O cafo defaftrado
Tecendo eftava do Deflino efcuro,
Com que fui defles montes apanado:
Trabalhando chorando j temia
Aquelle triPce dia,
Que ainda na memoria
Afflige ver táo laltimofa hifforia.
A hora do fatal defpedimento
Em campo borda am de pardo, e °m'o,
Denotando trifteza, e fentirnento:
Carregados os montes
De fombra efláo do verdenegro /ouro,
E cm roda os macilentes horizontes:
As Ninfas arrancando as tranças bellas
Pinta, e no meio dellas
Beliza magoada,
Perdida a cór, e cm lagrimas banhada.
DE J. X. DE MATOS.
281
181
RIMAS
Alli elan fem faber determinar-me,
Os faudofos olhos alongando,
Se'rn haver quem dos feus potra apartar-me;
E corno por violencia
Dous ininiftros crucis me váo levando
Ao facrificio da forçada aufencia:
Já lá vou n'urn lugar mais apartado
Co' rollo atrás voltado ,
E por mais que defejo
Tornar a ver Beliza
5
náo
a
vejo.
São
Outros
Sáo ou
Eflas a
"Náo
As agu
Nenhu
He a r
Nem F
'Que
Mas onde, 6 penfamentos, me levaftes,
Náo
Onde, falles tocar, que das feridas
E
inda
Que n'alma tenho, o fangue renovarces?
Váo
Agora, que eu julgava,
Que in
Vendo no Douro as Ninfas entretidas,
Pinte
a
Que léclas horas inda alli paffava:
Se pód
c
Ante os olhos me póes táo vivamente
De qui
Ora táo defconrente,
Se táo
Que já náo foffre engano
Pelas n
,
A
verdade táo
cerca do
meu
darlo.
Mofirá
SU)
Ton.
Toril, I:
TSe
In
DE
DE MATOS.
Sáo outros efles campos , caes ares
°Litros caes Paffores, e efe gado,
Sáo outras as cabanas, e os lugares:
Eflas aguas, que vejo,
Náo sáo as aguas do meu Muro amado,
As aguas sáo do aborrecido Téjo:
Nenhuma Ninfa
das
que o monte piza
He a minha Beliza,
Nem podía fer ella,
f
,),
,
ue he mais amante, e tnais
que todas bella.
Náo vejo rnais, que imagens de trifieza
E inda algumas, que nafcem de alegría,
Váo perdendo comigo
a
natureza:
Q
l
re importa que a Ventura
Pinte a confolaçáo de ver hum día,
Se póde vir primeiro a noite efcura.
De que valem raz6es hem começadas,
Se táo mal acabadas
Pelas máos da Efperança,
Mofiráo depois táo pouca fegurança.
RIMAS
284
Sem ti Beliza eliou , como acontece
eftrangeíro Paflor, que erra o caminho,
E no meio do monte lhe anoitece:
Alli a noite pafia
Debaixo de alguma arvore fózinho,
Efperando impaciente que o Sol nafça ;
Mas bemaventurado, que ha de ver
O dia amanhecer,
,
E eu trille, que náo fei
Clgando a ver os teus olhos tornarei.
Imagino que ás vezes refplandecem
Muito
peno de mim; porém que importa,
Sáo nuves de Ixion , que me apparecem ;
Se as almas acabafTem ,
D. de mágoa ella minha andára morta ;
Mas de huma fonte fem principio nafcern
•
Para náo terem firn; e ella certeza
Faz maior a trifleza,
Com que andarei fem termo
lentindo os males, de que vivo enfermo,:
Para
De fe fp
Mas fe
E fe n
Me di2
Zue
Nem a
Nem I
Pois
Que ni
A ffir
Como
Qe
já
Ja de r
Que di
Pois 01
A ning
Nos m
Os ow
Pelo f
Pa
r4
DE
J.
*.k.
DE MATOS.
28;
Paraiconfolaçáo ás vezes quero
Defefperar
de todo, fe
pudeffe;
Mas fe, porque he
allivio, náo
o
efpero;
E fe
náo efperára,
Me
diz
Amor, (que os males bem conhece)
Que outros nzales matares me atfiára,
Nem
a Amor
creio, nem
a
mirn
me
entendo,
Nem fei
o que
perrendo ,
Pois quem morre efperando,
Ozie
mal
terá maior defefperando?
Mina me
queixo
a
Deos, ao
Mundo, e la gente,
Como
aquelle,
que
,
grita
pancada,
Qe já foffrer náo
pode a dor, que
fente:
J'a
de
mais
nada curo,
Que de
trazer
a voz
alevantada,
Pois outra
medicina no procuro:
A
ninguem
que me acuda
rogo,
e
peço
Nos males que
padeço:
Os
ouvidos
me
fechem ,
pe
l
o
fOmen
t
e,
que gritar
me
deixem*
Tu
Aré
86
RIMAS
Até que ella
voz
tremula ,
e
femida,
penetrando as entranhas defte monte
No gráo Reino de Dite feja ouvida:
O fom de minhas mSgoas
Enfreará do fervido Acharonte
As venenofas denegridas aguas:
Tantalo entáo verá, que a ícele amiga
Alli fe 'he mitiga,
Vendo que he mais ardente
A fede trille, que fupporto aufente.
Sefifo,
o
pezo fentir'a mais leve
Da pedra, com que aos hombros nunca
pára
Em pena do fegredo, que náo Leve,
Porque efes meus cuidados
(
Qpe eu inda affirn com elle náo troara)
Mais trabalhofos sáo, e mais pezados.
Orfeo tambern verá que excede tanto
.Ao feu efle rneu canto,
Que com elle podia
Trazer
de
novo
a
Efpofa
a
luz do dia.
Efle
Qele
Tendo
Pico,
Menor
Que o
Depois
Que p
Trifles
Defcan
Inda
(te lá
Apieda
Se diff
n
De epa
Capaz
Mas ni
Onda,
Deixe
Q4
yo
Ef-
rat
DE J. X. DE MATOS.
187
Efle roedor defejo da faudade,
Qz
t
e lentamente eftraga , e náo confome,
Tendo fernpre materia na vontade:
Fico, que em Thicio faça
Menor do Abutre effa perpetua fome,
Que o figado immortal lhe defpedaça:
Depois que chorar lagrimas de modo,
Que pelo Inferno todo
Triftes , e derramadas
Defcanço dem ás almas condenadas.
Inda verei de cl fe poffo tanto,
(te lt vou esfoiçando a voz com ellas
Apiedar no Ceo o Coro Santo:
Se differ, que o que fimo,
De que sáo teflemunhas as Effrellas,
Capaz ferá de mais e mais, náo mimo;
Mas náo temas, Beliza, que entre tanta
Onda, que o mar levanta,
Deixe a Náo de ir fegura,
Ot1 ror vento contrario, ou noite efcura,
Tas
288
RIMAS
Por ferras de crucis impedimentos,
Que diante dos olhos crelcer vejo
Indo, e viudo efiaráo meus penfamentos:
Náo ptSde fer atado
A' roda da Fortuna efte derejo,
Que nafceo livre , e náo fe quer forçado:
Elle fará, Tic eu viva 15. comtigo-,
E tu aqui comigo,
Que fem que os corpos mude,
Para mudar, as almas tem virtude.
Mais te differa defia s'á vontade,
Af
Que
Amor com puras máos para offerecer-m
Fujo
Limpa efcolheo de toda a falfidade;
Ate i
Mas já o não pertendo,
De 1
Porque iffo fora o mefmo que dizer-te,
Para
Que para o mar os nos vão correndo;
A fa.
Que os montes não fe movem; que o fobreird>
Náo
He maior que o falgueiro;
Que
Finalmente feria
Ve (
Accender tochas,
guando
nafce o dia
l
O pi
To
Que
Sein
Diani
Por
Triflt
Após
De ti
Deitc
Sem
eir*
DE J. X. DE
MATOS. 289
Todos so fabedores de meus males,
Que o mal foffrido Amor anda contando,
Sem eu querer, por montes, e por vales:
Diante de mim vai
Por onde quer que vou, como lançando
Trae pregáo de alguem, que a morrer fai;
Após delle fufpiros magoados
De trilleza efpalhados
Deiro por toda a parte,
&ni que já mais de fufpirar me t'arte:
Affim por eftes campos vago errante
Pujo dos homens, vou bufcando as féras
Até parar no monte mais diftante:
De lá os olhos viro
Para a parte onde eflás: Ah fe fouberas
A faudade com que entáo fufpiro ,
N'áo fei que acho no ar, que dalli corre íi
Que
a
vida me foccorre:
Vé quanto Ocie, e mente
O
penfamento de quem
ama, e
rente.
íto
RIMA
Inda maiores coufas me acontecem...
Continuamente as aguas deíte rio
Sendó claras, rnedonhas me patecem ;
Dos campos a verdura
Náo he rnais feia, no mirrado Eftio
As namoradas Ninfas da eipeintra
Como paffo fem pór os olhos nellas
Nada fei dizer dellas
Só fei , que fe re vira
O contrarió de tudo, aqui fentíra.
Mas em quanti), 6 Beliza idolatrada
No for minha Ventura ruentirofa.,
Pe Amor pela palavra demandada
Ern quanto neffas praias
Náo fijar eIta flauta fi:mol:ola,
Corno algum dia, á fombra de altas fajas:
Em guamo náo puzer meus olhos rédos
Neffes longes penedos ;
Em guamo onde tu moras
Náo pafIa.r,.(Irsal pajfei) alegres
.
horas,:
Aqui
Aq
Miftu
Darei
Náo f
Se ch
Defeo
Antes
Hurn
Come
Dos a
E v
N'io
Qae
O qu,
be a
Efe
Por if
Sabei
Tenht
Que
D E J. .X. D E ISJ
A
T O
S.
291
Aqui desfeito em lagrimas, e dores,
Mifturando
ITICU
choro, c'o meu canto,
Darei queixa/ a Amor, e a ti louvores:
Náo fejáo mal ouvidos'
Se cliegarein molhados do meu pranto
Defcompoltos de dor, de arte defpidos;
Antes ache por iffo acolhimento
Hum pobre entendimento,
Corno o que falva a vida
Dos altos mares, cm que a vio perdida.
E v6s, Pafteres meus, do que me ouviffes
N
o vos peço louvor,
, menos cupellas ,
já mais fe fizeráo para os trilles:
O
que peço fómente
He a voffa piedade cm lugar dellas ;
E
fe ficar meu canto impertinente,
Por iiTo entre vós-outres condenado,
Sabei que inda guardado
Tenho mais do que hei dito,
Que hc a tamanha dor, pequen° grito.
29
z
.
RI
MAS
IDILIO,
P
Reparemos, 6 Mufa, hum nov'o canto;
Temperemos a lyra,
Náo feja urdo pranto:
Cante huma vez quem tantas mil fufpira;
E fe a fuprema
vez,
que n' alma ternos,
Apenar ás vezes gritaremos:
Airrrn de guando cm guando
Por efpinhos, e flores
iremos pelo Mundo mifturando
Lagrimas com louvores.
Honre-fe o géllo, o peregrino gétleí
Daquella , cujo peito
Forrnofo, corno honeflo ,
Traz elle meu em lagrimas desfeito.
Ah bella, Olaia , Olaia inda mais bella
Que a flor do campo, que do Ceo a
Efirella:
Mais grata, mais amena
Do que amanhece o dia ,
Mais viflofa, mais pura, mais fuella
(be o mar em calmarla.
Apar,
Quei
Das y
Dandi
Tens
Ah ti
Ir-te
Ou e
Que
De fi
Apn
DE J.
X.'DE
MATOS.
Z91
A
par de ti as Ninfas defta felva
De Oto mais formofo
Sáo como a baixa relva ,
Que nafce junto ao Piaran° frondofo
Das praias a conxinha mais luftrofa ,
Dando-lhe o Sol, náo fica
tão formofa
Como tu me pareces
Formofa , defloucada:
l;
Tens
á
luz natural, e náo careces
7
De outra luz emprellada.
Ah
thefouro
a
meus olhos efcondido! -
S6 defcuberto agora;
Qual tentou atrevido
Ir-te
bufcar âs Regiões da Aurora ?
Ou es, talvez Ola ja, effe thefouro
Que já cahio do Ceo cm chova de churo;
Mas de outro Ceo defeéráo
As tuas perfeiy6es
De
fabulas fubtis, náo fe
fizerácr
.Táo
raras
propors6es.
ella:
Tan:.
Di
Tanta graça os tettis membros foberanos,
De donde he que
a
tirfiráo
Da matra dos humanos,
Nunea raes dons no Mundo fe formáráo
Em géflo , e partes taes eu imagino
Que fe empenhou
G
Artífice Divino:
Náo tem 2 Natureza
Tanto poder, e efludo,
Que multo pois quern fez tanta belleza,
Que polla fazer rudo?
De teus olhos namorão-fe as Efirellas,
E nas fuas meninas
Vem feus retratos ellas,
De donde tiró luzes mais Divinas:
Para ver effe c6lo mageflofo ,
O monte fe ch-bruça: O rio undofo
Por mais que ¿teja em calma
O curfo apreffa , e corre.
111-1 bella Olaia, que fará huma alma,
Que fente, que difcorre
Dito5
Que
Ditofi
Ora
Claro
A qu:
Na te
E,
a c
Das t
A qui
RIMA
S
2
94
Di
E
Dirofo fea aquelle , que embebido
P6de ¿lar no teu roa°,
Sem ter (narro fenrido
Que examinar de efpaço effe compofio:
Dtrofo fea aquelle , que ¿curando
Ora as palavras, ora o rizo brand()
Vé um , e d' outro géfto
O
moto peregrino,
Claro , puro , fuave, manifeffo,
Que eu de ver náo fou dino.
A
quanta gente barbara, e inculta
Concede a Natureza
O
ouro , que fe occulta
Na terra, fem faber o que he riqueza!
E
a quantos Ovos, que lhe dáo valia,
Das terras aparrou, onde ella o cria!
Mina Ventura agora
Dá teu valor, e preço
•
quem talvez o teu valor ignora,
E
a rnini náo, que o conheço..
4.1
95.
DE J. X. DE MATOS.
296
RIMAS
E
ha quem nas máns a cithara no tome,
Efpalhando louvores
Em honra do teu nome!
Ha quem te veja fem morrer de amores!
Vós, rnuficos Paffores das campinas,
.Vinde, coroai de candidas boninas
A voffa Tutelar,
Moftrai o
Mell
defejo
A'
Ninfa mais gentil , mais fingular;
Que tem o voffo Téjo.
Camões, honra das IVIufas, que a primeira
Fama ter'as por forte
Bernardes , tu Ferreira;
E outro
-
s, em quem poder n'áo teve a morte:
De lá vos inclinai do Coro Santo,
Com voflo canto acompanhai tneu canto:
Náo fahe elle de peito
Impuro, e corrompido:
De
huma caufa Divina hum baixo effeito
Nunca foi produzido.
Volvc
E ver
Verei
Défiel
Que
Olaia
Mais
Ella 1
Por q
C'o n
q
Vol-
11-01-
Em
Volvei o
rofto lá
do Ceo fereno,
Lançai
a villa pura
Ao noffo
vil
terreno,
E
vereis huma nova formofura,
Vereis
fe
á
\
r
oía
cithara fonora
Défies táo
alta
empreza
como agora:
A temperada
chamma
Louvai
de
huns olhos
bellos,
Que
fabe
moderar, cm
quem
os ama
O
defejo
de vellos.
Olaia
he
mais formofa,
e
foberana
Que
Lucrecias ,
e
Helenas ;
Mais
pura que Diana,
Mais fuave,
que as
nove Irmans Camenas:
Ella he por
quem, de
fufpirar náo can9o,
Por
quem enfreio
o venteo, e o mar
amanfo
Dizendo minhas mágoas ,
Por quem
do claro
Téjo
C'o meu
amargo
pranto
curvo as
agoas
O
dia
que a
náó
vejo.
o
r
te:
DE J. X. DE MATOS.
297
Tom,
SO-
198
RIMAS
Em quanto a feca mão da Morte fria
Contra mim levantada
No derradeiro dia
Me no gelar no peito a voz cançada:
Por mei-o, Olaia, de mortaes perigos,
De N'euros folios, mares inimigos,
Rodeado de horrores
Ja fem ter falvaçáo:
Primeiro que os meus ais, os teus louvores
Na boca me onvirá6.
114
I
Que f(
O
levi
Aonde
Ca del
0,
2
e ir
E logc
Que a
Mais
Alli a
Que el
Tal et
VE J.
MATOS.
z.99
SONHO.
Um
dia, que o met: gado apaCcentava
Nas ribeiras do Téjo
Que fempre com meu pranto accrefcentava,
Ap6s do =u defejo
O leve Penfamento me voava.
Aonde vás?
Mil vezes lhe dizia:
A Tirce ,
a
Tirce rvou ,
Ca dentro de mim mefmo refpondiai
Mas guando imaginou,
Que inda voar tão atto poderia!
E logo fobre a relva reclinado
Tantos fufpiros dei,
Que adormeci de fufpirar cançado.
Mas ah! Que inda figuei
Mais do que ao fomno , entregue a
Mell
cuidado.
Alli a mentirofa fan:razia,
Que coufas me figura!
Que eflava dando Leis me parecia
Sobre a mefma Ventura;
Tal era a elevaçáo, cm que me
via!
;O-
Tonel
V
QL10-
300
RIMAS
Que dominava os Ovos mais difiantes,
Que os empolados mares
Via cubrir de immenfos navegantes;
E folias pelos ares
Ondear as bandeiras tremolantes:
Que com fubrnilTo roffo a mim chegavão
As Naçóes Eftrangeiras,
E a máo medrofamente me beijaváo
Que Provincias inreiras
Copiofos tributos me pagaváo.
Que cm douradas carroças caminhava
Com guardas Militares;
Que pofto á Regia meza 1
.
6 gollava
Exquifitos manjares,
Que alli merc'és, e novas honras dava.:
Que cm foberbos Palacios
De preciofos lavores
Cubertas as paredes, onde via
De meus Progenitores
Succelliva Real Genealogia.
Que hum numero infinito de criados
Me rodeava o leito ;
Em fim, que en era Rei , que tinha Efiados;
E que, fe era fujeito
Era lbmerite Lei dos meus cuidados.
Que
De
Par:
Aq
Era
Do
Que
Ea
Par:
Qie
E q
Lhe
Qu<
A c
Ab]
Que
DE Y.. DE MATO S.
;of
Cwe Tiro, (a mais difcreta, a mais formo/a
Ninfa, que o Tejo calma,
De fangue
geraç'áo famofa,
A quem mais alta rima
Fara eternamente gloriofa.)
Aquella Tirce , aquella Divindade,
Oue transformar pudera
F,rn alta, a rninha humilde qualidade,
Ouvia menos féra
Dó cego Amor a gráo temetidade.
Que a feus mimofos pés depollo havia
O mermo Sceptro Auguflo ,
E a tronce c'o Diadema lhe cingia:
Nena Throno de mais cufto
Para mim, que os feus braços pertendia.
(be com o rofto feu cm laço eftreito
Apertava o meu roilo;
E que de tanta gloria fatisfeito,
Cona lagrimas de goa()
Lhe regava o mimofo, e branco peito;
Que a cor de rofa niais fe /he accendia
No purpureo fernblante
A cada favor feu, que Ihe pedia,
E que de inftante a inflante
'Vais forrnofa no géfto parcela,
'OS;
D..110
Que
y
.402
RIMAS
Que os engraçados olhos lhe beijava;
Que de finos diamantes
Os dourados cabellos Ihe adornava;
Que palavras amantes
Eu Ihe dizia, ella me tornava.
(bando nena reciproca ternura
Da mais completa dit
Que
,
nunca figurar foube a Ventura,
Por mirn hum Paflor grita,
.Que o
carninho da Aldéa me procura.
Acórdo efpavorido , e o Regio trato
Veloz fe delvanece:
Fico alheio de rnim, fico infenfato,
E de novo apparece
O mcu amigo, e paitoral ornato.
Olhava para mim : De meu n'áo
via
Mais que hum pobre cajado;
Hum pequeno rebanho fem valía,
Hum çurráo pendurado
Ao canto da cabana, em que vivia.
A huma, e outra parte afilia° olhava,
Náo via Tirce; e cm váo
Tirce ,
Tira ,
por ella cm fim chamava;
E
fó
no coraçáo,
No cornac, a rninha Tirce achava.
Que;
Se
a
Me
Oh
'Ma.
Ufol
Qui
G02,,
O
a,
Orri(
Ma
Zue
Ah
Suln
Se i
Quern
DE J. X. DE MATOS.
zens te arrancou da minha companhia?
(
azia
fui-Orando)
Se acordado gomr-te nio podía,
Porque ao menos fonhando
Me não duro
u mais tempo efta alegria?
Oh quenz pudera , amada Tirce, achar-te
Outra venos meus bralos!
'
MaS
como de hurn Pafior, para apertar-te ;
Sio indignos os laços ,
Ufou talve;comigo Amor des
c
ia Arte.
Qui; dar-me a conhecer , que con! decencia
Huna Paflor não podia
Go;ar a Tira' ainda n' apparencia;
E desqa fantazia
O
acafo tomará por providencia.
Ordena-me a ra;ão que mere orte ,
1
Olhando os nieus dt
,
eitos;
Mas no Mundo não fo' a fria ;norte
Fakiguae s
os
fujeitos ,
zue Amor os fabe unir da merina forte.'
Ah fufpirada Tirce! Se eu pudera,
Affim como fonhei ,
Subir de Rei á imaginada Esfera;
.
l'ora mais
do
que Rei ,
Se inda
fendo PaSior,
3
fer teu pudera!
30
ni
TA-
De
t
r
Pa
AL
Ago
Albi
AL
Aqu
Aqu
Aon
Alb,
A
Aor
A
Alb
Agi
TABELLA
ALFABETICA
De todos os Sonetos , que contém ene primei-
ro Tomo, affinalados alfabeticamente com as
paginas, cm que vão lançados cada hurn
per fi; e allim tambem todas as mais
Obras.
SONETOS:
A
A
Ffoito cénte o mar o navegante, pág.
T.
Acafo fui fenhor,
, rico, eflimado,
A Deos Paflora ingrata, ¡S. de Aleixo , ;3.
Agora, cm quanto defpertando a gente, 43.
Albino, cuja idade inda o levava, 48.
A Deos Natercia ingrata, a Deos impia,
51.
Aquelle, que inda efpera ter ventura, 56.
Aquelle amor, que tinhas n'alma efcrito, 61.
Aonde andais, ó Parcas venenofas , 81.
Allano quem es tu? Teu baixo citado, 87.
O D
E
S.
Aonde me arrebato,
Aonde, aonde, cotaç6es humanos, io8.
Ao mais leve ruido,
ti ;.
ECLOGAS.
Albano, e Minina, 157.
Agrado, Braz, e Anfrifo, 179.
S
o-
TABELLA
SONETOS.
Cruel, fica-te em paz, e o vil intento, 31;
Corno ela efte fui
°
focegado! 37.
Cuidei, ouvindo a doce melodia , 54.
Como foffres, ó Jupiter foptemo, 58.
Corn alegre
s
apreffado movimento, 65.
Cuidas talvez, Olaia, que imprudente, 89.:
CANO:5ES.
COm teu formoro rollo, r46.
SONETOS..
Do gofio, que ya tive n'outra idade, 17.
Depois que a mil tormentos offrecido , 35:
Divina Laura, fe vencer deixaffes , 42.
Dormindo eflava M'uno,
e
porque Alberca,
45.
Dormindo Anarcla eíb. Quem te dilata, 47.
Depois que a linda Altea deffes prados, 50.
De amor cm trilles lagrimas banhado, 57.
Do rio as claras aguas, que foancio , 73.
CANÇOES.
Da clara cairpe cl2s Heroes valentes,
152.
S
O-
s
o
l
Eu
Enco
Entr:
Ella 1
Entrt
E co
Fugii
Filho
Felici
Futir
Hunl
}luna
Hum
n
Havi
3
ALFABET 1
CA.
SONETOS.
E
Eu
vi
huma Paftora
cm certo dia , vp.
Encontro,u-me efla graça cm tal
defiroço , 68.
Ene
obfequio , fenhar,
,
que vos envia , 75.
Entra o
foldado envolto em fangue ,
e
terra , 85.
Fin
frauta agrelle, ein lyra altifonante, 9z.
O
D
E S.
Entre as
Deofas táo
célebres cm Ida,
195.
E
confeguio
a
pállida doença ,
II.
SONETOS.
Fuginclo
fui de amor, que me
feguia, 14.
Filho,
por
mais
que a
Praça
combatida, 22.
Felices
margens do faudofo Téjo , 82.
Formofillima Olaia ,
o
teu femblante, 8z,
SONETOS.
IT
Huns graciofos olhos
matadores,
28.
Hum dia
de Liman
°
acompanhado, 78.
Hum
mudo
fufpirar
continuamente, 94.
ECLOGA PISCKTORIA.
Havia largo Lempo, que efcondbra,
2or.
EPIS-
;o8
TABELLA
EPISTOLA 5.
Ha mil tempos , born Silva, que faudofo, 2.2;.
SONHO.
que o meu gado apafcentava, 2
99
.
Hum dia,
SONETOS.
3t,
Fortuna cruel, tenho afrentado, 7.
Irman dirofa , que de c'a fubifle , 66.
já Portugal refpirar5. contente, 98.
SONETOS.
Lá vem apparecendo a minha Aldea, 4.
Lá n'uma praia. cavernofa , e fria. 91.
CANÇÕES.
Longe barbaro vulgo, 12,8.
EPISTOLA.S.
Lorinda bella as obras Pailoris, 249.
SONETOS.
Marinho Pefcador no Téjo ándava,
2.
Mil ternpos refifti á força dura,
TO.
Meu Pai, o nupcial ajuntamento
M and,
• M orre
M eu
M inh¿
M imo
N ena
i Náo <
N efle
l áo
áo 11
N °T
N infa
N a
N o
N 'um
O uvil
O h q.
Man-
ALFABETICA.
3o9
Manden-me, que cantaffe Amor huM dia ,
5
Morreo o bom Luiz: Já náo veremos, 76.
Meu amado Mondego, meu amado, 79.
299.
EPISTOLA
S.
Minha inimiga bella ,
252.
TERCETOS.
Mimoro Infante, Frincipe adorado, 258.
SONETOS.
N
Nena Aldea, onde eflou , meu bom Fileno, 3.
Náo chóro como aquelle, que cm perigo ,
5.
Nefle que
• juiga o Mundo abatimento , 18.
Náo foi divida f6, mas natural, 23. .
Náo haverá hura Edil táo fagrado ? 69.
No Templo entrel de Amor: Inda gelado, 7.
Ninfas deftes vizinhos arredores, 83.
Na
borda do feu concavo faveiro, 96.
O D E S.
No
de
Carthago, nem de Trola canto,
122.
N'um fitio,
que bufquei accomrnodado, 131.
SONETOS.
O
Ouvio
Amor
teu canto, e furprendido , 25.
Oh quem rudera á fombra defie arbuilo,
Os
223.
lan-
3
1
0
TABELLA
Os
annos
da feliz
puerilidade, 60.
O
Tempo
que veloz
defapparece, 634
SONETOS.
Péga Lucrecia,
no
punhal
violento,
21.
Porque
foges, Partora,
a
hum defgraçado,
Por
mais
que faya
lium
atrevido
efludo, 38.
Poz-fe
o Sol; como
já na fornbra
fea,
39.
Faifa o
frio
Janeiro, o
ardente Agolle ,
52.
Ponho táo livre
os
olhos ern Damiana, 59.
Para ver fe cantar-vos
faberia 72.
Promettendo
a
Limano Dorothea, 77.
Q ue':
Q u
e
t
Q ue
t
Q ue
Q uerr
Q ual
Q uani
R amc
EPISTOLAS.
Prezado Jofefino, zrz.
BELIZ
A.
Pois
no
quereis ,
memorias imprudentes,
268
IDILIO S.
Preparemos, ó Mufa,
hum novo canto,
292.
SONETOS.
Q
-
Quando nas máos
de Amor me vi
fujeito,
Que me uuereis ,
memorias de
algum-dia,
15.
Quantas vezcs
pacífico, e contente,
zo.
Que
ferá illo 1
As Ninfas
enfeitadas, 27.
S alve
S e,aci
S ó co
S odio
S e
int
S e
eu
S eja-t1
S e
eu
S e o
efpl
S e
a
Que
EPIS-
9.
Ramo feliz, de frutos
efperados,
SONETOS..
S
Salve Templo
feguro , onde
a
vontade, 8.
Se
acafo deito
a villa da
lembrança ,
9.
S6
com o Grande, e
Immortal Camóes, 16.
Senhora, effes efpiritos dicofos , 19.
Se
imentais neffe engano indufbriofa, 32.
Se eu
me
víra n'um bofque , onde náo deffe , 34;
Seja-te parabem Téjo fagrado, 64.
Se
eu pudera viver
de
noite,
e
dia,
88.
Se o
Gráo
Cantor , que o Mundo
encheo
de
efpanto,
99.
Se a fama, que altamente
pregoeira,
zoo.
O
D
E S.
Se cm
teus
puros Altares,
Iz9;
ALFABETICA.
311
Que
"affim fahe
a
manbá ferena,
e bella,
36.
Que trille, que profunda
foledade, 41.
Que
te
vejáo meus
olhos,
no
confente, 71.
Que
eitranhos cafos vi
no monte, e prado
'
80.
Quem
nunca
vio a luz
formofa, e pura,
84.
0,2a1 Patlor,
que
do fono
accommettido,
86.
Quando Anarda
gentil, os merecidos,
95.
5 29.;.
'
38-
O
D
E S.
9.
292.
,
Que,
;12 TABELLA ALFABETICA.:
EPISTOLAS.
Sabio Jurifconfulto , 236.
SONETOS.
Traznne 2os males de Amor tão coflumado , t ;.
Tanto nefte faudofo apartamento, 49.
Tu que os collumes, e as paix6es retratas, 74.
Tyrana Olaia , o teu defabrimenro , 9o.
Trazei Ninfas, trazei mimofa area, 93.
SONETOS.
Vão os annos fugindo , e vai a idade, 6.
Vem , 6 Ninfa gentil, que não merece ,
Vio Alberto a Fitlena , e nam ,rado, 44.
Vio-me Altea, com livre defafogo,
53.
Voa faudofo Amor, e cm breve giro, 68.
V6s, que
á
fombra dos alarnos copados, 97.
O D E S.
Vai metquinha Ambição , chega-te a o leito , 119.
EPISTOLAS.
V6s, que da rica máo da Natureza 244-
F I
M.
SW1
em
exp
ten
cor
Au
lho
PRO-
74.
PROTEST AÇÁO.
N
,
S palavras Numen, Fado,
I
Deftino , Divindade , &c.
empregadas fómente para melhor
exprimir a ficçáo Poetica , no
tem alguma coufa de commum
com os internos fentimentos do
Author, que corno obediente fi-
lho da Igreja cm nido fe fub-
mette ás determinaOes della.
97.
,
119.
'RO-
RIMAS
DF
j0i0 XAVIER
DE MATOS
J
^.
Ia ï
D
CA
NA R:
I
k
TA
REGIA
OFFICINA TYI
J
OGRAICA. 1712,
Can
liceaça
¡<cal Meza
Ce3pria.
Ik
g
i+de-je
na lefa da linprelMa Regia d
Real
Rraça dt CumPnerria.-
RIMAS
DE
JOAÓ XAVIER
DE MATO
ENTRE OS
PASTORES
DA
ARCADIA
PORTUENSE
•
•
ALBANÓ ERITHREO
DEDICADAS A
MEMORIA
DO GRANDE
LUIZ DE CAMÓES
PRINC1PE
DOS
POETAS
PORTUGTJEZES
DADAS A LUZ
POR
CAETANO
DE LIMA E
MELL,
TOMO SEGUNDO.
Terceira LnprersZio.
LISBOA
Ilflettido tenho
a
mao ria confeiencia
E nao fallo
fenáo
verdades puras
nue
ale
enfinou
a viva experiencia.
fr
C
A
DI6
s.
San.
LXXXVIL
1
J
i
trat
reo
1710
MA
ra
con
dec
clic
nos
cia
efp
foc
dei
cor
Se
fe
PROLOGO.
J
Uptcroso Leitor , latamente
perfuadido de que té foi grato o
trabalho, que tomei de juntar, e offe-
recer átua curiofidade o Primeiro To-
rno das Poefias de
JO7k0 XAVIER DE
MATOS,
me animei a continuallo , pa-
ra agora te dar a ler o Segundo. As
continuas moleftias, que o A. tern pa-
decido, e padece, no permittiáo que
elle ainda fe déffe á luz, e muito me-
nos as Tragedias; porém a impacien-
cia d'alguns curiofos náo confente fe
efpere , que elle o pofra rever corn o
foc ego, que pede a materia, nem que
deixe de fe juntar a mecellania , que
com repugnancia do A. vai no fim.
Se fores pio , rogo-te que diffimules;
fe o no fores )
peso-te que o no las.
Vale.
so
Q ue
c
S ó
de
Dir
Quani
TD
orq
Que
i
te
ru
Zern
Qu
Fre
_Q,21
nsfflull „.„
mumn
SONETO
p
.0 chorarei de Amor táo triftemente
'‘
d
Por hum modo táo novo, e defufado;
Que quem nunca o tiver exprimentado ,
Só de ouvir feus effeitos o exprimente:
Direi n'um breve efcrito
a
toda a gente
Quantos cafos por mim j tem paírado;
Porque faiba qualquer defefperado,
Que inda ha outro mais
, e defcontente.
O' v6s, que Amor, com atoaras de innocencía,
De novo as fans vontades contamina,
Zem lhe valer a amiga experiencia,
Quando lerdes em mim quanto ella enfma,
nreis dos voffos erros penitencia,
Que
os
rneus erros
ferio
voffa dourrina.
SO.
SONETO
III
Emáo ernbora a morte os que afrerrado
4os
groiros cabedaes , que poffuiáo,
Nunca táo brevemente prefumiáo ,
0
.2
e Ihes foffern das mácfs arrebatados:
Temo deixar co'a vida os
comegados
Muros das altas caías, que erigiáo;
A cara eiofa, os filhos, que crefciáo,
Os brandos leitos,
OS
tremós dourados:
Que
eu fem bens,
e
fem
caía, vagabundo,
Mal
cuberto c'
o manto da indigencia,
Já náo
temo da morte o horror profundo:
J
A
Berp
Ik
Ee
iacis
A
Já b
Conl
Vai-
PC
E pi
De
E
Pai
No
que me tira
n'áo
me faz violencia;
Que o melhor modo de fahir do Mundo,
He chelo ou
de miloria, ou de innocencia..
R
IM
A
S
S O.
DE J. X.
D
O S.
SONETO
A'15, vão fete Luftros ,
que cae monte
Berço
me
foi Já
da vital jornada
Mais
de
meia carreira efiá
pallada;
E cedo iremos ver
outro
Horizonte:
05
A mío
já treme ,
á fe
enruga
a
fronte,
35
branqueja
a
cabeça ,
e
co'
a
pezada
Confidraçáo
da vida mal gafada,
Vai-fe
apagando a luz,
feccando
a
fonte.
Pouco
nos
refia,
que
paffar já
agora ;
E para as
derradeiras agonias
De tantos
annos, aproveite hum'hora.
Efperanças ,
temores,
vans porfias,
Paix6es, defejos, ide-vos embora ;
Favor, que me
fareis
por
poucos
días.
S
O-
RIMAS
SONETO
tj
A' me no enganais , roffos fingidos,
Inda em mais f6rmas que Proreo mudados,
A contrafeitos rifos coflumados ,
Quaes em fonte Sardonica bebidos.
Algum fruto dos males padecidos
Háo de tirar os km exprimentados;
Que he vir
a
conhecer difiimulados ,
Raras vezes no Mundo conhecidos:
Já fou outro ; mudei de qualidade;
Fechou-
e
o coraçáo: ficai de
fóra ,
Subris itiitadores da verdade:
Ide-vos delle , para fempre, ernbora;
Qie
já náo tem as portas da amizade
T'áo faceis de fe abrir, como até agora:
A c
O Arr
A mbo
Q u e a
Am
D eftrt
E dep
E ntre
N'a.<
E flim
C ouf:
Le
l
bias
Nas
DE J.
X.
DE
M.ATOS.
5
SONETO
Quelles dous , que oppoflos fempre andkrão,
O Amor, e a Fortuna, as máos fe deráo :
s,
Ambos meus inimigos fe fizeráo;
Que a náo fer iflo, nunca fe ajuntáráo.
Ambos a mim t falfa fé cheg'aráo ,
Deftruindo , affolando , em fim venclráo
E depois que os defpójos recolhéráo ,
Entre
fi repartidos os leváráo.
Náo me leváráo mandos, nem grandezas,
Eflimaçóes, thefouros , nem privança ,
Coufas, que para mim náo sáo riquezas:
Levárío-me a alegria, e a efperança ;
loias de más valor, que vejo prezas
Nas mãos de huma Mulher, e huma Changa.
RIMAS
SONETO
C
Hegou, Paftora , o termo dcrradeiro
Deffa paixho, que cego me trazia;
Táo fria ella, que náo ella táo fria
A mefma agua na força de Janeiro:
35 pollo eflar fem ver-te hum día inteiro;
Huna mez , hum anuo, hum feculo eftaria;
E c' o mefmo focego te verla
•
Nos braços do mais ruftico vaqueiro.
Ouço o ten neme, e já náo finto aquella
Suave commoçáo, que exprimentava:
Cuflou-rne, mas triunfei da caufa della:
E as cores, com que Amor te retratava,
31 te náo pintáo táo formofa, e bella :
Olha corno a paixáo Me allucinava.
J
A'
N cm
) 5 ve,
D a m
Di
Os fe
E, ,
Que
Qz
Quet
Dia
He
Da
S
O-
J
A' me no venço , Amor, de hum géflo lindo,
Nem de huma voz de Circe encantadora;
35 venci
'
triunfei da máo traidora
Da máo daquella, que me andou ferindo.
Dize-lhe , que, o fu jugo facudindo,
Os ferros quebro „que arrojei té agora;
E,
que fe rir cofruma de quem chóra,
Que eu já náo chóro , e que me fico rindo.
Que nefte ¿ja, da razão armado,
Q
i
ebrei o encarno, defatei o enredo:
Dia por cerro bernawenturado
Mas que no cuide, que o fugir-lhe he medo
He odio ; e que 1
.
6 vou acornpanhado
Da viva dar, de lho náo ter mais sedo.
:ja;
J3,
DE
J.
X. DE MATOS.
7
SONETO
S
O-
RIMAS
SONETO
F
M
batalha campal
tne
defafia
Cupido, 16 por
° fó. Náo fei que faça;
Se houvera fó valor, e náo defgraça,
Nenhurn receio de o vencer teria:
Mas quem fempre da forte defconfia,
Porque lhe fora em toda a vida efcaçal
Que triunfos efpera de quem rraça,
Para matar, enganos cada dia?
Eu bem fei que a matallo fó me atrevo;
Mas para me vingar, fern defvarios,
Bala
.
° as fem-razóes, que delle efcrevo.
Que
Se elle quer, venha c5; verá meus brios:
eu amo a Deos , e ao Rei ;
,
e obrar náo devo
Contra a Leí, que prohibe os defafios..
C O
Qnem
Para r
Para 1
A n
De al
E fe
Juro,
Por
E, be
Nella
Poi
Mais
Para 1
SO-
DE J.
X. DE MATOS.
9
SONETO
C
Ontra o poder de voffas míos, Senhora,
Quem ha de refiftir? Se bata vellas,
Para morrer de amor por gofio nellas,
Para vos declarar por vencedora.
A mefma Naturezia fe namora
De táo formofas máos , de máos ro bellas;
E l'e eu fou digno de jurar por ellas,
Juro, que outras iguaes náo faz já agora.
Por ellas deixa Amor da Mái os braços;
E, beijando-as, os ferros paffadores
Nenas vos p6e, já feitos em pedaços:
Pois acha neffas máos, mais fupriores,
Mais fuaves farp6es , mais doces laços,
ro
Para prender, para matar de amores.
so-
T
on:.
tu
RIMAS
SONETO
Ai, (5 caro Liman°, que a ventura
Náo fe fez para mim, vai ver aquella,
Como a qual ntinca vifte outra táo bella
Em graça,
cm difcriçáo, e era formofura.
Pinta-lhe a melancolica figura,
Em que aqui fico a fuIpirar por ella:
Pinta-lhe a dor de náo poder ir vella,
Se he que podes fazer-lhe efta pintura.
Dize-lhe, que te invejo a liberdade
De ir ver fcus olhos, unico conforto,
ftbe eu tenia na minha enfermidade:
Dize-lhe, cm fina, que fico tal de abforto,
(be mais te quiz dizer; mas que a faudade
Náo deixou dizer mais, po-is me tem morro.
SE
<
Morre
Leite
Ou pa
0,12e
Graça
Náo
Na vi;
Con
Sé a
Para v
Mas
Que te
Culpa
so-
DE J.
X. DE
MATOS,
tx
to ,
e
to.
SONETO
S
E quem te vl, belliffima tyrana
Morrer por ti de amores fe não
Leite mamou de Libica Serpente,
Ou parto foi de alguma Tigre Ircana:
Qltem haverá, que, vendo a foberaná
Graça gentil de teu olhar fómente,
Náo fe abraze na luz refplandecente,
Na viva luz, que dos teus olhos mana!
Como pertendes, pois, que eu te refifla?
Se a tua, nunca villa, formofura
Para vencer as mais, baila fer villa1
Mas fe he porque em mim vls tanta branclara
Que tens cm pouco a g!oria da conquifla,
Culpa quern me náo deo alma mais dura.
o-
Tom.
So
ti mft-Graças fempre
eflo chovendo:
Se fallas, Graças mil fe eftáo ouvindo;
íii
Graças neffa boca fe eftáo rindo;
eraças mil neffes olhos fe eftáo vendo:
Beijáo-te hurnas as míos ; outras , correndek
A teus mimofos pés, te váo feguindo;
Humos por tuas faces vem fubindo;
Outras por teus cabellos váo defecado.
isZáo sáo f6 tres as Graças, milhaes dellas,
Que te acompanháo táo gentil figura,
Ficáo, poftas em
ti,
feudo mais bellas.
quiz contallas, mas achei loucura;
Que .he reduzir a numero as Eftrellas,
Contar as Graças neffa forrnofura.
A
Q1
Cheio
Sempre
Tanto
Aque
(Ditofc
Aquelle
Cujas
r
Tude
Nem,
Efta
vil
Po
Ngl
isiafó
quando
so-
u
2
R
IMAS
SONETO
DE
J. X.
DE
IVIATOS.
xl
D:
as,
SONETO
Quelle
rolo,
aquelle affavel
rolo,
Cheio d'um náo fei
que,
nrais
do que agrado,
Sempre innocente, fempre
delicado,
Tanto
ao nafcer
do Sol , como
ao
Sol polo;
Aquelle fitio,
que
fervio
de encolo
(Ditofo fitio! )
A tanto
bem
amado;
Aquelle
chao, por elle
já pizado,
Cujas pégadas beijarei
por gofio;
Tudo
me manda Amor, que n'alma traga;
Nem,
por
mais
que nos
fuja
o
tempo
leve,
Ella viva
lembrança em mim
fe apaga.
Ninguem rifcar
memorias raes fe atreve;
Pois 1
-
6
a
máo
da morte
he que as
eftraga,
Quando
a
pena de Amor he que as efcreve.
Bit
SO.
RIMAS
14
SONETO
PAra
que cm mim
os
olhos teus puzefte,
Táo cheia
de
piedade,
e de
brandura?
l'ara que ¡he
augmentaffe
a
formofura
No lindo
movimento,
que
lhe défie?
Se
foi,
para
ferir-me,
que os
moveffe,
Deixa-me
agradecer-te ella ventura;
Torna a
ferir-me ,
que
eu náo peço
a cura
Das
chagas immortaes,
que
me
fizefie.
Se me vires cubrir de amargo
pranto
Náo
perguntes porque;
pois
nao
duvidas,
Que a
caufa és
tu,
meu Bem ,
de
eu chorar
tanto
So
fangue
d'alma as lagrimas vertidas;
E
á vifla
do
aggrefror náo cauía efpanto,
Que torne a
fahir fangue
das
feridas.
N
Porq
Diz,
De
c
Que
3á m
1\Zuni
Et
Eu c
De
c
Quai
Sern
so.
DE
J. X.
DE MATOS.
'as
SONETO
N
Unca mais tornarei
a
ver
teu
rollo;
Porque Amor, a
quem tenho confultado,
Diz,
que
náo fabe ,
que o
pergunte ao
Fado,
De cuja negra
máo
pende o
meu
gofio:
De
quem foi fempre
a
meu
alivio
oppofto,
Que
bcm devo efperar? Defenganado
3á
me
tem
a
expriencia
do
paffado;
Nunca
mais tornarei a ver
teu rofto.
Eu o
diffe
mil
vezes, na
memoria
Eu
o
diffe
mil
vezes,
guando
vinha
De
confeguir
de amor tanta
viaoria:
Que a gloria de te ver , que me
mantinha,
Quando náo foffe
breve, por
fer
gloria,
Sernpre havia
acabar-fe, por fer minha.
SO-
16
RIMAS
SONETO
D
o
Téjo
as manías ondas
apartava
ç
No
feu
pobre batel,
Albano, hum dia,
Pefcador
de
miuda pcfcaria,
Ven
Com
que apenas a vida
fuftentava:
Mol
Com
os
olhos nas praias,
que deixava
1
T
Cheio
das
faudades ,
que
trazia,
Em
Da
Ninfa o doce
nome repetia,
Surj
Da Ninfa, por
quem
tanto
fufpirava:
Dos
Chegando á praia oppofta
fe
entriftece
y
E
O
faudofo Albano ,
de tal forte,
Elle
Que vivo
náo,
mas
morto já
parece:
Salta n'arda, e
diz:
Cruel
tranfporte!
Trille de
quem
fe
aufenta,
que padece
E
c
fluma faudade mais cruel, que a morre!
Por
SO-
DE
3. X. D'E MATOS.
SONETO
Ual depois de horrorofa tempellacle, ''``‘
De que a vida efcapou fahindo a
nado,
Veril c'o
vellido unico molhado
'
-
Move
n
do
as gentes todas
á
piedade:
Tal en depois da negra efcuridadel
Em que eflive aré agora fepultado,
Surjo ante v6s, 6 Jonia , deflroçado
Dos procelofos mares da faudade.
Elles no fundo abyfmo me tiveráo:
Elles ás altas nuvens me leváráo;
Mas falvei-me onde tantos fe perdIráo.
Piedade,
oh Jonia ! A huns olhos que choráráo,
E que no mar do pranto, que fizeráo,
Por
milagre de
Amor náo fe affog,áráo.
SO-
E1
Q
Iral muda Rez ,
de
pés,
e mãos ligada,
,
Sem
fazer ao cutélo refifiencia ,
Cuid,
Quer Jonia que eu me cale, e que á violencia
E qu
Traga feinpre a razáo facrificada.
Mora
Qner que huma alma, de amor ao jugo atada,
Ac
Tenha cm foffrer tamanha perfiftencia ,
Ilbe
Que no affrontofo carro da paciencia
TI
um
Va ern triunfo público levada.
Enga
Que roáis quererh Jonia ? Que inda ufano
01
Da caufa vil, por que de novo peno,
E
en
Adore o erro, conhecendo o engano 1
flum
Vá Jonja amar hum coração pequeno
p
M
Que antes
a
Furia reduzido Albano,
Fez
Comerá ferro, beberá veneno.
Que
s
O-
RIMAS
SONETO
• ...YZ
s
o-
DE J. X. DE MATOS.
19
SONETO
Nganei
-
me com Jonia : Paciencia:
Cuidel que achaffe hum coraçáo conftante;
E que debaixo de hum gentil femblante
Moraffe huma alma cheia de innocencia:
da
I
Achei ,
em
vez de amor, huma apparencia ,
Qie
paffou por verdad e, e a cada inftante
Pluma alma enganadora
'Paciencia.
hum genio errante;
Enganei-me com Jonia:
Oh! Quena antes de amar a conhecera;
E
entáo tivera , corno tenho agora,
flum coraçáo de bronze, e náo de cera.
Mas fe era coftumada a fer traidora,
Fez muiro bem , obrou como quem era,
Que no fora mulher, fe allin náo fora.
A6 vades hoje ao
campo, 6
Lavradores;
Debtai ,
Ninfas do
Téjo ,
as
aureas
teas;
Ce%
nas praias, ceffe nas
Aldeas
Yola trato
Barqueiros,
e
Paftores.
, Vós
Virtudes,
vós Graças , vós Amores
1
E
Defcei
do Ceo; e
em feftivaes
ChoreasTe
h
Serranas, Ninfas,
Dryades , Napeas ,
Fiqui
Dai a Anarda, comigo ,
altos
louvores.
Fiqui
Elle he de
nós
o Idolo
adorado:
11
Vede, que Amor, e o
Tempo ,
ame
fen vulto;
Zbri.
Hum
a
fouce , outro
as
Letras
tem
quebrado;
E
qt
Faz
annos
a
pezar
do
feu infulto:
E
Ah!
Feftejai hum dia táo fagtado ,
cr
(2
22
e
até
eftes tyrannos lhe dáo
culto.
.
Ef
Em
1T
Em
Que
Bem
RIMAS
SONETO
DE l'Y. DE MATOS.
.2t
(SONETO
V
Ai Genoveva:
os
favoraveis ventos
Em
paz te
levem
pelas ondas
rnanfas;
Que
erguendo
os
olhos ,
j
efpalhando
as
tranças,
Bem
podes
ferenar
os Elementos:
E fe de ir ver
eRranhos apofenros,
Te
háo
de
feguir altillimas bonanças,
Fiquem fem
vida as
noffas efperanças,
Fiquem
aun premio os
teus merecímenros.
Dos altos
dons,
que te
negou
Lisboa,
'Abrir
os cofres
á
fortuna vejo,
E
que
cm Fans
com
elles te
coroa:
E cm
quanto
fe
náo cumpre
o
teu defejo
Efcuta
alegre, o que de ti
preg6a
Em.frania
o Sena,
CM
Portugal e Tejo.
tO
do;
12
RIMAS
SONETO
N
,
Um
tronco Amor
á vifla
dos
Paflores
A
(!)
arco, e as fettas pendurado havia,
ciofos
os
ferros paffadores.
P
T
Q9
:
e
dr
O
éal
Pois quiz , em teu obfequio,
ter
hum dia;
Huma capélla
de
cheirofas
llores
ih
Elle
nas crefpas azas te
offrecia ;
De a
E
cheio
de
doçura ,
e de
alegria;
V6s
Cantando
derramou
cites
louvores:
Pois
Vive, Ninfa gentil,
desfruta
a gloria
13(
Da
minha protecçáo,
que, entre os
humanos,
Tenl
A
ninguem concedi
tanta
viaoria:
Que
Vive a
pezar
dos
feculos tyrannos;
N
Que de
teus
bellos
annos,
a memoria
56 1
Ha de durar,
cm
quanto houverem annos.
mo
DE J. X. DE MATOS.
2;
os'
SONETO
A.
Narda, vofra
Mana
ferá.
bella;
Porém
a par de
v6s
nunca o parece,
Que
huma
fe,
gtaça voffa lhe efcurece
Todas as
graças,
que fe
encontráo
nena:
D. que
lhe quereis bem,
ten&
a
cautela
De a
náo
levar
comvofco onde apparece;
Vós
o
fabeis,
o Mundo o
reconhece ,
Pois
á vifta
do Sol
náo
luz a
Eftrella.
Bem
que mil
vezes
me
digais,
que miura,
Tenho razóes táo
altas de
fobejo ,
Que
igualalla comvofco náo confinto.
No
fei
fe he
illusáo
do
meu defejo,
5
6 fei
que, vendo es
olhos feus , náo
tinto,
Ifto,
que finto, guando os
vollos
vejo.
SO»
24
RIM
A
S
SONETO
O
Ra aqui, ora alli, ferindo
a
gente
Anda Amor, em teus olhos disfarçado;
E por náo fer (como he razáo) culp2do
Diz , que lho mandas tu, náo fei le mente.
Quando teme palTar por delinquente,
A teus cabellos voa , onde enredado
Dentro delles effá, corno em fagrado,
Armando laços de ouro fubtilmente.
,Mais do que Amor, é.s tu quem nos maltratas
Pois as mottes, que faz, tu lhas decretas;
Que elle com fer cruel, tem Leis mais gratas:
Trazes todas as almas inquietas
Porque tens, com que as prendes, com
zi
as
matase
Nos cabellos grill-16es, nos olhos fettas.
s
o
I
os b
E co'
IVlais
Ehl
Em
Manc
Em z
Dás
Eáo
A
Dilat
Náo
251,
DE
J.:51.'DE
MATOS.
SONETO
E
M
brand°
y
erro celebrar quería
Os bellos annos de Marina bella;
E co'a Lyra na máo, e os olhos nella,
IVIais que ás Mufas, influxo a Amor pedia.
Elle que já mil flores lhe trazia,
Em quanto lhe formava huma capélla,
Mandando-me calar, diante della,
Em alta voz em feu louvor dizia:
, ¿:) Jove immortal, que dos humanos
Dás, e tiras a vida, cm vituperio,
Eáo 15 dos Altos Reis, dos vís Serranos:
A de Marilia, por maior myfferio
Dilata, que, fem ella fazer annos,
Iláo fe furcenta o meu famofo Imperio.
S
a
La
RIMAS
SONETO
V A5
de
valor, váo de Fortuna armados
#
N)
x
r
A conquiftar o dundo Heroes valentes;
Querr
E na téltá de exercitos rompentes,
Outra
Voltem de mil defpojos carregados.
B eija
Soltos ao vento mil pend5es ganhados
#
O I
Co'as
.
.)1 cativas numerofas gentes,
V oa :
Cortem do mar as túmidas correntes
E da
Altas galéras de efporóes dourados:
O ma
Entrem por Grecia, e Roma ;:a generclfi
Tet
Sombra
de
arcos triunfaes de palma, e louro #
T eu c
Ouçáo acclama£5es cm verfo, e profa;
D efpr
Que eu maiores triunfos enthefouro,
He
Contente da conquifta gloríofa
Q ue
De huns olhos pardos, de huns cabellos de
ouro.
P ara c
Ton
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
1Ç
A5
foi, Marilia, a tua forincifura
Quem mc prendeo a folta liberdade,
Outras sáo as cadeias, que a vontade
Beija por gofio, arrafta por ventura.
O fragil dom de huma gentil figura
Voa nas azas da primeira idadc,
E da pállida fuá() da enferrnidade
O nias ligeiro toque a desfigura.
Teu grande coraçáo, tua alma grata,
11"0
#
Teu claro efprito , de virtudes cheio,
Defprezador de todo o ouro, e
'Kan,
He fe, a formofura, em que me enleio.,
Que cita, guando do corpo fe defata,
Para o Ceo torna a
ir,
de donde veio.
Tom. H.
Is
uroé
28
RIMAS
SONETO
O's ,
arenaras, Efcalabitanas
Margens do Tejo, a cujo antigo afrento
Deo noma o curvo, o bellico infirumento,
Que orna o cinto das gentes Africanas,
Croadas de Salgueiros , e Efpadanas,
Vede alegres o meo apartamento;
Que tu vou , como jh fiz , n'outro aparento
Infamar, com meus ais, outras cabanas;•
Mas fe a vizinha, fe a furiora cheia,
Que j'a nos traz boiando o Chopo, e a Faia,
Ameaçar de mais perro a voffa Aldeia;
Porque refpeite o litio deffa praia ,
Moftrai-lhe , que aqui fica , robra a areia
9
Efcrico o nome da formofa Olaia.
So-
E
IV
D a be
I nquic
P or m
O d
M as
v
A h! F
D izeric
Náo
S o de
L impa;
E pl
D a má
Fe cha-;
IDE
J. DE
MATQS.
29
SONETO
E
NI torno de hurn Altar, onde apparece
Da bella Olaia o mageftofo vulto,
Inquietos amantes lhe dáo culto
Por máos d'um Sacerdote, que Ih'offrece.
O devoto Miniffro Amor parece,
Mas vive nene disfarçado o infulto:
Ah! Foge, Olaia, de quem anda occulto,
Dizendo, que he Amor, fendo intereffe.
No cuides fempre que,ernhurn peito humano,
ia,
So
de Amor as offertas ungulares,
Limpas de má tençáo, como as de Albano;
E para o facrilegio caftigares
Da máo fagrada, que dirige o engano,
Fecha-lhe o Templo, efcande-lhe os Altares.
•
Cii
s O-
30
[RIMAS
SONETO
Ual
o menino, pela
máo
levado
Para ver
algum
público
tellejo,
Sem faber
regular o
feu
cortejo,
No
meio
cita dos
mais,
como
pafmado.
Tal
eu, Senhora ,
pela m'a
°
guiado
De hum feftival,
de
hum candido defejo
Junto
c'os mais ,
a
IlluRre máo
vos
beijo,
Sem
que polla
louvar-vos
de admirado ;
,Mas
fe os puros
affedos
da
vontade
Tambem sáo eloquentes nefie dia,
Sirva de
panegyrico
a
humildade;
Pois fei ,
que para
vós tem mais
valía
Os
sáos conhecimentos
da
verdade ,
Do que os
dons foberanos d'arrnonia.
SO-
E
ent
Que
Co'
Os lo
E
c'u
Traba
Par
Que
Torne
C29
Se a
A
cor
Indo
Carden!
tila
dos
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
;O
-
A
Os fantos bofques do Tojal me guia
máo fiel de hum feftival cortejo ;
E entre as ramas vagando o Monftro vejo,
Que faz dos filhos feus crua iguaria,
Co'a curva fouce, que na máo trazia,
Os louros córta infignias de [dejo;
E c'uma voz, que lá fe ouvio no Téjo,
Trabalhando , cantando, allim dizia:
Para o jufto Saldanha , que ennobrece,
Que adorna, e felicita a noffa idade ,
Torne efte louro, que á fua fombra crefce.
02.2em
terá contra elle authoridade?
Se a mefma eftragadora máo Ihe téce
A
coroa immortal da eternidade.
s ()-
Indo
o A. fallar no
Enzinentijrno ,
e
Reverendijipto
Cardeal
Patriarca , t'Un* ea
fua Quinta
do T'ojal,
'ens
tila dos
feas almo.
1
RIMAS
IQ N
E'T•
O
T
Razei do Ceo medicinal virtude
'Ao Regio Infante alegre melhoria;
Annunciai á timida Maria
Do amado efpofo a proxima faude.
Por mais que a valla medicina eftude
Em que várnente o Medico fe fia ,
N.o acerta fem vós , náo tem valla,
Que páde más a natureza rude.
Os rogos acceitai , que vos enroa
O afruftado Belem , a pobre ,rente,
Os V2dTallos, a Corte, o 1
2
.ei., Lisboa;
Nem fó Pedro, e Maria die mal lente;
Fez-fe contagio, a toda a parte voa,
E todo o Vorcugal ficou doente.
S O-
11."
.117a moleflia
de S.
A. R.
o
Serenijmo Senhor Irfaule
D.
Pedro.
Ser
Vaft
Na (
0.32i2
A ni
Do
1
De
Forr
Mul
DE T. X. DE MATOS.
3;
SONETO
Q Uiz
ver o Sol de note, o
Luar
de
dias,
Benigno
rofto na
horro roía
Aleao ,
Ser de torres no
ar novo Arquiteao
3
Vaftos fertóes atraveffar fem
guía.
Quiz achar
nos Internos
harmonia
2
Na Glotia contusáo ,
o mar quieto;
Q
.L
itz
ver
hum
Corvo
branco , hum Cifne preto
2
A
neve ardente ,
a
lavareda
fria;
Quiz
contar as
arlas
do Otean°,
Do
fepulcro
de Jove achar
certeza,
De altos
myllerios defcubrir
o arcano;
Quiz em
fina,
pervertendo
a
Natureza,
Formar
hum novo cáos , buftando Albano,
Mulher com fé ,
Fortuna
com
firmeza.
O-
Ifaule
SONETO
A
Bre
as
azas
de
linho,
Ave
ralleira,
E
fobre
o campo azul do mar
falgado
Leva
em
paz o
rneu filho
idolatrado,
Que
vai bufcarjem mim, praia eftrangeira.
Val, de
feus annos na eflação primeira,
Do
bafo
maternal
defamparado
O
Ceo
fereno,
o
vento focegado
Te
facilitem a feliz
carreira.
Das
ferreas unhas
as
priz6es defata;
E
leva
hum
finto de
fua
Mi
aufente,
Carga
mais
rica, que todo o
ouro,
e prata:
Se
não
por
filho meu,
por innocente,
O
perigofo baixo ,
o vil pirata
Foja, ruja de ti:
voa
contente.
M
O-
Offet
Da
g
Fe:
"No
f
Com
A fi
A
Tal
Que
Ne
Que
De
r
14
RIMAS
ra.
DE
J. X.
DE
MATOS.
MOTE
.De meu não
pero
mais ,
que o
meu defejo.
GLOZA
SONETO
Q
.
Uem corre ap¿is do bem , que no alcança,
Porque de Amor algum vil premio intenta,
01f:ende Amor, que Amor náo le alimenta
Da groffeira materia da efperança.
Feliz o meu amor, que fem mudanga
"No feu puro delejo fe fuftenta:
Com elle fatisfeito fe contenta:
A
fi fe tem, por fim,
em
fi
defcança.
A califa donde vem, que eu náo explico,
Tal virtude me (I, defde que a vejo,
Que todo nella transformado fico:
Nem outra alguma recompenfa invejo ,
Que fe com meu defejo eflou táo rico,
De
meu não quero mais , que o nieu
defejo.
3
6
RIMAS
MOTE
•
,Ou
me leva,
ou
Id& partas de 'Lisboa.
GLOZA
SONETO
--
A
Minar-me de Marcia pertendia,
P (
Marcia, a quem mais, do íj a mim meten
°
, amava;
Por
E
16 de imaginar que me apartava,
Que 1
Antes de me apartar morrer temia.
Sáo 1
Curvando o corpo fobre
a
vara hum día,
Po
Da area o tneu batel defencalhava ;
E
Salnvaa
E vendo enráo, que o barco já naciava,
Deitando-o para o mar, partir queria.
Pouc
Eis-que o vento fe agita , a agua fe altera;
Tu
E henil mar, que cm flor me rebentou na praa „
Que
Torna a pór-me na praia , onde ellivera.
Nem
Qrando efta voz a
.
meus ouv idos foa:
Po
Ah
não
fijas,
•
aonde cds efpera
Pren
n
O
111C
ou n'do
partas de Lila..
D25
lava;
ra;
réia,
DE J. X. DE 15,1 A TO
S.
MOTE
Das
indu.s
c
irias
humanas te
efids
rindo.
GLOZ
SONETO
P
Odem contra le6es , contra ferpentes,
Por arte os homens defender a vida
Que a lança, a efpada, a fetta defpedida,
Sáo para iffo as armas competentes.
Podem contra piratas infolentes
Salvar a liberdade pa fugida,
E nas mafmorras, guando a vem perdida,
Pouco a pouco limar groffas correntes.
Tudo podem fazer ; mas contra os laços,
Que tu Ihes téces, náo lhes val , fugindo,
Nem pés ligeiros , nem forofos braços;
Pois corno fabes, com teu géflo lindo,
Prender-lhe as máos , embaraçar-lhe es paffos,
Das
indunrias
&Imanas te
efiás
rindo.
;7
SO-
RIMAS
SONETO
O
Roxo Baccho , que efpremendo eflava
F1
Maduros caxos, que cm Setembro cria,
Náo
Porque foube dos Deofes , que cite dia
De a
A Anardina gentil fe dedicava ;
Que
Em ricas taeas derramando andava
MI
O efpumante licor, pai da alegria,
Da r
E cm lugar da fuavillima Ambrofia ,
E vi
Com elle hum brinde a todos preparava:
Que
Dando final
c'o
verde Tirro erguido,
Pt
Bebendo foráo cm louvor daquella ,
Para
Que o mez honrou de Baccho táo querido :
Para
E a feus annos tecendo huma capella ,
Al
Os más Deofes fiará
°
, f6 Cupido
Porc
Tornou voando para os olhos della.
Poft
S
o-
Pazenclo annos
ti
IlluftriOnta ,
e
ExcellentiAna
nfiora Coneja
Vambeire.
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
F
Ugi, prazeres, de quem chora, e fente
Náo ver de Marcia a divinal figura;
De alegres corações náo falta gente,
Que, em váo , por vós trabalha , e vos procura.
Moilrai-me, fe podeis, a formofura
Da minhá Marcia, por quem choro aufente;
E vinde , entSo chamar-vos-hei ventura,
Que antes náo me podeis fazer contente;
Pois fe nenhum alivio podeis dar-me,
Para que vindes , tendo ella certeza,
Para que vindes fem razáo cançar-me
Moilrai-me Marcia , ou defilli da emp reza,
Porque fem ella fempre havcis de achar-me
Pollo i fombra das azas da tracza.
49
J-•
Se.
so-
40
RIMAS
SONETO
Q
:lerendo erguer, em honra defte dial
Ao reo norne huma &tatua , imaginava
Sobre a digna mareria, e duvidava
Se de bronze, ou de marmore a faria;
Mas o Tempo, que rudo deftruia,
E já cantando o teu louvor andava,
Das fracas máos a obra me tirava,
E
encolfado na fouce, alfini dala
Pede do teu Liz,o , o nzufico infIrtunento 0
Se do bonz Te/les, com voz,ciara , e pura .
Qzferes cantar o ato nalcimento:
O zneu poder efiatuas desfigura,
E
no Mando bulla feliz nterecinzento
Mais que nos jafpes enz bons verlos dura,
SO-
O
Nos
E tan
Que
Bai
No fi
Tanu,
Qge
Ehl
Sahir
O mi
E
Nefle
O m
Fazendo andas o Illafirliimo , e Excellentijiazo Senhar,
D. Francil:co Xavier 2'elles,
DE J. X. DE MATOS.
41
S O N, E T O
O
S
rijas ventas, que as priz6es quebráráo
Nos penhafcos as ondas desfizeráo ;
E tanto contra o Ceo fe,revolvIram
Que ,ao Ceo fubindo as nuvens falpicáráo:
Batendo, as fracas vélas fe tafglltáo
No fundo mar o meu batel mettéráo ;
Tanto por mono as gentes me tiveráo ,
Que ralvo em terra de me ver pafrnáráo.
Ellas nos groffos mares enrolado
Sahir me vítáo a beijar devoto
O milagrofo cháo , que me ha falvado :
E ellas me vírlo , pendurar,
, por voto
Nelle Templo, i Piedade confagrado,
O meo
I
l
eftido mal e
t
ncuto , e roto.
hor
A
S
negras roupas com ïeliceagouro
Depóe, 6 Mufa, e de prazcr te vefle;
Da frome arranca o funebre Cyprette,
E as tranças orna de Amaranto, e Louro.
Entra d'Apollo no immortal thefouro;
Ricas palavras, dize , que te emprelle;
E cm vez do Deos Caprino a frauta agrejle,
Fere, do Grao Thebano, Lyra de oura.
Com ledas azas de formofas penas
Vai dar, voando, hum grito no Univerfo
Em companhia das Irmans Camenas:
E canta, que a pezar do Fado adverfa,
Ilum novo Anua
°
, hum fingular Mecenas
Ornou teu vulto, protege° teu veda.
SO-
Toi
(1e
Arma
Pollo
Co
D'aiji
E mt
Coni
Dii
Po rcp
Cahic
Eis
No a
Genv
4Z
RIMAS
SONETO
DE
J.
X. DE MATOS.
43
SONETO
A
Mor, por fe vingar d'urna alma izenta,
Que fempre efcarneceo dos feus rigores,
Armado de arco, e ferros pairadores,
Pollo em campo, bacalha lhe aprefenta:
Como ferir hum' alma illuftre intenta,
D'aljava eftolhe huna ferro dos melhores;
fe,
E murmurando, a força dos Amores
Com magicas palavras accrefcenta :
Difp'ara a fetta, a fetta neto fez nada,
Porque a pezar do impulfo foberano
Cahio no cháo des feita da pancada:
Eis-que lhe lembra a que feríra Albano,
No arco a póe; e como Ha ed-vada,
Gemeo Fileno, rio-fe
o DCGS
tyrano.
Ton'. H.
SO-
CH
Que ei
(Zie a
E que
Mas
Chami
Sabei,
Náo v
Lig(
Truño
Q9e h
Ah!
E nos
Cravai
Na
Cuídela
so-
40
44
RIMAS
SONETO
N
'Um valle, culo nome náo fabía,
Rodeado de tortas Oliveiras ,
Por tofcas efcarpadas ribanceiras
l'urna tarde hum Pallor me conduzia.
kbafadas montanhas dalli via,
Fazendo fombra ás placidas ribeiras;
E as macilentas luzes derradeiras
?bebo nas negras aguas efcondia.
Pal/or,
, (lhe digo) que medonhos ares!
Parece que mais funebre náo fora
O mefmo domicilio dos pezares.
Paftor, fujamos, vamo-nos embora ,
Que ficará6 , fe eu fico , elles lugares
Inda mais trilles, -do que os vejo agora.
•
DE J. X. DE MATOS.
45
SONETO
C
Hora/ Graças , chorai chorai Amores,
Que em fim morreo... Mas náo queirais fabello
2
(Zje arrancareis o lucido cabello,
E quebrareis os ferros paffadmes.
Mas fe de tantas almas os clamores,
Chamando por Anarda, háo de dizello,
Sabei, que ji daquelle roíto bello
Náo vereis mais as engrayadas cores.
Ligeira máo de negra enfermidade
Truncou em flor aquellas efperanças ,
Que hiáo já rebentando em noffa idade.;
Ah! Confagrai-lhe funeraes lembranças
E nos Altares da immortal faudade
Cravai as fettas, pendufai as tranças,
D
O
Na morle
da
Illufirifinia
j
e
ExcellenVima Snshora
Condes Pornbeiro.
4
4
RIMAS
SONETO
Q
lje dotas, dignos de ti, offleceria
Boje aos teus pes, Pattor illuftre, e honrado!
Nakette Grande,
vives
aballado,
E
eu (como tu fabes) fem valia.
Fruta ? Caca? Teu campo tudo cria.
Fiel rafeiro? Muitos tens ao lado.
Burna rez enfézada ? Tu tens
gado
Qe
cancei, guando quiz contallo hum dia.
Que retta?
O
coraçáo? Bem
fe
conhece
One todo he
t
eu,
que fe
te
humjlha ,
e
dobra
Cbal boj, que
ao
jugo o mango colo
OfffeCe:
S6 poffo dar-te ;
porque
em filn me fobra,
C'os parabens,
que
hum dia
tal
merece,
Mil beijos neffas maos, de quem fou obra.
S
O-
P(
Iguat
Todc
Dar
Sal
Tomi
Que
irtt
Po
Litro
De
n
Ni
Que
Mais
-Fazendo
o 1/hl/
1
ejía:o e
ExcellentiVine
Senhor
Conlo
da
Vidiguoira.
P
Obre, ou rico, vaffallo, ou Soberano,
Iguaes sáo todos , todos sáo parentes,
Todos nafc'éráo ramos dekendentes
Do tronco antigo , do primen() humano.
Saiba, quem de feus titulos ufano
Toma por qualidade os accidentes,
Que duas geraçóes ha fe) diferentes,
lia.
Virtude, e vicio, tudo mais he engano.
e
Por mais que affeae a vá Genealogia
dobra
Introcluzir nas veias a nobreza
'rece:
De melhor fangue, do que Adío teria,
Sra,
No fatl, defmcntindo a Natureza,
Que Ceja, fem virtudes, a Fidalguia,
Mais que hum ttifie fantafma da grandeza.
O-
Senho r 110-
A
47
DE J. X. DE MATOS.
SONETO
RIMAS
MOTE
Aceendo as toxas [obre os tests Altares.;
GLOZA
SONETO
O
S
verfos
que
cantei já n'outra
hora
Ao baixo fom
do
rufbco falteiro;
Ora vendo correr claro
ribeiro,
Ora
ouvindo
cantar ave
fonora:
Cl
Incli
Goti
Que
Outros já feitos ao
romper da Aurora,
Dourando
o
cume
do impinado outeiro:
Outros áquelle affumpto derradeiro ,
Que
eftimo mais,
que todos, anida agora,-
Todos, á villa dos que tu
tens feito ,
rftranhos,
puros,
novos, fingulares
Sáo , de Mufa infeliz, parto
imperfeito ;
E as
folhas
dos
feus mefmos exemplares
Queimo;
e
com
ellas por
maior refpeito,
Acodo as toxas fobre os teus Altares.
Reir
Eh
0.11e
Sc
A
P
Por(
Cor
Dé]
MO:
DE J. X. DE MATOS.
MOTE
Défies
a
norte ao Autbor
da Pida.
GLOZ
A
SONETO
C
Ra
y
ados
pés ,
e
máos ,
e da
cabeça
Inclinada no
peito ercorregando
tintas de
fangue
pelo rollo
brando,
Que a
fer
cadaver pillido começa:
Do
coraçáo ,
que a
lança lhe arrayeça,
Remedio para o Mundo cita. manando ;
E ha po
y
o inda
táo
barbaro ,
e nefando,
0,11e
por
Filho
de
Deos
o
defconheça!
Se
eflá nefte Exemplar
da penitencit
A
Profecia
de Daniel
cumprida ,
Porque
fazeis incredula
a
expriencia
Que pena a tanto mal fea
devida?
Confundates
a
culpa
co'
a
innocencia:
Défies
a
norte ao
_babor da Pida.
SONETO
Inde, 6 Anjo da paz, e da alliança,
Dos Reis, e dos Profetas fufpirad.o
Honra daquelle, por quem fois mandado,
E dos Padres do Limbo alta efperança.
Mas ah Senhor! (Trifliflima lembrança!)
Náo venhais, que vos tem appatelhado
Os homens, para o hombro, e para o lado,
Vergonhofo madeiro , aguda lança.
Porém V6s fabeis tudo ; e já fallátáo,
Cheios do voffo Celeffial conforto,
Os tnefmos, que de vás profetizáráo.
Será° fem fruto as petiOes do Horto;
aquelles dous primeiros, que
peccáráo,
Náo poderá6 viver, fem ver-vos mono.
-ODES
Cyth
E o
Ouvi
Em
Para
As
c
50
RIMAS
ODES
I
Nfeliz inftrumento,
Cythara fem
ventura, fe
algutn dia
Adormecefle
o
vento,
E o
Tejo
recoftado
a voz te
ouvia:
Se os
famintos cordeiros,
Ouvindo
os
écos teus
no monte
agrefte,
Já
dos altos
outeiros
Em confuto
tropel
defcer fizelle:
Se as fonoras abelhas
Para
efcutar-te,
as
azas encolltl-áo;
E
erguendo
as
fobrancelhas,
As
cabeças
os
Satyros movIráo:
Se
5z
RIMAS
Se o
tyranno Cupido
Com tuas aureas cordas já bríncou;
Fort
E no
ar fufpendido ,
Mil
vezes fufpirando
te
efcutou:
De
Se
implacaveis
rigores
Já vencefle
de Ninfas
defdenhofas:
Que
Se
défiros tangedores
Já
te
enfeitáráo
de
purpureas
roías:
Das
Já lá vai effa idade ;
Dos
olhos
me
fugio táo
doce
eflado,
Nafi
Com maior brevidade,
Que luz, e
morre
o
lume fuzilado.
Gui
Cytara minha,
a
Deos,
Ja
náo lerás
das
minhas máos emprego;
Out
Querem
que
feja
os
Ceos
Efia
a ultima vez, que a
mim
te
chego:
Do
Os
Ceos,
os
Ceos
o
querem,
Que
allim
a dura
Anarda
o
quer ,
e manda;
Eu
Os ouvidos Ihe ferem
Os
écos teus,
e
delles náo
fe
abranda.
Da!
O
rouco
mar
batendo
Nos
váos oachopos, com
que
em váo peleja;
Do
O
eftampido
horrendo
Do turbulen
t
o Ceo', guando
troveja:
(111
Os
nda
:la;
D E J. X.
D
E,
A T O S.
53
Os efpantofos ventos
Fort crnente abalando os troncos graves:
Os femidos accentos
De mil noaurnas , e agoureiras aves:
Quer a minha ventura,
Que ainda feja mais grato aos feus ouvidos,
Do que toda a ternura
Das tuas vozes , e dos meus gemidos.
Offendem-na clamores
Nafcidos de refpeiro , e de piedade:
Náo quer ouvir louvores
Guiados pela nao da sá verdade:
Outras cordas maís altas
Outra mais défIra ináo, outro inftrumento
Vir'a8 fupprir as faltas
Do teu fraco, e mortal rnerecimento.
De hum fufto reverente
Eu me confundo, e gello, a lingua fe ata:
Quem he que de repente
Das máos táo alto affumpto me arrebata?
Ouve , Anarda formofa,
Dos bellos olhos, do engraçado rizo,
Os louvores gollofa,
Qge eu manchei com mcu mítico juizo.
Os
Tu
t54
RIMAS
Tu; Cythara calada
No amigo ramo defie tronco fecco,
Seinpre dependurada,
Se> ferida dos vemos, farás ecco.
II
Ocega-te ,
e
refpira,
Forrnofa Melibea: que fernblante
He effe cheio de irá!
Ouve-me hum pouco, efcuta-me hum inftante;
Pócie fer,
, fe me ouvires,
Que cm vez de raiva, fó d' amor fufpires.
A
mão do vencedor,
Que enfanguentada na batalha he gloria,
He infamia , he horror,
Se
depois, abufando da vidoria,
Se v'é de novo erguida
Contra a mifera gente já rendida.
Formofa vencedora,
Como te atreves a ferir o peito,
O licito,
que re
adora:
Deffes teus olbos ao poder fujeito
Não maten teus rigores
Huma
alma, que por ti
morre
de amores.
Te
D'al
Reí';
Con
Scm
Q11
O (
Par
Por
Tei
Os
Re
Se
une,
;.
DE J. X. DE MATOS,
Se a pouca refiftencia
Te diminue a gloria da conquifia ,
Defafia a violencia
D'algum Tigre cruel, que te refifta,
Que eu, inda que pudera
Refar a teus olhos, náo quizera.
No são teus olhos bellos
Como so os mais cilios, que fegura
Bem póde a gente vellos,
Scm fufpirar de amor, nem de ternura;
Mas os teus poden: tanto,
Que fó de vellos me derreto ein pranto.
Formo fas fotribras, ende
O
criminofo Amor , réo de mil mortes,
Táo déflro a rnáo erconde,
Para ferir os coraçóes mais fortes;
Que deffas cores pretas,
Por mais fe disfarçar,
, tingio as fettas.
Correm de toda a parte
Tenros Amores, que voando ,
e
rindo,
Na,s azas váo levar-te
Os rotos coral6es, que elfas ferindo:
Táo cruento tributo
Receber podes com femblante e,nxuro!
se
Oh
16
RIMAS
Oh
que de a/mas humanas
)
C'o
laço na garganta eflão pendentes
Defras negras pefianas!
Levas hum pezo tal, e náo o fentes
E vives deCcançada
De táo triíes defpojos carregada?
Tu es a que no queres
Mais que hum fó coraçáo por ten cativo?
E
tanto aos outros feres,
Que para os efcutar lhes das motivo:
Ouve o meu fó, que fente
Cou fas, que juntas fe acháo raramente.
Nelle negros enganos
Não for
j
a a vil, a fordida mentira;
Sentimentos humanos
He quanto encobre, he quanto cm fim refpira;
He ineflre dos amantes,
Tem palav ras mais doces, que elegantes:
A grofi
r
eira efperança
De hum fim commum , j iguala a gente ás féras
Náo he onde defcança
Hum grande coraçáo, que ama de véras:
Plum grande ¿oraçáo
Tem mais lotivavel, racional paila°.
As cc
Doce
Delle
Aond
He a
Inda
De ti
Em
Que
A' m
Dize
Fere-
Da
DE J.
X.
DE MATO
S.
57
Da tua alma os deflinos,
As coufas grandes, que o teu
genio
encetra:
Elles sáo os divinos,
Doces contrarios, que me fazem guerra:
Delles ando ferido ,
Delles tenho por gloria
o
fer vencido.
Ninguem , ninguem me valhá,
Aonde contra mim raes armas vejo;
Que morrer na batalha,
He a gloria maior do meu defejo;
Com táo bello inimigo,
Inda a gloria he maior, do que o perigo.
Contra mim novos ralos
De teus formofos olhos arremeça,
Farás, que entre defmaios,
Em quanto náo morrer, mais ralos pega;
Fere, derriba,
e
mata,
Que eu te prometto náo chamar-te ingrata.
Chama agora fraqueza
A' minha fujeiçáo : crimina ,
e
infama
A minha fingeleza:
Dize que he falfo o rito, impura a chama
Delle meu facrificio ;
Fere-me
a alma, faze o teu officio.
Ou.
ira;
a
s
o
a
58
RIMAS
Ontros modos procura
De arruinar o rneu tranquillo eflado;
1,Iuni
Segue a minha ventura,
E em carnpo , contra rnim, pae-te a feu lado;
Que
One por tal humicida
Em oblequio da máo , beijo a ferida.
Com
III
A tei
F
Ez-fe calvo elle monte,
Faze
Que inda hum lultro náo ha que fiorecia;
Seccou-fe aquella fonte,
Tudt
Qg e arrebatada para o mar corria;
Murchou-fe cite arvoredo,
Defpegou-fe efte rigido penedo.
Desf
Neftas defconjuntadas,
Paze
Carcomidas paredes, algum' hora
.Eu já vi levantadas
Yen<
Soberbas torres, que náo vejo agora;
Choveo , tubo a chela,
E fez o Téjo praia , onde era Aldeia.
Inve
Pouco a pouco batendo
(Por
Cavou o mar táo horridas montanhas,
Como fe lile eíiáo vendo
Mais
Cada vez mais as hurnidas entranhas,
Té o ferro deíte arado
Se tem feito ha tres dias mais delgado.
Af-
DE J. X. Dt
MATOS.
59
lado ;
Mira nos val levando
táo difFrente de outro dia,
O Padre venerando,
Que faz dos proprios filhos iguana:
Ah Tempo avaro, e forte,
Companheiro da vida, irmáo da morte
I
Tu, que prendes oufado
A ten carro veloz ligeiros ventos,
E
em
gyro arrebatado,
Fazendo táo contrarios movimentos,
Co' as rodas de diamante
nido atropelas, que fe póe diante.
Derribas a coluna,
Desfazes pouco a pouco a rócha erguida;
E
da mcfma Fortuna
Fazes mudar a face defabrida;
E
no podes, ao menos,
Vencer em mim contrarios táo
pequenos.
Que he do ten foberano
Invencivel poder? Se a paixáo céga
Do fraco peito humano
(Por mais que por mim paffes) náo focega?
Ella alma he por ventura
Mais do que o ferro, mais que a
pedra
dura?
Af.
•
K0111. IL
E
Ton-
Tempo, que tudo galtas,
Gafta-me
,
efla paixáo, que o pea° encerra;
Mas tu, tu fó náo baftas
Para a gaftar,
, para fazer-lhe guerra:
Tempo , náo podes nada
Se de ti zomba huma alma apaixonada.
Mas que milagre he efte?
Que he ifto , jullos Ceos , que cm mim prefinto ,
Que refplendor Celefte
Me vai ailumiando! Eu vejo extinto
O horror dos olhos meus:
Foi o tempol Ou fui eu ? Foftes vós , Ceos.
31 os amortecidos
Olhos, contente para vós levanto ;
Já dou promptos ouvidos
A'quellas vozes, que defprezei tanto:
Refpiro como d'antes,
Inda yenha igual bem aos rnais amantes.
•
1114orr,
Forác
Sem
Que
Quen
Náo
De lb
Rio-f
Da d
Dos
E j5.
Ven<
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
6t
ra;
fimo ,
:eos.
IV
Lviçaras , humanos,
Morreo, marre° Amor: A' fria terra
Foráo, foráo com elle os vís enganosl
Com que
já
vos fez guerra:
Aqui o Deos vendado,
Sem honras funeraes jaz fepultado;
Nem merecia te
-
lias ,
(2e os rnalfeitores sáo indignos dellas.
No houve cm verfo , ou pro fa
Quern o trate Epicedio lhe cantafle
Náo houve máo de amigo, que piedofa
Os olhos lhe cerraffe;
Ninguem teve a 1embrança
De lhe dizer fe
quer: Em
paz defcança.
Acabou defta forte,
Rio-fe delle a Fortuna, o Tempo, e a Morte
Eu
fui qu,em aos
impulfos
Da dor de ímpias cadeias , que trazia,
Dos denigridos pés, dos roxos pulfos
Defpedacei hum dia
Táo vergonhofos laffos;
E
j
á
foltas as máos, livres os patros,
En fui quem defte modo
Vencí o vencedor do Mundo todo.
E
De
Qyal
De hum novo esforço armado
Triunfar, ou morrer (diffe a Cupido)
Fofte no Lago Efligio mergulhado ,
Para náo ler ferido
Se lá houve com rudo
Para o filho de Thetis ferro agudo,
Padece o rnefmo darlo
Tu, que es hurn falfo Deos, hum Rei tyrano;
Entre os braços o apeno,
Dentro d'aljava as fettas fe quebráráo;
E de hum mortal frio fuor cuberto ,
Os offos lhe enaláráo.
Por Marfiza chamou:
Mal diffe o nome amado, e fufpirou ,
Beijando-me na face,
Pedindo-me por ella que o foltaffe.
Com que vergonha o digo!
Entro os braços affroxei hurn tanto;
Quiz perdoar-lhe, contendi comigo,
Paro, vacillo , cm quanto
Mil coufas me lemhráráo ,
Náo fei fe d'agua os olhos le arrazáráo;
Lembrou-me o quanto excede
A máo, que clá, á pobre máo, que pede.
Vend
Surpt
Pend
Nellc
Do h
Inda
E c't
Batel
Eftas
49.2e
Men
Eda
RIMAS
rrano;
DE
11.
DE MATOS.
Qual
Eneas piedofo,
Vendo Turno a feus pés pedindo a vida,
Sufpendeo por hum pouco duvidofo
A efpada no ar erguida:
Té que vendo-/he ao lado
Pender o cinto de PaIante amado,
Com tão trifte lembrança
Nelle executa a ultima vingança.
Tal eu, vendo pendentes
Do hombro do inimigo os vís farp6es,
Inda c'o frefco fangue de innocentes,
Humanos coraçóes:
De novo me enfureço,
E c'uma fetta o peito Ibe atraveço,
As azas fem conforto
Bateo efpavorido, e cahio morto.
Ella a Tragedia trille,
Eflas as fettas, elle o arco , e a venda
Que feráo teftemunhas do que ouvifte,
Defpojos da contenda:
Jade-fe Alcides forte
Menos de feus triunfos; porque a /norte
Do porco de Enmanto,
E da Hydra fatal, não valeo tanto.
Qyal
Con
RIMAS
Com a pelle Nemea
Cubra a robula efpadoa vidoríofo,
Que ellas infignias dáo-vos etnia idéa
De cafo mais famofo:
Que
De Amor queixofas gentes
1V1of
Vinguei-vos, e vinguei-me, andai contentes,
Vírl
Já lá áo os enganos,
Moneo Amor, alviçaras humanos.
for
Táo
1
5
/1 Lfa minha , voemos,
Qua
Onde as Virtudes moráo;
Nofros verfos levemos,
Por onde nunca noffos verfos foro:
ya
fobre as nuvens levantar-me vejo.
Vel
Ah náo fijamos 'caros do Téjo!
A
c
Ve]
Q
jl
e Horizontes so eles!
Que
Paiz!
Que
habitantes!
Tóco os Orbes Celedes!
Bebo o lume dos Aftros rutilantes!
Como já vejo dele litio efiranho ;
Ná
A Terra táo pequena, o Sol tamanlio!
Co
Or
Tu,
DE J. X. DE MATOS.
nreS;
Tu , que as cafas pafreas
Dos Animaes Celeftes,
Que as terras allumeas,
(be as flores pintas, que as montanhas velles
Moftra-me o Signo, dize me que Efirella
Víráo nafcer de Anarda a filha bella.
Mas aqui chega a armada
Tala do roubador,
,
Da fempre celebrada,
,Formofiffima filha de Agenor;
Táo enfeitada a fronte náo trazia,
Qyando com ella pelo mar fugia.
O' Signo venturofo ,
Alegria do Mundo,
O' Nuncio do formofo
Verálo , a que abre a porta Abril fecundo;
A quem ferás fatal de boje cm diante
Vendo cm ti Marcia o feu Natal brilhante.
Conflellagáo propicia
Seras a toda a gente;
Nos campos de Fenicia
Náo Vafcias por cerro táo contente,
Como depois que vas nos foberanos
Orbes de Marcia afiinalando os anuos.
Fu
No Zodiaco
ardente,
Tu
náo tens companheiro,
Que
náo gyre
contente:
S
acode o vello o
humido
carnero:
Os
abraços redobráo de
alegria
Os dos
Irmáos en honra
deile dia,
Olhando-te
de
inveja ,
Cada
hum delles
arde;
Quer
o Ceo que
aflim
feia ,
Hum
por
náo vir mais
cedo,
outro mais tarde;
Náo
he aiiim
a calla
Cagadora,
Que entre
o ,rebanho
das
Efirellás
mora.
No he
affim Lucina ;
Porque
logo
que
nafce
Uta
illuare
Menina,
Diffe, beijando-a na virginea face:
:Defrei ,
o'
Mufas ,
a
cantar-lhe
cm
-verfo';
Yintk ,
Tintures , embalar-/he o
berfo.
Deos
te falve, mimofa,
Tenra, innocente
planta,
O' máo , ó voz ditofa,
Qpe primeiro
que as
outras
te
acalanta
O Ceo, de
quern
es fruto
abençoado,
Te
livrarh do traf-Cinapte
Por
C'o
Será;
Se
f
Ardí
Sem
De
Pay:
Dar
Ea
Qu
Toi
po:„
RIMAS
Deffas Graças Celeffes,
Que fobre ti defclráo,
Guarda intaaas as veítes:
Por ti as Virgens do meu Coro efperáo:
C'o
pé defcalço accezas brazas piza,
Serás do Templo meu Sacerdotiza.
Se hoje fora o infulto
Deffe váo Horottrato,
Que ettragando o meu culto ;
Se
fez odiofo ao Mundo, ao Ceo ingrato:
Ardéra o Templo, o Simulacro arara,
Sem que outro filho de Filippe houvera.
Náo sáo os afcendentes,
De que elle procedia,
Que os teus mais excellentes,
De mais confelho , de mais gráo valia:
Vaya dos filhos cru manjar Saturno,
Darás materia de maior Coturno.
Quando Cloro engroffado
O branco fio tenia
Do tempo ten dourado ,
E a Primavera fazonando venha ;
Quando a luz da razáo dobrar feus ralos,
Tornem
a vir Abris, voltarem Malos.
arde ;
DE J. X. DE MATOS.
67
68
RIMAS
Entáo cheia de gloria,
De
affombro, e maravilha ,
Lerás a amiga hifloria
Dos genero íos Pais, de quem es fillía ;
E elles rendo em ti glorias iguais,
Veráo a fillia , de quem foráo Pais.
Inda agouros mais dinos
Eu Ji no volumoro
Livro dos Dellinos
O quinto dia delle mez famoro
Dia capaz, de que os Varóes mais catios
Te veráo lançar nos Lufitanos Fallos.
'Vós , Thagides vizinhas,
Ide efcolher redondas
Quarro brancas pedrinhas
Que mis políráo as lambentes ondas,
Com ellas numerai, entre os humanos»
Quarro formofos apraziveis annos.
Tu,
l'aun* armas a
IlkOriginza ,
e
Excelientijima
nZ
e
fra
Pena Atarla >lita
Cqflelli-Pranco.
vai
Náo
Ner
Cht
O
Efr(
Sac
N't
Ne
VI
T U, brilhante Chiméra ,
Sonho dos acordados,
Vai tentar effa gente, que te efpersa;
Que os já defenganados
Náo crem protneffas vans, falos agou ros,
De fonhados thefouros:
Fortuna, náo es nada,
Nem in podes fer mais que imaginada:
Chamem-te nas campanhas
Arbitra das viaorias
Chamem-te proteaora das façanhas
Nas corruptas hiflorias;
O primeiro, que os gellos mal feguros
Forçou dos Alpes duros,
Confefre que te deve
Eíres triunfus, que de Roma teve.
Mas de que lhe fervifte
Se no meio da gloria,
Sacudindo os cabellos, lhe fugifte,
Levando-lhe a viaoria ?
N'um Templo aerio , hum culto imaginario
Te dé Jugurtha, e Mario,
Scipiáo, e Pompeo,
Nenhum defies Val-6es te conheceo.
la
SO
Di-
DE J. X. DE MATOS.
6p
7
3
RIMAS
Dizem, que o cofre abrindo
• Das riquezas avaras,
As vás depois ás cégas conferindo ;
Que os remos, e as Tiaras
Pendem das tuas máos; que guando queres,
Sem efcolha as conferes;
Que os Sceptros, e os cajados
Dás a quem caes premios náo sáo dados.
Dizem, que favoreces
Os tímidos Pilotos
Que es o Iris da paz, que lhe appareces
Sobre os madros já. rotos;
Que
,
a ti f6 deve o havido dinheiro
Vem dizendo o Mineiro;
Diz o Cultor de Ceres,
Que mil frutos terá, fe a máo 'he deres.
Ah gentes infenfatas,
Que chamailes Fortuna
As acções mais infames , mais ingratas !
Effa Deofa importuna
Náo influe nada nas ten
9
6es humanas
Sáo defculpas tyranas
Dos Ardas, dos Neros,
Dos crucis Scylas, dos Dionyfios feros.
O fi
Am
Elle
Vai
E o
Nác
Dei
Os
Ná
o
Da
Tes,
DE I. X. DE MATOS.
Da montanha Tarpeya,
Vendo abrazar-fe Roma,
O filho de Agripnia fe recreia,
E por Fortuna o toma:
A maldade de Fálaris cruenta
Contra os morraes inventa
Tormentos exquifitos;
Elle os tern por Fortuna, e sáo delitos;
Vai o Gráo Macedonio
A terra devaftando ;
Vai Wavio, vai Lepido, e Antonio
Cidades arrazando;
E
os horrendos eliragos, que fizerão,
Por Fortuna tiveráo
Que a faifa hcroicidade
Náo he Fortuna, fenáo he crueldade.
Monarchas poderofos,
Que viveis entre fuaos,
Deixai de fer Oaavios fanguinofos,
Se quereis fer Auguflos:
Os vencidos defcalços prizioneiros,
Que em triunfos gucrreiros
Levais ao carro arados,
Náo vos faz fer, 6 Reis, affortunados,
S6
Da
RIMAS
Só guando ferrolhares
Effas portas de Jano,
guando cheios de amor do Throno °atares
Para o genero humano,
Entáo fereis Heroes, tereis o nome,
Que o tempo náo conforne:
Tilo he que he fer
Seguiroa Cefar, hombrear com Tito.
Fortuna do Univerío ,
Que máo te fez fenhora ?
He indigno o ten nome do meu verfo
Foge perturbadora,
Que tu náo tens que dar, mais do que enganos
Aos mileros humanos:
Se es táo forte, táo rica
Que podes tudo,
a ,Jupiter
que fica?
Não tens , Fortuna avara ,
Dominio fobre a terra ;
Quem fertiliza a próvida feara,
Quem triunfa na guerra
Quem falva a Não, quem defencanta a mina>
Quem muros arruina,
He a necellidade,
A força, a indufirla , a mifera vaidade.
Dign
Que
O T
•es
DE J. X. DE MATOS.
Maldita a máo primeira,
Que efiatoas te eregíra;
Digna de Fama náo, mas de fogueira:
Maldita a voz, e a Lyra,
Que louvores te der profcrito feja
Algum , que te proteja:
Extinga-fe o teu vulto ,
O Templo, o Altar, o Sacerdote, o Culto.
7t
;ano.s
[al.
IDL
RIMAS
Fa:
IDILIOS
Jul.;
Já
Pel
Par
}
-
1
-
Um dia ao p6r
do Sol,
hum
trate
dia,
Lu;
Que nunca para
mim amanhec'éra,
Encontrei defgarrada
NI
`A
mais formofa Rez ,
que o
Téjo cria;
Sol
Do rico
Melibeo
a
gráo
manada,
Náo traz outi
:
a tão
bella;
Pel
Se
quereis, 6
Pallares,
conhecella,
Co
Para
dar-lhe louvores,
Elles
são
os
finaes, ouvi Pallores:
Hu
Formofo, e
largo o
pciro,
erguida a
fronte,
Negros os
olhos,
os cabellos negros,
O
paffo mais airofo
De tez, que o monte vio, de
fde
que he monte;
Até do feu
balar
brando ,
e
mimofo.
Pende corno
paímado,
Por
mais faminto
que fe veja o
gado;
Que he
mais
doce mil
vezes,
Que o
groffeiro
balar das
outras rezes.
Q1.1
Or
Pa
Fe
Po
ID(
Ni
Ef-
DEI. X. DE MATOS.
Ella a formofa Rez, que achei fózinha,
Juiguei-a fem Paftor cm monte eftranho;
E porque a noite efcura
eftendendo a trifle fombra vinha
Pelos (Venos campos da efpeçura,
Fui levando-a comigo
Para lhe dar no meu cutral abrigo,
Antes que o tempo deire
lia,
Lugar a vir o Lobo, que a comerte.
No vai elle•táo faffregO levando
Sobre o faminto queixo atraveffado
O tenro cordeirinho,
Pela faudofa mfti cm váo balando,
Como eu contente de a levar caminho.
Pelo meu mefmo braço
Hum novo aprirco para ella faço
De Cedro, e de Loureiro ,
nte,
0.zie lhe repare o Sol, vede o chuveiro.
Ora de verde myrto ,
e roías bellas
onte;
Para a
trame grinaldas the tecla
Ora para o pefcoço
FetieSes de flores brancas, e arnareffas;
Por mais que diga, encarecer náo potro
O
cuidado, que tinha
De
apafcentalla na mais branda hervinha.,
Q:ie
por elles
outeiros
Nunca
pizada foi
dos
meus cordeiros.
Efi
IL
Nun-
75
7
6
RIMAS
Nunca a beber co' as outras a levava
E ao brando fom da minha doce avena,
Comigo aos faltos hia
Ora corria alegre, ora parava
E a cabeça inclinando, o cóio erguia ,
Como para ercurar-me.
Ah! que inda dalo tanto fei lembrar-me,
Que aré das mais amigas
Repito, cm feu louvor, eftas cantigas.
Minha linda Achada,
(be nefta efpeçura
Tu achafte abrigo,
E eu achei ventura.
Tija formofura
Di-me tal cuidado,
Que até zelos tenho
Do meu mefmo gado.
De mirn apartado
Anda o meu defejo;
Quando cm mim o bufco,
cm ti o vejo.
Todo o que he no Tejo
Baixo, ou gráo l'aftor;
Se da inveja efcapa ,
Cahe nas máos de Amor.
Gil,
DE
3.
"X. DE MATOS.
77
Gil, outra melhor
Diz que tem de cria;
Que de leite hutn tarro,
Enche cada dia.
E eu apoffaria
Todo meu cutral;
(be fe elle te achltra,
Náo differa tal.
Náo ha Rez igual
Em quaiquer manada.
Ah, benza-te Deos,
Aljuba linda Achada.
Agora fe quereis faber, Paflores,
O premio dalo todo , ouvi o premio:
Hum dia, que acabava
De entoar-lhe contente elles louvores
Vi, que como os mais dias náo brincava:
Náo fei que me dizia
O trille coraçáo, e a fantazia!
Inda agora ella rrillgoa
Me cuche o peito de fullo, os olhos de agoa.
Fu
Fi.
78
RIMAS
Finalmente fugio, fem que até agora
Alguem por elles campos dé fé della,
Faz hoje tres femanas.
Bufco-a fem defcançar a toda a hora
Por montes, valles, moitas , e choupanas.
Paftores, nas Aldeias
Fugi de agazalhar RIzes alheias,
Que deixáo quem as ama
Pelo primeiro, que talvez as chama.
N
A6 so dos paffarinhos os reclamos,
A' fombra buliçofa
Dos movediços ramos,
Pela alta céfla da eftaçáo frondofa,
Táo gratos, como as breves,
Simples palavras, com que Amor defcrevesé
Não he ls flores táo precifo o orvalho,
O
cudeço ás cabrinhas,
A's terras o trabalho,
Como as tuas letras ás laudades minbas
Difcorre , efcreve, falla,
Marcia te cede, Ulinda náo te igualla.
Di-
eves,
DE J. X. DE MATOS.
Dize, formofa Isbela: Onde bebefie
Hum eiblo táo grato ?
Dize: Quando efcrevefle,
Molhalle a penna no licor de Erato?
Náo me agradára tanto
Poflo à meza de Jove o Neaar fanto.
Da Náo, que vem de longe , o paffageiro
Ouvindo dizer,
terra ,
Ao excelfo gageiro,
Menos contentamento n'alma encerra ,
Do que eu ouvíndo a pura
Voz da tua fuavillima efcritura.
Fluidas vozes, frafes innocentes
Te cahem da boca cm fio ;
Náo cm groffas correntes
Por catadupas de efirondofo río;
Es fonte de alta grap
Que murmurando, os coraçóes trafpaça.
Ellas sáo as palavras poderofas
Da Magica fciencia ;
As hervas virtuofas
Que mudáo pouco a pouco a minha efrencia;
Já creio que ha Medeas,
Que he polfivel o
.
canto das Sereas.
79
Di-
Quan-
8°
RIMAS
Qliando na boca taes palavras tomo,
tlue em teus efcriros leio
Náo fei como os náo como:
Ser mais fuave o noiro mel náo dejo,
Nem en creio que foffe
Dos niefmos favos de Hybla o mel mais doce.
Ana() de regra em regra os Arnotínhos
Cada letra beijando,
Qjaes ando nos raminhos
Ao redor as abelhas fuçurrando;
Os Rifos, e os Enfados
Andáo brincando nenas abraçados.
Todas as Graças para ti fugíráo
Fizeráo-re hurn thefouro
De guamo repartirá°
Nas Marinhas do fal, nas Minas do ouro;
i.
n
;a boca re eftáo dando
Lafcivos beijos, quando eilás fallando.
Ellas re diaáo guamo efcrever deves,
E das azas lhe tiras
A peona, com que efcreves :
Ouvem-fe fufpirar, fe tu fufpiras;
E fe brincar te vem,
Brincáo comtigo, alegráo-fe rambem.
V6s;
DE J. X. DE MATOS
8t
Vós, mulheres, que tendes decorado
Em rançofas novellas
Flum fallar efludado ,
Que nada fignifica: Longe dellas
9
Longe frafe importuna
Em cryflaes d'alma, cm Roda da Fortuna.
O livro abri da menra Natureza ,
Vereis como reparte
O gofio, e a trifteza:
Clamern ernbora os profeifores da Arte,
Que hurn fallar innocente,
Fará fentir o peito, que náo fente.
Confultai, como Isbela , o que cm vós paffa:
Exprimi, fe puderdes,
C'o mefmo eiIilo , e graça
Da voffa alma as paix6es, guando efcreverdes:
Isbela encantadora
Q
2
em te fallára, quem te ouvíra agora!
G
Oflofa companhia,
Onde acharei fem ti, gentil Paflora,
Onde verei, fem ver-te, a luz do día,
. Por mais alegre, que amanheça a Aurora?
Aonde o trae roflo
Voltarei , que náo veja o meu defgoflo?
Sem
s doce.
o;
,7"ós
Sem ti, fono ras fontes,
Amenas fombras, viraçóes fuaves,
Verdes campos ,,roiádos Horizontes;
Ao p¿ir do Sol a muiica das aves,
A prática de amores,
Canto de Ninfas, baile de Pafiores.
Sem ti , Marcia querida
Em vez de gofio , me fará trifieza;
Náo póde haver tamanho bem na
vida,
A quem eu náo perverta a natureza;
Nem coufa ráo gofiola,
Que a náo corrompa ella paixáo faudofa.
Sem ti, defconfolado,
Efquecido talvez de que ha ribeiros,
Pelo monte andarei como pafrnado,
Sem levar a beber os meus cordeiros:
Magros fe tornaráó
Como en, de pena, á fede acabará6.
Verei crefcer meus males,
Como algum dia as mirillas efperanças;
E la n'outros outeiros, n'outros vales,
Em vez de ovelhas, guardarei lembranças;
Lagrimas, que a alma encerra,
Sernentes feráo 16, que en lance á terra.
8z
RIMAS
No
as
DE J. X. DE MATOS.
81
No
meu trille femblante
Ler"a6, finaes de mágoa, o Ceo, e a gente:
Que ou a luz fe fepulte, ou Silevance,
Tellemunhas feráo continuamente
Delta minha agonia
As Eflrellas de noite, o Sol de dia.
Irei ao mais fombrio,
Mais deferto lugar, que o campo tenha;
E na margem faudofa de algum rio ,
(be fe) a hum melancolico convenha
Marcia, de guando cm guando,
N'alma os teus gellos eflarei pintando.
Agora o peregrino
Rollo da cor do Ceo, guando amanhece ;
Agora aquelle efpirito Divino
D'uns &los cor do Ceo, guando anoitece;
Agora as tranças bellas,
Com que Amor brinea, por prender-fe nellas.
Agora as niáos formofas ,
Onde a minha vontade ficou preza ;
Agora a boca de jafmins , e rofas,
Onde a Graya fe ri por natureza ;
Agora o peito , aonde
Contempla
o
golto , o que a modellia efconde.
De
No
84
RIMAS
De lá meu penfamento
Te virá vifirar nelles lugares;
De 15 fufpiroweus foltos ao vento,
Noticia te trarao dos meus pezares:
Ouve-os compadecida
Que podem fer os ultimos da vida.
Quantas vezes no dia
Náo recordarei n'alma aquelle inflante,
Inflame de prazer,
, e de agonia,
Que mitiorou Amor no teu temblante!
Mil mortes , que eu padeça
Nunca faráo que tal favor me efquega.
Qjantas vezes olhando
Para as aguas do Tejo vagarofo ,
vem para onde eftás efcorregando,
Quererei vir com ellas de faudofo !
Mas eu chorarei tanto,
Que nellas venha transformado em pranto.
Ditofos elles prados,
Que iráo f6 com te ver reverdecendo
Mais que ditofos, bemaventurados
Aquelles olhos, que te ficho vendo:
Os meus pois re perdIráo
Não para ver, para chorar nafcêrão.
A
V
E
A
A
F
5
Qual
DE J. X. DE MATOS.
85
nto.
Qgal ramo, que cortado
Do
t
ronco radical no cháo expofio,
A fer dos pés de todos maltrat.ad.o,
Vai ficando fem folhas defcompoflo;
Té que fecco, e defpido ,
Já náo parece o mefrno, que tem fido.
Tal eu , fem ver teus olhos
Aonde deixo co
l
a efperança a vida,
Em vez de flotes, pizarei abrolhos
Co' a macilenta face defcahicla;
Ficarei táo diffiente,
Que a mim mefino por mina pergunte a gente.
Aflim , gentil Pallora,
A vida pafTarei, (fe lit) he ter vida)
Até que chegue (fe chegar) a hora
Por mim continuamente aos Ceos pedida:
Só efte allivio quero,
Só die alivio (fe he alivio) efpero.
Qual
E
1'1-
EPICEDIO
D
A
chata voffa Irmá, illuflre Conde,
Jaz o frio cadaver fepultado,
Por final, que o lugar em que fe efconde,
Deixei com minhas lagrimas banhado:
He do cofre medonho
A fatal chave, que na máo vos ponho.
.Alli ficou depofitada aquel/a,
Que /dolo foi do
.
noilb amor na .vida,
Nem Ihe valer o fer illuftre,ou bella,
Para efcapar della mortal partida.
Que diffrentes lugares,
Baje cm fepulchro, hontem nos Altares!
Eu
vi,
Senhor,
quem tirar pudera,
Por náo ver tal, os olhos rnagoados)
A boca muda, o rollo cor de cera,
Prezas as máos, os olhos encovados,
Fluduante a cabega
Da deftmta Illuftrifiima .Condeça.
Quaes pelo cháo aos impetos do vento ,•
,De antigos troncos feccas folhas jazem,
Q
2
aes defpegadas taboas no violento
Naufragio a praia horriveis ondas trazem:
Tal, Anarda querida,
He Náo desfeita, he arvore defpida.
Ei-
86
RIMAS
DE J. X. DE MATOS.
87
Eis-aqui os thefouros, que ella chave
Erconde, guarda, e para fempre encerra;
le,
Onde, pomais que fe profunde , e cave,
Ver-fe-ha I) o ouro convertido ern terra;
)nde,
Que he no fraco , e no forre,
1-lum fonho a vida, huma verdade a morte.
o.
Mas feliz vofra Irmã , que depois della
Voou ao Ceo ; e já batendo as azas,
VI, fe o Sol he tamanho de huma Eftrella,
Corno gyra do armo as doze Cazas;
fabe de rnais perto, •
Qual dos varios fyflemas he mais cerro.
Contempla as Leis eternas, com que eflão
Os Orbes em perpetuo movimenro;
E onde náo fe atreve() chegar Platão ,
Chega ella ró c'o puro entendimenro:
Ouve , e vl fem defmaio ,
O éco do trováo, a luz do rajo.
Lt no clima dos Bemaventurados,
Onde impuras particulas n'áo gyráo,
Como nos ares cá inficionados
7
Da corrupçáo, que os vis mortaes refpiráo,
Já. náo teme a prefença
Da intempeíliva, da mortal doenya.
u:
Eís-
14
1..
De
88
RIMAS
De impaffiveis efpiritos cercada
Efiá hombro com hombro c' os famoíos
Progenitores ieus, que a mefma eirada
Seguirá
°
cá no Mundo viriuofos:
náo cura da vida
Em materias mais altas embebida.
Pagou em fim á morte o feu tributo,
ozbe be fujeiro a mor rer todo o que nafce;
E fováo noilas lagrimas de fruto
Se ella fó com cborar refurcitaile;
Porém
a
Lei , que o manda,
Nem com pedir, nem com chorar fe abranda.1
Náo quer,
, Senhor,
, quem marre efte fuffragio,
Perturbador da paz de hurna alma bella;
1-le cruel, mas precifo die naufragio
Contra quem náo valeo força de vela:
Embora a Nho fe alague,
Mas nunca o foffrimento ern nós naufrague.
C
A N-
.4
5
nzorte
da
11Wirijima ,
e
Excellentijima Sen
hora
Candela
Pombeiro.
E
A
S
la
[fce;
brandal
ffragio,
A N-
DE J.
X. DE MATOS.
89
CANÇÓES.
r
f U, que tens feito na minha alma afrento,
Nume fatal, cruel melaneolia,
Merega-te elle dia
Que me deixes , que mudes de apofenco;
Polla huma vez com gofio
Erguer a voz, alevantar o rollo.
Aquelle negro humor, que derramafte
Sobre meus trilles verfos are agora
Boje lancemos tóra:
Das aguas, que com elle invenenafle,
A beber náo tornemos:
Outras mais puras, mais vizinhas ternos.
Ninfas, que fois cullodias de huma fonte,
Que ha de ler hoje confagrada s Mufas
Nas noffas praias Luías
Fazei que S. terra , ao mar, e ao Ceo fe come,
Que da Samaritana
O licor de Aganipe corre, e mana.
Senbora
No
Def-
No efcrevo c'o dedo em folta ara
Moles verfos de Amor, mais alto intento
Levar meu penfamento ;
Creai, Ninfas, creai na minha idéa
Coufas dignas de Conde,
Vós me influi, rneu animo difponde.
Vinde enramar-me a Cythara de louro,
A par-lhe os rudes dedos enfinai-me;
Ab Ninfas , emprefiai-me
Voffos cabellos para cordas de ouro;
Farei, fe puder tanto,
Que tambem feja voffo dic meu canto.
E tu, longiquo, affamado Oriente,
Que cá mandafie o vulto luminofo
De dia táo famofo,
Tanto te fica agradecida a gente,
Que
fó
por hum tal dia,
Toda a tua riqueza engeitaria.
Deffe atrevido Lavrador primeiro,
Que
fulcos fez nos campos de Anfitrite,
A pezar do limite,
Que nene cm váo poz Hercules guerreiro;
E que táo longe fora,
Que vio nafcer em feu regaço Aurora.
4-
9
0
RIMAS
Deffe tul immortal defcubridor,
Por quena chorarSó fempre o Ciange , e o Inda,
Para os Pais nafceo rindo
flum juíto herdeiro , hum digno fucceffor
Do titulo, e da gloria
n
as virtudes, dos bens, e da memoria.
Logo cm feu nafcimento os Vares Santos,
Que a urna dos futuros revolvéráo,
Dia, ó
dia,
differáo,
Amanhecido para bem de tantos:
As
Mufas
fe alegrará°,
Mordeo-fe a Inveja, as Parcas fufpiráráa.
Y
-
cm ,
hum dizia,
o'
rama generofa,
Honrar de teus Avós o tronco antigo:
ron a fervir de abrigo
Com tua fombra á gente defdito_fa,
Que em ti os olhos tem
Da
;vais certa efperansa , do feu bel%
lfriette , adorado, prodigiofo Infante,
A tenra ;no nos cofres da ventura;
E por trofeo pendura
No teu portal a roda de diamante;
Porque a Firtude bella,
g'á
no teu corasJo triunfa della.
>ef-
Ou-
Tour. II,
G
DE J.
X. DE MATOS.
91
92
RIMAS
Outro as doces priióes lhe vaticina,
DO
De que Hymineo a faxa lhe prepara:
Qty,
Elege a efpofa chara,
Que de conjuge tal, ha de fer digna,
Imagens tuas no devido leito.
En
Ca,
D'a-nos para o refpeito
t
Outra nova figura Ihe levanta
De
De coroas, e palmas, diffe, eu vejo
A
Cercado o Padre Téjo ,
Que para o ten Palacio aponta , e canta,
De
Meneando a cabeça,
Que a fabricallas para ti começa.
Se;
Mas hum, que aos mais interpretes prefíde,
Ma
Soltando as roupas augu raes, prepara
Qg
Na dextra a fatal vara,
Em quatro partes co' ella o Ceo divide;
cc
E dando hurn al primeiro,
Mira diffe o fatidico Agoureiro :
E
Effe , que corre d difcrilio do vello,
Q
Entregue ás tempeflades do Des`lino ,
Q1:
A quem fe
k
de menino
l'orlado na Galé do foffrintento ,
Sei
74 perdendo
a
efperança
De ver hum dia
a
face da bonança.
A
Gii
Tu
Do Pirulo as fraldas fenteard fem fruto,
Que
en:
've; de Louró ¡he darño Cyprefie
E no fon: da frauta agres'le ,
En:
va
-
o
ás portas cantará de Pluto,
.N'um , e n'oucro perigo
Cahird , fóra aquel/es, que cu :do digo.
Depois , con: tudo , de cantar chorando
lirvre
,
vida de ernharalos ckeia
Na comprida cadeia
De feus nntigos males tropelando,
A ti rvirá correndo
Sea Fado o deixard logo en: te -vendo.
Mais queda dizer; mas a Alegria
0.12e voando ao redor do berço andava;
Lhe ditle ,
que turvavá
C'o canto fe:: a gloria defie día:
,
Mudou de tom , e rollo,
E encheo, cantando, os coraçóes de gofto.
Quena náo dirá, excelfo Vidigueira ,
Que eu fou o trille, de que o Vate falla;
A quern, a quem iguana
Senáo a mim, Fortuna táo rafteira:
Quem me enchugára o pronto?,
A
tu náo feres, quem podio tanto?
le,
DE
3.
X. DE MATOS.
93
P4
RIMAS
Tu no naufragio ao porto me levafle
A'
Unico porto, que encontrei de abrigo:
V¿
En me abracei comtigo,
A taboa falle, a vida me falvafle;
Di
Que em final da viaoria,
Inda hei de ir p6r no Templo da Memoria.
So
Náo nafce o grande para fi f6mente,
O
Ha de fer util, ha de fer piedofo :
Ni
Sabe, ó Conde virtuofo,
Que náo es todo ten, que es da mais gente:
TI
Sem ellas preeminencias,
De pouco importa illuflres defcendencias.
Li
Que importa aos Reis o Sceptro feu dourado,
N
Gráo poder aos Senhores, e aos Dinaflas,
Di
Se a aculeos, e catadas
Inda c'o frelco fangue derramado
Ti
De tantos innocentes,
Os fez indignos do louvor das gentes?
•
'N
Defcender de Varóes , que cm mil batalbas,
N
Cheios de fangue, e pó, fe allinalluáo ,
Pi
De que depois deixásáo
Para memoria authenticas medalhas;
Q
P6de honrar os fujeitos,
Mas náo fazellos, fe o náo sáo,
perfeiros.
C
A' carroça
t
riunfal levem mil vezes
Varrendo.a terra mil pendes guillados,
Corpos defcenjuntados,
Douradas lanças, inclytos arnezes;
E com as máos atadas,
Sobre as collas mil gentes defgraçadas.
O teu triunfo, ó Conde, he mais luzido ;
Náo fe comp5e de ferro, ou fangue
Por mais
meio
Tu es o vencedor, e es o vencido:
Náo te vingas , podendo ,
Dillimulas do ingrato o crime horrendo.
Náo podes ver o rofto defcórado
Da encolhicla pobreza, fem que logo
Da caridade o fogo
Te náo abraze peito magoado :
Em quem nunca foi pobre,
Náo ha, Sonhor, eftimulo mais nobre.
Náo te chegas a vis aduladores
Para fer da hfonja bafejado
Pois
t
ens efpritnentado ,
Q2e he a mentira quem Ihe finge as cores;
E ainda allim póde tanto,
Que náo lembrou ás Circes cite encanto.
me:
rado,
s,
15.
las,
a.
Se
DE J. X. DE MATOS.
96
RIMAS
Se te enfureces, porque fe no infira,
Que ella paixáo c'o odio fe malura,
lima doce ternura
Acode logo a temperar-te a ira,
Efcufas o confeiho
De te veres colerico no efpelho.
Tu pizas a Soberba por mil modos,
Salvo o refpeito, a ordena náo confundo,
Pois libes que he no Mundo
O Chefe das Naç5es o Pai de todos:
Se ha algum mais que humano,
He quem fe faz por obras foberano.
Fis-aqui a materia, cm que tu cévas
Do teu benigno coraçáo
a
gloria,
Defpojos da vidoria,
Que gloriofamente a todos levas:
Elles sáo nefle dia
Quena o faz claro, quena lhe dá valla.
Ellas novas infignias, que fe adoro,
E inda háo de fer no efcudo ten gravadas
Com fabulas forjadas
Nas fornalha5 de Upad , náo foro
Pelos Cyclopes rudes,
Sim pelas máos das immortaes Virtudes.
E
E
1
Em
DE J. X. DE MATOS.
,.97
Ern
Em quanto, e) Conde, no regaço dellas,
Dos annos teus os parabens eletitas,
E das mufgolas grutas
Te vem beijar a máo as Ninfas bellas,
Co' a lanya efcreva Marte
O teu neme no bejuco eftendarte.
No Reino efcuro dos tormentos vivos
Pofsáo , primeiro hurn dia, defcançando
Do trabalho execrando,
Seu tanque d'agua encher c'os rotos crivog
As Belides ímpias ,
Que fe terrninem teus farnofos dias.
Cançáo , guando chcgares
Diante dos Altares
Daquelle Heroe, de quem tu fe) es digna,
Encolhe as azas , a cabeça
Ern meu nome o corteia ,
E o
pedettal da fua cazalla lieija.
.Aquer.
Fazendo armas o
, e Excellentijfirno Senhor
Conde da Vidigueira.
RI
MA
S
.S
Quelle, que furcando
Vai procelofos mares,
Ao
y
erno as vélas dando
Em demanda de inhofpítos lugares:
.Aquelle, que fózinho
De enrofcada ferpente,
Em deferto caminho ,
Expóe a vida ao venenofo dente:
Aquel/e,
a
quem fuccede
Paffar ferra rnui alta,
Que olha dehaixo, e medo
A grande altura, que fuhir lhe falta;
Aquelle, que apoitando
Chegar primeilo 5 raia
Perde o triunfo, guando
Cheio de pó, e de fuor defmaia
Menos ando accufa
O
feu arduo projeao ,
Do que boje a rninha Mufa
Peço'valor para ramanho objeao,
Ef,
A
Eflende, 6 Mufa noffa,
As crefpas azas bellas,
E permitte que poffa
Boje a penna melhor arrancar dellas.
Efcrevamos o dia
Maior,
, que o Sol tem feitó ,
Para quem fer devia
Melhor que pedra branca, o noffo Peito:
Dia, dia ditofo ,
De quern o efquecimento
Fugirá refreitofo,
Em quanto houver no Mundo entendimento:
Dia ,
Concieffa,
Em que a noffa memoria
Náo defcança , náo ceffa
De honrar, podendo, do teu nome a gloria:
Dia, cm que os Amores
O
berço te embararáo,
E
os ferros paffadores
Dos olhos teus, na viva luz forjáráo.
TornSráo-te nos braços
As tres gentis Donzellas,
E
ficalle entre abraços
A quarta Grasa, entre as Grasas bellas.
Ao
DE J. X. DE MATOS.
99
,100
.
RIMAS
.Ao fom do ten louvor
Entáo adonnecias
Era o fabio Cantor
O doce genio, que depois tenias.
já nos dons foberanos,
Q2e em ti vemos agora,
Piometria a teus annos
Frutos Pomona na Eflaçáo de Flora.
Hum rajo intelligente
Ferio
a
rua infancia
Oh como vivamente
Brilhar o vemos na maior diftancia !
Que virtude celefte
Por ti fe náo reparte!
Mas fe do Ceo viefte,
Corno 1-avía deixat de acompanhar-te?
Com ellas re coroas
Em final da v.iaoria,
Sáo azas , com que voas
Ao refpeitavel Templo da Memoria.
Em torno dos Altares,
Que a reu norne erigirá°,
Verás fubir aos ares
Louvores raes, que nunca lá fubíráo.
1
Por
Por mais que a tnorte eílude,
Zomba do feu defignio,
OZIe
cita. ftra a vir-tude
Das implacaveis Leis do feu dominio.
O
Tempo devorante
Encolla a fouce injufla;
E
abforto , em teu temblante ,
O relogio lhe cahe da máo robuila.
O
Odio, que embebia
Duro punhal no peito ,
Em honra den dia
Se arrepende dos males, que tem feito.
A merma torpe Inveja ,
Dando menos gemidos,
Porque rnelhor te veja,
Concerta hum pouco os olhos retorcidos.
Desfaz-fe a noite efcura,
(bando a Aurora amanhece:
He noite quem murmura,
He luz do claro dia quem merece.
Ah! Refpeitai humanos
Huna dia
.
táo fagrado:
Defies mefmos tiranos,
Para rnaior afrombro refpettado.
Can-
DE J. X. DE MATO S.
tol
Por
102 RIMAS
Canção mirilla, fe fores
Beijar a !nao daquell
De
,
quem cantando vás eftes louvores3
Dize, jurando.nella
Inda que venho falta
Dos brin-lames adornos defie día,
Virtude fó fe exalta
Com a verdade honrofa,
Czaanto mis nua, tanto mais formofa;
Fazendo annos a Illufirifflina
3
e
ExcellenViina Sonha•
ra
Conde
s
a de Oeyras.
III
A fobre os Horizontes
Sobem os aureos crinos facuclindo
Os rapidos Etontr;
Já Phebo , novos circulos abrindo,
Nos vem apparecendo;
E os rutilantes eixos revolvendo
Do coche etereo , que modera, e guía;
Traz aos rnortaes
o
mais briihante día.
Co.
Corno vem debruçado ,
Tornando as redeas do immortal governo
Para ver fe parado
Pócle fazer-nos efte dia eterno:
Ah que cm váo curva o braço
Para derer dos feus friz6es
o
payo !
Que a pezar feu, e a meu rezar
o vejo
Narcer no Hydafpe, e vir rnorrer no Tejo.
'enha•
O livido veneno,
Que derramado cm frivolos Altares ,
He no grande, e pequen°
Suflento a) das almas populares:
Aonio meu , náo creias
Que no ten dia me corrompe as veías;
Bem longe do teu halito maligno
Refpiro, ó monliro da lifonja indigno.
Náo efperes que diga,
Que torne a vir o Seculo dourado;
Q
.Li
e
nafça a verde efpiga,
Sem a cultura do engenhofo arado;
Que elleja doce, e.brando
O loiro mel dos ramos gorOando ;
Ou que (cm rifcos alerta o innocente
A tenia
Mát)
na boca da ferpente.
Que
DE J. X. DE MATOS.
le;
104
RIMAS
Que potra animo egregio
Correr Jivre das Leis da humanidade,
Que tetillas privilegio
De pallar, fem morrer, a Eternidade:
Mmha Mufa náo finge
Cor, que do 'Ternpo a negra máo diftinge:
Pinte Alexandre iem defeito Apenes,
Porque eu náo tenho que efconder
cm
Telles,
Em ti, Aonio, vemos
Nafcer outro Alexandre rnais perfeito,
Para
ti
f6 labemos,
Que
inda mais Mundos, eráo campo efireito:
Aquelle peleijava,
Só
para dar as coufas, que tirava:
Olha a diffrença , com
que
tu fufpiras,
Que para dallas, a u mefmo as tiras.
Já guando re embaláráo,
Cuido que ao fom de mufica
celefie
As ac96
-
cs te comáráo
Das
almas grandes, que por Pais tivelle:
Se ha Heroes pequeninos,
Tu fó
nafcefle Heroe entre os rreninos:
Do
kifi
°
nafce o julio,
e ¿os
gueueiros
Leóes, náo
vein os
di-nidos
cordeiros.
Q11
.
a
1
DE J. X.
DE MATOS.
101
Qual hera retrocida ,
Que vai trepando aos troncos abraçada ,
A tua heroica vida
Co' as florentes Virtudes enlaçada;
Da Fama ao Santo Templo
Subindo ira, para fervir de exemplo
Que logo a rica, e ferril Primavera
Aponta os frutos, que o Outono ¿pera;
Oh fe affim os mais Netos
As frias cinzas dos Avós honraffem
Erguei-vos, efqueletos,
)
(
r
inde vello .... oh fe aqui refufcitaffem
Co'as frontes enramadas
Das incorruptas palmas já ganhadas,
Os Heroes todos !... Mas batIava hurn Gama
De quem es digno de imitar,na Fama.
Náo f6 a máo tingida
No fangue do contrario en terra alheia;
Náo fó pór cm fugida
A grao Cidade , a
t
ernorofa Aldeia;
Nao f6 vencer as guerras
Do vento cm forac6es, do mar ern l'erras:
Sáo coufas dignas de fecunda hiftoria,
Tein entre nós mais ticulos a gloria.
Ein
Vaí
to6
RIMAS
Em ti, de tronco altivo,
Em flor hum novo Heroe vem rebentando;
Inda darás motivo,
A
que efla fraca voz alevantando,
Por mim declare o Fado
Os altos fins, para que eftás guardado
Qual prudente cultor, que a terra amanha,
(be
antes de tempo, nunca o fruto apanha.
O mefrno Author do Mundo
Náo o fez todo, corno eftá, n'una dia ;
O mefmo Author fecundo,
Que fó com dizer
Fasa-fe ,
podia
Formar mil Univerfos
Muito maiores, muito mais diverfos:
Foi primeiro Cemente a fecca eftriga:
O gráo, primeiro he gráo, que feja efpiga.
f
r
Curtas afteas plantadas,
Formando polleo a pouco huna tronco eterne-,
Tem depois de copadas
Nos Ceos os ramos, a raiz no Inferno.
Virá tempo , em que poffas
Ser , claro Telles, as delicias noffas;
Fartarás o faminto , e so clefejo
De fazer coufas, com que pafme o TéiG,
E
E
lA
E
E
DE J. X. DE MATOS.
107
a.
Vai cultivando a bella
Virtude, a cujos peitos te creafte ,
OfFerece-lhe aquella
Rara viecoria, que ás pairóes negaffe;
Piza, como até agora ,,
EflI
paixáo das tnais paixóes, Senhora;
Vinga as mais almas, que náo podem tanto,
ta.
Darás materia a nunca ouvido canto.
Em veneno banhada
'A
negra villa da enfezada Inveja
Contra ti revirada,
Para te dar quebranto, cm váo forceja,
Nem precifas do agouro
Do Santo Nardo, ou mafculino Louro;
Pots tens mais fanto, e eterno defenfivo
iNa luz do teu merecimento altivo.
Por mais que abra Pandora
Do cofre feu as porras refulgentes ,
E dure.a vida embora,
Em planto o claro Sol der luz ás gentes,
Entre os fracos humanos
Náo ferá vida a duraçáo dos anuos,
Sem que a razáo de algum merecimento
sirva aos noffos efpiritos de aluno.
Vai
Ton.
In-
108
RIMAS
Inda durão rochedós,
Qije do Diluvio as aguas alagáráo,
Robuflos arvoredos ,
Q
l
e os indomitos Euros açoutáráo,
Na memoria dos homens
Tem mil Sphinges eliampado os nomes:
Qyern fó mais anuos de virtudes conta,
Mais nas azas do Teinpo fe remonta.
Canção , fe te notarem de cançada,
Refponde, que náo vinhas
Para voar táo alto preparada;
Mas que contemplas na prefaga idéa ,
Que inda has de converter-te cm Epopéa.
Frezando annos o Illtsdrilinio ,
e
Excellentijima Senho«
D. Antonio Xavier
Telles.
IV
Q
tiem são? Quem so aquelles exemplares
De valor, e deftreza,
Que ora juntos ao Throno , ora aos Altares,
'Sáo ja por natureza ,
Nos lances mais forçofos,
Ao Rei fieis, a Deos Religiofos?
Qcni
'enher
'e
s
tares
DE J. X. DE MATOS.
Ouern háo de fer ? Os Marialvas sáo ;
Que gerar náo podía
Cordeiros
magnanimo Leáo:,
A
virtude , que os guía,
He outra excelfa herança,
Que os faz mais dignos de irnmortal lembrançaí
santo ditiriero da feliz Merceana ,
Em teus filveares braços
Vem recebellos , e ve:11a dar-lhe ufana
Refpeitofos abraços;
E de novo ein teus montes
Renafçáo flotes, e borbulhem fontes.
Teus redondos, e milicos Pinheiros
Em Cedros transformados,
Teu mato agrelle em delficos Loureiros
Lhe fejáo confagrados;,
Porque outrem appareça ,
Que eftatuas lavre, que grinaidas tega.
Que eu potro, apenas de refpeito,
e
medo,
C1 de longe mofirar-te
Com balbuciente voz, tremulo dedo
Do todo a menor parte;
Nem p6de a rninha Maza
Dizer-lhe coufa, que louvor produza.
tein
no
RIMAS
Tu os verás no Sacrofanao
Templo,
Da intaaa Maria,
A sá piedade promover o exemplo
Na nobre companhia ,
Para que o nobre eftude
Em lhe fer companheiro na Virtude.
Tu os verás belligeros , e aftutos
Em campo deftemidos,
Ora vencendo, ora domando os brutos
Por arte conduziclos ,
Efcurecer a nefcia
Carreira, e luta , da alta Roma,
e Grecia.
Mas
fóbe
a
vellos do lugar mais alto
Deffes teus arredores ,
VI-os entrar já no primeiro afralto
C'os brutos contendores;
Vé-os por força,
e
geito
Ferillos frente a frente, e peito a peito.
Verás ....
Mas
como o
geno de
admirallos
Eu te eftou demorando?
Ah que eu já vejo os ferv idos cavallos
Os freios maftigando!
Já de córagem fremem,
c'o pezo dos
duros Marres
gemem.
'En-
DE J. X. DE MATOS.
tTit
Entrai fem fuflo , 6 devoçáo conffante,
Que
ao
triunfo
vizinho
Eu
já
vejo a Fortuna
vir diante
Abrindo-vos
emula° :
Fazei ,
que cm
vós
fe veja ,
Que
mais
que o
braço,
o
coraçáo peleja.
Cançáo , náo
fe te
d'é
de
fer pequena;
E
faiba quem
por
iffo te condena,
Que baila
aos
grandes
hotnés
Para elogio o
repetir-lhe os
nomeE.
Fejlejando
o , e
ExcellentUirno Senhor
Már-
quez de
Marialva , e
leus Filhos
a
Virgenz Santiginia
da
Merceasza.
V
I
Liante
Dom Gaffáo , -fabio COutinho ,
Que
nas
aguas do
Téjo,
OS
Do
Téjo teu vizinho ,
Qual branco Cifne mergulhar
te vejo,
Se
náo
cantas agora,
Que
interromper
no
quero
a voz
fonora
De
teu
Divino canto,
De
huma
ave
noaurna efcuta
o
pranto.
En-
Que
II!
KIMAS
0
.3
ye sáo as aves trilles agoureiras
De caros defafirados,
Dizem almas rafteiras,
Q2e beblráo coflumes eflragados:
A tua illuftre, e forte
Penfa de outra rnaneira, de outra forte>
Náo crê fuperflições
De corruptas , de barbaras naçóes.
E pois tens coflumados os ouvidos
A füpplicas, e queixas ,
A prantos , e gemidos,
A cujo trifte fom já mis os feixas:
Tu, que por toda a parte
Favordes Apollo, honras a Marte,
Sobre os feus profeffores
Efpalbando ás máos chelas os favores.
Benigno efaltarás a voz doente
De huna Mufa, que chora
Defprezada da gente,
Da mefma gente, que ella honrou té agora;
Pedia a dor da injuria
Que a Mufa aqui fe converteffe etri Furia;
Qge as tranças arrancalre,
gpe ein vez de flores, viboras foltaffe.
No
ra;
DE!. X. DE MATOS.
No
que, por tal , meus yerros pertendeflern ,
(1
.
ye Louros, e Amaranto
Capellas lhe teceiTem,
Qge ei fei, Senhor,
, que náo merecem tanto:
Contento-me com menos,
A pequenos convem premios pequenos:
Armas,_ que a Ayax fe devem,
Só váos Oliffes a pedir fe atrever%
Humo geno humano, hum doce acolhimento
Contente me traria
Mas onde o penfamento
Me levais inquieto a fantazia!
De ricos defenganos ,
Thefouro fiz para futuros danos:
Longe de mirn lembrança
De acçáo , que poli
-
a parecer vingança.
Só
tu,
Gaftáo , fó tu, Senhor es dino:
De hura elogio eterno,
De hum canto mais Divino,
Qye o que tirou Euridice do Inferno:
Náo prefumas, que a arte
Da lifonja me guia , náo tern parte
Em candido fujeito
Tal he minha exprefsáo, tal he meu peito.
Ten
vao
114
RIMAS
Tentem de Pindaro
a
venal poefia,
Grecia dracmas lhe offreça,
Porque em folta harmonía
As acçóes de Pitheas engrandeça:
Louve encontros, e rircos
De feccas lutas , de pezados difcos:
Nada invejo , que eu tenho
AiTais alto affiumpto , fe mais baixo engenho.
Bern longe efláo meus verfos de louvallos:
Olimpicas fadigas
De efpumantes cava/los,
,Açoutados de Heroes deftros aurigas;
Difputas indifcretas
De nús untados corpos dos Athletas,
Yudo exercicios rudes,
Maravilhas feráo, mas náo Virtudes.
Foi por mais alto preço que compráráo
Sujeitos eminentes
O no me, que alcangSráo
De almos Var6,es, Heroes refplandecentes:
He, Senhor, de outra forre,
Que fe triunfa do poder da morte:
Outra he a coroa,
Ourras as azas, com que ao Ceo fe voa.
Olha
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