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Avaliação de um programa de intervenção em escolas: Aprender a través do jogo

Rodríguez Fernández, José Eugenio; Pereira, Vânia Sofía de Sousa; Condessa, Isabel; Pereira, Beatriz

Abstract

No contexto escolar, o recreio é um dos momentos mais favoráveis para a realização de jogos e atividades de forma voluntária e, consequentemente, para a melhoria das relações sociais e da prática de atividade física. A fim de conhecer a perceção dos alunos em termos de diversidade de jogos no recreio e das interações que aí ocorrem, foi desenhado um estudo quase-experimental de metodologia mista, com uma proposta de intervenção através do jogo, na qual participaram 161 alunos de 6 a 10 anos de uma escola do 1.º ciclo da educação básica no norte de Portugal. Para a coleta de dados, utilizou-se preferencialmente um questionário ad hoc, além de notas de campo e gravações em vídeo. Os resultados mostram uma alta participação na proposta por razões de interesse e atratividade, especialmente em rapazes, sendo que os jogos com regras e em grande grupo são os preferidos por ambos os géneros; da mesma forma, é nessas relações intergénero que há um aumento maior, sobretudo nos alunos do último ano. Programas de intervenção lúdica devem ser promovidos para criar oportunidades práticas e diversificar o tipo de jogos praticados pelos alunos na escola

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Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 Avaliação de um programa de intervenção em escolas: Aprender através do jogo RESUMO No contexto escolar, o recreio é um dos momentos mais favoráveis para a realização de jogos e atividades de forma voluntária e, consequentemente, para a melhoria das relações sociais e da prática de atividade física. A fim de conhecer a perceção dos alunos em termos de diversidade de jogos no recreio e das interações que aí ocorrem, foi desenhado um estudo quase-experimental de metodologia mista, com uma proposta de intervenção através do jogo, na qual participaram 161 alunos de 6 a 10 anos de uma escola do 1.º ciclo da educação básica no norte de Portugal. Para a coleta de dados, utilizou-se preferencialmente um questionário ad hoc, além de notas de campo e gravações em vídeo. Os resultados mostram uma alta participação na proposta por razões de interesse e atratividade, especialmente em rapazes, sendo que os jogos com regras e em grande grupo são os preferidos por ambos os géneros; da mesma forma, é nessas relações intergénero que há um aumento maior, sobretudo nos alunos do último ano. Programas de intervenção lúdica devem ser promovidos para criar oportunidades práticas e diversificar o tipo de jogos praticados pelos alunos na escola. Palavras-chave: Recreio; Interações sociais; Jogos; Escola básica. 1. INTRODUÇÃO A escola do século XXI deve dar resposta à realidade de hoje e de amanhã, em relação à mudança constante a que a sociedade está sujeita, devido às suas múltiplas transformações nas últimas décadas (Esteve, 2008). Já não se trata de cumprir apenas com a função académica através de um processo de ensino e de aprendizagem orientado exclusivamente para o desenvolvimento das habilidades intelectuais dos alunos; hoje em dia, a escola tem outra função, tão importante ou mais, que é responder à função socializadora (GarcíaLastra, 2013), que para além de contribuir para o acréscimo de conhecimento, também o faça na aquisição de valores, hábitos e outras habilidades que permitam o desenvolvimento integral das crianças com o objetivo de melhor se adaptarem a uma sociedade plural, diversa e heterogénea (Martín-Solbes & Ruiz-Galacho, 2018). José Eugenio RodríguezFernández i Universidade de Santiago de Compostela, España Vânia Pereira ii Universidade do Minho, Portugal Isabel Condessa iii Universidade dos Açores, Portugal Beatriz Pereira iv Universidade do Minho, Portugal Revista Portuguesa de Educação Aprender através do jogo 57 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 A infância é o período ideal para fomentar e promover as relações pessoais. É um bom momento de socialização, aquele onde o ser humano mostra ter uma maior predisposição e flexibilidade para este tipo de aprendizagens e, consequentemente, pelas caraterísticas da natureza da criança, o jogo tende a ser o recurso educativo por excelência para conseguir este fim (Carbonell et al., 2018). Falamos assim do jogo e do seu carácter social, em que as crianças interagem com o ambiente e com outras crianças, para além de ser um ensaio para a vida adulta. Surge deste modo uma das funções mais importantes do jogo na infância, sendo caracterizada por desenvolver estratégias de cooperação e comunicação, com os seus pares e com os adultos, onde manifesta os seus desejos, emoções, necessidades e conquistas, os seus problemas e consequente resolução de conflitos; em definitivo, o seu estado natural e a essência pura do jogo na infância (Meneses & Monge, 2001). Na escola há dois momentos principais em que as crianças entram em contacto com o jogo e, consequentemente, com o impacto que este tem sobre elas. Um desses momentos é na aula de Educação Física, situação que se define pela carga horária semanal (atualmente, em muitos casos, é limitadas a 2h/semana, se considerarmos a Educação Física curricular e as Atividades de Enriquecimento Curricular). Outro desses momentos é o recreio escolar, em que as crianças dispõem de cerca de 30 minutos diários (2h30/semana), que é caraterizado por ser um momento de atividade livre, de participação voluntária, em que criam a sua própria atividade, escolhem com quem a vão partilhar e tomam decisões sobre o início e o fim de cada brincadeira. Pela sua organização espacial e temporal, o recreio é considerado como o momento mais favorável para que a criança adquira todo o sistema de valores e benefícios de carácter social que são alcançados através do jogo (Fructuoso, 2016; Massey et al., 2018). O movimento e a atividade física são o principal resultado do comportamento associado ao tempo e espaço de recreio escolar (Massey et al., 2018). Associado às aulas de Educação Física e às Atividades de Enriquecimento Curricular, o fomento dos recreios ativos é uma boa estratégia para conseguir o objetivo de aumentar o movimento e a atividade física entre os alunos (Martín-Acosta & Escaravajal, 2019; Méndez-Giménez, 2016;). Desta forma, continuamos a dar respostas paliativas à preocupante situação da saúde infantil (associada ao sobrepeso e à obesidade) a que faz referência a Organização Mundial de Saúde (Organización Mundial de la Salud [OMS], 2010). Apesar de as crianças realizarem preferencialmente os seus jogos no recreio de forma livre (Rodríguez-Fernández et al., 2019), quando se organizam atividades com a intervenção do adulto, as crianças tendem a desenvolver as suas capacidades e habilidades motoras mais do que o esperado (Wickstrom, 1977), ainda que o papel do adulto esteja sobretudo associado à segurança das crianças (Artavia-Granados, 2014; Massey et al., 2018; Pereira et al., 2017). O papel do adulto no recreio deve ser o de proporcionar recursos, novas atividades e a motivação necessária nas crianças, para que estas, posteriormente e de forma autónoma, adquiram uma bagagem de jogos e atividades ampla e variada e para que possam partilhá-la, em determinados momentos, com o docente designado para a supervisão do recreio (controlo e Aprender através do jogo 58 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 segurança) que, de forma voluntária, queira partilhar atividades com os alunos neste momento lúdico. Partindo da importância do jogo como elemento promotor das relações sociais entre os alunos e que fomenta o movimento e a atividade física, temos por objetivo neste estudo analisar o efeito de uma intervenção realizada no recreio escolar junto de um grupo de alunos, considerando o seu género e ano de escolaridade, tentando preferencialmente: • perceber porque é que os alunos participaram ou não na intervenção, atendendo às diferenças entre género e ano de escolaridade; • identificar as interações entre as crianças durante a intervenção, mencionando o sentimento das mesmas relativamente a essas interações, considerando as diferenças entre género e ano de escolaridade; • verificar a existência, ou não, de alterações provocadas pela intervenção (fases pré, pós-1 e pós-2) no grupo, relativamente ao aumento da diversidade de jogos praticados no recreio pelas crianças, atendendo ao género e ao ano de escolaridade; • averiguar a existência, ou não, de alterações provocadas pela intervenção (fases pré, pós-1 e pós-2) no grupo, relativamente às interações entre pares, atendendo ao género e ao ano de escolaridade. 2. METODOLOGIA 2.1. AMOSTRA Um desenho quase-experimental foi utilizado para este estudo, em que participaram 161 crianças de uma escola do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal, com idades compreendidas entre os 6 e os 10 anos, sendo a média de idades de 7,45±1.15 e havendo uma distribuição semelhante entre rapazes (n=85) e raparigas (n=76). Das 161 crianças, participaram voluntariamente na proposta de jogos no recreio 114 alunos (62 rapazes e 52 raparigas) e um total de 47 crianças (23 rapazes e 24 raparigas) não participaram neste mesmo programa de jogos. Na apresentação dos resultados e para efeitos de anonimato, os nomes dos alunos foram alterados. 2.2. INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO O questionário foi o principal instrumento para coleta de dados, elaborado de acordo com as necessidades do estudo (Fortin, 2006) e depois de realizar uma procura de trabalhos científicos similares. Para sua validação, recorremos a um estudo piloto realizado com outro grupo de crianças, com as mesmas características das que foram selecionadas para este estudo (idade, género e nível de escolaridade). Este questionário (ver em anexo) consistia em dois grandes blocos: • 1º bloco: Identificação pessoal, escolar e socioeconómica. • 2º bloco: Intervenção (9 questões): sobre a participação em jogos nos recreios nas últimas duas semanas (uma questão dicotômica e uma aberta), sobre a preferência de participação em jogos (uma questão aberta), sobre a interação com os pares (uma questão dicotômica) Aprender através do jogo 59 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 e sobre o gosto de jogar com rapazes/raparigas (uma questão dicotômica e uma aberta). Para completar as informações obtidas nas questões, também foram recolhidas notas de campo durante a observação da intervenção, bem como das gravações realizadas em vídeo sobre as atividades realizadas nos recreios. 2.3. PROCEDIMENTOS DE RECOLHA E TRATAMENTO DE DADOS Para aceder ao campo de estudo, procedemos a várias etapas: • Pedido de autorização à Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC) para a aplicação do estudo (incluindo o questionário, a intervenção e as filmagens) nas escolas do 1º ciclo do ensino básico. • Pedido formal de aplicação de um estudo com intervenção ao Agrupamento de escolas. Apresentamos também, para essse efeito, a autorização que nos tinha sido dada pela Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar (MIME). • Para a preparação dos intrumentos de investigação e para a seleção dos jogos para a intervenção, foi realizado um estudo piloto com 33 alunos, dos quatro níveis de escolaridade de uma escola do 1º ciclo do ensino básico do concelho de Braga (Portugal). Pretendemos, com este estudo, realizar o levantamento das atividades praticadas nos recreios e das interações que ocorriam durante essas atividades nesse espaço, no sentido de nos auxiliar na construção do questionário que veio a ser utilizado como instrumento no presente trabalho. • Entramos em contacto com os coordenadores de cada uma das escolas e apresentamos o estudo, explicando todo o proceso que iriamos pôr em prática. Os coordenadores organizaram uma pequena sessão com os professores das respetivas escolas durante o tempo de recreio, onde pudemos expor o estudo que iríamos desenvolver. • Pedidos de autorizações aos pais explicando o teor do estudo. Todos os alunos levaram para casa o documento e trouxeram-os preenchidos. • Os investigadores questionaram os alunos sobre a sua vontade de participar no estudo, salvaguardando assim, a liberdade e vontade de participação na criança na investigação (consentimento informado) (Soares, 2006). Assim, informar as crianças acerca dos objetivos é um passo essencial, que deverá assegurar que tais objetivos se traduzam em conhecimento válido acerca dos seus quotidianos, experiências, sentimentos e competências (Soares et al., 2005). • Aplicação do programa de intervenção (implementação diária nos recreios de um ou dois jogos, durante o período de três semanas). • Aplicação dos questionários logo após o término do programa de intervenção (na semana imediatamente a seguir à intervenção) (Pós1), nas salas de aula, sem interferir na rotina e o trabalho dos professores, submetendo os nossos horários aos deles (Bogdan & Biklen, 2003). • Aplicação dos questionários novamente, dois meses e meio após a intervenção (Pós-2). Aprender através do jogo 60 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 As questões fechadas do questionário foram tratadas com o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para Windows. As questões abertas foram sujeitas a análise de conteúdo, a partir da qual surgiram as categorías apresentadas nas tabelas apresentadas nos resultados, sendo tratado também com o programa estatístico supracitado. Para a análise dos dados recorremos a estatística descritiva (frequências e percentagens) e comparativa (Qui-Quadrado, com realce para situações diferenciadas. O valor da significância foi definito como p<0,05). 3. RESULTADOS Na Tabela 1 destacamos que, em pelo menos um dos jogos propostos nesta intervenção, participaram 114 dos 161 alunos da escola. Consideramos que a adesão à intervenção foi bem sucedida, pois tivemos 70,8% dos alunos da escola a participarem na mesma. Apesar da não existência de diferenças significativas, quem mais participou na intervenção, atendendo ao género, foram os rapazes e, quanto ao ano, foram as crianças dos 1º e 2º anos de escolaridade. Tabela 1 Participação das crianças do grupo de intervenção (G.I.) nos jogos propostos: Diferenças entre género e ano de escolaridade Analisando a Tabela 2, destacamos que cerca de 40% dos alunos participaram em um ou dois jogos, 30% participaram em três ou mais jogos e aproximadamente 30% dos alunos não participaram em nenhum jogo. Salientamos ainda as diferenças entre género no que se refere à permanência no programa de intervenção, pois, como podemos observar, a maioria dos rapazes (45,8%) participou apenas em um ou dois jogos, enquanto a maioria das raparigas (35,2%) participou em três ou mais jogos, sendo que 14,9% destas participaram em onze ou mais jogos propostos na intervenção e apenas 8,4% dos rapazes o fizeram, não existindo, no entanto, diferenças significativas quanto ao género. Já quanto ao ano de escolaridade, podemos verificar diferenças significativas (p≤ 0,01), uma vez que foram mais as crianças dos 1º e 2º anos (75%) que participaram na intervenção do que as crianças dos 3º e 4º anos (65%). Estas últimas participaram, principalmente, em um ou dois jogos da intervenção (48,1%), enquanto as crianças mais novas participaram, Aprender através do jogo 61 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 maioritariamente, em três ou mais jogos (43,8%), tendo estas estado mais presentes em toda a intervenção, pois 15,0% participaram em onze ou mais jogos, enquanto das crianças mais velhas foram apenas 7,8% a fazê-lo. Tabela 2 Quantidade de jogos em que participaram as crianças do G.I.: Diferenças entre género e ano de escolaridade A Tabela 3 reflete os motivos pelos quais as crianças participaram nos jogos aplicados no recreio. Assim, a maioria das crianças (75,9%) participou nos jogos por considerá-los interessantes e divertidos, 14,9% participaram para aprender novos jogos e brincar com outras crianças, e só uma minoria (9,2%) fez parte da intervenção porque não tinha mais nada para fazer. Apesar de ser uma minoria, devemos ter em conta que estes casos podem ser de crianças que estão um pouco à margem no recreio, são as crianças que normalmente se isolam no recreio, ou que são rejeitadas pelos seus pares. Ao participarem em jogos com outras crianças, sentem-se valorizadas e sentem que fazem parte do grupo, socializam e jogam. Tabela 3 Motivos pelos quais as crianças do G.I. participaram nos jogos: Diferenças entre género e ano de escolaridade Aprender através do jogo 62 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 A Tabela 4 mostra os motivos que levaram os alunos a não participar nos jogos propostos na intervenção. Percebemos que a maioria das crianças que não participou fez devido ao facto de preferir as suas brincadeiras de recreio com os seus amigos (55,6%), enquanto para 30,6% das crianças o motivo foi, simplesmente, “não me apeteceu”, e para 13,9% foi o facto de já conhecerem os jogos. Não se registaram diferenças significativas em relação ao género, nem em relação ao ano de escolaridade. Tabela 4 Motivos Motivos pelos quais as crianças do G.I. não participaram nos jogos: Diferenças entre género e ano de escolaridade Na Tabela 5 apresentamos os jogos que as crianças preferiram realizar na fase de intervenção. Destacamos o jogo “futebol sem bola” como sendo o mais preferido pelas crianças, seguindo-se o jogo do “camaleão” e, em terceiro lugar, o jogo “barra do lenço”. Quanto ao género, é notório que os rapazes (41,5%) gostam mais do “futebol sem bola” do que as raparigas (21,4%); em contrapartida, mais raparigas do que rapazes preferem os jogos do “camaleão” (+12,5%) e “barra do lenço” (+6,8%). Não existem diferenças significativas em relação ao género quanto aos jogos preferidos. No entanto, em relação ao ano de escolaridade, existem diferenças significativas (p≤0,000). Para 53,2% das crianças dos 3º e 4º anos o jogo de que mais gostaram foi o “futebol sem bola” e apenas 12,5% das crianças dos 1º e 2º anos o referiram como jogo preferido. O segundo jogo preferido pelas crianças mais velhas foi o jogo do “stop” (17,0%) e o terceiro jogo que mais gostaram de fazer foi o jogo do “camaleão” (12,8%). Este último é o jogo mais apreciado pelas crianças mais novas, dos 1º e 2º anos (41,7%), e na posição seguinte encontram-se três jogos: “barra do lenço”, “futebol sem bola” e “passarão”, todos com a mesma percentagem (12,5%). De uma forma geral, se contabilizarmos o total dos jogos dentro de cada categoria, podemos destacar que os “jogos de regras” são os mais preferidos pelas crianças dos 3º e 4º anos (78,7%), enquanto os “jogos populares” (64,7%) são os mais escolhidos pelos alunos dos 1º e 2º anos de escolaridade. Aprender através do jogo 63 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 Tabela 5 Jogos da intervenção (avaliação da intervenção Pós 1) que as crianças preferiram realizar: Diferenças entre género e ano de escolaridade Durante a intervenção, praticamente todas as crianças (96,3%) interagiram com outras crianças com quem, habitualmente, não costumavam interagir, como podemos confirmar na Tabela 6, demonstrando assim que durante esta intervenção as crianças puderam experimentar diferentes tipos de interações: com crianças mais velhas, mais novas, do sexo oposto, de outras turmas. Ao diversificarem as suas interações, as crianças estão a desenvolver mecanismos sociais e de comunicação que lhes serão úteis no dia a dia, na sua ligação com os outros (adultos ou crianças), e ainda as prepara para a sua vida social na adolescência e na idade adulta. Aprender através do jogo 64 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 Tabela 6 Socialização do G.I., durante a intervenção, com crianças com quem, habitualmente não interagiam no recreio: Diferenças entre género e ano de escolaridade A Tabela 7 mostra que a grande maioria das crianças (88,5%) afirmou ter gostado de interagir, durante os jogos, com crianças com quem não costumava jogar, não havendo diferenças significativas relativamente ao género. Quanto ao ano de escolaridade, existem diferenças significativas a registar, pois as crianças mais velhas gostaram todas dessa interação com outros pares, enquanto para 21,1% das crianças mais novas, dos 1º e 2º anos, essa interação não foi tão positiva. Mesmo assim, apesar de a maioria das crianças dos 1º e 2º anos ter gostado da interação com crianças com quem habitualmente não interage, o que é facto é que nestas idades (6-7 anos) as crianças necessitam de se sentir seguras e os seus amigos de todos os dias são a sua segurança, daí esta poder ser uma possível explicação para essas crianças não aceitarem facilmente outras crianças no seu grupo de jogo. Tabela 7 Satisfação do G.I. por interagir com outras crianças com quem não interagiam habitualmente no recreio: Diferenças entre género e ano de escolaridade Esclarecemos que, nos dados da Tabela 8, não foram considerados os alunos do 1º ano, uma vez que estes ainda não possuíam competências de escrita para responder às questões que deram origem ao respetivo quadro. Assim, na Tabela 8 vemos que o principal motivo apresentado pelas crianças para justificarem o facto de terem gostado de jogar com outros pares, com quem não estavam habituadas a jogar, foi pelo prazer e diversão que daí obtiveram (“Foi divertido”); foram mais as raparigas a mencionar este motivo e, Aprender através do jogo 71 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 children’s recess physical activity: Recess activity of the week intervention. Journal of School Health, 80(9), 436-444. https://doi.org/10.1111/j.1746-1561.2010.00525.x Wickstrom, R. (1977). Fundamental motor patterns. Lea & Febiger. Zurita-Ortega, F., Ubago-Jiménez, J. L., Puertas-Molero, P., González-Valero, G., Castro-Sánchez, M., & Chacón-Cuberos, R. (2018). Niveles de actividad física en alumnado de educación primaria de la provincia de Granada. Retos, 34, 218-221. i Universidade de Santiago de Compostela, Departamento de Didácticas Aplicadas, Área de Didáctica da Expresión Corporal, España. https://orcid.org/0000-0002-1101-5377 ii Universidade do Minho, Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), Portugal. https://orcid.org/0000-0001-8201-936X iii Universidade dos Açores, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), Portugal. https://orcid.org/0000-0003-2868-0469 iv Universidade do Minho, Instituto de Educação, Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), Portugal. https://orcid.org/0000-0003-4771-9402 Toda a correspondência relativa a este artigo deve ser enviada para: José Eugenio Rodríguez-Fernández Universidade de Santiago de Compostela, Facultade de Ciencias da Educación Avda. Xoán XXIII, s/n. 15782 Santiago de Compostela, A Coruña, España [email protected] Recebido em 21 de julho de 2019 Aceite para publicação em 18 de março de 2020 Aprender através do jogo 72 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 Evaluation of an intervention program in schools: Learn through play ABSTRACT In the school context, playtime is one of the most favorable moments for the accomplishment of play and free activities, voluntarily practiced, and, consequently, for the improvement of social relationships and of the practice of physical activity. In order to know the students’ perception in terms of the diversity of play and of the interactions that occur at the playground, a mixed-methodology quasi-experimental study was designed, with a proposal of intervention through the game, in wich 161 students, aged 6 to 10 years, from an elementary school in the north of Portugal participated. For the data collection, an ad hoc questionnaire was preferably used, as well as field notes and video recordings. The results shows us a high participation in the proposal for reasons of interest and attractiveness, especially in boys; games with rules and in a large group are prefered by both genders; likewise, it is in these inter-gender relations that there is a bigger increase, especially in the students of the last year. Playful intervention programs should be promoted to create practical opportunities and to diversify the type of play practiced by students at school. Keywords: Playtime; Social interactions; Games; Elementary school Aprender através do jogo 73 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 Evaluación de um programa de intervención em las escuelas: Aprender a través del juego RESUMEN Dentro del contexto escolar, el recreo es uno de los momentos más favorables para la realización de juegos y actividades de forma libre y voluntaria y, consecuentemente, para la mejora de las relaciones sociales y de la práctica de ejercicio físico. Con el objetivo de conocer la percepción del alumnado en cuanto a la diversidad de juegos practicados en el recreo y de las interacciones que allí ocurren, se diseñó un estudio cuasi-experimental de metodología mixta, con una propuesta de intervención a través del juego, en el que participaron 161 alumnos, de 6 a 10 años, de una escuela básica del norte de Portugal. Para la toma de datos se empleó preferentemente el cuestionario, además de notas de campo y grabaciones en video. Los resultados muestran una alta participación en la propuesta por motivos de interés y atractividad, sobre todo en los niños, siendo que los juegos con reglas y en grande grupo son preferidos por ambos géneros; asimismo, es en estas relaciones intergénero en las que hay un mayor aumento, sobre todo en el alumnado de último año Se deben promover programas de intervención lúdicos en el recreo para crear oportunidades prácticas y diversificar la tipología de juegos practicados por el alumnado en la escuela. Palabras clave: Recreo; Interacciones sociales; Juegos; Escuela básica. Aprender através do jogo 74 Revista Portuguesa de Educação, 33(1), 56-74. http://doi.org/10.21814/rpe.18349 ANEXO QUESTIONÁRIO “IDENTIFICAÇÃO DAS ATIVIDADES E INTERAÇÕES DAS CRIANÇAS NOS RECREIOS” IDENTIFICAÇÃO Qual é o ano de escolaridade que frequentas? Quantos anos tens? _______ És rapaz ou rapariga ? Quantos irmãos tens? _______ INTERVENÇÃO Participaste em jogos no recreio nas duas últimas semanas? Sim Não Porquê? ________________________________________________________ Qual foi o jogo em que mais gostaste de participar? _____________________________________________________________________________ Durante esses jogos, brincaste com rapazes/raparigas com quem não costumavas brincar? Sim Não Gostaste de jogar com esses/as rapazes/raparigas? Sim Não Porquê? ________________________________________________________ 1º 2º 3º 4º