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Castra Oresbi: um assentamento militar romano na Serra do Marão?

Fonte, João; Santos, Maria João Correia; Costa García, José Manuel; Gaspar, Catarina Isabel Sousa; Pires, Hugo

Abstract

Lino Tavares Dias e António Baptista Lopes referem a existência de um acampamento militar romano no alto da Serra do Marão, de nido por um recinto rectangular, ao qual estaria associado uma torre de planta quadrangular. Este possível acampamento foi como tal identificado por uma inscrição gravada sobre um penedo que se localiza nas proximidades onde supostamente se lê Castra Oresbi. A exiguidade dos dados arqueológicos apresentados levou-nos a realizar uma revisão integral das evidências disponíveis através de pesquisa bibliográ ca, prospeção arqueológica, aplicação de tecnologias geoespaciais e análise epigrá ca. O objetivo deste trabalho passa por avaliar o verdadeiro potencial arqueológico da zona e propor a sua reinterpretação

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GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS VOLUME 2 GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS VOLUME 2 GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA VERNACULAR: EXPRESSÕES E REPRESENTAÇÕES VERNACULAR: EXPRESSIONS AND REPRESENTATIONS Este capítulo apresenta alguns contributos para a discussão de expressões culturais (materiais e imateriais) que se organizem no espaço da dicotomia formal erudito/popular, com as suas infinitas e biunívocas leituras, sempre referenciadas aos diferentes tempos e contextos históricos. This chapter presents some contributions discussing cultural expression (both material and immaterial) set within the formal scope of the dichotomy between erudite and popular, with its infinite and dual interpretations that constantly refer to different times and historical contexts. VIAS, PAISAGEM E TERRITÓRIO | ROADS, LANDSCAPE AND TERRITORY Os conceitos de lugar, espaço, paisagem e território têm sido discutidos em várias frentes disciplinares na última metade do século XX. Entre todos, o de paisagem permite a convergência de olhares. Na paisagem, entendida como produto cultural, revela-se a intervenção humana em vários níveis, nomeadamente através da construção das vias que se estruturam como elementos vitais (e até estéticos) das relações humanas, ao mesmo tempo canais de circulação, espaços de contacto e sociabilidade ou mesmo «não-lugares», segundo o cunho de Marc Augé. The concepts of place, space, landscape and territory have been discussed in various disciplinary fields in the latter half of the twentieth century. Between them all, landscape allows a convergence of views. In landscape, understood as a cultural product, human intervention is revealed at various levels, in particular through the construction of roads, which are structured as vital elements (and even an aesthetic) of human relations, while also being circulation channels, spaces of contact and sociability or even «non-places», as endorsed by Marc Augé. ARQUITETURAS MILITARES | MILITARY ARCHITECTURE No âmbito desta temática, apresentam-se neste capítulo alguns estudos que podem contribuir para a pluralidade de aproximações possíveis ao fenómeno da Arquitetura Militar, esquematizadas em grandes linhas de força: as muralhas e outras defesas do habitat concentrado; os acampamentos militares, que pressupõem a existência de exércitos profissionais e permanentes; o aparecimento do castelo, enquanto estrutura significante da Idade Média, os ritmos de encastelamento e a evolução das suas formas arquitetónicas; o fim do castelo e as experiências da “arquitetura de transição”; e, finalmente, a afirmação das fortificações modernas, marcadas pelo aparecimento e triunfo do baluarte anguloso. In the scope of this topic, this chapter presents some papers, which can contribute to view the phenomenon of military architecture from a wide range of possible approaches, which can be subdivided into broad themes: walls and other means of defending concentrated habitats; military encampments, which presuppose the existence of professional standing armies; the appearance of the castle, both as a significant structure in the Middle Ages but also with regard to the changing nature of castle-building and the evolution of its architectural forms; the end of the castle and the experiences of “transition architecture”; and, finally, the affirmation of modern fortifications, marked by the emergence and triumph of the angular bastion. MUNDOS DE TRANSIÇÃO | TRANSITIONAL WORLDS A historiografia ocidental tradicional dividiu a História (e a Pré- -história) em períodos e subperíodos sucessivos, separados por intervalos temporais que estabelecem as chamadas Transições. Seccionou-se, portanto, o continuum da História sugerindo a existência da rutura após um tempo longo de continuidade. Mas, de facto, o que normalmente representa a rutura não é mais do que um longo processo de mudança histórica, por vezes de duração secular ou mesmo milenar. Todavia, a História e a Arqueologia conseguem identificar sinais e espaços/ materialidades e territórios que anunciam a mudança cultural – Mundos de Transição – que traduzem o fluir do processo histórico. Este capítulo apresenta algumas reflexões sobre estes Mundos de Transição e sobre essas dinâmicas de transformação. Traditional Western historiography has divided history (and prehistory) into successive periods and sub-periods separated by time intervals that constitute so-called transitions. With the continuum of history sectioned in this way, there is the suggestion of time being ruptured after long periods of continuity. Yet, in fact, what is represented as a rupture is no more than a long process of historical change, sometimes occurring over centuries or even millennia. However, history and archaeology are able to identify signs and spaces/materiality as well as territories that herald cultural change – Transitional Worlds – which reflect the flow of the historical process. This volume presents some reflections about these Transitional Worlds and these dynamics of change. VOLUME 2 COORD. LÚCIA ROSAS ANA CRISTINA SOUSA HUGO BARREIRA GENIUS LOCI LUGARES E SIGNIFICADOS PLACES AND MEANINGS Título: Genius Loci: lugares e significados | places and meanings – volume 2 Coordenação: Lúcia Rosas; Ana Cristina Sousa; Hugo Barreira Fotografia da capa: Figura antropomórfica oculada – Regato das Bouças, Serra de Passos, St.ª Comba, Portugal. Adaptado por Marzia Bruno e Fuselog. Design gráfico: Helena Lobo | www.hldesign.pt Edição: CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» ISBN: 978-989-8351-843-5 Depósito Legal: 434992/17 Paginação, impressão e acabamento: Sersilito -Empresa Gráfica, Lda. | www.sersilito.pt Porto Dezembro 2017 Os textos e as imagens utilizadas são da inteira responsabilidade dos autores. Trabalho cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e por fundos nacionais através da FCT, no âmbito do projeto POCI-01-0145-FEDER-007460. 5 ARQUITETURAS MILITARES Apresentação 11 Foreword 13 Apuntes sobre los Procesos constructivos de fortificación en el territorio de la Corona de Castilla 15 Manuel Retuerce Velasco; Fernando Cobos Guerra Castros o castillos: problemas metodológicos y de identificación de fortificaciones medievales en Galicia 51 David Fernández Abella Seguindo os passos do exército romano: uma proposta metodológica para a deteção de assentamentos militares romanos no Noroeste Peninsular 67 Andrés Menéndez Blanco; David González Álvarez; José Manuel Costa-García; João Fonte; Manuel Gago; Valentín Álvarez Martínez Castra Oresbi: um assentamento militar romano na Serra do Marão? 81 João Fonte; Maria João Correia Santos; José Manuel Costa-García; Catarina Isabel Sousa Gaspar; Hugo Pires La fortificación de las ciudades vasconas en la tardoantigüedad. Algunas reflexiones 95 Ángel Antonio Jordán Lorenzo; Iosu Barragán Cidriain Elementi difensivi lungo il confine nord della diocesi di Porto fra IX e XII secolo: primi risultati 107 Andrea Mariani Toponímia e arquitectura das ordens militares em Portugal: a memória do Oriente Latino 121 Nuno Villamariz Oliveira O castelo de Outeiro na fronteira bragançana 133 Ana Maria da Costa Oliveira Nem só com castelo se defendeu a fronteira: Atalaias e Povoados fortificados na margem esquerda do Médio Côa 145 Tiago Pinheiro Ramos “Aqui Nasceu Portugal” – Da sublimação do Castelo de São Mamede em Guimarães à sua conversão em arquétipo cultural do Castelo Português 159 Joaquim Manuel Rodrigues dos Santos O cubo artilheiro da barbacã do castelo de Freixo de Espada à Cinta no contexto da arquitetura de transição da raia transmontana em finais do século XV 171 João Nisa; Tânia Falcão SUMÁRIO 6 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 O Livro das Fortalezas de Duarte de Armas – Contributo para uma análise comparativa dos Manuscritos de Lisboa e de Madrid 183 Mário Jorge Barroca Transformations of Riga’s Fortification System in the 17th Century as a local Manifestation of well-ordered Fortress 207 Anna Ancane Das fortificações portuguesas em Mascate: análise morfológica e territorial 219 Ana Catarina Gonçalves Lopes; Jorge Manuel Simão Alves Correia Fortificações da Foz do Tejo 231 Cristina Coimbra Próspero Os manuais de castrametação, a aprendizagem do desenho urbano e um tratado manuscrito de Luís Serrão Pimentel 243 Margarida Tavares da Conceição MUNDOS DE TRANSIÇÃO Apresentação 257 Foreword 259 Concepções mentais e práticas funerárias dos séculos V a VIII: entre a perpetuação de arquétipos e a abertura a novos influxos 261 Andreia Arezes As sepulturas escavadas na rocha e as leituras possíveis de um território a sul do Douro 275 César Guedes A devoção às almas em Portugal. Perspectiva antropológica e histórica 289 Maria Inês Afonso Lopes Romane VS Romanesque. A invenção de uma nomenclatura 303 Maria Leonor Botelho Cerâmica romana importada na Foz do Douro: uma escavação arqueológica no Castelo de Gaia (V. N. Gaia, norte de Portugal) 315 António Manuel S. P. Silva; Rui Morais; María Rosa Pina-Burón; Roger Prieto de la Torre A topografia histórica de Mértola na Antiguidade Tardia 333 Virgílio Lopes A arquitetura no «largo tempo do manuelino». Síntese pragmática e eficiente 347 Tiago Filipe Trindade Cruz PROGREDIOR: o Palácio de Cristal Portuense 359 Vera Gonçalves 7 SUMÁRIO Na Transição entre os Séculos XX e XXI – Interseções e Sobreposições entre Educação e Criatividade nos Museus 371 Inês Ferreira; Alice Semedo; Elisa Noronha Nascimento Monte Branco da Foz do Carvalho (São Marcos da Serra, Silves): 5 milénios de evolução histórica até à submersão na Barragem de Odelouca 385 Susana Rodrigues Cosme VERNACULAR: EXPRESSÕES E REPRESENTAÇÕES Apresentação 401 Foreword 403 As expressões de arquitectura vernacular em contexto de Avaliação de Impacte Ambiental 405 Gertrudes Branco Dimensão Ética nos Objetivos do Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa 419 Francisco Manuel Portugal e Gomes A casa nobre no concelho de Ponte de Lima. Análise dos frontispícios: vivências e estratégias de afirmação 433 Maria Amélia da Silva Paiva O aro rural de Arrifana de Sousa/Penafiel na época moderna: as casas de lavoura segundo a documentação coeva 443 Maria Helena Parrão Bernardo A casa rural em Penafiel, entre meio de produção agrícola e espaço ritualizado 459 Ana Dolores Leal Anileiro O território, a história e o Espírito do Lugar: a arquitetura de Mértola no Sul de Portugal 471 Ana Costa Rosado; Miguel Reimão Costa; Virgílio Lopes; Maria de Fátima Palma; Cláudio Torres; Susana Gómez Martínez Espaço e tempo: a cortiça na arquitetura tradicional portuguesa 485 Rui Fontes Ferreira Uma aproximação preliminar ao estudo da arquitetura tradicional do Atlas em Marrocos 495 Desidério Batista; Miguel Reimão Costa Corpus loci e matéria. Uma visão peripatética sobre a construção do mundo 507 João Soares; António Coxito; Luís Ferro Cultural identity and shared memory: a comparison of Superkilen and Piazza d’Italia as case-studies of contemporary “Place”-making 519 Eric Firley; Julie Gimbal Tracing the Rural in Exhibition Spaces of İzmir, Turkey: Tire, Ödemiş and Bergama Museums 531 Tonguç Akış 8 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 VIAS, PAISAGEM E TERRITÓRIO Abertura 545 Foreword 547 Os caminhos de perto e de longe 549 Laura Castro La construcción visual del paisaje. Iconografía urbana, memoria e identidad territorial 561 Carla Fernández Martínez De território a paisagem: o que é “paisagem”? 575 Natália Fauvrelle; Alice Lucas Semedo O papel dos edifícios icónicos na conformação da cidade contemporânea –análise arquetípica de proeminentes equipamentos públicos de Curitiba 587 André Luís Cordeiro da Costa Os caminhos da construção do território dos Açores nos séculos XV e XVI 599 Antonieta Reis Leite Remeiros do São Francisco: expansão, comércio e costumes nos caminhos do rio 611 Jackelina Pinheiro Meira Kern Water on Roads in Jacob van Ruisdael’s Landscape Painting 621 Juliane Rückert De chafariz a arca de Mijavelhas. Firmitas, utilitas et venustas numa intervenção na berma de um caminho à distância a cavalo da cidade 631 Iva João da Silva Teles Morais Botelho; Luís Filipe Coutinho Gomes O sítio romano da Malafaia, um casal agrícola no vale de Arouca (Norte de Portugal) 645 António Manuel S. P. Silva; Paulo A. P. Lemos; Manuela C. S. Ribeiro La viabilità antica nella zona dei laghi della Lombardia occidentale. Implicazioni strategiche nel periodo tardo romano 659 Andrea Mariani; Marco Brivio 81 CASTRA ORESBI : UM ASSENTAMENTO MILITAR ROMANO NA SERRA DO MARÃO? JOÃO FONTE* MARIA JOÃO CORREIA SANTOS** JOSÉ MANUEL COSTA-GARCÍA*** CATARINA ISABEL SOUSA GASPAR**** HUGO PIRES***** Resumo: Lino Tavares Dias e António Baptista Lopes referem a existência de um acampamento militar romano no alto da Serra do Marão, definido por um recinto rectangular, ao qual estaria associado uma torre de planta quadrangular. Este possível acampamento foi como tal identificado por uma inscrição gravada sobre um penedo que se localiza nas proximidades onde supostamente se lê Castra Oresbi. A exiguidade dos dados arqueológicos apresentados levou-nos a realizar uma revisão integral das evidências disponíveis através de pesquisa bibliográfica, prospeção arqueológica, aplicação de tecnologias geoespaciais e análise epigráfica. O objetivo deste trabalho passa por avaliar o verdadeiro potencial arqueológico da zona e propor a sua reinterpretação. Palavras-chave: Arqueologia; Epigrafia; Fotogrametria; Deteção Remota. Abstract: Lino Tavares Dias and António Baptista Lopes both report the existence of a Roman military camp on the summit of the Marão Mountain, defined by a rectangular enclosure, to which it would be associated a quadrangular tower. This possible camp have been identified as such by a rock-cut inscription located nearby, where supposedly one can read Castra Oresbi. The paucity of the existent archaeological data led us to conduct a full review of the available evidences through bibliographic research, archaeological prospection, the application of geospatial technologies and epigraphic analysis. The objective of this work is to assess the true archaeological potential of the area and to propose its reinterpretation. Keywords: Archaeology; Epigraphy; Photogrammetry; Remote sensing. * Instituto de Ciencias del Patrimonio (Incipit), Consejo Superior de Investigaciones Cientificas (CSIC). Department of Archaeology, University of Exeter. [email protected]. ** Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. mj.correiasantos@ letras.ulisboa.pt. *** Departamento de Historia, Universidade de Santiago de Compostela. Faculteit der Geesteswetenschappen, Vrije Universiteit Amsterdam. joseman[email protected]. **** Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de [email protected]. ***** Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. [email protected]. 88 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 que encontramos mencionado no canto II da Ilíada15 e numa epígrafe de Cápua16, mas é a primeira vez que surge com a advocação de “santo”. O curioso é que apenas parte da inscrição está profundamente gravada, sendo a primeira linha e o ‘m’ de castram menos visíveis, o que parece sugerir uma contínua regravação da zona mais marcada, talvez por ter servido como marco territorial em épocas sucedâneas. Como referido, a interpretação do local como um possível acampamento militar romano tinha sobretudo por base a leitura deste texto como castra, algo que muda drasticamente com a sua correção para castram e com o deslindar de santi, que antecede Oresbi. O substantivo latino castrum, -i na sua forma singular documenta-se num período recuado da língua latina, que o associa às línguas antigas da Península Itálica, em particular, o osco castrous, o úmbrico kastruvu, castruo, com o sentido de “separação, o que serve para separar”17, o que justifica a sua ligação ao verbo castrare (“separar, cortar”). Na realidade, a forma singular castrum parece ser anterior ao uso generalizado do plural castra, -orum com o sentido de acampamento militar, uma vez que surge atestada no séc. I a.C. em Cornélio Nepos18 com o sentido de “propriedade privada, delimitada ou vedada” e, como tal, separada do resto do território. Se considerarmos este contexto semântico da palavra no singular, bem como o seu frequente uso em topónimos (como Laurens Castrum19, por exemplo), poderia admitir-se, forçando a leitura de castrum em vez de castram, que este texto se reportasse ao período romano republicano, referindo-se castrum ao terreno ou espaço de mineração, possivelmente vedado ou delimitado, cujo possuidor seria Oresbius. Na epigrafia latina de época imperial20, o uso de castrum como topónimo está bem atestado na área itálica referindo-se a lugares que outras fontes definem claramente como núcleos urbanos de certa entidade. Fora desta área apenas se conhece uma referência à denominação Castrum Margum21 para a cidade de Margus/Požarevac (Sérvia). Uma única referência epigráfica parece aludir a um núcleo de povoação 15 Hom. Il. 2.5.707. 16 CIL X, 4190. 17 ERNOUT & MEILLET, 1951. 18 «…ei dederat Grynium in Phrygia castrum, ex quo quinquagena talenta uectigalis capiebat» (Nep. Alc. 9.3). 19 Cidade do Lácio também designada como Laurentum – cf. Tib. 2, 5, 49; Serv. A, 9, 7. 20 CIL XIV, 2461, 2468, 2469, 2473, 2474; CIL XI, 3577, 3578, 3579, 3580, 3581, 3586b. Foram consultadas para o efeito as seguintes bases de dados: Epigraphik-Datenbank Clauss/Slaby (http://www.manfredclauss. de), Epigraphic Database Heildelberg (http://edh-www.adw.uni-heidelberg.de/home), Hispania Epigraphica Online (http://eda-bea.es/), Hesperia, Banco de datos de lenguas paleohispánicas (http://hesperia.ucm. es/) e Searchable Greek Inscriptions (http://epigraphy.packhum.org/). 21 AE 1902, 33. 89 Castra Oresbi : um assentamento militar romano na Serra do Marão? de inferior categoria: um tal Castrum Planae na antiga província de Dalmacia22. Infelizmente, nada sabemos da entidade e extensão de tal assentamento 23 . Deve ter-se em conta que nestes casos o segundo termo que constitui o topónimo é um adjetivo (Nouum), ou antes um substantivo etnónimo (Moeniensium) ou topográfico em si mesmo (Margum, Planae), mas nunca um antropónimo. A palavra castrum é rara na epigrafia da Península Ibérica e apenas existem três alusões: uma de época romana encontrada em Mogadouro, pouco segura 24 ; outra em plural – castros – de época visigótica e procedente de Pelayos (Salamanca)25; e uma última, proveniente de León, claramente de contexto alto-medieval26, remetendo para uma cronologia em que este termo é relativamente frequente na documentação notarial. Um importante conjunto de documentos epigráficos nos quais figura a palavra castrum em singular parece concentrar-se no período imperial tardio, referindo-se a fortificações que pelas suas características se poderiam reconhecer como castra ou a guarnições militares27, ou a pequenas torres fortes28. Por outro lado, durante a época tardo-antiga, documenta-se outro conjunto de sítios de difícil caracterização ainda que muito possivelmente também fortificados29. Existem também topónimos nos quais é possível identificar elementos antroponímicos, como talvez ocorra com Castro Crescentio30 no Norte de África. Tendo em conta que neste amplo período se documenta um incremento na utilização da palavra castrum na língua escrita31, 22 CIL XI, 76. 23 WILKES, 1962, 1969. 24 “Doviter/us Triti / f(ilius) an(n)o(rum) / L Addou/ie(n)sis c(astrum?) / m(onumentum) / […]”(HEp 3, 1993, 4 = AE 1987, 587). A restituição Addouie(n)sis c(astrum) restringe-se a uma interpretação determinada do famoso carácter conhecido como C invertida (MOURINHO, 1987: 101-103). 25 Trata-se de uma inscrição gravada sobre xisto onde aparece várias vezes a palavracastros, em acusativo plural irregular (HEp 3, 1993, 302 = HEp 10, 2004). Este documento, datado do século VII, é considerado como um documento fiscal: (chrismon)suscepimus [pe]r [castros] is per números VI suscepimus d[u]os x per x castros II te m[…]i s[…] suscepimus per castros tres […] suscepimus per castros […] suscepim[us] per castr[os…] suscep[imus] per c[astros…] (VÁZQUEZ SORIANO, 2000). 26 “Omnibus exemplum sit quod venerabile templum / rex dedit Ordonius qui iacet ipse pius / hanc fecit sedem quam primo fecerat aedem / virginis hortatu quae fulget in pontificatu / pavit eam donnis per eam nitet urbs legionis / quaesumus ergo dei gratia parcat ei amen / is rex Alfonsi patris sui vestigio prudenter et iuste regnu(m) gubernas Talaveram / cepit et Arabes apud castrum sancti Stephani prostravit subiugavitque sibi Lusi/taniam et B(a)eticam provincias terram Arabu(m) quae Sincilla dicitur magna strage / subegit Anagarum coepit et vicariam et octavi regni sui anno cum sex mensibus / completis Zamorae infirmitate percussus ab hoc s(a)eculo migravit (a)era DCCCCXXXII” (IHC 242). 27 CIL XV, 7239; CIL XIII, 8502. 28 CIL VII, 268. 29 CIL III, 6660=AE 2006, 4; CIL VIII, 9835; CIL VIII, 14439; CIL V, 5418; CIL IX, 5185. 30 CIL VIII, 16763. 31 JIMÉNEZ DE FURUNDARENA, 1994; VAJNER, 2015. 90 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 poderia o nosso Castram Oresbi relacionar-se de algum modo com um contexto tardo-antigo? O certo é que ao comprovar-se não só a leitura de castram, mas também a existência de santi na inscrição, impõe-se inevitavelmente uma nova interpretação cronológica do que tradicionalmente se aceita para esta inscrição. A formacastramsó pode ser interpretada como o acusativo do singular decastra, castrae, remetendo a uma possível cronologia dos séculos VII-VIII, o que estará de acordo com a forma santi, em vez de sancti, que igualmente aponta para o mesmo horizonte cronológico. A partir dos séculos III-IV d.C. ocorre no Noroeste Peninsular um período de paulatina ruralização que se verá acentuado em época alto-medieval. Logicamente, este fenómeno não ocorreu de forma uniforme no espaço e no tempo, pois parece estar ligado tanto às particulares formas de organização política e social como à articulação de novos sistemas de exploração agropecuária32. Nas zonas de montanha, a reocupação e fortificação de antigos povoados fortificados da Idade do Ferro parece ter sido um fenómeno recorrente durante os séculos V-VIII33, documentando-se também a fundação de novos assentamentos fortificados em altura34, muitos dos quais eram denominados por castra ou castella35. A polissemia e a ambiguidade documentadas dificultam, porém, a associação dos termos a realidades arqueológicas concretas36, além de que a própria heterogeneidade mostrada pelas fortificações de altura desta época impede a clara definição da sua funcionalidade e adscrição cronológica37. Talvez o melhor paralelo para castram Oresbi – em que este substantivo é acompanhado de um antropónimo em genitivo – seja Castro Pelagii (Valdoré, León), que sugere a ideia de que o mencionado “castro” pertencia de algum modo a um indivíduo, eventualmente um possessor ou dominus local, bem seja presente ou passado38. 32 FERNÁNDEZ MIER, 1999; —, 2006. 33 GUTIÉRREZ GONZÁLEZ, 1997; SÁNCHEZ PARDO, 2012. 34 SASTRE BLANCO et al., 2014; TENTE & MARTÍN VISO, 2012. 35 Em Pelayos (Salamanca) encontrou-se uma inscrição sobre xisto na que figura várias vezes a palavra castros, um acusativo plural irregular (HEp 3, 1993, 302 = HEp 10, 2004). O referido documento datou-se no século VII e considera-se um documento fiscal, referido talvez à cobrança ou pagamento de censos (VÁZQUEZ SORIANO, 1989, 2000). Não está claro se os mencionados castros são apenas entidades fiscais e políticas ou também unidades físicas de povoamento. A inscrição diz o seguinte: (chrismon)suscepimus [pe]r [castros] is per números VI suscepimus d[u]os x per x castros II te m[…]i s[…] suscepimus per castros tres […] suscepimus per castros […] suscepim[us] per castr[os…] suscep[imus] per c[astros…]. 36 GUTIÉRREZ GONZÁLEZ, 2002; —, 2014; ISLA FREZ, 2001; JIMÉNEZ DE FURUNDARENA, 1994; —, 1995. 37 GUTIÉRREZ GONZÁLEZ, 2001; —, 2011; —, 2014. 38 GUTIÉRREZ GONZÁLEZ, 2001: 25-26. 91 Castra Oresbi : um assentamento militar romano na Serra do Marão? A área que nos ocupa caracterizou-se historicamente pela dispersão do habitat e pela escassa hierarquização sociopolítica das suas comunidades39. Os indícios de povoamento de época romana, tardo-romana e alto-medieval parecem concentrar-se em torno dos rios Douro e Tâmega e, em segunda instância, nos vales dos rios Ovil e Ovelha40, servindo a Serra do Marão como divisória entre a região do Entre Douro e Minho e a de Trás-os-Montes. Além disso, as fortificações de altura datadas dos séculos V-VIII são praticamente desconhecidas na zona, em contraste com o que ocorre com as fortificações dos séculos IX-X, onde, em alguns casos, é inclusivamente possível documentar a reocupação de antigos castros pré-romanos ocupados também em época romana41. Aqui, porém, trata-se muito possivelmente da “demarcação de Santo Oresbio”, sobre o qual há apenas duas certezas: que está claramente gravado na rocha como tal; e cujas características remetem a um ambiente tardio, enquadrável muito provavelmente num contexto alto-medieval. 5. CONCLUSÕES Em suma, quer a avaliação arqueológica do local, quer a leitura epigráfica indicam que provavelmente não terá existido aqui nenhum acampamento nem torre militar romana. Não existe, até ao momento, nenhuma evidência arqueológica que suporte a existência no local destes elementos. O único elemento arqueológico de que dispomos é efectivamente a referida inscrição gravada numa rocha no alto da Serra do Marão e que se reporta, muito claramente, a um castram santi Oresbi. É provável que estivesse relacionada com alguma propriedade ou povoamento de altura alto-medieval, mas não existem ainda dados histórico-arqueológicos suficientes para desvendar o resto da sua história. Agradecimentos: Agradecemos ao Grupo de Investigação “Síncrisis. Investigación en Formas Culturais” da Universidade de Santiago de Compostela (GI-1919) e ao seu coordenador Marco V. García Quintela a ajuda prestada na aquisição das fotografias aéreas históricas necessárias à realização deste trabalho. Queremos também agradecer a António Baptista Lopes e a Lino Tavares Dias por todos os esclarecimentos que gentilmente nos prestaram. 39 LIMA & TEIXEIRA, 2010. 40 LIMA, 2016. 41 BARROCA, 2004; LIMA, 2011; —, 2013. 92 GENIUS LOCI – LUGARES E SIGNIFICADOS | PLACES AND MEANINGS – VOLUME 2 CORPORA AE – L’Année épigraphique. Paris: CNRS. http://www.anneeepigraphique.msh-paris.fr/ CIL – Corpus Inscriptionum Latinarum. Berlin-Brandenburg: Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften. http://cil.bbaw.de/cil_en/index_en.html HEp – Hispania Epigraphica. Alcalá: Universidad Complutense de Madrid. http://eda-bea.es FONTES HOMEROS (1939) – Homeri Ilias. K. Hentze. Leipzig: Teubner. NEPOS, C. (1901) – Vitae de Viris Illustribus. Eric Otto Winstedt (ed.). Oxford: Oxford University Press. WESSELING, P. (1735) – Vetera romanorum itineraria, sive Antonini Augusti itinararium: cum integris Jos. Simleri, Hieron. Suritae, et And. Schotti notis. 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