A Literatura do passado e os desafios da modernidade
Abstract
Based on a belief in the “historical” importance of memory and its role in the formation of collective consciousness, the article discusses the importance of teaching the literature of the past in contemporary times, with a particular focus on the literatures of the sixteenth to eighteenth centuries.
Full text
ALiteratura do passado eos desafios da modernidade Zulmira C. Santos Faculdade de Letras, Universidade do Porto Os tempos que vivemos— tempos em que as Humanidades eas Ciências Sociais têm vindo asofrer não apenas com cortes orçamentais, mas também com uma perda de prestígio social— propiciam areflexão sobre aimportância, ou não, da investigação desenvolvida nesta área. Por outro lado, adiferença de formação— não necessariamente menos boa— ede interesses dos estudantes de hoje leva aque os docentes de literatura ecultura “do passado” se interroguem sobre aforma de interessar este “público”, em busca de uma formação global, por questões eproblemas para os quais não vêm necessariamente preparados1. Não importa, neste momento, valorizar oque agora se denomina de valor acrescentado do conhecimento ou atradução, em termos económicos, da difusão da literatura eda cultura de um país. Claro que vale apena, claro que adivulgação, que tem um lugar muito relevante nas sociedades de hoje, se deve escorar em investigação de qualidade. Não está em causa, também, nem aimportância nem opeso social do conhecimento, nem adivulgação que, como ésabido, podem funcionar como factores de identidade ecoesão social. Oque está em causa, sobretudo no abandono aque tem sido votado quase tudo oque está, em termos de literatura etambém de cultura, para lá do século XIX, com raras excepções para alguns aspectos do interesse pela Idade Média, para que, seguramente, tem contribuído uma filmografia que nela se inspira, oque está em causa ése vale apena continuar ainvestigar nestas áreas e, simultaneamente, como atrair aatenção de jovens que trazem, essencialmente, uma formação em literatura contemporânea, com alguns momentos, breves, de atenção aGil Vicente, aCamões, ao P. António Vieira ou aCesário Verde. Obviamente, estamos aenunciar duas questões de diferente alcance, mas que de muitos modos se tocam, na medida em que se os investigadores forem cada vez menos nestas áreas de estudo, aqualidade eaamplitude do saber ressentir-se-ão inevitavelmente. Do ponto de vista da investigação, parece, por vezes, tendo em conta os financiamentos aprojectos científicos, que já tudo se sabe sobre aÉpoca Moderna (séculos XVI–XVIII). Sabemos nós já tudo sobre oRenascimento, por exemplo, de modo aque possamos permitir-nos apenas adivulgação científica? Pode ou não oestudo de autores etextos menos conhecidos, ou olhados de outro modo, contribuir para adefinição do que chamamos Barroco ou 1 V. as reflexões de Bernardes 2005. OPEN ACCESS
ZULMIRA C. SANTOS 31 Neo-classicismo? Será legítimo perguntar-me se o“meu” Barroco éomesmo de Teófilo Braga ou de Óscar Lopes eAntónio JoséSaraiva? Eo“meu” Neoclassicismo também? Quando falo do lugar efunção da parenética no século XVII, nada se alterou na segunda metade do século XX? Parece evidente que sim. Do mesmo modo que o“saber” progride nas áreas da Física, da Matemática ou da Biologia, também “progride”, no sentido do aprofundamento do conhecimento, nas cronologias em causa. Todas estas questões se prendem, mas não se esgotam, no jogo de relações entre opassado eopresente, entre amemória, a“desmemória” eaamnésia. Aprodução de conhecimento, em áreas fundamentais como aFísica ou aBiologia, que continua apermitir a“decifração” da natureza, colocando-aao serviço da humanidade, não tem amesma matriz, nem amesma função, que oque chamámos “saber” sobre opassado. Muito se tem escrito sobre este tema, discutindo se adocumentação escrita disponível ese odiscurso sobre ela produzido primam pela subjectividade inerente ao “eu” produtor do discurso. Contudo, nos dias de hoje, aquestão, embora sempre debatida, no sentido da “subjectividade” do que apelidámos de “fontes documentais” ou outras, parece ter perdido alguma relevância. De um modo geral, apertinência dos estudos do passado prende-se umbilicalmente ànecessidade de perceber opresente ede encontrar justificação para formas de encarar arealidade e, por vezes, para fenómenos sociológicos, que só encontram acompreensão plena se enquadrados no “tempo”. Numa obra que congrega um conjunto de oportunas reflexões sobre as humanidades, os estudos culturais eapolítica da língua portuguesa, Vítor Aguiar eSilva, partindo da frase de Steiner “Anossa escolaridade, hoje, éamnésia planificada”, sublinha que “aleitura dos textos literários do passado, desde os poemas homéricos atéao século XX, éum diálogo fascinante einexaurível do leitor contemporâneo com as gerações que oprecederam ao longo de trinta séculos, descobrindo einterpretando nesses textos diferenças, alteridades, permanências econtinuidades, em relação ao homem eàvida. Dir-se-á que este diálogo se pode instaurar edesenvolver com outras classes de textos do passado histórico, mas responderei que há diferenças fundamentais: os textos literários como todas as obras de arte, eximem-se àcategoria histórica de progresso, diferentemente dos textos que se inscrevem em campos de conhecimento disciplinar epor isso não são “desactualizados” por textos posteriores; estão relacionados com oseu originário contexto histórico, social ecultural, mas transcendem, no seu significado, no seu valor, eno prazer estético que motivam nos seus leitores, essa relação contextual, como Karl Marx reconheceu, na Introdução àCrítica da Economia Política, relativamente àarte eàépica gregas, eassim desvelam horizontes sempre novos de significação; não restringem asua semântica auma área particular da natureza ou da acção humanas ou aum domínio parcelar do mundo eda vida, visto que asua capacidade de representação ede modelização das realia éomnímoda”2. Verdadeiramente, como se sublinha no extracto citado, aquestão fundamental situa-se no campo da memória, na nossa ligação ao passado, na forma como diferentes textos, em diferentes épocas, equacionaram, também de forma diferente, temas eproblemas essenciais àcompreensão da dimensão “humana”. Na célebre ematricial obra L’ Art de la mémoire, Frances Yates iniciava oprefácio dizendo que “Le sujet de ce li2 Aguiar eSilva 2010, p.47. OPEN ACCESS
32 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA vre sera peu familier àla plupart de ses lecteurs. Peu de gens savent que les Grecs, parmi les nombreux arts qu’ils ont inventés, ont inventéun art de mémoire qui, comme les autres, fut transmis àRome d’où il passa dans la tradition européenne[…]. Cet art vise àpermettre la mémorisation grâce àune technique de “lieux” et àd’images impressionant la mémoire”3. Normalmente, esta actividade, que possui, naturalmente, uma dimensão antropológica, éentendida como uma espécie de mnemotécnica, ciência que hoje cada vez mais aparece como um ramo secundário da actividade humana. Mas, recordemos, sobretudo, antes da imprensa, ter uma memória exercitada traduzia-se numa competência, numa aptidão que não devia desprezar-se. Armazenar imagens na memória permitia reconhecer padrões de comportamento, rostos, textos, criando uma ligação umbilical entre opassado eopresente, como se amemória se consolidasse em elos de uma sólida corrente4. Para perceber esta questão, basta pensar que, hoje, quase dispensamos essa função da memória, no sentido em que qualquer dos dispositivos electrónicos disponíveis equase incorporados no nosso dia-a-dia facilita uma consulta que pode não ser sempre rigorosa, mas que funciona, quase sempre, com eficácia. Frances Yates recorda, nesta mesma obra, orelato de Cícero, no De Oratore, contando como Simónides, opoeta grego, inventou amemória: no decurso de um banquete dado por um nobre da Tessália, chamado Scopas, opoeta Simónides cantou um poema lírico em honra do anfitrião, incluindo aí uma passagem dedicada àglória de Castor ePólux. Ao ouvi-lo Scopas disse aSimónides que só lhe pagaria metade da soma combinada pelo panegírico eque opoeta deveria pedir oresto aos deuses gémeos com quem tinha ocupado metade do poema. Um pouco mais tarde, alguém avisou Simónides que dois jovens oesperavam no exterior para lhe falarem. Simónides saiu do banquete, mas não encontrou ninguém. Durante asua breve ausência otecto da sala abateu-se sobre os convivas, esmagando oanfitrião etodos os seus convidados. Os cadáveres ficaram de tal modo desfeitos que as famílias querendo fazer os funerais não conseguiram identificá-los. Mas Simónides lembrava-se: recordava os lugares ocupados por cada um àmesa eassim indicou atodos os restos mortais dos familiares. Castor ePólux, os jovens que tinham mandado chamá-lo— eque não viu— pagaram efectivamente aparte do panegírico que lhes era dedicada, salvando Simónides da tragédia. Esta aventura, diz Cícero, sugeriu ao poeta os princípios da “arte da memória”, tornando-ooseu “inventor”. Notando que era graças àlembrança dos lugares onde os convidados estavam que Simónides tinha conseguido proceder àidentificação dos corpos, percebeu que aordenação era essencial para uma boa memória. Como ésabido, era justamente esta pequena história que Camões evocava na célebre Elegia I: “Opoeta Simónides, falando/co capitão Temístocles, um dia, em cousas de ciência praticando, ua arte singular lhe prometia, que então compunha com que lhe ensinasse, ase lembrar de tudo oque fazia”. Mas, diziam os versos do poeta, ocapitão Temístocles, cansado de combates esofrimento, preferia aprender uma arte que lhe permitisse esquecer… Arelação da memória com oesquecimento foi sempre uma parte fundamental da literatura, no sentido de hoje eno sentido, algo diverso, em termos da palavra que atémeados do século XVIII designou esta “activi3 Yates 1975, pp.13–14. 4 Bolzoni 2007, pp.239–306. OPEN ACCESS
ZULMIRA C. SANTOS 33 dade” eque incorporava, para dizê-lo de um modo simplificado, todos os textos que conciliavam oduplo fim horaciano de deleite eda utilidade, aquilo aque Rodrigues Lobo chamava “livros de recreação”, distinguindo-os dos “livros divinos”, todos os que se prendiam edependiam da Bíblia, edos “livros necessários”, orientados para uma formação profissionalizante (matemáticos, geógrafos)5. Lembrarei, ainda, nesta breve reflexão sobre aliteratura do passado eamodernidade que, na segunda metade do século XV, Alfonso de Baena, no prólogo que redigiu para ocancioneiro que organizou, salientava que nada havia mais próprio dos homens do que querer conhecer ofuturo. Situado num presente, que rapidamente se tornava passado efuturo, os homens, dizia Baena, anseiam por saber oque lhes vai acontecer: “Segúnd que disponen edeterminadamente afirman los filósofos esábios antiguos, natural cosa es amar edesear ecobidiçiar saber los omnes todos los hechos que acaescen en todos los tempos, también en el tiempo que es ya passado, como en el tiempo que es pressente, como en el outro tiempo que es por venir. Pero d’estes tres tiempos no pueden los omnes ser çiertos, fueras ende d’aquel tiempo que es ya passado.”6 Eafirmava, numa defesa aturada do que chamaríamos nós hoje “humanidades”, eque era também adefesa de um grupo social, só podia fazê-lo através do escrito, isto é, através da memória fixada por escrito, através dos livros, diríamos nós, manuscritos na altura, que transportavam aexperiência humana do passado: se eu conheço as consequências do estratagema do cavalo de Tróia, por exemplo, procurarei, quando me vir numa situação idêntica, tomar outro tipo de decisão. Naturalmente que esta argumentação, hoje frágil, procurava convencer opoder político do tempo da importância das letras, dos textos etambém de “escritores”, por anacrónica que adesignação seja, e“professores”. Foi um tempo em que aexplicação do mundo era, por assim dizer, “textual”. Os livros, fossem eles de que natureza fossem, eram oconhecimento. ABíblia conteve em si, como ésabido, durante muito tempo, ainterpretação do mundo edas actividades humanas eos seus comentadores detinham essa espécie de poder iniciático que areforma protestante de muitos modos diluiu, ao proceder às diferentes traduções. Sabemos, também, como oque entendemos hoje por “ciência”— para oséculo XVI, ouso do termo é, de algum modo, anacrónico—,7 foi “decifrando” uma natureza que, como lembrava Galileu, estava “escrita” na linguagem das matemáticas enão das “letras”, se bem que nos séculos XVII eXVIII amaioria dos que hoje apelidámos de “cientistas” fossem peritos em ambos os campos, no sentido em que se tratava de saberes complementares ecompósitos que não eram encarados como áreas diversas. Lembremos aconhecida passagem de Galileu em Il Saggiattore: Signor Sarsi, la cosa non istàcosì. La filosofia è scritta in questo grandissimo libro che continuamente ci sta aperto innanzi agli occhi (io dico l’universo ), ma non si può intendere se prima non s’impara aintender la lingua, econoscer icaratteri, ne’ quali è scritto. Egli è scritto in lingua matematica, eicaratteri son triangoli, cerchi, ed altre figure geometriche, senza iquali mezi 5 Rodrigues Lobo 1619. 6 «Prologus Baenensis», Cancionero de Alfonso de Baena 1994, p.41. 7 Galilei 1992. OPEN ACCESS
34 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA è impossibile aintenderne umanamente parola; senza questi è un aggirarsi vanamente per un oscuro labirinto8. Sabe-se como oséculo XVII vai modificando aaproximação ao estudo da natureza, passando avalorizar o“número”, como instrumento de pesquisa eindagação. Galileo Galilei, que muito investiu no desenvolvimento da prosa de natureza científica, fez da linguagem matemática achave interpretativa do estudo da natureza9. Como étambém sabido, ainda no século XVII, Francis Bacon (1561–1626), no Novum Organum (1620), procurou uma nova forma de conhecimento baseada sobre aobservação eaexperimentação, enquanto Descartes, no Discours de la Méthode (1637), pressentiu anecessidade de um “novo método” baseado sobre alógica, ageometria eaálgebra, mas, tanto quanto ahistória da ciência tem vindo aaceitar, écom Galileu que ométodo científico adquire rigor teórico eplena autonomia10. Na mesma obra atrás citada, Il Saggiatore (1623), Galileu afirmava que “il grandissimo libro della natura è scritto in lingua matematica”, originando um tipo de investigação científica baseada na experimentação, diferente da forma como, por exemplo, os alquimistas procuravam explicar anatureza. Todas estas considerações, por mais simplistas que sejam, na apropriação de questões filosóficas complexas, justificam, como muitos filósofos, historiadores esociólogos já evidenciaram, aalteração do “paradigma” de interpretação do mundo, projectado para os dias de hoje. Aliteratura perdeu, talvez, uma capacidade vital: ade ser aúnica, juntamente com apintura (e, por isso, oRenascimento as via como artes irmãs), aevocar eemular ogesto da criação divina: assim como Deus tinha criado os bosques, os rios, os poetas— eos “escritores” em geral— criavam, com palavras, outros bosques, outros rios; assim como Deus tinha criado océu, omar, os pintores criavam outros céus eoutros mares, no modelo dos existentes. Era um tempo em que, tal como hoje, embora em diferentes contextos, naturalmente, opoder da imagem era enorme. Avisão praticada com os olhos do corpo, na pintura, ou com os da mente (ou do coração), na literatura, era um acto supremo, susceptível de construir arelação com odivino. Recordemos ouso que aIgreja católica fez das imagens, em geral, como propaganda, eda desconfiança que as diferentes Reformas, sobretudo aluterana eacalvinista, lhe votaram. Aliteratura, para usar um termo de hoje, aficção eapoesia possuíam essa força vital de criação de espaços nunca vistos, de retratos femininos de beleza pouco comum, de descrições de vestidos ou toucados, umas vezes imaginados, outras reproduzindo pinturas ou realidades vistas. Detinha aforça evocativa que repousava edependia da escolha das palavras eda sua inserção na frase eno verso “As palavras boas eem boa ordem são amesma poesia”11, dizia D. Francisco Manuel de Melo no Hospital das Letras, provavelmente, arrisquemos uma “fonte” possível, lembrando oAnónimo da Rhetorica ad Herennium (IV, 19) eCícero (“Partitiones oratoriae” VI,18,22; De oratoreIII) quando registam que odiscurso ilustre ou brilhante éobtido pelo uso de palavras escolhidas (delecta), de metáforas (traslata), de hipérboles (supralata) ede 8 Galilei 1992. 9 Battistini 2000. 10 Galilei 1992. 11 Le Dialogue “Hospital das Letras” de D. Francisco Manuel de Melo 1970, p.15. OPEN ACCESS
ZULMIRA C. SANTOS 35 sinónimos (duplicata). Tais palavras, nota João Adolfo Hansen, procurando explicar as práticas de escrita do período que designamos por “Barroco”, produziam a“evidentia” ou a“visualização imaginosa da matéria tratada no discurso”12. Criava outros mundos, dizíamos…. Talvez por isso, porque durante algum tempo— erecordo Todorov em La littérature en péril 13–, os textos esqueceram eignoraram oseu contexto (F. Rico)14, aliteratura do passado se relaciona mal com opresente. Hoje aliteratura eapintura não são as únicas formas de produção de imagens ememórias. Existem múltiplas formas de arte— mas sobretudo ocinema— criadores de outros mundos, de outras linguagens em diálogo ou não com diferentes práticas de escrita. Creio, salvo melhor opinião, que oproblema da falta de interesse pela literatura do passado se prende, também, àvertigem de aprender depressa. Econhecer opassado éuma tarefa lenta. Exige, sobretudo, estudo ememória relacional, porque quem ensina literatura ou cultura do passado obriga-se àresponsabilidade de conhecer também omundo em que os textos foram produzidos. Um dos aspectos curiosos do mundo de hoje éque nos encontramos simultaneamente na vertigem da importância de saber aproveitar abarroca “ocasião”, tentando “ler” correctamente os “cenários” envolventes, ao mesmo tempo que recuperámos algumas das palavras-chave das Luzes várias, essencialmente avalorização da “utilidade” ea“felicidade”. Talvez por isso mesmo, valha apena continuar ainvestigar eaestudar os textos de um mundo que, como dizia Peter Laslett, “nós perdemos”15, não apenas nas produções escritas de autores ditos maiores, mas também nas margens, porque, frequentemente, nos ensinam mais sobre aépoca em que viveram autores etextos considerados secundários. Julgo, numa asserção partilhada por muitos, quase um lugar-comum, que opassado interessa ao mundo contemporâneo pelo que pode ajudar na compreensão da humanidade, hoje. Mas éum saber perigoso, oda literatura etambém odas Humanidades edas Ciências Sociais: como conhece as premissas, muitas vezes prevê as conclusões, “antevendo” ofuturo, como dizia Baena, tantos séculos atrás16. Por outro lado, faz perguntas, questiona, reflecte, duvida… Talvez por isso amemória seja tão desvalorizada. Amaioria dos poderes políticos prefere fazer-nos pensar que nascemos ontem eque tudo está para acontecer eque nada há de mais importante do que aretórica da inovação. No entanto, estudar aliteratura do passado mostra que, embora “transformados”, eofascínio reside nas metamorfoses diversas, traduzindo acomplexidade do “humano”, os temas permanecem os mesmos ao longo dos tempos… Valerá apena sublinhar, porém, que cada época os encara de forma específica eque, por isso mesmo, se deve investir na investigação nestas áreas do saber, na medida em que oconhecimento de arquivos, que revelam textos eautores, potencia, na medida em que amplia o“campo” conhecido eestudado, oaprofundamento dos mecanismos de compreensão. Retomando uma questão inicial, claro que éimportante continuar ainvestigar nestas áreas do saber, eclaro também que o“meu” Barroco não éode Teófilo Braga ou da investigação dos primeiros anos do 12 Hansen 2006, pp.111–131. 13 Todorov 2006. 14 Rico 1990. 15 Laslett 2004. 16 Cancionero de Alfonso de Baena 1994. OPEN ACCESS
36 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA século anterior, devendo muitíssimo àrevalorização que, sobretudo, oséculo XX, no seu conjunto, faz das práticas de escrita “barrocas” eda interpretação do poder transfigurador da metáfora, como figura central, ou da compreensão erevalorização do poder criativo da “locução engenhosa”. Apenas um exemplo: uma “categoria” desse período aque chamamos “Barroco”17, a“agudeza”, ao contrário do que adivulgação continua aensinar, constitui uma forma de pensar característica das sociedades ditas de Antigo Regime, na exploração de potencialidades da linguagem que traduzem relações inusitadas, causadoras de uma intensa admiração, enão uma “futilidade afectada vazia”, para usar aexpressão feliz de João Adolfo Hansen, “de que ainda vão falando os nossos manuais de história literária caudatários do idealismo alemão”18. Por outro lado, importa, seguramente, aquem estuda literatura ecultura hoje, no jogo das artes visuais, por exemplo, perceber agénese eavoga da “literatura emblemática” eojogo dos “signos mudos”, base das manifestações simbólicas do Barroco eda intensa ligação entre aliteratura eapintura. Como afirma Peter Daly19, um dos grandes estudiosos desta zona do conhecimento, somos herdeiros do uso da “mitologia” como paradigma de vícios evirtudes, no aproveitamento da herança clássica de um modo que profundamente marca amentalidade moderna econtemporânea, pelo que ao pensamento simbólico diz respeito20. Este étambém um dos campos que podem inspirar, pelo aprofundamento dos saberes na área, aconsideração de uma tendência intersemiótica, inscrevendo a“literatura” no amplo quadro de manifestações artísticas em geral. Desse ponto de vista, haveria que “reler”, por exemplo, E. Tesauro eoseu Cannochiale aristotelico, que explica criteriosamente como comporta a“metáfora”, rainha das figuras, as mesmas potencialidades que as cores, os volumes ou as sombras, que tornam “verosímil” oobjecto pintado21. Ametáfora “aguda” evidencia para odestinatário aexcelência do juízo do autor— “ma solo ipiù felici & acuti ingegni” são capazes de “criar”, no sentido de “descobrir”, relações inesperadas entre coisas epalavras22. Neste caso, facto que ajuda acompreender, por exemplo, alguma da estrutura efuncionamento das academias literárias, oleitor deve ser tão “engenhoso” quanto oautor; por isso, nas sociedades de Corte do século XVII, a“agudeza”, na sua relação com o“entendimento” ea“prudência” constituíam afórmula que permitia viver esobreviver na corte, conferindo distinção23: “Non piccola differenza dunque passa fra la Prudenza & l’Ingegno. Peroche l’Ingegno è più perspicace; la Prudenza è più sensata: quello è piu veloce; questa è più salda: quello considera le apparenze; questa la verità: & dove questa hàper fine la propria utilità; quello ambisce l’ammiratione & l’applauso de’ populari”24. Retomando as ajustadas considerações de João Adolfo Hansen, “as artes que operam com agudezas pressupõem uma lógica da imagem, sempre definida como 17 Battistini 2000a). 18 Hansen 2006. 19 Daly 1998; Gombrich 2002. 20 Prosperi 2008. 21 Tesauro 2000, p.65. 22 Ibidem, p.59. 23 Quondam 2000. 24 Tesauro 2000, p.82. OPEN ACCESS
ZULMIRA C. SANTOS 37 aimagem retórica que funciona nas obras como um argumento sensível aplicado ao desenvolvimento das tópicas”25. No ato da invenção, de acordo não apenas com Tesauro, mas também com Gracián26 ou Matteo Peregrini27, quando opoeta escreve, aforma do conceito interior da sua mente traduz-se na escrita das palavras, mas poderia, do mesmo modo, encontrar as outras matérias de que se faziam apintura ou aescultura28. Específico do tempo, diferente dos dias de hoje, mas fundamental para perceber um caminho que criou uma espécie de “tesouro metafórico” de que somos herdeiros. Apenas alguns exemplos da importância que aliteratura eacultura do passado podem comportar para oensino da literatura eda cultura, hoje. Exemplos dispersos, escassos, seguramente, simplistas do ponto de vista do quadro teórico ereflexivo. Tudo isso, sem dúvida, mas, desejamos, capazes de promover odebate sobre olugar eaimportância da literatura do passado, nos dias de hoje. Um desafio aenfrentar… Termino como comecei, citando Vítor Aguiar eSilva: “Ora apoesia (aliteratura) éaúnica arte que cria as suas formas, asua semântica, os seus mundos imaginários, com amatéria eas formas da linguagem verbal, instituindo com esta uma relação verdadeiramente placentária, no sentido literal emetafórico desta expressão. Opoeta é, em todos os tempos, omais criativo, omais acurado, omais amante eomais sábio artífice— omiglior fabbro del parlar materno, para reutilizar com extensão universal océlebre verso de Dante (Purgatorio, XXVI, 117)— de cada língua histórica, produzindo um discurso que, nas palavras de Eugenio Coseriu, “actualiza todas las posibilidades del lenguaje mientras que otros discursos, al contrario, parcializan edesactualizan possibilidades del lenguaje”29. BIBLIOGRAFIA 25 Hansen 2006, p.99. 26 Gracián 1648; Hinz 2005, pp.119–205; Egido 2001. 27 Peregrini 1997. 28 Battistini 2000c), pp.151–209. 29 Aguiar eSilva 2010, p.27. Apassagem de E. Coseriu pertence aCoseriu eLoureda Lamas 2006, p.26. Aguiar eSilva, Vítor. As Humanidades, os estudos culturais, oensino da literatura eapolítica da língua portuguesa. Coimbra: Almedina, 2010. Battistini, Andrea. “Definizione estoria di due concetti storiografici”. In Il Barocco. Roma: Salerno, 2000a). Battistini, Andrea. Galileo eiGesuiti. Miti letterari eretorica della scienza. Milano: Vita ePensiero, 2000 b). Battistini, Andrea. “Le arti sorelle”. In Il Barocco. Roma: Salerno, 2000c). Bernardes, JoséAugusto Cardoso. Aliteratura no Ensino Secundário. Outros caminhos. Porto: Areal Editores, 2005. Bolzoni, Laura. “Cómo traducir las palavras en imágenes: memoria einvención”. In La estancia de la memoria. Modelos literarios eiconográficos en la época de la imprenta. Madrid: Cátedra, 2007, pp.239–306 (trad. da ed. italiana de 1995). Cancionero de Alfonso de Baena (eds. Brian Dutton eJoaquin Gonzalez Cuenca). Madrid: Visor Libros S. L., 1994. OPEN ACCESS
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