Una educación para el desarollo sostenible : linhas de força de um projecto educativo que insere a construção da cidadaniana na construção do saber científico
Abstract
Dos Santos, Maria Eduarda Vaz Moniz
Full text
1 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO UNA EDUCACIÓN PARA EL DESAROLLO SOSTENIBLE. Linhas de força de um projecto educativo que insere a construção da cidadaniana na construção do saber científico DOS SANTOS, MARIA EDUARDA VAZ MONIZ Centro de Investigação em Educação da Universidade de Lisboa. Palavras chave: Cidadania moderna; Cidadania pós-moderna; Educação para a cidadania; Educação pela cidadania; Ensino CTS de ciências. INTRODUÇÃO Garantir uma educação para o desenvolvimento sustentável exige uma preparação para o exercício da cidadania. Por sua vez, tal objectivo reclama reconfigurar as disciplinas académicas de forma a que integrem a construção da autonomia cidadã na construção dos saberes. Dado que tudo isto pressupõe saber do que falamos quando falamos de cidadania, de educação para a cidadania e de educação pela cidadania, o propósito principal desta comunicação situa-se na clarificação e na mobilização destes conceitos. 1. CIDADANIA A cidadania constituiu, desde sempre, um eixo central da filosofia política ocidental. Hoje, quando as certezas epistemológicas expressas pelo positivismo modernista dão lugar à multiplicidade de dúvidas da pósmodernidade, discutem-se controvérsias sobre o conteúdo, contexto e extensão da cidadania. É comum associar ao actual quadro político desestabilizador, inquietantes sinais de um défice de cidadania. A sociedade atribui-lhe causas diferenciadas. Uma das mais relevantes diz respeito ao alheamento da educação quanto à promoção da cidadania. Para a ultrapassar, é urgente saber mais sobre cidadania, um conceito que é usado por todos pensando coisas diferentes. Uma análise histórica, ainda que superficial, mostra até que ponto lhe são atribuídos significados que diferem consoante os períodos históricos e a natureza dos sistemas políticos. Uma cidadania política, participativa e activa, apesar de altamente exclusiva, foi fervorosamente defendida por Aristóteles. Entretanto a cidadania foi evoluindo e em finais da década de 40, o sociólogo britânico Marshall abriu o debate sobre a cidadania moderna. 1.1. Cidadania moderna A evolução conceptual e histórica da cidadania na idade moderna segue de perto a “teoria geracional dos d i r eitos humanos”. Direitos que emergiram no século X V I I I (a partir da Revolução Francesa) durante a luta travada pelas Luzes contra o absolutismo ou arbítrio do poder e que re p resentam aspirações do Homem à l i b e r dade. A cidadania nascida no século das luzes pugna pela emancipação da dominação estatal. Te n d o como valor-guia a liberdade, estruturaram-se direitos civis e políticos, reconhecidos pela Declaração de 1789, re t roactivamente designados de direitos de “primeira geração”. Tais direitos deram ênfase à cidadania civil que confere ao cidadão liberdade individual e mais tarde à cidadania política que culminou com o sufrágio universal e com a posterior consagração da democracia parlamentar. Por sua vez, o século X X m a rc a
2ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO uma nova reconfiguração da cidadania - transição para a “cidadania social”. Tendo como valor-guia a igualdade e procurando responder a assimetrias sociais, económicas e políticas, um novo “contrato social” estrutura direitos sociais e económicos, re t roactivamente designados de direitos de “segunda geração”, re c o n h ecidos pela Declaração de 1948. Passa-se de uma cidadania apostada num mínimo de estado (minimal state) e que reivindica uma emancipação “do” estado (fredom from) a uma cidadania que reforça um estado fort e e omnipresente. – estado providência (welfare state) que reivindica o direito “a” prestações do estado (fredom to). O papel dos órgãos do estado é enfatizado através de formas sociais institucionalizadas de acesso a bens sociais básicos: educação, saúde, bem estar, habitação, segurança e qualidade de vida. A expre s s ã o “cidadania social” evoca ideias das maiores tradições da teoria política. Porém, a concepção de “cidadania liberal” que, na sua forma mais comum, radica numa filosofia individualista, foi a que se tornou mais universal. Tentativas da sua desconstrução são centrais nos debates da pós-modernidade (c f. Santos, 1995b). 1.2. Cidadania pós-moderna Críticas pós-modernas à cidadania liberal (individualismo possessivo centrado em desejos privados e projectos individuais, desvalorização do interesse comum e das estruturas que o suportam, tentativas de tornar equivalentes direitos civis a direitos de mercado,…) abrem caminho a uma nova linha de cidadania. Uma cidadania que, reivindicando a aplicação de direitos de “terceira geração”, cujo valor guia é a solidariedade, valoriza e expande direitos sociais, culturais e sócio-culturais que surgem, progressivamente, a partir dos anos sessenta: direito à paz, à diferença, à infância, à cidade, a um meio ambiente sustentável, ao desenvolvimento harmonioso das culturas e dos povos, à aprendizagem ao longo da vida, à informação, à comunicação... Direitos que alargam o conteúdo das liberdades fundamentais para responder a necessidades presentes e futuras, relacionadas com reivindicações transnacionais e planetárias urgentes (sustentabilidade ambiental). Suportada por uma democracia como estilo de vida, a cidadania pós-moderna, apela a discussões e a debates éticos públicos e privilegia direitos colectivos respeitáveis. Assim, ser cidadão no alvorecer do século XXI, na década da educação para o desenvolvimento sustentável, abre-se a estreitas conexões entre direitos sociais e culturais, bem como a conexões entre estes e uma ética de participação. Estreita ligações de direitos a responsabilidades e dedica uma especial atenção a uma realidade cultural das sociedades abertas e democráticas – a inter/multiculturalidade. Áreas sensíveis a que a educação pela e para a cidadania tem que estar atenta (cf. Santos, 1995a e 1995b). 2. EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA Educar para a cidadania centra-se em ensinar a cada potencial cidadão o indispensável que lhe permita torn a r-se cidadão de facto. Envolve pensar a problemática da cidadania em consonância com o pulsar do mundo em que nos movemos. Requer equipar os educandos com um conjunto de ferramentas (conhecimento e comp r eensão, competências e atitudes, valores e disposições) que os habilitem a participar activa e sensivelmente nos papéis e responsabilidades que irão encontrar na sua vida adulta. Exige a criação de condições para que o educando faça uma leitura atenta da realidade social de que faz parte e para que tenha vontade de participação activa nessa realidade, através da cooperação, da partilha de recursos e da negociação democrática de objectivos. Tem o fulcro em metas a longo prazo entre as quais se contam a revitalização da esfera pública democrática, a formação de melhores pensadores, de decisores mais ponderados e de cidadãos mais humanistas, mais responsáveis, mais solidários mais tolerantes e mais democráticos. Qualidades que, por sua vez, exigem capacidade de abstracção, faculdade de pensar de maneira sistemática e de compreender pro b l e m a s complexos, sentido crítico, criatividade, capacidade de se associar, de negociar, de se entender com os outro s e de compreender projectos colectivos. A educação p a r a a cidadania não pode prescindir da “dialogicidade” e integra a educação e m cidadania (aquisição de uma literacia política) e a educação p e l a c i d a d a n i a . 3. EDUCAÇÃO PELA CIDADANIA A educação pela cidadania ou através da cidadania corresponde a uma abordagem experiencial de cidadania e não a um produto colateral de informações. Envolve o aprender fazendo. Tem como essência a cons-
3 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO trução da cidadania através de actividades concretas - prática de actos locais de cidadania activa designadamente no âmbito do desenvolvimento sustentável. Implica aprender hábitos do espírito (sentimentos, crenças, valores e princípios gerais organizadores do “saber”, do “saber-fazer” e do “saber-ser”). Educar pela cidadania é sentir inteligentemente à medida que se vivenciam diferentes formas de cultura. É a (re)apropriação vivenciada de corpos de ideias com ressonância em preocupações contemporâneas. É desenvolver competências de cidadania praticando a autonomia, a participação e a cooperação. 3.1. Reptos ao ensino disciplinar A educação pela cidadania compreende actos educativos em contextos variados e ao longo de toda a vida. No âmbito das instituições educacionais, as disciplinas académicas, dada a forma como tradicionalmente são entendidas, não são áreas que, naturalmente, facilitem a construção da cidadania. Porém, quando são “esquecidas” num currículo de educação pela cidadania, resultam perdas educacionais significativas. Se a maior parte do tempo vivido pelos alunos na escola é dedicado às disciplinas curriculares a construção da cidadania não pode deixar de investir nestas (através dos saberes, valores e competências que veiculam). Tal investimento requer uma atenção acrescida à criação de condições para o relacionamento entre pessoas – ás interacções humanas. –Aprende-se a autonomia cidadã, escolhendo os nossos próprios percursos, não autisticamente mas através de um ambiente rico em interacções sociais. Através de práticas e de reflexões afastadas de tramas que ditam pensamentos e decisões “politicamente correctos” e próximas de questões sociais controversas e de actos que tornem o cidadão capaz de pensar por si mesmo, sentir por si mesmo e desejar por si mesmo. O pensamento crítico é uma pré-condição fundamental para uma cidadania autónoma e automotivada. O seu declínio, motivado por dificuldades de acesso ao pensamento formal e a princípios que regulam a vida democrática, constitui uma forte ameaça à construção da cidadania. Aprende-se o julgamento crítico num clima de confiança e de segurança em que o confronto de opiniões é impulsionado por uma dupla escuta (de si mesmo e do outro). –Aprende-se a participação cidadã - o direito de agir, de pensar, de deliberar, de valorar, de participar na elaboração de regras, de contribuir para o debate, vivendo situações em espaços decisionais de direitos iguais para todos que potenciem a tomada de decisões. Aprende-se a participar, não por mero apelo à participação dos cidadãos, mas proporcionando ambientes, que conjuguem interesses pessoais com interesses gerais. Ambientes propícios à argumentação em público - a enunciar e a comparar razões e a detectar pontos fortes e fracos dessas argumentações. Através de situações em que o cidadão se veja na necessidade de deliberar concretamente sobre problemas controversos, num clima de perseverança, suscitador de interrogações e propiciador da pesquisa e da avaliação de diferentes soluções para problemas. A participação cidadã exige a cooperação social – dimensão intersubjectiva da cidadania. É incitando ao uso de métodos de cooperação solidária num clima de diversidade cultural que se aprende a articular identidade na diversidade e individualidade na solidariedade. É através de ambientes em que se resolvem problemas em grupo, respeitadores da singularidade pessoal de cada um e propiciadores da inter-ajuda, que se vão adquirindo sentimentos de solidariedade, de fraternidade e de responsabilização mútua numa dinâmica de cooperação responsável propícia à expressão de opiniões sobre matérias controversas da nossa sociedade (cf. Héber, 1998). As disciplinas para poderem responder a estes reptos têm que ser reconfiguradas. O “ensino CTS de ciências” procura inserir-se numa mutação disciplinar deste tipo. 3.2. Ensino CTS de Ciências A “concepção de ensino CTS”, embora tendo como primeira referência a ciência, ao contrário da “concepção de ensino de ciência pura”, em caso algum deixa de fora a tecnologia e a sociedade - daí a sigla CTS. Insere-se numa mutação disciplinar de sentido humanista e cultural. Inclui juízos reflexões e acções sobre o exercício da cidadania permeando o ensino substantivo das disciplinas. Tem como alvo a maior parte da população que, por aprendizagens formais e não formais, necessita ser preparada para funcionar melhor na sociedade, para lidar melhor com questões que afectam as suas vidas. Esta reconfiguração de sentido CTS requer uma análise ao “ethos” das ciências que lhes subjazem. Prende-se com a denúncia de metas e
4ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO valores que as ligam à ideologia do positivismo iluminista, ao pragmatismo comercial e ao consumismo. Abre-se a questões do tipo: Porque é que a ciência e a técnica já não se ufanam da sua modernidade? Porque é que a tecnociência é, crescentemente, posta em causa por grupos de cidadãos? Porque é que estes passaram a exigir-lhe explicações, a pôr-lhes condições e mesmo a impor-lhes normas de actuação? Porque é que a progressão da ciência e da técnica, em clara aceleração, vai produzindo uma crescente influência negativa na configuração da sociedade nos planos económico, político, simbólico-cultural e na forma de exercer a cidadania? Porque é que promete aos industriais grandes lucros? Porque é que negoceia com o estado protecção, subsídios e bolsas em troca de prestígio internacional e de reforço dos poderes civis e militares? Questões que mostram até que ponto um projecto de educação pela epara a cidadania através do ensino disciplinar de ciências implica uma ruptura com a tradicional “concepção de ensino de ciência pura”. Ao contrário, requer um ensino que não se feche no interior das lógicas disciplinares e que, para além de uma legitimidade científica, tenha preocupações com uma legitimação social, cultural e política. Aponta para currículos deliberativos que enfatizem a discussão de controvérsias sociotecnocientíficas e decisões centradas em questões éticas de tipo CTS. Requer condições curriculares, bem como recursos formais e não formais (cf. Santos & Freitas, 2005) que proporcionam oportunidades, responsabilidades e experiências de vida propícias a articular, de forma intencional e valorativa, uma alfabetização científica a uma alfabetização tecnológica que, por sua vez, ocupe um papel relevante na construção de uma alfabetização cívica e cultural. Condições adequadas à prática de actos de cidadania, caracterizados por discussões abertas, questões divergentes e liberdade de exprimir opiniões, que favoreçam a diversidade e a enorme força da “dialogicidade” (cf. Santos, M-E, 1999 e 2001, 2005). 4. CONCLUSÕES A educação pela cidadania e para a cidadania, deve embeber todo o currículo escolar e implica saber do que falamos quando falamos de cidadania no contexto da pós-modernidade. Há que discutir controvérsias relacionadas com cidadania, sem uma adesão apressada e irreflectida a um dos pólos. Por exemplo, sobrevalorizar a articulação de cidadania a direitos de primeira geração pode levar a sobrestimar direitos civis e consequentemente o mercado livre, o prestígio social, a riqueza, a liberdade individual, desejos privados, projectos individuais e o acesso aos bens de consumo. Sobrevalorizar a articulação de cidadania a direitos que garantem ao cidadão a participação no exercício do poder político, pode reduzir a cidadania a sistemas eleitorais. A associação de cidadania a direitos sociais, em grande parte resultantes de reivindicações de grupos desfavorecidos e/ou oprimidos, pode vir a contribuir para que os direitos civis e políticos se tornem um instrumento de defesa do estatuto social e económico do cidadão e para que se estabeleçam conexões entre direitos, deveres e uma ética de participação. O ensino CTS de ciências pode constituir uma via de mobilização do ensino disciplinar no sentido da promoção escolar de princípios e valores inerentes à cidadania democrática. É-o na medida em que reclama acções-projecto com intencionalidades claras radicadas em currículos deliberativos atentos a metas de educação pela epara a cidadania REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS HÉBER, C. (1998). Les savoirs, la réciprocité et le citoyen. Paris: Desclée. SANTOS, M-E. (1999). Desafios pedagógicos para o século XXI. Lisboa: Horizonte. SANTOS, M-E. (2001). A cidadania na “voz” dos manuais escolares. O que temos? O que queremos?. Lisboa: Horizonte. SANTOS, M-E. (2005a). Que Educação? (Tomo I de “Que Educação? Para que Cidadania? Em que Escola?”). Lisboa: Santos-Edu. SANTOS, M-E. (2005b). Que Cidadania? (Tomo II de “Que Educação? Para que Cidadania? Em que Escola?”). Lisboa: Santos-Edu. SANTOS, M-E & Freitas, D. (2005). Caleidoscópio de saberes e de valores. Lisboa: Santos-Edu.