Representações culturais de sexualidade : construção, essência, heteronormatividade, ato sexual, sentimentos
Abstract
Ribeiro, Paula Regina Costa; Soares, Guiomar Freitas; Soares, Branca Esler De Souza; Severo, Deise Maira Baronio; Moço, Lúcia Rangel
Full text
1 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO REPRESENTAÇÕES CULTURAIS DE SEXUALIDADE: CONSTRUÇÃO, ESSÊNCIA, HETERONORMATIVIDADE, ATO SEXUAL, SENTIMENTOS... RIBEIRO,PAULA REGINA COSTA;SOARES,GUIOMAR FREITAS;SOARES,BRANCA ESLER DE SOUZA; SEVERO,DEISE MAIRA BARONIO;MOÇO,LÚCIA RANGEL Fundação Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande/RS,Brasil <[email protected]> Palavras chave: Sexualidade; Representações;Acadêmicas/os; Estudos culturais. INTRODUÇÃO Frente aos discursos hegemônicos presentes,nas escolas,sobre sexualidade – biológico,família-reprodução, criança inocente-assexuada...– consideramos necessário questionar e refletir na formação de acadêmicas/os, os diversos discursos e práticas sobre algumas questões centrais no estudo desta temática tais como: as identidades de gênero e sexuais, as configurações familiares, o prazer, o desejo, as doenças sexualmente transmissíveis, a AIDS... Neste sentido, o objetivo deste estudo é apresentar e discutir algumas representações culturais de sexualidade de acadêmicas/os das licenciaturas. Como estratégia analisamos narrativas –falas e desenhos– desses acadêmicas/os, quando participaram do curso “Discutindo e refletindo sexualidade na escola”. Neste estudo estamos entendendo a sexualidade numa perspectiva, na qual ela é tomada como produzida nos acontecimentos históricos e culturais das experiências das pessoas, ao correlacionar nos corpos comportamentos, linguagens, representações, crenças, identidades. Neste sentido, estabelecemos algumas conexões com os Estudos Culturais nas suas vertentes pós-estruturalistas. MARCO TEÓRICO Tecendo considerações sobre representações Consideramos necessário apresentar o conceito de representação que está orientando esse estudo, pois, diferentes significados são atribuídos a esse termo como: representação mental, representação social e representação cultural. Tomamos representação a partir da perspectiva dos Estudos Culturais, onde elas não espelham uma realidade verdadeira, ou seja, como algo “real”, mas sim como são construídas discursivamente, a partir de uma rede de significados, instituídos através das linguagens. Segundo Hall é por meio das representações que atribuímos determinados significados aos sujeitos, objetos e eventos, ou seja, damos significados através do modo como os representamos:“as palavras que usamos, as histórias que contamos acerca das coisas, as imagens que produzimos, as emoções que associamos às mesmas, as maneiras como as classificamos e conceituamos, os valores que lhe damos” (1997, p. 3).
2ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO Assim, os significados estão sendo constantemente produzidos e intercambiados entre os membros de uma cultura, por partilharem de uma mesma linguagem. Hall (1997, p. 2) ao enfatizar a importância dos significados para a definição de cultura destaca que a mesma “tem a ver com a produção e o intercâmbio de significados – o dar e receber de significados – entre os membros de uma sociedade ou grupo”.A cultura passa a ser entendida como aquilo que adquire sentido, através de diferentes práticas sociais compartilhadas pela linguagem. A representação cultural é um processo de construção de significações que mais do que descrever e apresentar, as representações estão produzindo as pessoas, os grupos, suas identidades através de relações de poder e regulação. Porém, devemos destacar que não existe um único significado verdadeiro para as coisas, há em realidade, uma grande variedade de significados, pois, os mesmos não são fixos, essenciais e damos sentidos às coisas de acordo com a forma como as interpretamos e dos discursos que nos acessaram. Os significados são transmitidos através das linguagens, onde são utilizados sinais e símbolos, que podem ser palavras, gestos, sons, imagens, objetos,“que significam ou representam para outras pessoas nossos conceitos, idéias e sentimentos” (Hall, 1997, p.1). Neste sentido, a linguagem é uma prática de significação que através de sinais e símbolos, possibilita a outros interpretarem os significados que desejamos comunicar. Ao analisarmos as representações de sexualidade das/os acadêmicas/os estamos considerando que as mesmas se construíram numa pluralidade de significações de acordo como os códigos culturais em que foram/estão imersos nas diferentes práticas sociais, religiosas, morais, familiares, econômicas, médicas, jurídicas. DESENVOLVIMENTO DO TEMA 2.1. Tecendo as estratégias metodológicas Neste estudo apresentamos a análise de um dos encontros ocorrido no curso "Discutindo e refletindo sexualidade na escola", realizado no município de Rio Grande, na Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Participaram do mesmo vinte e três (23) acadêmicas e dois (2) acadêmicos. O curso teve como propósito discutir representações de sexualidade; problematizar o entendimento da sexualidade como uma essência manifestada pelos processos biológicos do corpo; e refletir sobre a sexualidade como um dispositivo que articula saberes/poderes para o governo do sexo através do corpo e das maneiras de as pessoas viverem os prazeres. Os encontros1funcionaram como um espaço narrativo, em que acadêmicas/os participaram de um processo de contar, ouvir e contrapor algumas histórias a outras, a respeito da sexualidade. Essa estratégia – de ouvir e contar histórias – objetivou problematizar e desestabilizar e, eventualmente, modificar os significados atribuídos à sexualidade pelas/os acadêmicas/os. Larrosa (1996, p. 49), ao destacar o papel pedagógico e construtivo da experiência de si nas práticas de formação de professores, discute a necessidade de “definir, formar e transformar um professor reflexivo capaz de examinar e reexaminar, regular e modificar constantemente tanto a sua própria prática quanto, sobretudo, a si mesmo, no contexto dessa prática profissional”. Investigamos o primeiro encontro do curso cujo objetivo era conhecer e discutir algumas representações de sexualidade.Para tanto,solicitamos que as/os acadêmicas/os expressassem,por meio de desenhos e falas, o seu entendimento sobre sexualidade.2Destacamos que estamos entendendo os desenhos e as falas pro- 1.Todos os encontros foram gravados em fita k7 e transcritos para posterior análise. 2. Como esses encontros estavam sendo utilizados para a coleta de dados do projeto de pesquisa já referido foi solicitado a todas/os participantes assinaram um termo de consentimento a fim de participarem da mesma.
3 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO duzidas, como sinais que representam as significações que as/os acadêmicas/os desejam comunicar sobre a temática em discussão. A estratégia de análise consistiu em “olhar” nas narrativas das/os acadêmicas/os – desenhos e falas, – as representações que emergiram, no transcorrer da atividade, engendrando a sexualidade. Porém, não estamos considerando as representações que emergiram nessa atividade,como representativas da totalidade do que tinham e têm a dizer ou pensam a respeito da sexualidade. 2.2 Tecendo representações das/os acadêmicas/os sobre sexualidade O trabalho com acadêmicas/os, dentro de um contexto universitário, que manifesta extrema reticência sobre o valor e a importância do lidar com questões relacionadas à sexualidade, motivou-nos a examinar como essas/esses falam sobre a essa questão.A partir desta investigação emergiram algumas representações de sexualidade como: ato sexual, sentimentos, heteronormatividade, materialidade biológica, relações interpessoais, construção, essência... A representação da sexualidade como ato sexual, expressa nos desenhos, de figuras de homens e mulheres e associadas às falas “logo vem sexo na cabeça”,"sexualidade está ligada a sexo","cena de sexo na novela", "proibido falar em sexo em casa", mostram-nos uma rede de significados - transar, genitalidade, cópula, orgasmo, prazer, proibição, heterossexualidade. Esses significados estão dentro de uma lógica da sexualidade reprodutiva, legitimada pelo moralismo vigente em nossa sociedade que privilegia o ato sexual entre um homem e uma mulher. Outra representação associada a já mencionada dá enfoque à questão da materialidade biológica através da afirmação “sexualidade são os nossos traços físicos” e também de desenhos e símbolos de homens e mulheres. Neste caso, o corpo é concebido como pura anatomia, em que a sexualidade se reduz ao conhecimento das estruturas dos sistemas reprodutores masculino e feminino. Neste discurso, ela é concebida como genitalidade – um atributo biológico – compartilhado por todos os seres humanos independentemente de sua história e cultura (Ribeiro, 2002). A sexualidade como essência, traduzida nas falas “sexualidade vem contigo, tu nasce com ela”,“sexualidade vem embutida dentro da gente”,"sexualidade nasce com a gente, né e ela vai crescendo... e chega num determinado tempo independente da pessoa ela aflora" são expressões que apontam para o essencialismo, o qual percebe a sexualidade como uma essência interior, como um impulso interno, próprio de cada um, que com ele nasce e dele se torna resultante. Para Weeks (1999, p.43), “essa abordagem reduz a complexibilidade do mundo à suposta simplicidade imaginada de suas partes constituintes e procura explicar os indivíduos como produtos automáticos de impulsos internos”. Outras representações de sexualidade emergiram neste trabalho com as/os acadêmicas/os.A representação da sexualidade como sentimentos foi explicitada através dos desenhos de corações e das falas "acho que a questão de desenhar o coração também é que nós temos sempre na mente que o coração é o símbolo do amor, agora eu tenho assim uma outra visão de que o coração exibe um símbolo do centro das emoções, amor,ódio, né, então, seria somente o desenho, não seria somente o amor, mas todos os sentimentos","são os corações que representam o amor, porque eu acho que é o mais importante que tem que tá presente nas relações das pessoas, não importando qual seja o sexo”. O símbolo do coração vem sendo utilizado em nossa sociedade como um código cultural que significa o amor, os sentimentos, as emoções. Nas falas “sexualidade é toda forma de amor”,"acima de tudo a sexualidade é isso, são as pessoas diferentes e porém nos procuramos por sentimentos, né, coloquei as flores na volta para mostrar os sentimentos que as pessoas se preocupam com isso, independente de serem mulheres ou serem homens, o que tá, o que permeia isso tudo é a afetividade".As representações de sentimentos relacionadas aqui, nesta categoria, fazem alusão ao amor e a sexualidade como algo sublime, divino, emocionante. Em outros depoimentos a questão da heteronormatividade é retratada, principalmente, nas falas: “eu desenhei um homem e uma mulher bem normais”,"na nossa sociedade já é socialmente admitido que uma mul-
4ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO her se vista com jeans, uma camiseta e os homens podem usar brincos, cabelos compridos, só que é uma liberdade assim entre aspas porque em relação as relações homossexuais existe um grande preconceito... o teu relacionamento ainda tem que ser com pessoas do sexo oposto", ou seja, essas representações nos mostram a equivalência entre o corpo e as identidades sexuais ditas "normais" como a heterossexualidade. A representação de sexualidade como gênero emergiu em vários desenhos onde estavam delineados homens e mulheres com características definidoras da masculinidade e da feminilidade como laços, bola, boneca, boné e nas falas "eu desenhei uma menina e um menininho, um lacinho e um boné, é a nossa maneira de ser, de agir","eu liguei logo a gênero, homem masculino, feminino. Eu pensei em crianças...brincando até coloquei aqui Vamos brincar de médico?, aí as outras respondem: Não eu prefiro brincar de escola, eu sou a professora","eu botei uma vassoura para expressar as relações da casa, também como é a administração do lar, a administração familiar". Nestas narrativas podemos perceber o caráter hegemônico das representações de masculino e feminino nas quais o comportamento generificado corresponde aos atributos físicos. Para Louro (2000, p. 90) “esquecemos-nos que os corpos são significados, representados e interpretados culturalmente, que diferentes sociedades e grupos atribuem significados também diferentes às características físicas:que determinados traços ou características podem ter importância,serem considerados notáveis e, então, constituírem-se em “marcas” definidoras, ou, ao contrário, permanecerem banais, irrelevantes”. Outra representação que apareceu nos desenhos e falas das/os acadêmicas/os, enfoca a sexualidade com o sentido de relações interpessoais, mostrando homens, mulheres, crianças, hippies, amigos, namorados, pais e expressões como “sexualidade é tudo que me cerca, todas as pessoas”,“sexualidade é a relação entre as pessoas, entre as diversas pessoas diferentes, são os diversos lugares, ..., porque eu acho assim,principalmente até na escola essas coisas tem que estar presentes, liberdade, respeito, alegria,amor, autenticidade”,“eu sou sexualidade 24 horas por dia, prá mim sexualidade tá em todos nossos momentos, em todas nossas relações com as pessoas”. Nos significados emitidos por esses estudantes, a sexualidade toma uma dimensão bem mais abrangente, na medida em que para eles diz respeito não só às pessoas com suas diferenças (sexo, idade, posição social entre outras), como também traz a questão da diversidade dos espaços onde elas estão inseridas. Diversidade essa que se traduz nos aspectos étnicos, sociais, religiosos e culturais. A sexualidade percebida como construção também foi uma representação que emergiu durante a atividade realizada com as/os acadêmicas/os. Para representá-la eles desenharam entre outros, uma mão como símbolo de construção, a mão que faz, que sustenta e um rosto com a cabeça aberta. Outras falas também apareceram como “que a sexualidade não nasce com a gente, mas é construída, não e nada biológico nem natural", "ninguém traz um conhecimento sobre sexualidade, eu acredito, que ninguém nasce com ela, ninguém nasce homem ou mulher isso se constrói". Estas narrativas mostram a perspectiva do caráter construído, histórico e cultural da sexualidade que, segundo Weeks (1999, p. 43) tem a ver com a “série de crenças, comportamentos, relações e identidades socialmente construídas e historicamente modeladas”. CONCLUSÕES Nesta investigação, ao apresentarmos e discutirmos as representações de sexualidade que emergiram no estudo – ato sexual, sentimentos, heteronormatividade, materialidade biológica, relações interpessoais, construção, essência e gênero – com as/os acadêmica/os buscamos argumentar que os significados dados à sexualidade são socialmente produzidos e sustentados por uma variedade de linguagens. Frente a essas representações é importante destacarmos o caráter construído e cambiante destes significados. Para Hall “em qualquer cultura, há uma grande diversidade de significados acerca de todo e qualquer tópico e mais de uma forma de interpretá-lo ou representá-lo” (1997, p.3). Os significados atribuídos à sexualidade não estão apenas “na cabeça” mas eles constituem e regulam as práticas sociais e são produzidos através de uma variedade de meios, tais como a mídia (TV, rádio, revistas, Internet), as práticas do cotidiano, as relações familiares, escolares, pessoais...
5 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO Conhecer as representações de sexualidade produzidas pelas/os estudantes e discuti-las com os mesmos, possibilitou-nos questionar a pluralidade dos significados produzidos sobre a sexualidade e problematizála como sendo construída social e historicamente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HALL,S.(1997).The work of representation. In:HALL,Stuart (org.).Representation.Cultural representations and signifying practices. Sage: Open University; London;Thousand Oaks/New Delhi. LOURO, G. L. 2000. Corpo, escola e identidade. Educação & Realidade, v. 25 (2), pp. 59-75. LARROSA, J. (1996). _____. La experiencia de la lectura. Barcelona:Alertes. RIBEIRO, P. R. C. (2002). Inscrevendo a sexualidade: discursos e práticas de professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental. Porto Alegre, p. 113, Tese (Doutorado em Ciências Biológicas: Bioquímica) – Instituto de Ciências Básicas da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte:Autêntica, 1999.