Agenda 21 escolar : das experiências cognitivas e afetivas a pratica da cidadania
Abstract
Ribeiro, Ivana de Campos
Full text
1 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO AGENDA 21 ESCOLAR: DAS EXPERIÊNCIAS COGNITIVAS E AFETIVAS A PRATICA DA CIDADANIA RIBEIRO, IVANA DE CAMPOS IBEV - Instituto Brasileiro de Educação para a Vida. Açucareira Corona SA - Prefeituras Municipais de Guariba e Santa Ernestina. Palavras chave: Educação Ambiental; Meio ambiente; Afetividade; Atividade extracurricular; Percepção. INTRODUÇÃO Desde a Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente organizada pela ONU (Organização das Nações Unidas), diversos segmentos da sociedade vêm preocupando-se com a sustentabilidade do planeta. Dentre os acordos assinados durante a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, Brasil, em 1992, A Agenda 21 destaca-se por ser um amplo programa de ações cujas intenções levam à migração das atuais formas de gestão socio-ambiental para formas mais sustentáveis. Mas, para buscarmos soluções para os problemas que enfrentamos, necessitamos percebê-los. Para percebê-los, temos que olhar para eles de forma que sejam interpretados como “problemas”, pois muitos não conseguem perceber a extensão ou conseqüências de certas formas de ações, nem tampouco compreender por quais motivos são consideradas insustentáveis. Para isso, precisamos reconhecer que as dinâmicas que regem os ambientes e que interferem no equilíbrio dinâmico são as mesmas, estejam elas relacionadas às dimensões bióticas, abióticas ou ainda noóticas. A escola ao trabalhar as questões relacionadas por meio de temáticas transversais relacionadas às ações da Agenda 21 Escolar pode torna-se num dos maiores laboratórios de educação na cidadania, quando elaborada e implantada de forma participativa: despertando sonhos e ações coletivas para na busca de soluções para as insatisfações que permeiam o ambiente escolar. OBJETIVO Ao implantar a Agenda 21 Escolar, este trabalho objetivava: • Testar o potencial da proposta metodológica “Educação Ambiental de Corpo&Alma” face a introdução de atividades que desenvolvessem o potencial afetivo e motivacional dos envolvidos (comunidade escolar) como subsídio para a Agenda 21 Escolar. • Desenvolvimento de um trabalho onde a noção de sustentabilidade não contemplasse somente os recursos, mas a sustentabilidade da vida humana em sua conformação bio-psíquica e das relações interpessoais de uma comunidade. Para isso objetivávamos integrar os conteúdos de todas as disciplinas curriculares no cumprimento das metas das agendas; • Desenvolver a capacidade de articulação, desenvolvimento de estratégias e efetivação de parcerias.
2ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO MARCO TEÓRICO Todo este trabalho de intervenção parte da concepção de meio ambiente como algo constituído por três dimensões que se inter-relacionam e se inter-influenciam – I-N-S - (Ribeiro, 2005): individuo (corpo&alma – dimensão bio-psíquica), a sociedade (ambiente construído e das relações inter-pessoais) e natureza (elementos naturais e natureza propriamente dita) da qual também somos parte, fechando-se então um sistema de retroalimentação. A escola como ambiente onde passamos grande parte de nossas vidas, é um espaço que abrange todas as dimensões citadas e portanto, um lugar onde podemos conhecer, identificar, estabelecer relações e, a partir daí estar desenvolvendo ações sobre esses ambientes, no sentido de torná-lo mais prazeroso, bonito, justo e mais sustentável, quer sejam nas relações entre os membros da comunidade escolar, quer sejam nas ações educativas dos seus professores, em sua infra-estutura, qualidade da merenda, na sua estética e estrutura física, relações com os bens naturais necessários à sua manutenção da escola, como a água e energia ou ainda com relação aos resíduos produzidos. Dessa forma, a escola torna-se não apenas local de aquisição de conhecimento, mas, sobretudo um espaço onde podemos aprender e exercitar estratégias para a construção de um mundo melhor, mais sustentável. A partir da concepção de meio ambiente adotada (Ribeiro, 2005), a Agenda 21 desenvolvida em ambiente escolar pode ser tratada como “Tema Transversal”, já que para conhecer os ambientes onde vivemos, necessitamos da participação e integração de todas as disciplinas curriculares. Neste sentido os Temas Transversais podem ser um dos caminhos para a recuperação da noção de interdependência existente entre os seres vivos e não vivos, conhecendo as dinâmicas que envolvem as inter-relações entre esses ambientes da maneira mais abrangente possível, sem dúvida, uma forma de nos recuperarmos dos efeitos da fragmentação do conhecimento. Entendemos no caso deste estudo, como processo de aquisição de conhecimento, a somatória entre as experiências cognitivas (de ordem conceitual, racional) e afetivas (de ordem corporal), as quais, poderão oferecer as direções para as mudanças, incorporação ou resgate de valores relacionados intrinsecamente à forma com que percebemos, pensamos e agimos sobre o mundo. Dando seqüência a esse raciocínio, Araújo (1999) destaca a importante relação entre motivação para a ação do sujeito e a questão dos valores. Araújo (op. cit.) afirma haver “uma energia, na relação sujeito com os objetos, com pessoas e com ele próprio, que direciona seu interesse para uma situação ou outra e a essa energética corresponde uma ação cognitiva que organiza o funcionamento mental” (p.56). Levine (2001) em seus estudos relacionados ao comportamento de escolares, pode observar que situações em que elementos afetivos estavam presentes, demonstraram que, além de propiciar um ambiente agradável, facilitavam a aprendizagem. Seus estudos referem-se a um neurotransmissor – a oxitocina, que interagindo com a dopamina e a serotonina, acaba reduzindo o “stress”, a violência, o ciúme, entre outros. Segundo o autor,“organizar a sociedade de forma a fazer pender o equilíbrio cerebral para o lado do carinho é uma questão de escolha”. Wilson (1997) faz uma importante observação sobre a forma com que “biólogos” vêm tentando convencer pessoas sobre a importância da proteção da biodiversidade, utilizando formas tradicionais de comunicação como as palestras, nas quais, através do raciocínio indutivo ou dedutivo, tentam convencer através da lógica e da evidência. Cremos que em termos de educação, numa sala de aula, os procedimentos sejam os mesmos... O autor afirma que essa abordagem didática é ineficiente e dá exemplos das pesquisas e trabalhos desenvolvidos pelos meios de comunicação, os quais pouco se valem de conteúdos lógicos ou informativos, buscando nos apelos emocionais o caminho para atingir seus objetivos, e completa: “A hipótese é de que se a nossa pedagogia for puramente cognitiva, nossas chances de motivarmos uma mudança de valores e comportamento são nulas” (p. 597). Para Rubia (2000), quando associamos às informações conceituais, sentimentos como alegria ou algum tipo de satisfação, incorporamos essa experiência ao sistema límbico, mais especificamente no tálamo e na amígdala.
3 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO Corroborando com as orientações anteriores e, na intenção de “promover o equilíbrio interior nos indivíduos, despertar os sentidos ativando sua potencialidade de sentir, oferecendo a consciência do seu próprio corpo, estimular a imaginação e a criatividade, o desenvolvimento individual e coletivo, despertar o sentimento de solidariedade e a admiração pelas manifestações da natureza, e, acima de tudo, devolver ao homem a noção de pertencer à natureza, em substituição à visão dicotômica homem-natureza que ainda impera nos dias de hoje”, Ribeiro (2005) desenvolveu o que veio a chamar - “Educação Ambiental de Corpo&Alma” - cuja proposta metodológica baseia-se num “Modelo de 5 Fases” (Quadro 1) e parte das seguintes considerações: 1. Vide página 2, primeiro parágrafo no item “Marco Teórico”. QUADRO 1 Pressupostos do “Modelo das 5 Fases” Esta proposta ainda baseia-se na relação de inter-dependência e inter-influencia entre os ambientes I-N-S1 na busca de estados de equilíbrio dinâmico estas dimensões ambientais, como mostra o “Quadro 2”. QUADRO 2 Relação I-N-S e o “modelo das 5 fases”
4ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO A partir dessa concepção, a Educação Ambiental de Corpo&Alma sugere que os temas abordados transversalmente atendam as seguintes orientações: – Uma maior exploração dos órgãos dos sentidos, através do contato com elementos naturais ou com a própria natureza de forma que as mensagens sejam experienciadas pelo corpo todo; – Ter o corpo como ponto de partida, desenvolvendo analogias com outros ecossistemas, inclusive o urbano e seus aspectos socioambientais, reconhecendo suas interdependências e influências mútuas; – Favorecer a percepção de que tudo que acontece no universo acontece em nosso corpo e vice-versa; – Explorar igualmente conteúdos cognitivos e afetivos de informação; – Utilizar uma vasta gama de instrumentos didáticos como as “atividades anímicas” para atingir os itens anteriores, utilizados como instrumentos que informam sobre a dinâmica dos ecossistemas e seus problemas, além de promoverem ações regeneradoras do equilíbrio interior, social e dos ambientes naturais e construídos. Consideramos como “atividades anímicas” as atividades pouco presentes no cotidiano das pessoas (em casa no trabalho, na escola, etc), mas que adornam e facilitam a incorporação das mensagens, durante o processo de “in-formação”, tais como: jogos cooperativos, massagens, dinâmicas e vivências de grupo, Yoga, artes marciais, lazer em contato com a natureza, danças, exercícios de exploração dos sentidos, jogos e brincadeiras tradicionais infantis, trabalhos com a terra, atividades lúdicas, discussões filosóficas, “contação” de estórias, atividades de arte-educação, técnicas teatrais, RPGs (Role Playing Games), entre tantas outras. Tais atividades foram destacadas por terem como objetivos comuns: a promoção do equilíbrio interior nos indivíduos, despertando os sentidos, ativando sua potencialidade de sentir e oferecendo a consciência do seu próprio corpo, estimulando a imaginação e a criatividade, o conhecimento, o desenvolvimento individual, coletivo e político, despertando o sentimento de solidariedade e a admiração pelas manifestações da natureza (na qual seu corpo&alma estão incluídos) e, acima de tudo, devolvendo ao ser humano a noção de pertencer à natureza, em substituição à visão dicotômica ser humano-natureza, transformando-se em ótimo instrumento para a aquisição dos nossos objetivos. DESENVOLVIMENTO DO TEMA Neste trabalho estiveram envolvidos mais de 12.000 alunos e outros membros da comunidade de 20 escolas de duas cidades brasileiras (Santa Ernestina e Guariba), 208 professores além de colaboradores da administração municipal, pessoas ligadas à empresa que apoiava2o processo de criação das agendas escolares. A partir desta concepção e da união entre os sujeitos já mencionados, iniciamos a construção da Agenda 21 de cada escola. Um curso de 24 horas foi oferecido aos professores destas duas cidades com os seguintes objetivos: • Conhecer os princípios teóricos que fundamentavam a Educação (Ambiental) de Corpo&Alma, principalmente a questão dos afetos e valores; • Conhecer seus pressupostos (“Modelo das 5 Fases”); • Experimentar as atividades anímicas sugeridas; • Perceber como cada educador em sua disciplina pode ter um olhar sobre as questões ambientais e que esses olhares podem estar relacionados aos conteúdos trabalhados; • Diagnosticar os maiores problemas relacionados ao ambiente escolar a partir das reflexões sobre esses problemas e sonhar com um cenário ideal. 2. Açucareira Corona SA.
5 ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO • Orientar no planejamento da Agenda 21 de cada escola. Os professores foram orientados a levar a comunidade escolar a refletir sobre os aspectos negativos desse ambiente, percebendo seus problemas. Estas reflexões foram expostas em um painel chamado “Muro das lamentações” (bloco de imagens 2), uma forma afetiva de se construir um diagnóstico ambiental, partindo da percepção da comunidade escolar sobre as carências e não conformidades destes ambientes. Após os grupos terem refletido sobre estes aspectos negativos, passaram a refletir sobre um cenário positivo, desejável: a escola dos seus “sonhos”. Estas idéias foram expostas em um novo painel chamado “A Árvore dos Sonhos”3(bloco de imagens 2). A sistematização dos diagnósticos das escolas deram origem às seguintes linhas de ação: 1. Parte física 2. Relacionamento humano 3. Segurança 4. Qualidade do ensino 5. Bens Naturais 6. Merenda escolar 7. Apresentação dos alunos Posteriormente, esses diagnósticos forneceram os subsídios “motivacionais” necessários para a organização e redação das Agendas 21 de suas escolas, estabelecendo para cada linha de ação e para cada cenário desejável, os seguintes itens: 1. Cenários desejáveis (resultante do diagnóstico) 2. Metas (qual o tempo determinado pelo grupo para seu cumprimento) 3. Métodos e estratégias (que caminho percorreriam para a efetivação dessa meta) 4. Planos de ação (ordenamento sistemático dos métodos e estratégias) 5. Parcerias (com quem poderiam contar para efetivação desses cenários) RESULTADOS A avaliação foi realizada por meio de questionário e no caso particular deste trabalho, as respostas aos nossos objetivos também se deram por meio do cumprimento das metas delineadas (bloco de imagens 3). A seguir, alguns depoimentos sobre os objetivos deste trabalho: Educação Ambiental de Corpo&Alma: • Esta nova metodologia mexeu com o aspecto emocional das pessoas que passaram a ter uma convivência melhor. • Houve uma mudança de atitudes dos docentes em relação à metodologia: mais dinâmica, alunos mais interessados e preocupados com a qualidade ambiental (mais politizados). Mudanças a partir da conquista das metas da Agenda: • Há uma grande preocupação não só por parte dos alunos, como também tem envolvido toda equipe escolar, comprometendo-os para que nossa escola seja um ambiente muito prazeroso e acolhedor. • A escola já está de cara nova, todinha reformada e pintada, aquisição de bom acervo de livros de histórias infantis, pessoal envolvido mais unido, além de despertar nossos alunos e docentes para a questão ambiental. Percebemos que é possível fazer a diferença a partir de uma nova mentalidade. Pudemos observar como resultados da adoção dos fundamentos norteadores da Educação Ambiental de 3. Metodologia desenvolvida pelo Instituto Ecoar para a Cidadania.
6ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 2005. NÚMERO EXTRA. VII CONGRESO Corpo&Alma, a colaboração na produção de projetos desenvolvidos sobre as temáticas relacionadas às linhas de ação das Agendas. Além disso, percebemos que a adaptação a um conceito de meio ambiente mais abrangente colaborou na identificação de problemas vinculados aos relacionamentos humanos no ambiente escolar. As atividades propostas, por trabalharem dimensões afetivas e motivadoras, potencializam a capacidade de articulação, desenvolvimento de estratégias e efetivação de parcerias (vide bloco 3 de imagens) para a aquisição de bens materiais. CONCLUSÃO A Agenda 21 pode ter no ambiente escolar seu maior laboratório de Educação na cidadania, despertando o desejo de mudanças para um modelo de civilização em que predomine o equilíbrio ambiental em todas as dimensões, justiça social entre em cada canto do planeta, entre as nações e, portanto, consideramos que a Educação (Ambiental) de Corpo&Alma esteja em real consonância com o presente momento, já que, como vimos, este é marcado por um momento de reavaliação, que vários segmentos da sociedade vêm realizando, sobre seu modo de perceber, pensar e agir sobre o mundo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, U. F. (1999). O conto da escola: a vergonha como um regulador moral. São Paulo: Moderna; Campinas, SP: Editora da Universidade de Campinas. LEVINE, D. S. (2001). Não somos prisioneiros do nosso cérebro. Anais do Congresso Internacional: Valores Universais e o Futuro da Sociedade, São Paulo: UNESCO. RIBEIRO, I. C. Educação Ambiental d Corpo&Alma – Trabalhando sentimentos e valores numa experiência com Agenda 21 Escolar. Ribeirão Preto: São Francisco, 2005 RUBIA, J. F.El cerebro nos engaña. Madrid: Temas de Hoy, 2000. WILSON, E. O. Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.